(pt) Declaração Internacional: 85 anos da Revolução Espanhola 19 de julho de 2021 (ca, de, en, fr, gr, it, tr) [traduccion automatica]

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Sábado, 24 de Julho de 2021 - 08:39:53 CEST


Em 19 de julho de 1936, o povo conseguiu uma vitória histórica frente a um 
levantamento militar que se organizava contra o governo e a República espanhola. 
O levante era uma trama militar e civil que contava com o apoio de todos os 
setores reacionários da sociedade (Igreja, carlistas, falangistas, conservadores, 
latifundiários e industriais) e com o financiamento de banqueiros direitistas e 
inclusive da Itália de Mussolini. ---- Ante essa trama bem organizada para 
derrubar um governo havia apenas um punhado de militares leais e algumas forças 
da ordem pública de confiança duvidosa. Apesar disso, o povo entendeu seu papel 
histórico com perfeição e superou qualquer expectativa de resistência. As massas 
trabalhadoras tomaram cidades inteiras como Barcelona, Madrid, Gijón, San 
Sebastián e Valência.

A derrota deste golpe de Estado caminhou para uma guerra civil a todo vapor, já 
que militares haviam triunfado em algumas cidades e regiões (Navarra, Castela, 
Sevilha, Córdoba, Cádiz e Galícia). Contavam com o exército colonial Africano e 
com o apoio das potências fascistas. A vitória de Franco se consolidou graças à 
ajuda internacional. Apesar disso, a guerra durou 33 meses.

Devido ao golpe, o estado republicano desmoronou. O avanço das forças populares 
foi tal que a resistência criou uma revolução social em todos os campos da vida. 
Essa revolução foi liderada pelas forças organizadas da Confederação Nacional do 
Trabalho, a Federação Anarquista Ibérica, a organização Mulheres Libres, a 
Federação Ibérica de Juventudes Libertárias e, em menor medida, o Partido 
Operário de Unificação Marxista, mas há que reconhecer que afetava as bases de 
todos os partidos cuja gente comum também participava do clima revolucionário.

As força operárias criaram milícias com as armas que tomaram os quarteis. O 
impulso popular expulsou as colunas militares fascistas e criou todo um exérito 
de milícias essencialmente financiadas pelos sindicatos, as organizações 
políticas e pelos municípios. Ao longo do tempo, o governo central criou um 
Exército Popular com a proposta de responder ao inimigo com suas mesmas armas. 
Ainda assim, esse exército se encaminhava para apaziguar o espírito 
revolucionário das milícias, a autêntica expressão do “povo em armas” e 
canalizá-lo para uma guerra convencional.

A revolução havia iniciado com a tomada e empresas e terras cujos proprietários 
fugiram ao estrangeiro. A classe trabalhadora se apossou dos meios de produção e 
colocou-os em funcionamento graças aos sindicatos. Portanto, em questão de 
semanas foram realizadas inúmeras expropriações criando coletividades de fábricas 
e campos. Graças a essa revolução se construiu do nada uma indústria bélica. Mais 
à frente estas coletividades se agruparam com o intuito de socializar toda a 
economia, o que não aconteceu devido à reação governamental e ao aparecimento de 
forças contrarrevolucionárias que as impediram (em especial, o Partido 
Comunista). No processo revolucionário, participaram milhões de pessoas.

São exemplos da construção popular da revolução social: as coletivizações 
camponesas, mediante a recuperação da propriedade e da gestão comum das terras; 
as coletividades industriais e de serviços a partir da autogestão das empresas e 
da planificação operária através das federações sindicais; a escolarização quase 
total da população infantil e juvenil, além da implantação de uma pedagogia 
baseada nos princípios de Ferrer e Guardia e da pedagogia racionalista e 
libertária; a melhoria das condições de vida (habitação, saúde, serviços 
essenciais) da população; a promulgação de normais estabelecendo a coeducação nos 
centros escolares, o aborto livre e gratuito, as uniões livres, etc. 
Definitivamente, o anarquismo e o anarcossindicalismo ibéricos conseguiram por em 
prática durante meses aquelas ideias e propostas que elaboraram e pelas quais 
lutaram, se organizaram e sofreram uma dura repressão ao longo de décadas, em um 
exemplo de criação do que propõe o Poder Popular.

