(pt) Embate - Anarquismo Revolucionário em Portugal (ca, de, en, fr, it)

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Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2021 - 07:54:19 CET


Mãos das Massas: construir o Anarquismo Revolucionário em Portugal ---- Estamos 
no final de 2020 e a luta de classes intensifica-se, em Portugal e no mundo. Os 
interesses da classe capitalista continuam, cada vez mais, a fazer-se sentir e a 
dominar as nossas vidas, a explorar-nos, a limitar-nos, continuam a condenar-nos 
à miséria e à morte, com ou sem pandemia, com ou sem crise económica. Uma classe 
continua a ter de vender a sua força de trabalho para sobreviver, em condições 
cada vez mais precárias. Essa classe somos nós, trabalhadores e trabalhadoras 
assalariados, desempregados, precarizados por este mundo fora. ---- O Estado 
continua a ser o aparato violento e dissociante que defende o patronato e a 
propriedade e para fazê-lo não olha a meios nem se preocupa em manter o seu 
teatro benevolente quando o povo enfrenta o seu domínio. Os partidos que almejam 
disputar os aparelhos estatais e representativos para supostamente os transformar 
ou beneficiar de apenas algumas vantagens da política eleitoral continuam a ser 
assimilados e a contribuir para o prolongamento de um jogo que não queremos 
jogar. Os partidos que ambicionam controlar e utilizar os movimentos sociais como 
câmaras de eco para as suas percentagens, filiações, e interesses, continuam a 
minar o potencial dos espaços da nossa classe quando não encontram uma oposição 
organizada, autónoma e suficientemente forte. É necessário quebrar a hegemonia 
destes orquestradores de derrotas, e devolver ao povo o protagonismo de sua 
libertação.
  O anarquismo, movimento das vidas e interesses de classe trabalhadora nesta 
luta, continua pertinente e a sua necessidade mais que atual, urgente. É nosso 
dever e papel assegurar a presença, iniciativa, disputa e direção alternativa 
rumo a um acréscimo revolucionário, socialista e de base dos movimentos sociais. 
A revolução será das massas, feita e pensada pelas massas criativamente através 
das suas organizações e estruturas pelo que devemos assumir o que somos: mãos das 
massas prontas a agir e refletir estrategicamente pela nossa autonomia e 
libertação. No momento, em Portugal, o movimento anarquista é pouco estruturado e 
não apresenta qualquer direcionamento programático perspectivando a construção 
revolucionária, ao contrário, limita-se a algumas "bolhas de autonomia" e espaços 
libertários, que apesar de importantes, não sustentam as necessidades do trabalho 
político e organizativo que permita delinear uma estratégia para a revolução 
portuguesa e internacional, bem como um programa e teoria anarquistas que 
suportem a nossa luta dentro das várias frentes dos movimentos sociais, 
analisando e reanalisando a conjuntura com cada acúmulo, propagando as nossas 
posições e métodos de forma democrática ao resto da classe e onde elas mais são 
necessárias.
Observamos duas atitudes prevalecentes ao que toca à acção no que se pode 
considerar movimento anarquista em Portugal. Por um lado, um sector culturalista, 
onde reina uma atitude de manutenção de um estado de arte desconectado do terreno 
de batalha, seja perdido em nostalgia seja perdido em liricismos individualistas 
e desprovidos de praxis, construído de si para si mesmo. Nesta pespectiva o 
anarquismo é compreendido como uma utopia cultural capaz de ser construída de 
forma isolada edistante das necessidades concretas do povo trabalhador e 
marginalizado, exclusivamente através da pedagogia e propaganda sem estratégia. 
Por outro lado, há um sector investido em estar no campo cuja aproximação aos 
movimentos sociais se faz ainda de forma desarticulada e desorganizada, que por 
essa razão vamos denominar de ativista. Sem disputa tática e permeado por tabus 
sobre os papéis que podemos desempenhar e a preparação que devemos ter, deixa-se 
assim à mercê de forças oportunistas, já referidas acima. Acreditamos que a 
prática sem a teoria é um mal tão grande quanto a teoria sem a prática. É 
necessário planejar a acção, realizar uma construção estratégica de orientação 
revolucionária, e para tal é necessário um embasamento teórico também 
