(pt) Anarquismo na Índia - Teoria e Práxis By A.N.A.

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Quinta-Feira, 30 de Dezembro de 2021 - 09:24:17 CET


Uma entrevista realizada pela Union of Green Libertarians da Grécia com a 
camarada Aranya do coletivo The Scarlet Underground ---- Union of Green 
Libertarians > Ok, vamos começar com as coisas mais básicas, como o projeto em 
si. O que é? ---- The Scarlet Underground < Ok, bem, The Scarlet Underground tem 
três partes do projeto - a primeira parte, é claro, é a ajuda mútua imediata que 
precisamos usar como ação direta para a comunidade rural na qual estamos 
localizados. Então o que estamos fazendo é 1. a conscientização, algo que o 
Estado deveria ter feito há muito tempo, sendo[sua falta]o motivo pelo qual a 
maioria das pessoas não entendem por que precisam de máscaras etc.; 2. produzir e 
distribuir gratuitamente as máscaras e 3. entregar produtos como arroz, daal 
(lentilha), soja e antissépticos etc. às vilas mais pobres daqui, que são Lodhas 
e Santhals, povos indígenas da Índia. Depois que o isolamento acabar, até 
dezembro, estamos planejando a construção de um centro comunitário que agirá como 
uma escola de permacultura, e também como uma clínica de saúde e assistência 
jurídica, que será construído em um terreno que o coletivo comprará junto e 
estamos planejando tudo para que possamos descobrir os contornos e escavações 
depressivas para reter água da chuva e, basicamente, a prática da permacultura no 
local, e a ideia é que, uma vez que os residentes locais verem a diferença entre 
permacultura e monocultura, mudarão a forma que plantam também. O outro plano é 
para construir um poço raso durante o mês de dezembro (ou talvez até depois, mas 
antes do verão) porque, se não vêm as chuvas, os fazendeiros perdem todo seu 
arrozal e os poços ajudariam a haver colheita do arroz no ano todo.

Ok, a última coisa é construir um outro centro comunitário em Calcutá, que é 
cerca de 3 km daqui, um tipo de parte-livraria e parte-hostel-e-cozinha, com 
instalação e sopa gratuitas, para os desempregados e os sem-teto. Também nos 
daria espaço para trazer voluntários e mais pessoas saberem sobre nosso projeto 
de permacultura em Jhargram, entre outras informações que seriam mais políticas. 
Tipo, tem uma fábrica de esponja de aço aqui e precisaremos começar a organizar 
as pessoas daqui para lutar contra ela. Da última vez, o líder do protesto foi 
encontrado pendurado em uma árvore na selva. Então sim, é bem sinistro.

Agora a questão é que precisamos que as pessoas contribuam como uma demonstração 
de solidariedade, e não de caridade - o que muitas pessoas obviamente não 
compreendem, então grupos internacionais como a FAU[organização 
anarcossindicalista]da Alemanha estão nos ajudando, e então há camaradas aqui que 
nos ajudaram também, mas não podem ajudar com muito (até 10,000 rupias é muito 
para nós). Ainda não adicionei os planos para Calcutá porque planejamos fazê-lo 
quando Flo e outros camaradas do estrangeiro chegarem em dezembro. A maior parte 
do TSU no momento são apenas fazendeiros, trabalhadores locais, estudantes e 
anarquistas: ao todo, diria cerca de 10 pessoas, das quais 3 estão em Calcutá 
agora. Uma vez que tudo está sendo feito por nós 7 no momento, com o apoio de um 
fazendeiro comunista que quer se juntar a nós, estaremos conversando com eles 
sobre tudo isso em breve. Semana que vem esperamos ter fundos suficientes para ir 
até a Aulgeria, que é uma vila Adivasi, e começar nosso trabalho com eles.

UGL > Então, basicamente, vocês estão construindo uma comuna do início, e é um 
ótimo começo. Minha segunda pergunta é, como vocês pensaram este projeto? Vocês 
tinham terras desde o começo ou tiveram que comprar?