Queremos recordar também de outro 19 de julho, mas de 2012, no qual Rojava 
declarou sua autonomia em relação ao estado sírio. A autonomia curda também é um 
processo revolucionário, uma poderosa chama acesa no Oriente Próximo. Sua luta 
durante os 9 anos de autonomia mantém no alto as aspirações revolucionárias dos 
povos ao longo do tempo. Não podemos mais que ter solidariedade plena com sua luta.

O 19 de Julho representa a vitória de um povo contra uma reação militarizada e 
bem preparada. Este dia nos lembra que a vitória é possível, que a utopia pode 
ser colocada em prática. Coloca em evidência nossa força quando nos organizamos 
para ganhar. Também representa a eterna ameaça de intervenção imperialista e 
reacionária das potências globais, que não hesitaram em esmagar qualquer processo 
de transformação. Portante, é básica a solidariedade internacionalista e a 
extensão desses processos revolucionários a outros lugares.

Alguns ensinamentos que nos deixou a Revolução Espanhola
Em primeiro lugar, poderíamos apontar a necessidade de protagonismo popular e dos 
processos prévios de construção deste protagonismo, o que chamamos de Poder 
Popular e que não é nada mais nem menos que o povo, as classes oprimidas, tomando 
em suas mãos a resolução de todos os problemas e assuntos sociais, inclusive da 
luta para frear um golpe de estado como o dos militares reacionários e fascistas.

Foi em Barcelona, e por extensão na Catalunha, onde o povo ganhou as ruas pela 
primeira vez, tomou quartéis e derrotou a reação, tudo de forma organizada e 
planificada, aplicando um elevado e complexo nível de ação direta através dos 
Comitês de Defesa da CNT, derrotando o levante fascista. A experiência acumulada 
de luta nas ruas e de grupos de ação se expressou em todo seu esplendor em 19 de 
julho. Barcelona e Catalunha ficaram sob as mãos da classe trabalhadora e 
camponesa catalã.

Mas foi lá também onde começaram a evidenciarem-se os primeiros problemas e 
limitações, em um processo que não seria simples e que, como todo processo 
revolucionário, estaria longe de ser um sonho. Em Barcelona e em Catalunha, se 
instalou um espécie de poder dual, permanecendo a Generalitat como poder do 
Estado e aparecendo por sua vez o Comitê de Milícias Antifascista e das 
coletividades, como organismo inspirado pelo movimento libertário. Tendo a força 
social e a vitória na mão, a CNT e a FAi permitiram a manutenção das instâncias 
estatais, que logo se voltariam contra a revolução. Não quiseram impor o 
predomínio anarquista mesmo sendo maioria, porém, por outro lado, abriram as 
portas para manobras do Partido Comunista e para a intervenção da União Soviética 
através dele.

Nesse sentido, podemos também apontar dois aspectos para avaliação: o primeiro, 
permitir que se fortalecessem as forças que não estavam a favor de um processo 
revolucionário e que pretendiam manter a República como forma de governo. Esse 
aspecto teve sua culminação nos enfrentamentos das Jornadas de Maio de 1937, nas 
quais contrarrevolução impulsionada por comunistas e republicanos derrotaram 
politicamente as forças partidárias da Revolução.

O segundo aspecto, que a vitória dava uma margem maior para avançar na 
concretização de organismos populares que suplantaram completamente o Estado e 
permitiram ensaiar novas formas autogestionárias e federalistas em grau avançado. 
Nesse sentido, foi totalmente acertada a consigna do anarquismo que “a guerra e a 
revolução são inseparáveis”. Para milhões de pessoas, a Revolução era uma questão 
essencial pela qual lutar. Segundo os acordos do Congresso de Saragoça da CNT, se 
procedeu a coletivizar praticamente toda a economia catalã. Mas assim que a 
República matou essa revolução, a moral caiu profundamente em toda a retaguarda. 
A guerra tinha reduzido a batalha entre os dois exércitos concorrentes. Desde 
então, as esperanças do povo se basearam em procurar a mera sobrevivência em meio 
de um crescente desânimo: na retaguarda, fome e repressão governamental, e nos 
frontes, derrotas militares.

