(pt) CAB, revista Socialismo Libertário nº 4 -racismo e dominação colonial .

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quinta-Feira, 13 de Maio de 2021 - 09:04:08 CEST


O capitalismo mundial globalizado tal qual se desenvolve hoje, e no qual nos 
localizamos em sua ‘periferia', a América, é um produto da colonização. Entre as 
ciências humanas fundamenta-se a crítica, via estudos pós-coloniais
e decoloniais, acerca da colonialidade do poder. ---- Um dos pilares da 
colonização foi estabelecer a classificação social das pessoas através da lógica 
racial.[Quijano, "Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina"]A 
dominação colonial inaugura o racismo e dele se serve para justificar sua 
dominação, ou seja, a exploração e extinção de determinados povos em detrimento 
de outro.Porém este eixo perpetuou-se ao longo dos anos e segue presente no 
padrão de dominação mundial contemporâneo. Portanto, a ideia de raça nasceu de um 
contexto especifico (brancos classificando os "negros" e "índios" como tais), e a 
partir dos desdobramentos históricos se configurou como um dos eixos centrais do 
capitalismo, um elemento estrutural da sociedade.

O racismo é um termo amplo que abarca
inúmeras violências de ocorrências distintas que se
combinam em diversos contextos. A diferença racial, como mencionamos, tornou-se 
desigualdade
em um longo processo histórico. O racismo ao desenvolver-se abertamente só pode 
resultar em genocídio. O genocídio é um processo histórico violento, portanto é 
um termo que carrega enorme peso.

Quando se fala em genocídio, fala-se do processo
sistemático de extermínio de um grupo específico.
O embranquecimento como estratégia do
genocídio ocorre por dentro e por fora. O mito
construído em torno da "democracia racial"
brasileira que elogiava a miscigenação, mascara as
reais intenções da política instituída até o
governo Vargas: fazer com que a população de negros
diminuísse à medida que aumentasse a porcentagem de mestiços, facilitando a 
imigração europeia com o objetivo de embranquecer a população.[Abdias, "O 
Genocídio do Negro Brasileiro"]

A violência cotidiana é a expressão máxima
de um racismo instituído, mas além de sua
manifestação física, fúnebre e sangrenta ela está
também manifesta na cultura. Abdias Nascimento
levanta também como uma das estratégias
do genocídio o embranquecimento cultural dos
negros, historicamente presente desde a c
atequização forçada até a proibição das expressões
religiosas e culturais que traziam de suas regiões
africanas, até a demonização de suas entidades
cultuadas.

A antropologia traz um termo de distinção
dessas redes que compõem o racismo, a ideia
do etnocídio. Enquanto o genocídio visa eliminar
as diferenças o etnocentrismo busca convertê-
-las. Logo, se o termo genocídio remete a
questão racial, e a vontade exterminar por completo
um grupo étnico-racial, o termo etnocídio não
faz a referência para a destruição física dos homens,
como o genocídio, e sim para a destruição de
sua cultura. O etnocídio caracteriza a destruição
sistemática de modos de vida e de pensamento
de pessoas diferentes daquelas que conduzem a
empresa da destruição. A construção do Outro
passa a representar uma diferença negativa, uma
diferença a ser convertida para o seu bem. Esse
argumento está presente mesmo hoje nos discursos
que pretendem justificar a retirada de terras
indígenas, por exemplo. O genocídio assassina os
povos em seus corpos e o etnocídio os mata em
seu espírito. Porém, o que diferencia a dominação
étnico-racial promovida pela Europa dos demais
conflitos históricos? É que estas questões se
combinam ao modelo econômico de produção que se
fortaleceu e desenvolveu ao redor do mundo.

O que contém a civilização ocidental, que a
torna infinitamente mais etnocida que qualquer outra
forma de sociedade? É o seu regime de produção
econômica, o capitalismo enquanto sistema
sócioeconômico para o qual tudo é
recurso a ser utilizado, tudo
é mercadoria, quer seja ele liberal ou privado, como
na Europa do Oeste, ou dominado pelo Estado,
como na Europa do Leste. A sociedade industrial é a
mais formidável máquina de produção, e é também
a mais assustadora máquina de destruição. Raças,
sociedades, espaços, indivíduos, natureza, subsolo:
tudo deve ser útil, tudo deve ser utilizado, tudo
deve ser produtivo, de uma produtividade levada
ao máximo de intensidade. O que não é produtivo
deve ser exterminado, não tem nenhum valor.
[Clastres, "A Arqueologia da Violência"]

