(pt) anarkismo.net: Bolsonaro e o espelho retorcido com Trump by BrunoL (ca, de, en, it)

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Segunda-Feira, 25 de Janeiro de 2021 - 08:35:43 CET


Dois líderes de países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) seguiram 
fielmente os passos do derrotado presidente Donald Trump. Um, de forma subalterna 
e colonizada, é o presidente brasileiro ---- O "trumpismo tropical" representa o 
conjunto de mensagens, signos, identidades políticas e posições reacionárias 
mesclando um passado conservador imaginário que relativiza o período colonial e a 
escravidão. Esse conjunto de horrores ganhou força com a eleição de Trump em 
2016, não por acaso o mesmo ano em que o governo de centro de Dilma Rousseff 
sofreu um golpe de Estado apelidado de impeachment. Na sua condição subalterna, 
Bolsonaro apostou que uma relação "privilegiada" com o representante da extrema 
direita estadunidense poderia fornecer alguns ganhos na diplomacia e nas relações 
econômicas. Nada disso aconteceu.

Bruno Beaklini (@estanalise) - artigo originalmente publicado no Monitor do 
Oriente Médio (www.monitordooriente.com)
Dois líderes de países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) seguiram 
fielmente os passos do derrotado presidente Donald Trump. Um, de forma subalterna 
e colonizada, é o presidente brasileiro e protofascista, Jair Bolsonaro. Outro é 
o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Comecemos pelo segundo.
O líder do Likud passou os últimos quatros anos na forma de simbiose, como um 
gêmeo univitelino do ex-dono de cassino. Sim, trata-se do mais que polêmico 
chauvinista assumido e acusado formalmente de corrupção, Benjamin Netanyahu, que 
atende pelo codinome de "Bibi". As relações entre Israel e EUA são de 
complementaridade, inclusive na massificação discursiva. Se por um lado o Estado 
sionista depende da ajuda militar e financeira do Império, por outro consegue 
impor sua agenda doméstica como se fosse de primeira grandeza internacional para 
os estrategistas de Washington.
Para quem ainda tiver alguma dúvida dessa capacidade, sugerimos a leitura do 
livro de John Mearsheimer e Stephen Walt, "O lobby de Israel e a política externa 
dos EUA" (indico aqui o artigo traduzido e não o livro completo, disponível em 
https://www.scielo.br/pdf/nec/n76/03.pdf). Nessa obra seminal, a dupla de 
consagrados cientistas políticos estadunidenses e professores de Relações 
Internacionais - ambos muito vinculados ao establishment da oligarquia do Império 
- explicitam a relação direta e, por vezes, subordinada dos Estados Unidos para 
com o governo de Tel Aviv.
Dessa forma, Israel consegue impor uma agenda ao Império, sendo o próprio Estado 
criado a partir da Nakba, na guerra de limpeza étnica liderada por Ben Gurion, 
entre 1947 e 1949, uma parte dessa articulação imperialista. Ao contrário do 
Brasil, o Estado sionista opera como cabeça de ponte dos cruzados, atuando com 
vontade própria. Já o governo sediado em Brasília, pelo próprio peso 
gravitacional do país sul-americano, tende a entrar em rota de colisão com a 
gravitação e projeção de excedentes de poder dos Estados Unidos. Em todos os 
territórios latino-americanos ocorre o mesmo fenômeno mas, no Brasil, Argentina e 
México, pelo tamanho e dimensão destes países, a pressão dos EUA tende a ser 
maior, embora com presença direta menos perceptível.
Trump, o ídolo de Bolsonaro e a colonialidade da posição subalterna
Existe um nível de dependência que é intrínseco à formação dos países 
latino-americanos, e se refere ao conceito definido por Aníbal Quijano como "a 
colonialidade do poder" 
(http://www.decolonialtranslation.com/espanol/quijano-colonialidad-del-poder.pdf). 
Dessa forma, a dominação se dá tanto de fora para dentro, como em um desembarque 
de fuzileiros navais no início do século XX (entre 1898 e 1934) durante as 
chamadas "guerras bananeiras" (https://www.historiando.org/guerras-bananeras/), 
como também pode existir na estrutura de mentalidade que organiza as instituições 
nacionais. Assim, por mais ousada que seja uma correta política externa, sem 
mudar as correlações de força domésticas, a tendência de somar ignorantes, 
imbecis, arrivistas e parasitas, todos devidamente colonizados intelectualmente, 
é gigantesca 
(http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/6926-revisitando-anibal-quijano-e-a-colonialidade-do-poder-na-america-latina). 
Tal é o caso do desgoverno Bolsonaro e seu espelho retorcido diante do ex-dono de 
hotéis de luxo e apresentador de reality show.
O "trumpismo tropical" representa o conjunto de mensagens, signos, identidades 
políticas e posições reacionárias mesclando um passado conservador imaginário que 
relativiza o período colonial e a escravidão. Esse conjunto de horrores ganhou 
força com a eleição de Trump em 2016, não por acaso o mesmo ano em que o governo 
de centro de Dilma Rousseff sofreu um golpe de Estado apelidado de impeachment. 
