(pt) [Espanha] O Agite do povo trabalhador: crônica do debate - anarquista/ anticapitalista sobre os protestos atuais na Colômbia (Palomar-Barna) By A.N.A.

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Segunda-Feira, 31 de Maio de 2021 - 09:28:04 CEST


1) Crônica-resumo dos protestos e seu contexto social e histórico ---- Na última 
segunda-feira, 17 de maio de 2021, às 19:00 horas, foi realizado um debate online 
no Ateneu Libertário de Palomar (llenguadoc, 25) por camaradas do coletivo 
anarquista colombiano El Agite sobre os fortes protestos, e consequente repressão 
estatal, que estão ocorrendo ultimamente neste país latino-americano (do qual, a 
propósito, indicaram que seu núcleo mais insurrecional está na cidade de Cali). 
Os compas quiseram enfatizar, desde o início, que a Colômbia é um país que sempre 
esteve em guerra desde sua própria fundação. A longa sombra do líder da 
ultra-direita, Álvaro Uribe Vélez, ligado ao paramilitarismo, estende-se até os 
dias atuais com seu controle indireto do governo atual. Na Colômbia, vale notar, 
em relação ao acima exposto, que a oligarquia local nunca teve a necessidade de 
recorrer à ditadura aberta e, consequentemente, a direita sempre governou, mesmo 
com sua fachada de democracia tingida com o sangue dos camponeses e trabalhadores.

Em relação a isso, ele lembrou, no passado, o extermínio sistemático dos 
militantes do partido esquerdista Unión Patriótica, que constitui um dos mais 
terríveis atos de repressão da história do país. Atualmente, as autoridades 
gostam de ligar os manifestantes aos dissidentes das F.A.R.C. (setores das 
antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, agora desmobilizadas, também 
conhecidas como a Nueva Marquetalia), embora, hoje, os manifestantes demonstrem 
níveis significativos de autonomia política, e até mesmo uma rejeição manifesta, 
com respeito às organizações da esquerda tradicional. Tudo isso em um cenário de 
militarização do país para enfrentar os crescentes protestos, o que não é 
novidade na Colômbia. Eles também apontaram o perdão do governo aos 
paramilitares, no passado, e suas ações, no presente, lançando chumbo sobre os 
manifestantes com total impunidade.

Os camaradas do Agite mostraram um vídeo do bairro de Puerto Resistencia em Cali, 
que está atualmente ocupado pelos manifestantes. Quiseram assinalar que existe um 
forte movimento sindical no país, mas que quase não resta memória na classe 
trabalhadora do anarco-sindicalismo histórico (atualmente, porém, existe o 
Sindicato Estudantil e Trabalhista Libertário: seção colombiana da Associação 
Internacional de Trabalhadores e, portanto, irmanada com a CNT-AIT da Espanha). 
Algumas das medidas draconianas de ajuste econômico que o governo está impondo e 
que motivaram a explosão social que comentaram são: o aumento do I.V.A (imposto 
sobre valor agregado) de 8% para 16% e o aumento da idade de aposentadoria. Na 
verdade, se não fosse a situação gerada pela crise da COVID, teria havido uma 
Greve Nacional mais cedo.

Eles também ressaltaram que o atual governo ignorou o Acordo de Paz com a 
guerrilha e que vários de seus membros estão ligados ao Cartel de Medellín e ao 
traficante de drogas Pablo Escobar, que morreu em 1993. Em relação a isto, eles 
apontaram que mais de 100 líderes sociais foram assassinados desde a assinatura 
do acordo. Além disso, eles ressaltaram que, atualmente, existem alianças entre 
guerrilheiros das F.A.R.C. e do Exército de Libertação Nacional (E.L.N.) e 
paramilitares para o simples controle do território e do tráfico de drogas, o que 
significa que o eixo direita-esquerda nas ações dos grupos armados está se 
tornando cada vez mais difuso. Eles apontaram a declaração do E.L.N. contra o 
governo em 12 de maio deste ano, acusando-o de não querer dialogar com as pessoas 
que estão nas ruas.

Em relação a isto, há diferentes setores da população que protestam, tais como 
estudantes, camponeses, taxistas e caminhoneiros. Os números da repressão, que 
recolhemos o melhor que pudemos de sua apresentação, são: 50 mortos, 568 feridos, 
37 pessoas com lesões oculares, 1470 detenções arbitrárias, 21 casos de abuso 
sexual (uma garota cometeu suicídio por causa disso, o que levou a fortes motins 
e intervenção do exército) e 524 desaparecidos. Neste contexto, disseram eles, os 
direitos constitucionais existem apenas no papel.

2) Os camaradas do Agite expressam sua opinião anarquista sobre a situação atual

Em primeiro lugar, quiseram deixar claro que apoiam o movimento insurrecional que 
tem autonomia, destacando os jovens sem recursos ou serviços básicos que estão 
mostrando seu rosto na Primeira Linha em sua luta contra o Esquadrão Móvel 
Anti-distúrbios (ESMAD): uma força policial com reputação infame por sua 
sistemática violação dos direitos humanos e que possui armamento e equipamentos 
superiores ao que é normal neste tipo de unidade em outros países do mundo. Neste 
sentido, eles quiseram enfatizar que não existe um protagonismo especial do 
movimento estudantil ou operário, digamos oficial. Eles quiseram apontar uma 
crítica, que lhes pareceu importante, em relação ao fraco internacionalismo 
presente nos protestos, que eles relacionam com o fato de a Colômbia ser um país 
muito fechado em si mesmo. Assim, eles expressaram seu desacordo com a profusão 
de bandeiras nacionais nos protestos, pois consideram o patriotismo como algo 
perigoso.

