(pt) [Reino Unido] O Bud Light Putsch (ou a invasão do Capitólio dos EUA) By A.N.A. (en)

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Quarta-Feira, 27 de Janeiro de 2021 - 08:58:24 CET


A irrupção de uma mistura de grupos fascistas, de extrema direita, supremacistas 
brancos e grupos e indivíduos conspiradores do QAnon no edifício do Capitólio dos 
EUA mostra a profunda debilidade que reina nos Estados Unidos, agravada por 
quatro anos de promoção de idéias e políticas reacionárias por Trump em uma ampla 
gama de questões. Aqueles que participaram da invasão do Capitólio apresentaram 
uma aliança de interesses que ia além da questão de classe. Então, você pode 
encontrar um CEO de uma empresa de análise de dados, um proprietário de uma rede 
de supermercado, um advogado e policiais, ao lado de professores, universitários, 
corretores de imóveis (agentes imobiliários), bombeiros, bartenders e tatuadores.

A invasão do Capitólio foi descoordenada e não havia um plano geral e conjunto 
para atingir um golpe, embora alguns dos que vieram a Washington estivessem 
armados. Um golpe requer um planejamento sério, bem como um certo grau de apoio 
entre a polícia, os militares e a classe dominante. Embora a débil defesa do 
edifício do Capitólio possa ser atribuída em parte à simpatia da polícia e da 
Guarda Nacional pela causa desses supostos insurrecionalistas, ela não estava nem 
perto do nível necessário para se realizar um golpe de Estado bem-sucedido. Nem 
tampouco a violência chegou próxima ao nível de uma insurreição duradoura.

Grandes setores da classe dominante, tanto dentro quanto fora das estruturas do 
Estado, foram incomodados nos últimos quatro anos pelas políticas isolacionistas 
de Trump e por seus ataques a uma "normalidade" desejada por eles. Ele é muito 
volátil, instável e irresponsável para seus gostos. A invasão do Capitólio 
forneceu uma desculpa para atacar Trump e seus apoiadores, conforme observado, 
ataques esses construídos em uma base de classe abrangente e compostos de 
bilionários de direita, proprietários de pequenos negócios, elementos 
marginalizados e alguns trabalhadores e profissionais descontentes.

Agora, esses setores da classe dominante buscam o restabelecimento do status quo 
em Biden e Harris. Nenhum desses políticos são amigos da classe trabalhadora e 
isso ficará óbvio nos próximos anos. Esta é mais uma razão para que um movimento 
independente da classe trabalhadora, que inclua e reconheça as necessidades dos 
nativos americanos, mulheres, hispânicos e negros, seja  construído para combater 
tanto o movimento de extrema direita e populista que Trump nutre e promove, 
quanto o antigo estabelecimento representado pelo Partido Democrata e pela velha 
guarda republicana.

Será necessário resgatar alguns trabalhadores brancos da influência do Trumpismo. 
Donald Trump cinicamente manipulou seu exército desorganizado de apoiadores e os 
traiu quando foi conveniente, como testemunhado primeiro por seu encorajamento 
ávido às multidões em Washington, seguido logo por sua denúncia às mesmas 
pessoas. Ele se alimentou da insatisfação e do ressentimento dos trabalhadores 
nos rust belts (cinturões da ferrugem) e em outros lugares, vítimas de anos de 
abandono por sucessivos governos, sejam eles republicanos ou democratas. Ele 
preencheu com sucesso o vazio deixado pela falta de um poderoso movimento 
independente da classe trabalhadora.

Devemos notar que a alta tolerância para com a multidão de Trump em Washington 
deve ser contrastada com o tratamento dado às manifestações Black Lives Matter. 
Na verdade, se eles, ou mesmo qualquer agrupamento revolucionário, tivessem 
tentado uma invasão ao Capitólio, o resultado teria sido uma resposta instantânea 
e brutal, e provavelmente um massacre. Também não devemos esquecer que 
classificar os apoiadores de Trump como "extremistas domésticos" é o mesmo 
tratamento que qualquer revolucionário receberia em diferentes circunstâncias, 
assim como seria a perda de empregos que alguns trumpistas estão experimentando 
agora como resultado do incidente no Capitólio.

O Capitólio é um símbolo do poder e riqueza da classe dominante. Não foi nenhuma 
surpresa o espanto que foi expresso pelos partidários de Trump, uma vez dentro do 
Capitólio, com a opulência deste templo para o poder da classe dominante.

