(pt) A.N.A./eltopo.org: [Espanha] Anarquismo de bairro - Entrevista a Ruymán Rodríguez (ca, de, en, it)

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Terça-Feira, 14 de Setembro de 2021 - 09:18:35 CEST


A Federação Anarquista da Gran Canária se converteu em uma referência. Promoveram 
onze comunidades de moradias autogestionárias de bairro e numerosos projetos de 
relocação de pessoas em situação de risco: La Marisma. Falamos com um de seus 
porta-vozes, Ruymán Rodríguez, imerso em um processo judicial por sua militância 
nestes projetos. ---- Como estás? Em que ponto está esse processo? ---- O caso 
está há seis anos em andamento. O julgamento[contra ele por atentado e contra 
três guardas civis por tortura]era em 24 de março, mas após a campanha que se 
organizou, os guardas civis pediram que os considerassem de fórum especial, que 
implica que julgue outra instância superior.
A Federação Anarquista da Gran Canária transcendeu fronteiras. Conte-nos o que 
fazeis.

A Federação surge no início do 15M de forma muito espontânea. Éramos um grupinho 
anarquista na plaza de San Telmo e fomos vendo que nosso discurso ecoava e cada 
vez havia mais anarquistas e mais gente que se interessava pelo anarquismo. No 
princípio era um anarquismo muito convencional. Nos demos conta que era uma linha 
muito combativa que estava muito bem, mas muito alijada da situação social 
canária, que era muito alarmante. Temos o maior índice de pobreza infantil da 
Europa, 35% das crianças canárias são pobres. Mais de 45% da população canária 
está em risco de exclusão social. Nos últimos cinco anos subiu 56% o preço do 
aluguel. Somos a região mais pobre com um dos consumos mais altos. Isso é 
insustentável e jogou muita gente na indigência. E fomos aí. Começamos com a 
moradia, parando desalojos, mas nos demos conta de que nos faltava o plano B. 
Então começamos a fazer os primeiros projetos de realojamento e assim surgem as 
primeiras comunidades. Falamos de comunidades autogestionadas dirigidas pelos 
próprios moradores. Em algumas, como a Comunidade de La Esperanza, vivem mais de 
210 pessoas. 76 famílias vivendo em autogestão. Outras são projetos dedicados a 
migrantes em situação de perseguição policial e acontecem de forma mais reservada 
para evitar deportações. São comunidades nas quais há atualmente mais de 270 
pessoas. No final o exemplo está se espalhando e as pessoas assumem que é muito 
melhor um modelo cohabitacional no coletivo, em comunidade, que individuais.

Como acedes a estes espaços?

Em muitas destas comunidades, como La Esperanza, se chega a um acordo com a 
promotora que estava em falência, embargada por Bankia. Chegamos a um acordo para 
realojar as famílias e de quebra prejudicamos o banco, e vai ficar muito mais 
difícil despejar estas famílias e que estas pessoas percam a propriedade. Outras 
vezes ocupamos depois de fazer um estudo da titularidade. Sempre são de pessoas 
jurídicas, bancos, empresas, laSareb.
Atualmente há onze comunidades, mas entre as comunidades e as moradias 
unifamiliares, calculamos que há mais de 1.000 pessoas vivendo em autogestão na 
Gran Canária, que para uma ilha tão pequena como a nossa é um marco.

Em 2017 ocorre uma situação um pouco paradoxa. Quanto mais nos envolvemos neste 
tipo de anarquismo de bairro, como nós o chamamos, há mais moradores que querem 
participar na Federação Anarquista. O problema é que muitas vezes são pessoas que 
gostam das ferramentas, mas não tem por que definir-se como anarquistas. Então 
surgiu a ideia de formar uma organização mais ampla, de massas e é aí que nasce o 
Sindicato de Inquilinas.

E o que ocorre com La Marisma?

La Marisma surge de outra maneira. Elas chegam a esta situação porque contatam 
com um suposto promotor imobiliário que lhes ofereceu moradias que estavam 
abandonadas há dez anos. O promotor lhes diz que vai descontar os reparos da 
moradia do aluguele que formalizará um contrato de arrendamento. Pedem 100 euros 
a modo de "boa vontade" em troca das chaves e nas próximas semanas se 
formalizaria o contrato. Os moradores, 28 famílias, o fazem; o tipo embolsa 2.800 
euros, lhes dá as chaves e desaparece. As famílias ficam sem esse dinheiro e 
entram nas moradias que estão destruídas. Durante seis meses ficaram reciclando o 
lixo, ajudando-se uns aos outros e criando verdadeiros lares. E agora que são 
imobiliariamente atrativas são contatadas pelo banco, que lhes informa de que os 
quer despejar. É um fundo de investimento do Caixabank e se dedicam a 
persegui-los. Os moradores nos contatam e a partir daí se põe em marcha esta 
campanha. Primeiro redigimos recursos legais para todos e cada um para apelar aos 
tribunais. Sabemos que só servirá para ganhar tempo, mas é necessário. Depois 
fazemos o que chamamos "guerra de tinta": contatar com todos os meios possíveis, 
começamos a pressão contra a propriedade e conseguimos que sentem para negociar. 
Depois é preciso pressionar a Municipalidade porque se negava a facilitar os 
informes de vulnerabilidade que requer a propriedade. O resultado foi que em 15 
de junho passado, oito destas famílias se expunham a um julgamento por usurpação 
e a propriedade retirou a demanda penal. Ainda fica em andamento a demanda civil, 
mas é um grande passo.

Por que é tão difícil que ocorram estas experiências em outros espaços militantes 
anarquistas?

Ao final se converte tudo em um concurso de pureza anarquista, como se fosse uma 
questão de graus. A realidade não é essa. Se seguimos potencializando esse 
anarquismo acabaremos convertendo-o em um clube de intelectuais. E na realidade o 
anarquismo é útil à pessoa a quem vão desalojar e tem medo que os serviços 
sociais lhes tirem seus filhos ou à pessoa migrante que tem que buscar um refúgio 
para esconder-se. No entanto, não usam as ideias anarquistas porque as leram em 
um livro e sejam muito brilhantes, nem podem dedicar-se seis horas a participar 
em uma assembleia interminável. O necessitam para sobreviver. Na realidade, o 
anarquismo é algo eminentemente prático e nos esquecemos disso.

E é verdade que há outros vetores: o racismo, o machismo, o capitalismo feroz. 
Mas é que, isso, ou o entregamos ao inimigo e nos rendemos e damos a volta, ou 
nos envolvemos e o mudamos. Há quem critique que há gente que está muito 
necessitada mas gasta dinheiro em tatuagens. Já o dizia Galeano: "Em casas nas 
quais falta o leite sobra Coca-Cola". Porque as leis do consumo são obrigatórias 
para todos. O lugar do anarquismo está aí e temos que ter claro que, se não 
estamos nós, vai estar o fascismo. Que queres, bairros fascistas ou bairros 
anarquistas? Eu o tenho claro.

Mar Pino
Equipe de El Topo

Fonte: https://eltopo.org/anarquismo-de-barrio/

Tradução > Sol de Abril

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https://eltopo.org/anarquismo-de-barrio/


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