(pt) fae bahia [Brazil]: Visibilidade Lésbica: afeto e resistência em nossos meios políticos (ca, de, en, fr, it)

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Segunda-Feira, 13 de Setembro de 2021 - 07:37:08 CEST


Refletir sobre lesbianidades e lutas anarquistas é, num primeiro impulso, a 
procura por nomes e materiais sobre lésbicas anarquistas visíveis na história, 
busca essa que nos apresenta uma lacuna de referências. Se perguntar o porquê 
dessas ausências nos leva a duas questões: em primeiro lugar, a invisibilidade 
feminina dentro de diversos movimentos, dada por questões estruturais de machismo 
e misoginia; e em segundo, o agravamento dessa condição quando pensamos em 
mulheres lésbicas, invisibilizadas também graças à lesbofobia.
A lesbianidade e as questões em torno dela são sistematicamente envoltas em 
invisibilidade, a história de mulheres lésbicas tem sido reincidentemente apagada 
ou não levada em conta em diversos contextos. Visto que a lesbianidade é uma 
rachadura na norma, uma ameaça à estrutura heteropatriarcal dominante na nossa 
sociedade, o que explica o grande esforço pelo seu apagamento.

Assim, apesar da predominância masculina também nos nossos meios 
anticapitalistas, é possível encontrar referências a mulheres anarquistas, a 
exemplo de nomes como Maria Lacerda de Moura, Lucy Parsons, Espertirina Martins e 
Emma Goldmann. Goldmann, inclusive, foi uma importante teórica anarquista que 
levantou, em sua trajetória, a bandeira do não preconceito contra lésbicas e 
gays, sendo criticada até dentro de contextos libertários, afinal mesmo o 
movimento anarquista em sua época não estava livre de discriminações contra 
sujeitos LGBTQIA+[1].

Contudo, nenhuma dessas mulheres citadas é lésbica, até onde se sabe. Um dos 
poucos nomes, em destaque, de anarquistas publicamente lésbicas é o de Lucía 
Sánchez Saornil. Lucia foi uma militante anarquista e feminista, poeta espanhola, 
conhecida por ser uma das fundadoras do Mujeres Libres, importante organização 
autônoma de mulheres anarquistas, nascida da necessidade de resistência ao 
machismo fora e dentro dos meios libertários.

A organização se articulava pela busca do que elas chamavam de ‘‘luta dupla'', 
pela emancipação social anarquista e pela emancipação feminina. A Mujeres Libres 
teve grande expressividade durante a Guerra Civil Espanhola e é ainda hoje uma 
referência importante no debate de gênero e anarquismo.

Lucia também serviu na Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e na Solidaridad 
Internacional Antifascista (SAI) e, entre outras coisas, publicou em gazetas 
importantes na década de 1920, usando por vezes pseudônimos masculinos para 
adentrar esses espaços. Ela conseguiu o feliz feito de explorar temáticas 
lésbicas em um período em que qualquer ruptura com a heterossexualidade era 
criminalizada e as vozes femininas eram secundarizadas, ainda assim pouco 
conhecemos da sua história em nossos meios.

Ser lésbica era uma condição política e afetiva constitutiva da sua identidade. 
Lucia Sánchez, além de ter sido perseguida enquanto anarquista, também o foi 
enquanto uma mulher que amava outras mulheres. Essas identidades não estavam 
separadas, ela, sem dúvida, tratou sua sexualidade como parte da sua luta e da 
forma como percebia o mundo e os e as companheiras a sua volta. Contudo, 
raramente a sexualidade das mulheres é considerada no estudo das suas trajetórias 
de resistência e, na maioria das vezes, supõe-se, de antemão, que eram/são 
heterossexuais.

Então, além de buscar por essas referências, é importante refletir o porquê a 
sexualidade é empurrada para um local de menor importância. Por que a sexualidade 
é, por tantas vezes, tida como um pauta considerada subjetiva, identitária e 
individualizada? Por que não politizamos nossas sexualidades e buscamos 
compreendê-las como parte dos sistemas de dominação ou das práticas de revolução?

Sendo que a luta das mulheres tem nos ensinando, há muito tempo, sobre como o 
privado é politico,  e sabemos que, por mais que se venda uma ideia de que nossas 
sexualidades dizem respeito apenas com quem nós fazemos sexo ou não, elas são 
muito mais do que isso.