O dilema central que o anarquismo espanhol teve que enfrentar no meio da 
Revolução foi a entrada no governo da República. É possível debater se essa 
decisão foi acertada ou não, o que vai contra os princípios de nossa ideologia, 
mas deve-se levar em conta que estava operando em condições adversas em vários 
aspectos (falta de armas, pouco apoio internacional e a ameaça iminente a Madrid) 
e a situação totalmente inédita em que a força das organizações anarquistas 
variava nas diferentes áreas do território espanhol.

A principal carência do anarquismo espanhol em todo esse cenário era a de uma 
organização política que tivesse sua própria estratégia e propostas para uma 
conjuntura tão inédita e difícil, e não estivesse atrelada às estratégias de 
outras forças políticas. Sem dúvida, muito teve que ser pactuado, mas é sempre 
preferível fazê-lo a partir de suas próprias propostas e com suas próprias forças.

O fato de o anarquismo não ter sido organizado politicamente na Espanha impactou 
até mesmo no terreno da guerra e da ação direta, já que outras formas de 
organização de milícias e níveis mais complexos poderiam ter sido explorados 
naquele plano (na verdade havia várias propostas nesse sentido), sem cair na 
plena militarização estatal, que passou o controle do exército ao Estado 
(controlado pelo governo, com o peso crescente do Partido Comunista) e 
indiretamente, à União Soviética.

Longe de nossa aspiração dizer o que deveria ter sido feito. Lá, homens e 
mulheres da cidade lutaram e deram suas vidas, nossas irmãs e irmãos de ideias, 
que enfrentaram o fascismo com tremenda coragem. O processo revolucionário foi 
produto da acumulação de lutas do povo espanhol antes de 1936, lutas que 
incluíram deportações, exílio e prisão, mas também um ambiente de debate e ação 
que existia entre as classes populares e os distintos níveis de ação direta que 
se desenvolviam diariamente. Grupos como “Los Solidarios” (que em 1936 se chamava 
“Nosotros” e que liderava a insurreição proletária de 19 de julho em Barcelona 
através do Comitê de Defesa Local) estavam na América Latina realizando 
financiamento para esse processo que já se projetava nas avaliações anos antes. 
Nesse processo, a existência de uma organização política anarquista teria 
proporcionado uma orientação clara em todos os níveis da luta e teria permitido 
que os debates ocorridos dentro do movimento anarquista se processassem de forma 
diferente. E também, levando em consideração que o anarquismo não era a única 
força existente e que outras forças políticas também atuavam e tinham seus 
próprios projetos políticos e suas alianças.

Enquanto o anarquismo espanhol se adaptava à difícil situação que vivia, 
assumindo um programa de unidade antifascista, surgiram outros grupos de oposição 
revolucionária, como “Los Amigos de Durruti”. Sua proposta em maio de 1937 de “um 
programa e rifles” propondo uma Junta Revolucionária para assumir o poder, 
evidenciava a necessidade de organização política que indicamos.

Para nós, a organização política é decisiva, ainda mais em um processo de 
mudança. Nossa organização não é de vanguarda, não vai antes do povo para 
dirigir. Mas, ao contrário, é um pequeno motor que impulsiona as organizações 
populares, que ajuda, que estimula o povo a ser construtor do seu destino e 
avança junto com esse povo, com seus problemas e limitações, mas também com o que 
ele seja capaz de construir.

É por isso que anarquistas politicamente organizados falam de uma concepção de 
poder sem precedentes. Entendemos poder como a capacidade de ação do povo e por 
isso falamos de Poder Popular ou outros conceitos que expressem a mesma ideia: de 
que é o povo que deve construir o processo revolucionário e a sociedade 
socialista e libertária que almejamos. Este conceito nada tem a ver com o poder 
estatal, é muito mais: é a possibilidade de destruir o Estado e substituir a 
sociedade capitalista por um novo ordenamento social.

