(pt) anarkismo.net: A subserviência do exército de Caxias e sua estúpida retórica contra a Venezuela by BrunoL (en)

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Domingo, 10 de Janeiro de 2021 - 09:01:02 CET


Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, um dos principais desejos de parcela 
do ambiente político e militar vem ganhando corpo, a realização de operações 
militares contra a Venezuela. ---- Assim que houve uma virada de mesa, quando o 
golpe com apelido de impeachment derruba o governo de centro da ex-ministra chefe 
da Casa Civil de Luiz Inácio, imediatamente os senadores tucanos Aloyisio Nunes 
Ferreira e José Serra avançaram de bom grado querendo ceder tudo para o 
Departamento de Estado do Império e petrolíferas amigas dos gringos. Na chamada 
guerra das redes, com a busca incessante por argumentos espantalhos, o país de 
Simón Bolívar e Ezequiel Zamora substituiu Cuba no imaginário da parcela 
brasileira do andar de cima e mais alinhada com o Comando Sul e o estilo 
"miamero" de estar no mundo. A questão se se segue é "por quê?".
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Pedro Guedes e Bruno Lima Rocha, ilustração exclusiva de Rafael Costa

Introdução: servilismo colonizado e anti-bolivariano

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, um dos principais desejos de parcela 
do ambiente político e militar vem ganhando corpo, a realização de operações 
militares contra a Venezuela. Durante os governos Lula e Dilma (2003-2016), por 
mais que oficialmente o governo brasileiro tivesse boas relações com o país 
vizinho, políticos de carreira, personalidades ligadas a entidades políticas de 
direita e extrema direita, militares e até membros da administração pública, 
defenderam o rompimento diplomático e se possível, um confronto militar com a 
Venezuela. Assim que houve uma virada de mesa, quando o golpe com apelido de 
impeachment derruba o governo de centro da ex-ministra chefe da Casa Civil de 
Luiz Inácio, imediatamente os senadores tucanos Aloyisio Nunes Ferreira e José 
Serra avançaram de bom grado querendo ceder tudo para o Departamento de Estado do 
Império e petrolíferas amigas dos gringos. Na chamada guerra das redes, com a 
busca incessante por argumentos espantalhos, o país de Simón Bolívar e Ezequiel 
Zamora substituiu Cuba no imaginário da parcela brasileira do andar de cima e 
mais alinhada com o Comando Sul e o estilo "miamero" de estar no mundo. A questão 
se se segue é "por quê?".

O país sul americano, que ao longo do Século XXI se tornou um parceiro econômico 
de considerável importância para o Brasil, possui uma característica que ou 
assusta ou ofende muitas pessoas no nosso país: um projeto político que seria 
baseado na interpretação chavista do Pensamento Bolivariano. A estupidez da 
direita brasileira insiste em elogiar o período anterior, o do Pacto de Punto 
Fijo, sendo este um acordo oligárquico entre os três maiores partidos políticos, 
definido em outubro de 1958 após o levante popular que derruba Pérez Jiménez. 
Quando o ex-presidente Hugo Rafael Chávez Frías foi eleito em dezembro de 1998, 
vindo a tomar posse em janeiro de 1999, seu compromisso político não passava em 
romper com o pacto oligárquico, combater corrupção e erradicar a pobreza. Uma vez 
que as finanças e recursos da gigante estatal petrolífera teriam de ser colocadas 
à disposição para o programa de distribuição de renda, seguida esta medida da 
convocatória e promulgação de uma nova Constituição, a direita começou a se 
retirar do processo político. Em abril de 2002 houve uma tentativa de golpe de 
Estado seguido de rebelião popular e contra golpe. Desde então nunca mais os 
partidos da oligarquia e da nova direita concorreram unificados, com exceção de 
abril de 2013, quando Capriles perde para Maduro por pequena margem. Chávez 
falecera em março daquele mesmo ano, tendo sido reeleito em outubro de 2012.

A política venezuelana já era muito conturbada com Chávez vivo, fica ainda mais 
dura, tanto no plano doméstico como no cenário internacional. Entre 2013 e 2016, 
Obama amplia os processos de bloqueio e sabotagem, e, a partir de janeiro de 2017 
a posse de Donald Trump como presidente dos EUA radicaliza tudo, incluindo 
sequestro de bens, depósitos, garantias e ativos do Estado venezuelano.

Voltando ao tema do "argumento espantalho" no Brasil, porque direita e extrema 
direita brasileira detestam tanto o chavismo sem Chávez, assim como odiavam com o 
ex-tenente coronel vivo? Seria por uma reprodução automática da lista de inimigos 
dos EUA? Está relacionada com o emprego dos recursos da PDVSA na promoção social? 
Seria uma crítica honesta contra o culto à personalidade e a militarização do 
país? Não alimentamos ilusões de grandeza intelectual da laia "nacional". Em 
tese, no discurso difundido, o "bolivarianismo" seria uma forma particularmente 
nefasta de "socialismo", seja lá o que isso signifique na metástase intelectual 
que acomete coxinhas e galinhas verdes! Se há um ponto de encontro no ódio à 
Venezuela, esse decorre do preconceito que existe no Brasil contra qualquer 
pensamento político-filosófico que seja diferente da lógica servil e neocolonial 
que domina o pensamento de boa parte das elites e classes médias por aqui. 
Lógico, que tamanho servilismo é aos Estados Unidos da América, confundindo os 
interesses da Superpotência com o dessas frações de classe colonizadas, 
subalternas, racistas, exploradoras e parasitárias em grande medida.