revolucionário. A falta destes elementos leva a um inferno da prática, onde 
acções desconectadas de resultados concretos tem como único efeito a criação de 
nichos identitários, ou, na pior das hipóteses, o esgotamento moral de possíveis 
militantes.
Mas tudo não é só deserto. Nos últimos quatro anos, camaradas vêm desenvolvendo 
um importante trabalho tentando retomar os métodos do sindicalismo revolucionário 
no meio estudantil, onde abraçaram a criação de um projeto organizado e 
estruturado, ideologicamente plural, autónomo, combativo e de classe que ousa 
construir e disputar espaços do movimento estudantil promovendo formas de luta e 
pautas que fortaleçam as e os estudantes, que desafiam o modus operandi das 
instituições capitalistas e estatistas, ao invés de as deixarem reféns de 
aparelhamentos formais ou informais por parte de partidos e interesses alheios à 
realidade imediata das de baixo;e que conseguiram dinamizar relações nacional e 
internacionalmente. Também, no último ano, surge iniciativa similar dentro do 
campo de luta dos trabalhadores precarizados. Tomámos parte destas iniciativas, 
que foram imprenscindíveis para a nossa construção militante. Também foram 
necessárias para percebermos que elas, por si só, não bastam. É necessário ir 
além, em direção à construção de uma Organização Política que dê conta das 
exigências da luta revolucionária, que se detenha no papel da construção teórica 
e estratégica para o momento de ruptura.
Dito isto, há ainda um terceiro problema a nível teórico que aflige aqueles que 
se identificam com os ideais libertários em Portugal. Permeia em parte do 
anarquismo português uma visão idealista de que os movimentos sociais devem 
autoproclamar-se anarquistas para serem combativos. Na falta de organização 
política através da qual conspirar e aprofundar os seus postulados teóricos, 
buscam transformar os próprios movimentos nas suas organizações. Assim, ao invés 
dos movimentos e espaços sociais concentrarem-se nas suas lutas materiais 
objetivas, perdem tempo e energia discutindo assuntos completamente alheios ao 
que aquele espaço se propõe, dispostos inclusive a implodi-los em caso de 
discordância. Como defensores do sindicalismo revolucionário, observamos e 
compreendemos que os movimentos e os seus sujeitos tornam-se combativos e 
revolucionários através de uma prática libertadora, solidária e que incentiva a 
acção directa sem representantes e intermediários na defesa dos interesses da 
classe pela própria classe. Refletindo sobre a mesma problemática, Bakunin 
escreve que
  "... os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria ao 
eliminar inicialmente do programa dessa Associação todas as questões políticas e 
religiosas. Sem dúvida, não lhes faltaram em absoluto nem opiniões políticas, nem 
opiniões antirreligiosas bem definidas; mas eles abstiveram-se de emiti-las nesse 
programa porque seu objetivo principal era unir acima de tudo as massas operárias 
do mundo civilizado numa ação comum."
- A Política da Internacional, por Mikhail Bakunin
Falta uma organização que se proponha a um trabalho teórico, ideológico e 
programático da revolução que defendemos, que na tradição anarquista venha 
agrupar, capacitar e direcionar, a partir das análises e decisões comuns num 
campo conceptual coerente, a ação e a militância que sabe que quer uma sociedade 
sem Estado, organizada por quem trabalha, onde a liberdade do outro nos estende 
até ao infinito. Propomo-nos a começar a construir tal espaço. O tempo agora é de 
agir e começar a delinear as tarefas a realizar neste primeiro esforço 
organizativo e de luta.
Da mesma forma que um anarquismo que não enxerga classes ou sem projeto da classe 
trabalhadora não é anarquismo, um anarquismo que se abstém do campo, imobilizado, 
também não o é. Precisamos de um anarquismo que se faz presente e que reconhece 
na proposta da sua presença um anarquismo em movimento, um anarquismo de embate 
estrutural e ideológico. Uma parte desse anarquismo já existe e vem agora a 
público através desta publicação e coletivo.
Viva a luta dos povos contra o capital e a burguesia!
Viva a memória e prática do Socialismo Libertário!
Avante a construção do Anarquismo Revolucionário!
Coletivo Pró-Organização Anarquista em Portugal

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