Assim, a Europa tornou-se o patamar a
ser atingido, ela elevou sua
própria moral ao máximo e tornou-se
o padrão ao que se compara todas as
sociedades, se autodenominou como
civilização. Toda a contribuição acadêmica,
das ciências sociais e humanas,
para questionar o eurocentrismo, que
constitui parte importante da organização
social mundial, é forjada a partir
dos próprios reflexos dessa estrutura e
os respectivos processos de luta contra
o colonialismo e neocolonialismo. E
mesmo as grandiosas histórias de resistência
dos povos foram ocultadas.
Em qual livro escolar é possível ler sobre a
  bravura da nação zulu contra os ingleses?
Sobre a resistência de séculos dos mapuche ou a
vitória do Haiti sobre os franceses? Ou mesmo de
seu papel central nas revoltas brasileiras? Tudo
que lemos, mesmo quando o assunto é rebelar-se,
centra a Europa. Os povos não ocidentais
vivenciaram o apagamento de suas raízes, foram
retirados de sua história e rebaixados à
selvagens, tamanha é a violência filosófica
sofrida pelos povos da América e África.

Pensando no Brasil hoje, ao analisar as estatísticas em relação ao povo negro nas 
diversas áreas
de estudo, sejam econômicas, sociais, saúde, moradia etc., percebe-se nitidamente 
que a parcela
negra da população (considerada pelo Censo
como a soma das pessoas autodeclaradas negras
e pardas) sofre com as mazelas em números assustadoramente desproporcionais em 
relação à
composição racial do país. O genocídio fica ainda
mais escancarado quando se analisa as políticas
públicas que foram e são implementadas voltadas
à população negra. São aquelas que inexistem ou
em sua maioria são ineficientes em reparar os séculos de prejuízo causados pela 
escravização. O
pós abolição lançou a própria sorte a população
negra, que não encontrava trabalho e nem podia
praticar sua cultura.

Considerando que a população brasileira é
formada por 55% de pessoas negras segundo números de 2016, é importante ressaltar 
que quando
se fala em pobreza ou miséria no Brasil, fala-se do
povo negro, já que 76% das pessoas empobrecidas, segundo dados do IBGE de 2014, 
são negras.
Se não se entende que a cor das pessoas marginalizadas está diretamente ligada ao 
fato delas serem marginalizadas, o foco das análises e ações
se perde e seus resultados podem não ser os esperados. O genocídio do povo negro 
foi construído
sobre as políticas públicas de exclusão, barrando
o acesso das pessoas negras à terra e ao mercado
de trabalho, por exemplo.

Se a pobreza e a miséria brasileiras têm cor,
quando se fala de projetos como a Reforma Trabalhista e a Lei da Terceirização, 
por exemplo, apesar
de afetar a população como um todo, o principal
alvo são as pessoas negras que ocupam em maior
parte os empregos precários. Também é o caso da
reforma da previdência. Segundo dados de 2010, a
expectativa de vida média no Brasil é de 72 anos,
mas se fizermos um corte racial, os números ficam:
homem branco 69 anos, mulheres brancas 71 anos,
homens negros 62 anos e mulheres negras 66 anos.
Se considerarmos a idade mínima de 65 anos para
se aposentar do projeto de reforma, o povo negro
vai morrer trabalhando.

Segundo dados do Atlas da Violência de 2017
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), a cada 100 pessoas assassinadas no país,
71 são negras. Segundo o relatório, as pessoas negras possuem 23,5 mais chances 
de serem assassinadas do que não-negras, já descontando efeitos
como idade, moradia, escolaridade e sexo. A CPI
do Senado sobre o Assassinato de Jovens de 2016
revelou que um jovem negro é assassinado a cada
23 minutos no Brasil.

O Atlas da Violência de 2018 retrata ainda que
nos últimos dez anos, os números de assassinato caíram 8% entre as mulheres 
brancas e aumentaram
15,4% entre as negras. Mulheres negras encontram
uma série de dificuldades em sua participação no
movimento feminista por conta de suas especificidades e demandas acabarem 
historicamente invisibilizadas ou em segundo plano. Por isso é necessário
alinhar, não somente classe e gênero, como também
raça para uma militância responsável por parte de
todas(os) as(os) revolucionárias(os). Porém,
é preciso fazer aqui uma distinção. Enquanto grande parte daquelas que reivindicam o
feminismo interseccional recaem em discursos típicos da socialdemocracia, não 
acreditamos no debate de opressões enquanto luta
contra "privilégios", nem cremos no "empoderamento" individual, e sim que estes eixos
fazem parte da forma como se estrutura a
sociedade. O único empoderamento possível é construir o poder negro real, coletivo,
no seio do movimento social em conjunto
dos setores oprimidos: negros e negras, povos da floresta, camponeses, mulheres e 
trabalhadores em geral.