Organização política, Poder Popular e a convicção de que a sociedade libertária 
não se estabelece da noite para o dia após a revolução, mas depois de um processo 
de transição onde várias forças continuarão a empurrar cada um por seu projeto e 
onde os e as anarquistas devemos ter capacidade e força suficientes para 
consolidar nossas propostas, são elementos-chave de um processo revolucionário 
com uma clara orientação anarquista e anti-autoritária.

Acreditamos com total modéstia que essas podem ser algumas das lições que a 
Revolução Espanhola nos deixa para o anarquismo organizado. Com a construção de 
uma nova sociedade realizada – ainda que parcialmente, mas que perdurou até 1939 
– as pessoas se acostumaram a viver nas Coletivizações, inclusive, em alguns 
casos, eliminando dinheiro e apoiando o esforço de guerra.

Devemos enfatizar que muitas e muitos das companheiras e companheiros 
sobreviventes que se refugiaram na França e foram trancadas em verdadeiros campos 
de concentração participaram ativamente da luta contra a ocupação nazista do 
território francês e, inclusive, militantes anarquistas espanhóis estiveram entre 
as primeiras e os primeiros a entrar na Paris libertada. Outros companheiros e 
companheiras continuaram militando na América Latina e contribuindo com sua 
experiência de luta para organizações em outras latitudes. Muitas e muitos 
militantes internacionalistas participaram nas frentes de batalha e na 
retaguarda, como exemplo citaremos Simón Radowitzky, que depois de cumprir uma 
longa pena em Ushuaia (Argentina) foi lutar na Espanha. Como ele, tantos e tantas 
outras continuaram a lutar, depois da Revolução, em seus respectivos países.

O legado da Revolução Espanhola não é um passado morto, faz parte da história e 
da luta dos e das de abaixo, dos processos de emancipação que a nossa classe 
protagonizou e dos anseios por um amanhã diferente que se disputa a partir desde 
hoje. Na Espanha, um pouco de tudo isso foi desenvolvido. Ela é uma experiência 
concreta a qual os povos oprimidos do mundo inteiro devemos estudar e aprender, 
tirar conclusões, ver as limitações que existiam, e também levar em consideração 
o potencial criativo do pessoas nos momentos de Revolução.

Convocamos a continuar seu legado e sua obra e também a refletir sobre todos os 
ensinamentos que no deixou este rico processo histórico popular.

Aos 85 anos da Revolução Espanhola, VIVA!
A VITÓRIA SERÁ DOS E DAS DE ABAIXO!
VIVA A REVOLUÇÃO SOCIAL!
ARRIBA LOS Y LAS QUE LUCHAN!

Embat (Organitzacio Libertaria de Catalunya)
FAU ( Federación Anarquista Uruguaya)
Anarchist Federation (Grécia)
Libertare Aktion (Suíça)
FAR ( Federación Anarquista de Rosario, Argentina)
Die Plattform (Alemanha)
ZACF (Zabalaza Anarchist Communist Front, África do Sul)
OAC (Organización Anarquista de Córdoba, Argentina)
AWSM (Aotearoa Workers Solidarity Movement, Aotearoa – Nova Zelândia)
Grupo Libertario Vía Libre (Colômbia)
CAB (Coordenação Anarquista Brasileira)
OSL (Organización Socialista Libertaria, Suíça)
FAS (Federación Anarquista Santiago, Chile)
OAT (Organización Anarquista de Tucumán, Argentina)
AL/FDCA Alternativa Libertaria (Itália)
UCL (Union Communiste Libertaire, França)
APO Anarsist Politik Örgütlenme - Kolektifler Federasyonu (APO - Yunanistan)
DAF Devrimci Anarsist Federasyon
FAI Italya Anarsist Federasyonu - Uluslararasi Iliskiler Komisyonu (FAI - Italya)

https://cabanarquista.org/2021/07/19/declaracao-internacional-85-anos-da-revolucao-espanhola/


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