(pt) [Espanha] Entrevista com a ULET-AIT, organização anarcossindicalista colombiana By A.N.A.

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Segunda-Feira, 7 de Junho de 2021 - 12:27:33 CEST


"Repara o coração ler uma mensagem de outras terras enquanto contas os mortos a 
cada noite" ---- A Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo (ULET) é uma 
organização de caráter sindical e, portanto abertamente pública. Tem como 
primeiro objetivo a defesa de suas filiadas e seus filiados; os direitos de 
trabalhadoras, trabalhadores e estudantes; e a liberdade do povo. ---- 
Organiza-se sob os princípios anarcossindicalistas, tem como base e meio ao 
anarquismo, e tem como fim o comunismo libertário. ---- Suas ferramentas de luta 
são o apoio mútuo, o assembleísmo, o federalismo, a autogestão, a 
horizontalidade, e a ação direta.
A ULET-AIT é formada por pessoas de diferentes tipos, cores, nacionalidades, 
pensamentos, comportamentos, e gostos, que se agrupam sob os mesmos princípios e 
se organizam para defender seus direitos, lutar por um mundo livre, sob a 
solidariedade e para a autogestão econômica e social do povo livre. Encontra-se 
aderida à Associação Internacional de Trabalhadoras/res (AIT-IWA).

As primeiras mobilizações que começaram em 28 de abril passado exigiam a 
eliminação do projeto de Lei de Solidariedade Sustentável. Em quê consiste dita 
Lei e por que pode ser o detonante de protestos massivos?

Esta lei só é a forma como quiseram chamar a nova reforma tributária que querem 
aplicar ao povo colombiano. Nesta se incluíam muitos impostos aos trabalhadores 
autônomos, se taxavam os produtos da cesta básica com até 19% de IVA (Imposto de 
Valor Agregado) e se propunha aumentar o valor do leite para bebês de menos de 
seis meses, algo totalmente desumano em um país onde crianças morrem de fome. 
Além do aumento no preço dos alimentos, se incrementava o preço dos combustíveis 
e, inclusive, dos serviços funerários.

As condições precárias de vida ficaram ainda mais ameaçadas pela lei promovida 
pelo partido do governo. Isto tudo, junto com a precarização laboral e a 
desigualdade, é o detonante do que hoje se vive na Colômbia, um ambiente de 
rebeldia e protesto.

A origem do protesto foi superada desde o primeiro momento, somando-se desde a 
exigência do fim do feminicídio, a oposição de projetos de megamineração ou 
fracking, respeito pelos povos indígenas ou demandas estudantis. Quais são as 
exigências que sustentam o movimento?

Pede-se derrubar a reforma da saúde (que hoje, 22 de maio, já foi arquivada). Uma 
das principais exigências é a reforma do corpo policial, já que este tem um longo 
prontuário quanto a violações de direitos humanos que vão desde detenções 
arbitrárias, passando por violações, desaparições e assassinatos.

Os povos indígenas pedem que se respeite seu território e suas tradições, além de 
serviços de saúde já que estes foram muito golpeados pela atual pandemia. Por 
outro lado, existe uma demanda generalizada por condições dignas em temas 
laborais: na Colômbia, um Senador ganha mais de 30 vezes o salário mínimo que 
ganha um obreiro.

Outro grande problema tem o setor da agricultura, a assinatura de Tratados de 
Livre Comércio com diversos países levou à importação de muitos produtos 
alimentícios gerando uma crise no setor camponês. Por isso, dito grêmio pede 
melhores vias para transportar seus produtos e a eliminação destas dinâmicas de 
importação.

Uma das demandas é a demissão do direitista Iván Duque. Este rechaço ao Governo 
está sendo capitalizado pela oposição de Gustavo Petro? Ou os protestos se 
encontram afastados de partidos políticos?

Os protestos respondem ao clamor popular e ao instinto coletivo e não estão 
sujeitos a partidos políticos que viram neste processo uma oportunidade para 
fazer proselitismo.