Todos os dados citados são evidencias numéricas da dor real do povo negro. Dor 
institucionalizada e executada pelo Estado. No Rio de Janeiro,
onde hoje ocorre a guerra declarada a partir da
intervenção militar, encontramos dados ainda
mais absurdos e que evidenciam o papel ativo da
polícia militar no extermínio da população negra. É o relativo aos autos de 
resistência, que hoje
são chamados nos relatórios policiais de "homicídios decorrentes de oposição à 
intervenção policial". Dados de 2017 indicaram que 9 em cada
10 pessoas mortas pela polícia no estado foram
identificadas como negras. Somente em junho de
2018, houve 155 mortes decorrentes de operações
policiais, um aumento de 59,8% em relação a junho do ano passado. Como se não 
fosse o bastante, um estudo de 2005 indicou que 99,2% dos
casos de autos de resistência foram arquivados ou
nunca chegaram à fase de denúncia.

A lista de casos de mortes envolvendo violência policial em favelas no Rio de 
Janeiro que chocaram o país é imensa. Como os jovens do Morro
da Providência que foram entregues ao tráfico
por policiais em 2008, Jonathan de 19 anos de
Manguinhos em 2014, DG de 26 anos do Pavão-
-Pavãozinho em 2014, Amarildo da Rocinha em
2013, Cláudia de 38 anos arrastada pelas ruas de
Madureira por uma viatura da PM em 2014, Eduardo de 10 anos do Alemão em 2015, 
Matheus de
19 anos morto na Rocinha, os 5 jovens de Costa
Barros mortos com 111 tiros em 2015, Andreu do
Cantagalo espancado até a morte numa unidade
do Degase em 2008, Eduarda de 13 anos morta
dentro de uma escola em Acari em 2017, a lista é
interminável...

Também vemos o aval do Estado em relação
às mortes que correm entre os indígenas, que
até hoje estão em luta pelo seu território contra
aqueles que hoje dominam a máquina estatal,
os latifundiários e sua corja assassina da bancada ruralista. As mortes pelas 
mãos da milícia
não acontecem apenas no contexto urbano, elas
estão presentes também no campo e na floresta.
O medo crescente pelo fortalecimento da extrema-direita brasileira nas eleições 
de 2018 trouxe
a ilusão de que reafirmar candidaturas dos que
financiam milícias fora de contexto urbano, por
exemplo, pudesse expressar em uma visão dita
"pragmática", uma forma de frear as forças facistóides. Ilusões vendidas que não 
acumulam em
nada para real derrota do reacionarismo em voga.
Assim o genocídio segue sua marcha fúnebre e
tende a se aprofundar numa conjuntura em que
o discurso de ódio ganha terreno. Igual é a ilusão
dos candidatos, com base social e muitas vezes
até ditos revolucionários, de que podem amenizar o genocídio fazendo parte da 
empresa que o
comanda.

Enquanto anarquistas da Coordenação Anarquista Brasileira, devemos fundamentar 
uma crítica racial ao Estado e ao capital. O anarquismo não
tem outra chance a não ser descolonizar-se para
enfrentar as lutas e construir uma alternativa real
junto ao povo preto. O Estado Nação e o capitalismo não se dissociam, e através 
deles não é possível
a verdadeira transformação social, devemos destruí-los em todos seus eixos de 
dominação.
As condições dos descendentes de africanos
escravizados e daqueles que sofreram sob o sistema colonial europeu é algo que 
tem sido ignorado
pelos movimentos anarquistas majoritariamente
brancos. Isto é um erro, tanto estratégico quanto
político, que condenou o movimento anarquista
a ser, muitas vezes, um projeto das classes médias
brancas. Felizmente, os povos não-brancos autônomos que são simpáticos ao 
anarquismo têm falado e exigem serem ouvidos. África, Ásia e América
Latina têm visto as pessoas não-brancas oprimidas saírem de seus "lugares" e 
exigirem autonomia: autonomia negra.[Kom'boa Ervin, "Nota à
edição brasileira de ‘Anarquismo e Revolução Negra'"]
Nesse sentido não nos serve o etapismo economicista e eurocêntrico de Marx, uma 
vez que
este traz noções distorcidas para a realidade dos
países colonizados e acaba por colocar a questão
racial como secundária em relação à questão de
classe. Nem os pós-modernos, em moda na Europa, que reduzem a política ao nível 
individual e
apagam a luta de classes. Tampouco devemos nos
deixar seduzir pelas teorias latinas que recaiam
na socialdemocracia.

As diferenças socioculturais não podem mais
ser secundarizadas como nos ensinaram os zapatistas. Para construir o mundo onde 
cabem muitos mundos, é preciso desde já se comprometer a
uma teoria e uma prática, desde a base, verdadeiramente antirracista!

http://cabanarquista.org/wp-content/uploads/2020/10/revista-soli-4.pdf


Mais informações acerca da lista A-infos-pt