TSU > Minha família era de proprietários de terras liberais até que meu avô virou 
comunista, então temos terras aqui que compramos de anglo-indianos que estavam 
deixando o país durante a partilha da Índia e, uma vez que toda a minha família é 
de esquerda, mantemos essa práxis viva, que é o motivo pelo qual minha mãe quer 
ser parte disto também e não se importa que trabalhemos aqui - na verdade, ela 
está cheia de ideias.

A terra que queremos transformar na comuna é literalmente uma floresta - fica ao 
lado de uma reserva florestal e é cheia de sakhuas, entre outras árvores 
frutíferas etc., então terá muito trabalho a ser feito quando começarmos. Mas o 
trabalho principal e imediato é agora a assistência mútua pelo Covid-19, para 
qual estamos levantando fundos. Ontem os policiais agrediram e humilharam os 
residentes locais da vila por não usarem máscaras, por exemplo.

Então agora é imperativo que façamos a distribuição de máscaras para tantas 
famílias quanto possível e conscientizemos sobre o Covid - um de nossos camaradas 
já fez pôsteres sobre isso, então será o que faremos nesta semana, imprimir os 
pôsteres e panfletos e distribuí-los com as máscaras.

Pela próxima semana, se tivermos recursos, iremos à Aulgeria, onde, basicamente, 
compramos a colheita local de arroz e distribuímos às pessoas, e também damos o 
resto dos produtos, sabão, antisséptico etc. Documentaremos tudo também, então 
você poderá ver o trabalho de auxílio quando tiver início.

UGL > Qual é o nome da cidade na qual seu projeto está se desenvolvendo?

TSU < Na verdade, é uma vila, mas é perto de Jhargram, fica dentro do distrito de 
Jhargram. O lugar é chamado de Niribili, você pode encontrá-lo no Google, meus 
pais costumavam geri-lo como uma estadia familiar (meu pai faleceu de Covid em 
novembro passado). A vila se chama Garh Salboni.

De todo jeito, até conseguirmos dinheiro o suficiente para comprar nossos 
próprios acres de terra, teremos que usar essa terra como nossa base, o que é a 
ideia de tanto os fazendeiros quanto os "donos" por conta das ideologias similares.

UGL > Isso é bem legal. O que os residentes locais pensam do que vocês estão 
fazendo? Vocês já recrutaram algum membro?

TSU < Bem, dos 7 de nós trabalhando aqui, 3 são da região e tem outro entrando. A 
população local está contente com o nosso projeto - são os partidos políticos 
dentro das vilas que geralmente tentam dizer que o trabalho de ajuda mútua foi 
feito por eles etc., mas esse tipo de ação direta sempre parece ter um impacto 
positivo, na minha experiência. Tem também outro homem chamado Kabir que 
possivelmente se juntará a nós - estou esperando por uma reunião com ele quando 
seu trabalho acabar em alguns dias. Então sim, estamos realmente tentando fazer 
este projeto o mais local possível, dada que essa é a melhor forma de promover 
solidariedade e a ideia de autonomia.

UGL > Parece que seu projeto é uma fagulha de esperança em um mundo de escuridão. 
Vocês cooperam com outros coletivos? Quero dizer ambos a nível nacional e 
internacional.

TSU < Nós cooperamos com a FAU alemã, que nos ajudou muito. A IWW inglesa não 
ajudou de verdade, mas quando foi que os britânicos já ajudaram os indianos? 
Muitos anarquistas, a nível individual, cooperam conosco, mas, em sua maioria, 
foi a FAU quem nos ajudou com muitos recursos e, a nível nacional, há indivíduos 
que contribuem com ambos trabalhos e fundos, mas não são muitos.

Estamos tentando nos manter mais próximos à Araj e à BASF, baseadas em 
Bangladesh, mas isso ainda está em período embrionário, mas ainda não tivemos 
oportunidade de cooperar com coletivos anarquistas da Grécia ou Espanha, ou 
América Latina.