Vemos imagens e lemos relatos de bairros levantados, com grande nível de 
mobilização e nos quais inclusive expulsaram as forças policiais. Como estão se 
organizando estes lugares? Criaram novas estruturas que permitam a 
auto-organização de bairro ou já existiam anteriormente?

Os bairros se organizam mediante os diversos coletivos políticos que se encontram 
nos territórios e estes por sua vez permitem a articulação com os habitantes dos 
bairros. Os espaços contam com uma panela comunitária, grupos artísticos e grupos 
de primeira linha dispostos ao choque com a polícia. Estes espaços se mantêm com 
a solidariedade de quem os habitam e são produto de processos políticos e de 
protestos gerados durante anos.

Em lugares como Cali, podemos ver povos indígenas indo à cidade para unir-se às 
marchas. Quais são suas exigências e como é sua participação nos protestos?

Eles participam com comida, participação na mobilização em temas de segurança e 
com a difusão de seu saber já que aqui na Colômbia muitas pessoas guardam um 
grande respeito pela sabedoria ancestral que estes povos possuem. Os indígenas 
protestam para que se respeite seus direitos como povos originários e se conserve 
seu território mantendo longe projetos extrativistas. Além disto, pedem que não 
os criminalizem, já que muitas vezes são etiquetados como guerrilheiros, 
terroristas ou narcotraficantes. Outras demandas são saúde e vias de acesso.

Embora os protestos tenham um marco ideológico muito amplo, vemos uma forte 
participação de coletivos anarquistas. Que papel está tendo o anarquismo nas 
mobilizações?

Desde que os habitantes de um bairro ou território decidam se organizar sem 
depender de nenhum partido político, estão atuando sob a filosofia anarquista e 
se dá passagem à participação de coletivos afins com dita proposta. A 
participação consiste em somar mãos para realizar as atividades de organização, 
gestionar mobilizações e manter a horizontalidade dos espaços.

As forças de segurança colombianas têm um longo histórico de repressão e violação 
dos direitos humanos. Como está sendo a repressão do Governo?

A repressão do governo consiste em enviar corpos policiais antidistúrbios e a 
repressão é física e psicológica. Em uma manifestação podem acontecer feridos por 
perda de olho, abuso sexual, desaparecimento e assassinato. Em muitos locais de 
protesto optaram por cortar o serviço de energia, deixando sem luz as ruas e 
começar a disparar armas de fogo contra os manifestantes.

Outra estratégia é passar em veículos particulares sem nenhuma identificação da 
polícia e assassinar manifestantes, inclusive chegaram a ser cúmplices de 
habitantes de bairros de classe alta que saem para disparar contra os manifestantes.

Lemos inumeráveis denúncias de abuso e violência sexual contra mulheres. É uma 
prática comum entre as forças de segurança?

Sim, é uma prática comum entre as forças armadas do Estado. Estão há muitos anos 
fazendo o mesmo, além de violações e feminicídios se reportam casos de maltrato 
físico contra a mulher nos núcleos familiares dos homens que integram as fileiras 
de ditas instituições. Apesar de tudo isto gozam de impunidade.

Desde fora da Colômbia estão acontecendo manifestações e outras mostras de 
solidariedade internacional. Chegam-lhes estas notícias? Que podemos fazer desde 
o estrangeiro para apoiar vossa luta?

Chegam-nos as notícias e nos tem enchido de força, agradecemos que sintam nossa 
dor e nossa rebeldia. Recebemos grande apoio de países sul americanos e da 
Europa, especialmente da Espanha. Os convidamos a seguir com o boicote, a 
difundir nossas denúncias.

Repara o coração ler uma mensagem de outras terras enquanto contas os mortos a 
cada noite.

Fonte: https://www.todoporhacer.org/ulet-colombia/

Tradução > Sol de Abril

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