A heterossexualidade, por exemplo, não é apenas uma opção ou gosto pessoal que 
livremente acontece, ela se inscreve muito mais como uma cultura, um sistema, há 
instituições comprometidas com a sua manutenção e que se beneficiam dela. A 
heterossexualidade compulsória (RICH, 2010[1982]) serve ao capitalismo, mantendo 
mulheres subservientes a uma lógica de produção e reprodução que é fundamental a 
esse sistema econômico\político da nossa sociedade.

Assim, ser uma mulher lésbica pode também ser lido como uma maneira de subverter 
lógicas repressoras e normativas. Nesses termos, podemos pensar como as 
lesbianidades têm potencial para extrapolar as relações afetivas-sexuais 
privadas, constituindo outras formas de interação e solidariedade entre mulheres, 
que podem modificar culturalmente as rivalidades e subserviência empurradas para 
as populações socialmente disciplinadas como femininas.

A visibilidade das nossas sexualidades é, portanto, política. E, assim sendo, é 
preciso pensar de maneira política as relações, sejam elas hegemônicas ou 
marginalizadas, retirando-as também de um campo liberal que as identificado 
apenas como orientações isoladas, identidades desligadas de questões estruturais 
e por isso não dialogada em nossas teorias e práticas anarquista. Como nos lembra 
Audre Lorde:

[...]esse é o estandarte do cinismo da direita, encorajar membros de grupos 
oprimidos a agir uns contra os outros, e por tanto tempo a gente é dividida por 
causa de nossas identidades particulares que nós não podemos juntar-nos todos 
juntos numa ação política efetiva. (LORDE, 2017[1983], p. 6)

Lorde também afirma que nossa libido não é apenas a energia sexual que empregamos 
nas relações amorosas, mas, sim, uma energia que nos move para produzir outras 
formas de discursos, para trabalhar e lutar. Baseadas nisso, podemos afirmar que 
nossos desejos, afetos e relações são também vitais nas batalhas que travamos.

É preciso resgatar a história da movimentação expressiva de grupos e militantes 
lésbicas no Brasil e na América Latina, a exemplo disto temos o GALF - Grupo de 
Ação Lésbica Feminista, que chegou a se replicado no Peru, e que foi o 
responsável pela revista Chana com Chana, considerada a primeira publicação 
lésbica do pais. A Chana com Chana chegou a fazer referência direta às Mujeres 
Libres e, frequentemente, trazia debates com temas libertários, como a noção de 
autonomia.

Em 1983, em São Paulo, o GALF protagonizou o caso do levante do Ferro's Bar, onde 
houveram protestos contra a repressão frequente a mulheres lésbicas e, inclusive, 
a proibição da venda do Chana com Chana.  Esse episódio foi o motivo do 19 de 
agosto ser nacionalmente considerado o Dia do Orgulho Lésbico, e é preciso que 
não nos esqueçamos dessas origens.

A história dos movimentos lésbicos é marcada por resistência e rebeldia. Autoras 
e militantes lésbicas foram essenciais para trazer à tona debates relevantes como 
o de violências simultâneas, interseccionais, abordadas por exemplo pelo Coletivo 
feminista negro Combahee River, composto por mulheres negras, heterossexuais e 
lésbicas, dentre elas importantes autoras lésbicas negras como Aude Lorde e 
Cheryl Clarke.

Podemos lembrar também das contribuições de Ochy Curiel - antropóloga social 
afro-dominicana e lésbica - que denuncia o caráter heterossexual da construção do 
Estado e da ideia de Nação em seus trabalhos. Ela também busca politizar a 
lesbianidade para além de apenas uma ‘‘orientação sexual'', como também o faz 
Dorotea Gómez Grijalva - uma teórica maya da Guatemala - que defende a proposta 
de uma ‘‘lesbianidade política''.

No Brasil, a Heretika, um editorial independente de difusão lesbofeminista e 
anticapitalista, tem feito o excelente trabalho de tradução e difusão de  textos 
de autoras lésbicas, feministas negras e anticapitalistas, democratizando assim, 
através de zines, o alcance dessas escritas e reflexões. Enquanto grupos 
anarquistas, precisamos também nos apropriar desses conhecimentos em nossas 
formações internas e públicas. Mesmo quando não diretamente anarquistas, muitas 
dessas produções podem contribuir para o enriquecimento da nossa teoria e prática 
cotidiana.