A hostilidade contra a Venezuela chega aos quarteis

Essa hostilidade à Venezuela, como já dita antes, mesmo sendo presente em todo 
século XXI, chegou a um patamar inédito até aqui, com a realização de exercícios 
militares pelo Exército Brasileiro (também chamado de Exército "de Caxias) na 
Região Amazônica, em setembro de 2020. Esse exercício, chamado de Amazônia 2020, 
envolveu 3300 homens (equivalentes a um Regimento com efetivo completo), vindos 
de unidades de todos os cinco Comandos Militares existentes no Brasil[1].

Nesse exercício foi simulado o seguinte cenário: um país vizinho, denominado de 
"País Vermelho" invade o território do "País Azul", que tem como objetivo, 
retomar os territórios perdidos, a partir de uma contraofensiva[2]. Ainda que a 
escolha das cores utilizadas possa suscitar possível direcionamento ideológico, 
com a cor vermelha sendo atribuída a Venezuela, cabe destacar que o padrão de 
identificação amigo/inimigo utilizada no planejamento das operações é baseado no 
padrão de identificação utilizado pela OTAN, o padrão BLUEFOR/REDFOR[3].

O que levanta suspeita quanto à execução do "Amazônia 2020" (que é realizado 
anualmente desde 2002) é a retórica cada vez mais hostil do Governo Federal, que 
em 2019 cogitou em participar de uma possível invasão à Venezuela, em conjunto 
com Colômbia e Estados Unidos[4].

Essa possível operação militar não atende a nenhuma necessidade formal e soberana 
do Brasil, pois os recursos naturais que a Venezuela possui o Estado brasileiro 
já é possuidor. Politicamente, uma hipotética vitória contra um país cercado, sob 
um bloqueio criminoso e escasso de bens fundamentais não nos traria prestígio 
algum na América do Sul. Muito pelo contrário. Uma provável derrota militar a 
partir da estratégia de resistência venezuelana, coincidentemente também 
defendida pelo Exército Brasileiro, mancharia ainda mais a reputação do país 
internacionalmente. Já a combalida economia brasileira, entregue aos desígnios 
neoliberais desde 2015, passaria maus bocados pelas restrições que o conflito 
poderia trazer. Mas então, o que move esse desejo do governo brasileiro hoje?

A ideologia servil e nada mais. Não é novidade o alinhamento ideológico do Brasil 
com os Estados Unidos, que vem desde os anos de 1940, no mínimo[5]. Contudo, 
desde 2015, vimos tanto a elite política brasileira como militares de alto 
escalão, explicitamente alinhados aos discursos e teses dos EUA. Após o golpe 
disfarçado de impeachment, o Governo Temer acelerou a subserviência do Estado 
brasileiro ao seu poderoso do Norte. Isso ocorreu a partir de duas maneiras e foi 
intensificado no governo Bolsonaro.

As duas formas de subserviência

A primeira forma de subserviência explícita foi assinatura de tratados militares 
com os EUA, onde temos a cessão do uso da Base Aérea de Alcântara, no Maranhão, 
sob as cláusulas no mínimo estranhas. Entre seus termos, está a proibição de 
pessoal brasileiro transitar em algumas áreas do complexo. O resultado mais 
visível desse acordo é a impossibilidade do desenvolvimento do programa espacial 
brasileiro, que ficaria refém das graças - ou garras do programa espacial 
estadunidense. Se fosse o caso de imitar o Império, teríamos de acelerar o 
programa espacial brasileiro ao invés de subordiná-lo a um país que lidera o 
setor Isso, no longo prazo, impacta no desenvolvimento de tecnologias[6].

Como se não fosse pouco, ainda há o pacto RDT&E (Sigla para Pesquisa, 
Desenvolvimento, Testes e Avaliação), que segundo seus entusiastas, seria o 
primeiro passo para inserir as empresas brasileiras no setor de defesa 
estadunidense. Entretanto, esse mesmo acordo abre o mercado brasileiro de defesa 
para as empresas dos EUA[7]. Enquanto a maioria das firmas do setor em nosso país 
são empresas pequenas, do outro lado temos a máquina do Complexo 
Industrial-Militar, composta por empresas gigantes, como a divisão militar da 
Boeing, ou a Lockheed Martin, que com facilidade, podem dominar e ampliar a 
desindustrialização do Brasil. Podem fazer isso através da aquisição de empresas 
menores ou a simples concorrência, com seus ganhos de escala e expertise.

Nesse ponto, ainda há o reconhecimento do Brasil como aliado prioritário 
extra-OTAN, que além de nos afastar da criação de soluções locais para os 
desafios dessa área, coloca o Brasil numa posição de amplificador local dos 
métodos e teses estadunidenses para a América Latina. Com isso importamos e 
espalhamos na América Latina "soluções" que são incompatíveis com os problemas 
das nações da região[8].

