(pt) [Espanha] Uma escritora anarquista By A.N.A. Por Marc Caellas

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Terça-Feira, 8 de Junho de 2021 - 15:24:18 CEST


Como acontece às vezes com qualquer escritora, Ursula K. Le Guin, renasceu no 
planeta literário de nosso país. Um documentário sobre sua figura, disponível em 
Filmin, novas edições de seus livros em castelhano e catalão, mais os elogios de 
críticos e leitores contemporâneos puseram de novo em evidência uma autora que 
não só tratou de temas como o feminismo, o anarquismo ou as identidades de gênero 
há mais de cinquenta anos, mas o fez dentro de um gênero a parte, a ficção 
científica, em que é pouco comum brilhantismos estilísticos como os seus. ---- 
Seus livros se originam em sua vida, mas Ursula K. Le Guin não escrevia para 
"expressar-se". Sua ficção era vivencial (ou experiencial), mas não confessional. 
Assim, em "Los desposeídos" (Raig Verd, 2018), K. Le Guin inventa uma sociedade 
anarquista na qual seus fundadores criam uma nova língua porque se dão conta de 
que não podem instaurar uma nova sociedade com uma linguagem antiga. Ainda que 
baseada na língua anterior, a nova é substancialmente diferente. O personagem 
Shevek transmite nessa nova linguagem a experiência intelectual que sua criadora 
sentia, embora em sua vida "real" fosse quase todo o tempo uma dona de casa 
convencional cuja principal preocupação fosse a educação de seus filhos.

"Los desposeídos" é considerada a primeira novela utópica anarquista. Seu 
protagonista é um físico que quer compartilhar suas descobertas com colegas de 
outros planetas, mas se depara com muros reais e mentais dos que veem sua atitude 
como uma ameaça à sociedade aparentemente livre que seus compatriotas conseguiram 
desenvolver durante cento e sessenta anos. É um livro fundacional, imprescindível 
para qualquer ativista social que se prese. O livro trata dessas interrogações 
que alguns de nós estamos a muito nos propondo, se é possível viver sem pátria, 
religião e polícia, por exemplo, e fazendo leituras atentas de pensadores como 
Kropotkin (de quem se comemora em 2021 o primeiro centenário de morte), que expõe 
que os homens viveram muitos anos em sociedades sem estado e que este foi criado 
para impedir a associação direta entre os homens, para obstaculizar o 
desenvolvimento da iniciativa individual e local, para esmagar as liberdades 
existentes, para impedir seu novo florescimento, e tudo para submeter as massas à 
vontade de umas minorias.

Ursula K. Le Guin pensava que o anarquismo era uma forma de pensar profundamente 
radical, muito frutífera e propositiva. Ao ler numerosos livros sobre anarquismo, 
se deu conta que era a única grande teoria política sobre a qual não havia sido 
escrita uma novela utópica. Mas a utopia de "Los desposeídos" é imperfeita, e a 
novela inclui sua própria traição aos postulados que defende. Outra novela mítica 
escrita faz mais de cinquenta anos, mas reeditada recentemente (Minotauro em 
castelhano, Raig Verd em catalão), é "La mano izquierda de la oscuridad". Nela K. 
Le Guin esboça um planeta cujos habitantes tem uma particularidade que os faz 
únicos: são hermafroditas. Os "guedenianos" adotam um ou outro sexo 
exclusivamente na época do cio, na semana denominada "kémmer". Durante as outras 
três semanas do mês seu gênero é neutro, e não tem características nem 
comportamentos de homem ou mulher. Dependendo dos níveis de feromônios emitidos, 
se transformam em macho ou fêmea, e assim podem procriar. Um mesmo individuo é 
homem em um mês e mulher no seguinte.

"La mano izquierda de la oscuridad" é uma história filosófica que trata sobre o 
diálogo entre diferentes. Aqui não há batalhas interestelares nem perseguições 
entre constelações planetárias mas uma trama amena e profunda que reflete sobre a 
alteridade e os preconceitos para com o diferente. Em "Conversaciones sobre la 
escritura" (Alpha Decay), livro fundamental para quem queira aprender ferramentas 
chave para escrever, Ursula K. Le Guin insiste na importância do som da 
linguagem, no quão fundamental é ouvir-se quando se escreve. A autora considera a 
linguagem um objeto físico e lamenta que em seu ensino se esqueça "e assim temos 
prosa que soa pom, pom, pom e não sabemos onde está falhando".

Ursula K. Le Guin também deplora a crescente mercantilização da escrita que dá 
mais poder aos departamentos de vendas do que aos editores. As modas passam e a 
boa literatura, como a sua, fica. Suas reflexões sobre a conveniência de usar o 
passado ou o presente são de um brilhantismo e concisão admiráveis, produto de 
toda uma vida exercendo uma arte como se fosse um ofício, com um nível de auto 
exigência elevado e umas certezas aprendidas inclusive com erros, como o cometido 
com o pronome neutro em "La mano izquierda de la oscuridad", que K. Le Guin 
explica, que não se justifica, pela época, 1968. O escritor David Naimon pergunta 
com inteligência e as respostas de K. Le Guin iluminam debates atuais sobre o uso 
da linguagem inclusiva e nos aproximam de uma autora sobre a qual seguiremos 
falando no futuro.

Fonte: 
https://www.diaridetarragona.com/cultura-vida/Una-escritora-anarquista-20210423-0071.html

Tradução > Sol de Abril

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