3) Algumas intervenções dos participantes e respostas do Agite

Um participante perguntou se a classe política está tentando salvar o Estado como 
no Chile com a proposta de uma nova Constituição. Um dos participantes do Agite 
respondeu que há alguns líderes políticos que estão sinalizando o progressismo 
(como um ex-membro da guerrilha urbana M-19) defendendo a aplicação prática dos 
valores constitucionais porque, ao contrário do Chile, o discurso político está 
mais focado em torná-lo efetivo do que em reformar o próprio texto, uma vez que é 
considerado de caráter avançado. Outra questão consistia em saber como o Agite 
está posicionado como um grupo anarquista em uma mobilização tão ampla. Aqui eles 
responderam, mas não antes de lembrar que Álvaro Uribe estava encorajando ataques 
armados contra os manifestantes com suas proclamações de legítima defesa da 
propriedade privada, explicando que estavam participando da agitação, com 
grafites ou murais.

Eles também fazem propaganda anarquista e tentam difundir a ideia de que os 
políticos progressistas não farão mudanças profundas se chegarem ao poder. No 
nível das ruas, já foi mencionado que eles apoiam os jovens da Primera Línea e 
iniciativas autônomas de protesto, como a Minga indígena. Eles se consideram, com 
sua especificidade libertária, parte de um movimento de protesto que está levando 
parte da população conservadora a começar a questionar o discurso do governo de 
que os manifestantes são cripto-guerrilheiros Castro-Chavistas e os veem como 
pessoas que lutam por necessidades reais e urgentes. O descrédito da mídia 
oficial também é bastante importante, considerando que a situação a este respeito 
vinha de um ponto de vista muito diferente.

Outra intervenção foi no sentido de perguntar sobre a situação dos desaparecidos, 
ao que os camaradas responderam que, em sua maioria, são detenções que não são 
relatadas, embora tenham lembrado o aparecimento de um manifestante morto em 
Cauca dias após sua prisão. Uma das últimas intervenções perguntou sobre o papel 
da Igreja Católica em tudo isso, à qual o Agite respondeu que na Colômbia é 
basicamente uma instituição de direita e conservadora próxima aos proprietários 
de terras. Portanto, o que tem feito é sair da questão sem se pronunciar sobre a 
greve e tentando exercer um papel

fracassado de mediação.

4) Conclusões

Como os camaradas do Agite assinalaram, o país tem sido, historicamente, 
impermeável ao acesso da esquerda ao poder e, eu diria mais, o sistema 
oligárquico colombiano tem bloqueado por muitos anos a influência das massas 
populares nos assuntos públicos. A Colômbia é caracterizada por uma hegemonia do 
liberalismo e pelo sistema político fechado que alguns historiadores têm 
comparado com o de um país centro-americano e não com o acesso histórico dos 
movimentos nacionais-populares ao poder típico de outros países sul-americanos: 
de fato, as origens da violência estatal e da contra-violência guerrilheira ou da 
violência proveniente de baixo podem ser traçadas diretamente ao assassinato do 
líder populista Jorge Eliécer Gaitán em 1948. Além disso, a influência, em alguns 
casos, do liberalismo foi tão forte que permeou as tendas marxistas, dando origem 
a hibridações ideológicas paradoxais.

É por esta dura razão estrutural que é tão importante apoiar as atuais 
mobilizações na Colômbia, pois para quebrar a crosta da sociedade burguesa 
colombiana e da institucionalidade, parafraseando o anarco-sindicalista espanhol 
Juan García Oliver, a solidariedade internacional é necessária, sobretudo 
daqueles que, talvez como disse o intelectual e militante anti-imperialista 
tunisino e judeu Albert Memmi, podem se dar ao luxo de ser internacionalistas, (é 
mais difícil para outros trabalhadores, refiro-me a todos eles e não tanto às 
minorias revolucionárias ativas, pois vivem em países com revoluções burguesas 
truncadas que talvez, neste caso, representem o assassinato do populista liberal 
Gaitán). Esta afirmação pode ser polêmica, e os camaradas do Agite podem não 
concordar muito comigo, mas me parece até certo ponto normal que em um país com 
uma profusão de bases militares americanas (ou quase-bases alugadas) que são 
apenas a expressão de uma dominação neocolonial contemporânea que vem de longe, 
haja uma profusão de bandeiras nas mobilizações.

Se o anarquismo se encaixa ou não no patriotismo anti-imperialista do Terceiro 
Mundo é um longo debate que não vou entrar agora, basta lembrar que ele não é 
desprovido de exemplos como as posições do Movimento Libertário Espanhol antes da 
intervenção dos nazistas-fascistas alemães e italianos na Guerra Civil de 
1936-1939 ou o patriotismo popular de alguns grupos libertários 
latino-americanos, como a Federação Anarquista Uruguaia nos anos 60 do século 
passado. Em qualquer caso, também é útil argumentar que foram discursos 
ideológicos mais de conjuntura do que de princípios: talvez uma situação com 
semelhanças com o que está acontecendo hoje na Colômbia do Agite.

Por uma solidariedade internacionalista e libertária com a luta do povo colombiano!

Pela extensão da revolta!

Alma Apátrida

Fonte: 
https://alma-apatrida.blogspot.com/2021/05/el-agite-del-pueblotrabajador-cronica.html

Tradução > Liberto

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