Agora, a narrativa será centrada em torno da "defesa da democracia" e que todas 
as pessoas de bem deveriam se unir ao Partido Democrata. Mas é o sistema que os 
democratas e os republicanos defendem que produziu monstros como Trump. Biden foi 
rápido em condenar a raiva expressa em tumultos em muitas cidades como resultado 
dos contínuos assassinatos de indivíduos da classe trabalhadora, muitos deles 
negros. Ele continuará a fazer isso, a fim de apoiar a polícia e a fim de apoiar 
políticas pró-negócio que terão um efeito devastador sobre a classe trabalhadora 
e os americanos pobres.

No momento, é benéfico para a classe dos patrões ter no poder um defensor do 
status quo como Biden. Trump é visto como um constrangimento que deve ser 
eliminado do corpo político. Se um forte movimento revolucionário algum dia 
ressurgisse nos EUA, então criaturas como Trump ou sua laia seriam convocadas 
para criar movimentos populistas de extrema direita e restabelecer regimes 
autoritários.

Pode ser visto nas recentes declarações políticas que a administração 
Biden-Harris procurará seus aliados nas burocracias sindicais, entre os políticos 
de carreira e burocratas do movimento pelos direitos civis para manter seu 
controle e conter a agitação nos locais de trabalho e nos bairros. Além disso, o 
incentivo de Biden à energia verde e o apoio de grandes sucessos da mídia social 
como Twitter e Facebook a ele apontam para uma reestruturação do capitalismo 
americano que uma parte da classe dominante deseja, longe do protecionismo e do 
apoio às indústrias militares que os republicanos patrocinam.

Finalmente, vamos dar uma olhada na hipocrisia de muitos republicanos, ávidos por 
se dissociarem de Trump após o incidente no Capitólio, mas ávidos facilitadores 
até então. O mesmo vale para Theresa May, que foi uma entusiástica apoiadora 
neste país, assim como Boris Johnson, que recomendou Trump para o prêmio Nobel, e 
também como foi o odioso Michael Gove.

Outros admiradores de Trump no Reino Unido

Nigel Farage, é claro, apoiava Trump por completo, chegando mesmo a apoiá-lo no 
resultado da eleição presidencial, mas emitiu uma frase muito breve no Twitter 
alegando acreditar que o ataque ao Capitólio estava errado. Farage afirma ser um 
homem do povo, mas estava disposto a desperdiçar £ 10.000 (R$ 70.000) em uma 
aposta no resultado da eleição presidencial enquanto as pessoas perdiam seus 
empregos e não podiam alimentar seus filhos. Em novembro, Farage também mentiu no 
Twitter sobre a situação no quartel Napier em Folkestone, Kent (uma instalação 
que é usada para abrigar requerentes de asilo recém-chegados). Farage mostrou 
imagens de requerentes de asilo protestando (gritando com a polícia nos portões 
do quartel) alegando "todos querem hotéis quatro estrelas e uma viagem para 
Anfield". De fato, o cara que fez a filmagem em questão teve que apontar que o 
protesto era sobre o frio, as apertadas condições e o acesso a atendimento médico 
para pessoas vulneráveis - uma situação que qualquer um protestaria.

Outras figuras pró-Trump bem conhecidas no Reino Unido incluem Jacob Rees Mogg, 
que escreveu um artigo bajulador sobre Trump no The Times e fez muitas outras 
declarações pró-Trump. Em dezembro, Mogg afirmou que a UNICEF "deveria ter 
vergonha de si mesma" por gastar milhares de libras alimentando crianças famintas 
no Reino Unido, quando "deveria cuidar das pessoas nos países mais pobres e 
carentes do mundo". Isso nos diz tudo o que precisamos saber sobre o falso 
"populismo" de direita que usa a classe trabalhadora como peões em um jogo de 
dividir para governar em benefício do sistema.

Mudanças reais e significativas em nossas vidas só podem acontecer, não apenas 
por meio de ataques a um prédio do governo, não por meio de mais vigilância 
policial e estatal ou por meio de eleições capitalistas, - mas por uma revolução 
da classe trabalhadora que destrói o Estado, o sistema de classes e abole o 
capitalismo, por meio do qual compartilhamos poder e recursos em nossas 
comunidades coletivamente. Só podemos chegar perto desse objetivo com uma classe 
trabalhadora fortalecida e unida o tanto quanto possível, não dividida em 
democratas e republicanos, trabalhistas e conservadores - divisões que só 
beneficiam a classe dominante parasitária.

Fonte: 
https://www.anarchistcommunism.org/2021/01/10/the-bud-lite-putsch-or-the-storming-of-the-us-capitol/

Tradução > A. Padalecki

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