Na sua condição subalterna, Bolsonaro apostou que uma relação "privilegiada" com 
o representante da extrema direita estadunidense poderia fornecer alguns ganhos 
na diplomacia e nas relações econômicas. Nada disso aconteceu.
Os descalabros da chancelaria brasileira serão abordados em outro artigo. Já as 
supostas vantagens comparativas entre Estados Unidos e Brasil nunca existiram, 
concluindo o governo de Trump com o anúncio de que a transnacional e montadora 
estadunidense Ford Motor vai simplesmente encerrar suas atividades no Brasil 
(https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/01/11/ford-fecha-fabricas-e-encerra-producao-no-brasil-em-2021.ghtml). 
A desastrosa administração de Bolsonaro e Paulo Guedes nada fez e tampouco nada 
faz para defender o emprego industrial no país, culminando com a saída de uma 
empresa que está no Brasil há mais de cem anos 
(https://www.noticiasautomotivas.com.br/apos-101-anos-ford-encerra-producao-no-brasil/). 
Se isso caracteriza uma "aliança estratégica", como seria uma "aliança tática" 
com outro governo? Nenhum governo "amigo" deveria permitir a saída de uma fábrica 
vinculada ao Tesouro dos EUA, deixando em depressão econômica as regiões em que a 
empresa tem plantas industriais instaladas.
O caso da saída da Ford segue o padrão desde a primeira viagem oficial do 
presidente Bolsonaro e toda sua trupe aos Estados Unidos. Na ocasião, em março de 
2019, dos quatro pontos considerados positivos por parte da comitiva brasileira, 
pragmaticamente apenas um teria algum significado concreto. Vejamos: apoio dos 
EUA para a entrada do Brasil na OCDE; inclusão do Brasil como aliado extra da 
OTAN; visão positiva de parcerias para questões diplomáticas e, por fim, o início 
de conversas para firmar tratados comerciais, principalmente na área da 
agricultura 
(https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/03/20/interna_politica,744063/um-saldo-positivo-na-viagem-de-bolsonaro-aos-estados-unidos.shtml). 
Três alinhamentos subalternos e uma promessa de pragmatismo que não se realizou. 
Ao contrário, jamais houve reciprocidade em termos efetivos entre o Itamaraty e o 
Departamento de Estado americano durante o período. Ou seja, além da pregação em 
defesa da "civilização ocidental" e outras fantasias reacionárias, não houve 
avanço algum em área nenhuma.
O efeito final do "trumpismo nos EUA" sem Trump na Casa Branca pode ser o 
alinhamento de uma legião com milhões de manipulados em teorias conspirativas e 
alucinações semelhantes, culminando no ataque ao Capitólio de 06 de janeiro desse 
ano (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55568031). No Brasil, o 
"trumpismo tropical" pode recorrer a práticas semelhantes em 2022. Mas, até lá, o 
protofascismo terá de conviver com um "patrão diferente", lembrando-se de quem 
fez campanha contra sua candidatura.
Bolsonaro e o isolamento do Brasil no Sistema Internacional
O governo da extrema direita brasileira pode ficar isolado diante do 
reposicionamento do Império sob a administração Biden. Parece inevitável algum 
nível de tensão nos temas de meio ambiente, na retomada dos Acordos de Paris e em 
iniciativas multilaterais na prevenção do câmbio climático. Na defesa da 
soberania brasileira na Amazônia Legal é possível novo embate, já que os EUA 
podem ter no governo Bolsonaro, o "vilão perfeito", já que o presidente é aliado 
de Trump e defensor das piores práticas ambientais da história do Continente.
Retomando o início do artigo, a diferença entre Benjamin Netanyahu e Jair 
Bolsonaro é o peso relativo de cada um dos países. Israel se comporta com a mesma 
arrogância da África do Sul durante as décadas de 1970 e 1980 no conflito 
ampliado da África Austral. Já o Brasil, sob a tenebrosa administração da extrema 
direita aliada a especuladores e militares entreguistas, é como um gigante que 
tem medo e vergonha do próprio tamanho. Ao invés de exercer seu peso geopolítico 
e liderar o Continente voltando-se às relações Sul-Sul, se contenta em ser 
subordinado às agendas do Império, com o agravante de internalizar a agenda 
política doméstica para fins de manobra e manipulação de amplas bases eleitorais.
A tendência é o Brasil se tornar, de fato, um país não respeitado no Sistema 
Internacional no período que resta do desgoverno Bolsonaro.
Este artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente Médio 
(www.monitordooriente.com)
Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), de origem árabe-brasileira, é 
cientista político, professor de relações internacionais e de jornalismo e 
colunista do Monitor do Oriente Médio. Contatos: blimarocha  gmail.com / 
https://www.facebook.com/blimarocha/ / www.estrategiaeanaliseblog.com / 
t.me/estrategiaeanalise (Telegram) e 
https://www.youtube.com/channel/UCweS5s_1c0AvbXe5_iXYjKA (canal do Youtube)

https://www.anarkismo.net/article/32145


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