A segunda forma do estreitamento desse alinhamento irrestrito com os Estados 
Unidos ocorre pelo envio de oficiais para servir no âmbito do SOUTHCOM (Comando 
Militar do Sul Global dos EUA)[9]. Iniciado ainda no Governo Temer, essa ação 
declaradamente subserviente coloca em xeque a lealdade dos oficiais que para lá 
são enviados. Ao invés de defender o Brasil, mesmo em sua visão idealizada pela 
burocracia formal, estes militares prestam deferência à autoridade estrangeira, o 
que em hipótese de conflito, pode ser muito problemático. Além disso, o salário 
deste militar enviado para os EUA é pago pelo contribuinte brasileiro. Nós 
pagamos aqueles que em caso de ameaça militar, provavelmente não nos protegerão. 
Situação vexatória, absurda e injustificável.

O brigadeiro da Força Aérea Brasileira David Almeida Alcoforado, está no Comando 
Sul desde janeiro de 2020 e em outubro do mesmo ano foi alocado na como 
subdiretor na Diretoria de Estratégia, Diretriz Política e Planos (conhecida como 
J5), está encarregado de auxiliar no planejamento de operações do SOUTHCOM na 
área do narcotráfico[10]. Vale lembrar que tema esse que foi a desculpa para 
intervenções na América Latina nos anos 90. Além de trabalhar diretamente para 
uma potência estrangeira, expansionista e não interessada no desenvolvimento do 
Brasil, tem que passar por situações bizarras.

Em julho de 2020, o então comandante em chefe do Comando Sul das Forças Armadas 
dos EUA, Almirante Feller, em conversa com o ainda presidente Donald Trump, disse 
jocosamente que "o Brasil paga para ele (o brigadeiro brasileiro) trabalhar para 
mim". O mesmo foi dito para um oficial colombiano, também enviado para o 
Southcom[11].

Conclusão: um conjunto de infelicidades

Infelizmente tudo o que foi descrito neste texto forma a mais pura verdade, 
absolutamente irrefutável. Mais infeliz ainda é a situação vexatória em que se 
encontra nosso país, incluindo uma razoável parcela de sua camada dominante, 
burocracia militar de carreira mais que incluída. A retórica estúpida que sempre 
mescla política doméstica com "pertença civilizacional ou universo de ideias 
absolutamente abstratas" tende a criar ainda mais cegueira na massa de 
repetidores cibernéticos, e amplia a capacidade do exercício cínico da falta de 
razão para interesse próprio. A infelicidade desta gente se completa ao 
constatarmos que a retórica estúpida contra a Venezuela é um eco das vontades do 
Comando Sul do Império. Por sinal, nesta instância imperialista é onde oficiais 
latino-americanos de alta patente trabalham de graça, sendo pagos pelos 
contribuintes de nossos países para atuar contra os interesses da América Latina.

Pedro Guedes é internacionalista e gradando em direito (pedro_0141  hotmail.com)

Bruno Lima Rocha (Bruno Lima Rocha Beaklini) é militante socialista libertário de 
origem árabe-brasileira e editor dos canais do Estratégia & Análise, Contato: 
blimarocha  gmail.com | facebook.com/blimarocha
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Rafael Costa é desenhista e cartunista (E-mail- 
Rafael.martinsdacosta  yahoo.com.br. Instagram- @chargesecartuns )

Fontes:

[1]https://tecnodefesa.com.br/operacao-amazonia-2020-o-exercito-mostra-sua-capacidade-de-atuacao/
[2]https://www.forte.jor.br/2020/10/14/exercito-brasileiro-faz-simulacao-de-guerra-sem-precedentes-na-amazonia/
[3]https://www.alternatewars.com/BBOW/NATO_Symbols/APP-6.pdf
[4]https://www.defesanet.com.br/ven/noticia/38205/EUA--tudo-ou-nada-na-Venezuela-%E2%80%93-Brasil-a-tiracolo/
[5]https://jornalggn.com.br/artigos/acordo-militar-com-os-eua-e-volta-ao-passado-por-gilberto-maringoni/
[6]https://outraspalavras.net/desigualdades-mundo/alcantara-acordo-indigno/
[7]https://noticias.r7.com/brasil/brasil-assina-acordo-militar-com-eua-que-da-acesso-a-us-100-bilhoes-08032020
[8]http://reporterpopular.com.br/o-ocaso-da-escola-de-defesa-sul-americana-um-fracasso-planejado-da-integracao-regional-em-ambito-securitario/?fbclid=Iw...MFh8c
[9]https://dialogo-americas.com/pt-br/articles/oficial-da-forca-aerea-brasileira-assume-subdiretoria-no-comando-sul-dos-eua/
[10]https://www.trbn.com.br/materia/I27488/comandante-americano-brasil-paga-para-brigadeiro-trabalhar-para-mim
[11]https://www.brasil247.com/blog/sugerido-pelo-embaixador-celso-amorim-o-dia-nacional-da-vergonhat: 


https://www.anarkismo.net/article/32136


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