UGL > É bom saber que a FAU está ajudando, eles planejam uma visita? Quanto aos 
camaradas de Bangla, por favor, conte-me mais. Sei nada sobre autonomia e 
anarquismo em Bangladesh.

TSU < Para ser honesta, não sei muito, mas há muito mais grupos anarquistas em 
Bangladesh; BASF é um sindicato[anarcossindicalista], Araj é uma cooperativa 
anarquista, se não me engano. Araj basicamente significa "sem Estado" em Bangla.

UGL > Deveríamos confederar e ajudar uns aos outros. Com esta entrevista, planejo 
que camaradas gregos aprendam sobre vocês. Contudo, a geografia tem seu papel e é 
algo bom que vocês entraram em contato com camaradas de Bangla. E o Paquistão?

TSU < Todos nós aqui amaríamos confederar com o seu grupo! Adoraríamos saber mais 
sobre ele também, e talvez pudéssemos visitar e aprender uns com os outros no 
futuro. Bem, não sou muito versada em grupos anarquistas paquistaneses - a 
demonização do povo de lá é suficiente para blindar o que realmente está 
acontecendo por lá. Tenho certeza de que há grupos, mas penso que têm que ser 
muito cuidadosos por conta do Estado e também do fundamentalismo religioso. Um 
anarquista paquistanês uma vez quis me encontrar, chegou até a Índia, mas foi 
forçado à delegacia todos os dias e foi basicamente tão assediado que ele 
literalmente chorou por muito tempo e voltou ao Paquistão.

Estive em contato com o Food Not Bombs das Filipinas, eles são muito, muito 
legais e realmente encontraram seu próprio jeito de alcançar as pessoas por shows 
punks, por exemplo.

UGL > Como vocês vão proceder depois de completar o projeto Kolkata? Planejam em 
criar uma rede de comunas baseadas em solidariedade pela Índia?

TSU < Sim, esse é basicamente nosso plano. Da mesma forma que tentamos 
influenciar pessoas diferentes nas cidades por agitprop, seminários e trabalho 
voluntário sobre o que anarquismo e ajuda mútua realmente significam, e então 
ajudá-las a organizar suas próprias comunas cooperativas, o que penso ser 
importante porque, nas primeiras vezes fazendo isso, você com certeza falhará, 
mas, ainda assim, aprenderá tantas coisas e, aos poucos, pode se aperfeiçoar. Se 
tudo correr bem, espero então que até 2040 (quando as mudanças climáticas muito 
provavelmente irão se tornar extremamente destrutivas, algo que não podemos 
prever como espécie) tenhamos essas comunas agrupadas como uma federação em que 
estamos sempre cooperando e resolvendo problemas autonomamente, ao invés de 
esperar que o primeiro-ministro perceba que sua vila inteira está passando fome e 
sem arrozais. Mas, sim, isso é apenas um sonho até que nós possamos seguir com os 
planos e construir a comuna.

Penso que, uma vez que consigamos começar o centro comunitário, ambos em Salboni 
e em Kolkata, as coisas vão começar a fluir. Ainda estamos tentando descobrir 
onde podemos arrecadar dinheiro (como uma cooperativa, para nos sustentar), ou se 
nossa produção será suficiente. Vamos ver o que acontece. Até dezembro, nada 
disso vai acontecer, estaremos apenas trabalhando em vilas do distrito de 
Jhargram com comida e suprimentos, máscaras gratuitas e campanhas de 
conscientização etc.

UGL > Vejo muita similaridade entre o projeto de vocês e o nosso, especialmente 
agora que você mencionou mudanças climáticas. Mais cedo, você mencionou fazendas 
cooperativas e permacultura e, até onde eu sei, planícies indianas são bem 
adequadas para o plantio. Vocês pensam em começar novas fazendas?

TSU < Nós amamosa permacultura. Isso é o que estamos tentando fazer na floresta 
daqui! Eu obviamente não aprendi sobre em lugar algum, mas tenho tentado aprender 
sobre isso, ler sobre isso, e pratiquei com as minhas plantas de companhia e 
algumas outras táticas, é incrível o quão diferente a permacultura pode deixar 
sua floresta. Flo me disse apenas que vocês são anarquistas verdes, então 
imaginei que vocês pratiquem a permacultura, então, sim, fiquei muito animada. 
Adoraria saber mais sobre o que vocês fazem e sobre seu cultivo e suas experiências.