Mulheres lésbicas sofreram, historicamente, de uma extrema exclusão, seja nos 
movimentos[hetero]feministas, por aquelas que não queriam ser ‘‘confundidas com 
lésbicas'', seja nos espaços mistos não heterossexuais, dominados por homens gays 
que monopolizavam as pautas. Bem como nas esquerdas, onde os partidos políticos 
subestimaram, invisibilizaram e diminuíram as lutas consideradas "homossexuais" 
de maneira geral e mesmo e mesmo vertentes anarquistas que cristalizaram o debate 
de classe como central e não se propuseram a tecer uma compreensão interseccional 
desse debate.

Assim, podemos nos perguntar: Grupos anarquistas têm sido um espaço de 
acolhimento ou de exclusão para mulheres lésbicas? Companheiros e companheiras 
heterossexuais têm pautado suas lesbofobias internalizadas? Continuamos 
reproduzindo modelos de militância masculinistas? Temos oportunidade para debater 
sobre nossos afetos nos espaços de resistência?

As lesbianidades são múltiplas. Existimos lésbicas negras, periféricas, mães, 
gordas, pessoas com deficiência, trabalhadoras rurais, indígenas. E quanto mais 
interseccionados são esses corpos lésbicos mais violências recebem. Também do 
Estado, da polícia e do mercado de trabalho capitalista. Quanto menos 
feminilizadas mais excluídas dos espaços profissionais que lucram com a venda 
hipersexualizada dos corpos femininos. Assim, mulheres lésbicas são por vezes 
enxergadas como não úteis, um empecilho, para esse sistema de produção\reprodução.

Políticas públicas para a população LGBTQIA+ são importantes conquistas, obtidas 
através de lutas, mas são também frágeis e desmontadas a cada mudança autoritária 
de governo. Ademais, as políticas instituídas até aqui secundarizam a segurança e 
saúde de mulheres que se relacionam com mulheres. É preciso também pautar a 
radicalização dessas lutas, visto que autogestão e autonomia têm sido, 
historicamente, palavras e ações caras à sobrevivência das lésbicas. Como nos 
lembra uma das reflexões da Heretika:

Não por acaso, mulheres rebeldes e insubmissas são negativamente acusadas de 
serem lésbicas. Em diferentes momentos, a lesbianidade, tida como uma disfunção, 
representou e ainda representa uma ameaça à norma de instituições como a Igreja, 
a Família nuclear e o próprio Estado. O fato de a lesbianidade ser tão temida e 
reprimida pelo Estado, revela-nos que há potência e força política no amor entre 
as mulheres.

Concluo então com essa reflexão e chamada para articulação: Em que medida a luta 
anarquista pode contribuir com as lutas lésbicas, e em que medida as lutas 
lésbicas podem contribuir com as lutas anarquistas?

Referências:

LORDE, Audre. Os Usos do Erótico: O Erótico como Poder. Traduzido por Tatiana 
Nascimento dos Santos - dezembro de 2009.  Retirado de Sister Outsider, 1984. In 
Textos escolhidos de Audre Lorde. Editora Heretika (PDF)

  LORDE, Audre Transformando o silencia em linguagem e ação. Traduzido de Audre 
Lorde - "Irmã Estrangeira" (Sister Outsider), Ensaios e Conferências, 1984.In 
Textos escolhidos de Audre Lorde. Editora Heretika (PDF)

RICH, Adrienne. Heterosexualidade compulsória e existência lésbica. Bogoás.  n. 
05 | 2010 | p. 17-44

Lucía Sánchez Saornil. 2013. Disponível 
em:https://www.anarquista.net/lucia-sanchez-saornil/. Acesso em: 25 de ago 2021

[1]Sigla que busca abrange a diversidade de sexualidades e identidades de gênero, 
sendo Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais, Queers, Intersexo, 
Assexuais e o + sinalizando a possibilidade de outras identificações.

Postado por Fórum Anarquista Especifista

https://faebahia.blogspot.com/2021/08/visibilidade-lesbica-afeto-e.html


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