(pt) fae bahia: O que fere o teu masculino? (en, it)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sábado, 5 de Setembro de 2020 - 08:27:33 CEST


Com o avançar dos debates que evidenciam as opressões de gênero enquanto um pilar essencial de manutenção do Estado e do capitalismo, é 
imprescindível a morte imediata e incontestável das concepções que formam e/ou formatam a masculinidade, aqui, dirijo-me não só 
masculinidade branca e heterossexual, mas, à todas aquelas que ao longo dos séculos foram sendo criadas ou recriadas tendo por base 
essencial esse padrão. Contudo, para a existência desse massacre basilar, é necessário que todo aquele que se pretenda um 
indivíduo-ferramenta na luta revolucionária anticolonialista não se furte a conflitar o que molda sua existência, percebendo em si e nos 
seus comportamentos a primeira zona de combate para a mudança da sociedade.
     Mas que linhas invisíveis demarcam e moldam o terreno ideológico da masculinidade? É importante ter em mente, ao nos debruçar nesse 
questionamento, que o conceito de masculinidade foi alvo de disputa histórica tomando a forma com que conhecemos a partir dos últimos 
séculos. Kimmel (1998) traz que a partir da primeira metade do século XIX, passa a existir na Europa e nos Estados Unidos um novo "ser 
masculino", o Self-Made Man, que devia a todo instante se provar e demonstrar seu valor a partir da aquisição de bens e elevação de cargo e 
importância social. Esse modelo de "ser homem" vai ser posto como modelo básico do viver capitalista sumariamente importado e debatido no 
resto do mundo em conjunto com os ideais higienistas e liberais. Essa constante necessidade de provar-se homem cria a tendência de desmontar 
e inferiorizar todas as outras formas de ser homem, é a partir desse movimento de contradição que se molda o hegemônico, delimitando os 
outros enquanto os outros em uma relação de superior versus inferior, que é por conseguinte, uma relação de poder.

     Ressalto a importância desse movimento onde "hegemônico e o subalterno emergem em mútua e desigual interação, em uma ordem social e 
econômica com uma demarcação prévia distorcida de gênero" (KIMMEL, p.103, 1998). Nesse momento, virada do século XIX, a raça e a classe são 
somadas com outros caracteres para criação de estereótipos que vão ser utilizados em um processo de estigmatização que é sintomático. Homens 
negros, indígenas vão ser tratados enquanto selvagens, violentos, irracionais ao mesmo tempo que são incapazes de sustentar suas famílias, 
ingênuos e incultos assim como, homens gays e mulheres vão ser alvos preferenciais dessa violência estrutural do gênero. A construção dessa 
hegemonia tem por objetivo principal delimitar masculinidades que vão ser sumariamente tratadas como problemáticas ou desviantes, para com 
isso, tornar mais simples ao homem burguês exercer e disputar discursivamente suas masculinidades com seus semelhantes, garantindo ao mesmo 
um tempo uma ferramenta segura para afastar os concorrentes dessa narrativa.
     Relegada ao campo do físico e da irracionalidade a masculinidade do homem negro vai ser entendida por Nkósi (2014) num processo de 
projeções simultâneas, ao mesmo tempo que o corpo negro é dotado de atributos físicos invejáveis, reside neles o instinto selvagem da 
violência; ao mesmo tempo que possui um pênis gigantesco, reside nele a tendência ao abuso sexual e ao estupro; ao mesmo tempo que são 
inocentes e influenciáveis, são socialmente perigosos, preguiçosos e viciados, ou seja, o "negro é representado como contraponto antiético 
do ser humano" (Nkósi, 2014, p.83). Esses rótulos que são sumariamente construídos, principalmente nas sociedades norte-americana e 
brasileira, transformam homens negros, contraditoriamente, em indivíduos invisíveis que oferecem perigos constantes às estruturas sociais, 
justificando sua perseguição, encarceramento e assassinato promovidos initerruptamente pelo Estado. Esses estereótipos que interseccionam 
gênero e raça, são estendidos aos povos indígenas no Brasil sofrendo poucas mudanças no quadro geral, visto como um povo "atrasado" frente 
ao progresso. O homem indígena é tido como inculto e ingênuo dotado de uma masculinidade selvagem, inferiores ao homem hegemônico por não 
possuírem ferramentas intelectuais para compreender a sociedade moderna. Eles não merecem possuir suas terras pois não sabem como gestá-las 
em prol da produção capitalista, devem, portanto, cedê-las aos grandes homens brancos detentores dos maquinários e meios capazes de dar rumo 
ao progresso capitalista.

     Contudo, é indiscutível que, ao construir-se enquanto hegemônico, é sobre as mulheres e homens gays que o padrão de masculinidade 
branca e heterossexual deposita seus conceitos de inferioridade, frisando que esse movimento é extremamente acentuado pelo racismo. Cabe a 
esses indivíduos os ônus da construção de um padrão de masculinidade branca que é a principal causa de que mulheres e homens gays negros 
tenham suas vidas marcadas pela violência racial e de gênero sumariamente construídas e reafirmadas como necessárias e corretivas para 
corpos que não se adaptaram à norma.

     Problematizando ainda mais o conceito socialmente produzido de ser masculino e de masculinidades, as existências trans põem em crise 
todo o discurso que gira em torno no binarismo, esse sistema que delimita o masculino e feminino como traços biológicos, elencando 
possibilidades e vivências fora dos moldes de gênero hegemonicamente traçados. Pouco se têm de estudos sobre as transmasculinidades o que 
revela a dificuldade social em aceitação e reconhecimento desses corpos, muitas vezes enquadrados como mulheres lésbicas masculinizadas, "é 
como se os comportamentos e os significados considerados masculinos emanassem necessariamente da presença material original do pênis." 
(ALMEIDA, 2012, p.519).

     Esse conceito do ser masculino construído como zona de conforto para que homens brancos pudessem limar discursivamente a existência de 
outros e galgar livremente ascensões sociais, tornou-se estrutural a tal maneira que é pilar do capitalismo e seus sistemas de 
retroalimentação. Num sentindo geral, a existência de uma masculinidade hegemônica e percebida primeiramente pelos corpos alvos de sua 
violência reforçados pelas marcas de um poder construído na branquitude e heterossexualidade compulsória que relega às outras existências 
impossibilidades sociais predefinidas. Assim, somente a destruição de todo o sistema dessa masculinidade existente é que pode abrir caminho 
à uma nova abordagem de gênero/raça onde os subalternos possam ter voz ativa e produzir livremente suas existências.

Referências

ALMEIDA, Guilherme. "Homens trans": novos matizes na aquarela das masculinidades?. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 513-523, 2012.

KIMMEL, Michael S. A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes antropológicos, v. 4, n. 9, p. 103-117, 1998.

MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea. Universidade de Brasília, Departamento de 
Antropologia, 2001.

NKOSI, Deivison Faustino. O pênis sem falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidade e racismo. Feminismos e masculinidades. Eva 
Alterman Blay (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014.

https://faebahia.blogspot.com/2020/08/o-que-fere-o-teu-masculino.html


Mais informações acerca da lista A-infos-pt