UGL > Bem, eu não sou anarquista, sou um autonomista que foi influenciado pelos 
anarquistas anti-civ e verdes de hoje. O resto do pessoal é composto 
majoritariamente de camaradas anarquistas verdes. Começamos a trabalhar nas 
fazendas no começo de novembro e temos progredido bastante desde então. No 
momento, estamos esperando a colheita estar pronta e uma porção dela será 
distribuída entre proletários pobres. A permacultura economizou muito dinheiro e 
estamos trabalhando também em food forests e em cabanas de madeira nas quais 
pessoas podem ser alojadas. Também praticamos rebanho de animais, e vocês?

TSU < Eu sou anarquista, fui muito influenciada por Kropotkin, Camus e Goldman, e 
Bhagat Singh, que foi um revolucionário indiano. Sempre estive dividida entre 
anarquismo verde e vermelho porque, para mim, as mudanças climáticas sempre foram 
a maior causa da mudança radical e aqueles responsáveis por elas são os 
capitalistas. Trabalhei então com MLs, maoístas, e tivemos nossa própria zine e 
coletivo chamado Eyezine, depois do qual surgiu o Kaloberal Collective, que 
falhou novamente, e, então, em 2020, começamos o People's Solidarity Collective, 
que é um coletivo de ajuda mútua, que basicamente se tornou o The Scarlet 
Underground. Então este projeto é uma mistura de preto e verde e de preto e 
vermelho, pode-se dizer.

Tivemos algumas vacas no passado, agora temos muitas galinhas e cachorros. E 
elefantes, há muitos deles aqui agora para comer as mangas e as jacas.

UGL > Isso é bem legal. Então vocês têm algum passado do qual podem usar a 
reputação para crescer o projeto em número e qualidade. Ovos, leite e queijo 
podem ser uma boa fonte de comida nutritiva para o pessoal mais pobre (sic). Vejo 
que suas atividades são muito como as nossas, de base rural. Contudo, já que 
vocês planejam expandir para centros urbanos, como vão proceder? Pensamos em 
criar jardins verticais em ocupações, mas nada além disso. E vocês?

TSU < Infelizmente, aqui em áreas urbanas custa uma fortuna conseguir uma casa 
com terras para se usar. No melhor dos casos, penso que será por um jardim 
comunitário no interior da casa, onde possamos praticar a permacultura, mas em 
cubas grandes de plástico ou cerâmica. Dessa forma, quem entra no centro 
comunitário sai com alguma ideia e talvez alguma curiosidade sobre a permacultura.

UGL > E quanto a ocupações?

TSU < Ocupações são difíceis em Calcutá, são feitas geralmente pelos sem-teto; 
podemos, contudo, cooperar com eles e fornecer comida. O problema é que é muito 
mais difícil para fazer seu trabalho diário porque aqui você apanha da polícia.

UGL > Entendi. Aquelas ocupações em Calcutá são localizadas nas periferias? Tem 
muito policiamento na região?

TSU < Muitas delas sim. Há muitos militantes na região também, sim, mas eles 
fazem as próprias moradias nas periferias e o Estado fode tudo para eles e para 
qualquer ONG por lá.

UGL < Esperamos que seu projeto vá bem. Vamos prosseguir com a confederação e 
esperamos que mais coletivos se unirão a nós em criar uma rede global de 
solidariedade. Saudações para vocês, camaradas!

TSU > Salve!

Página do Facebook do TSU: https://www.facebook.com/thescarletunderground

Site do TSU:http://thescarletunderground.com/

Fonte: 
https://prasinoieleutheriakoi.wordpress.com/2021/05/06/anarchism-in-india-theory-and-praxis/

Tradução > Sky

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agência de notícias anarquistas-ana


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