(pt) Pode parar, com essa ideia de representação: candidatos de esquerda recebendo dinheiro de banqueiros por FARJ

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Domingo, 18 de Outubro de 2020 - 08:46:49 CEST


Recentemente um grande debate surgiu em torno de uma pequena candidatura a vereador em Duque de Caxias/RJ. A candidatura em questao 
proclama-se anticapitalista, assim como seu partido, porém recebeu 75 mil reais de financiamento por parte de banqueiros e especuladores do 
mercado financeiro, um dinheiro que está evidentemente manchado de sangue dos povos oprimidos. Como é que se diz lutar por uma saúde e uma 
educaçao digna, contra a Emenda Constitucional 95, que congela por 20 anos os investimentos em direitos sociais básicos, ou por mais 
investimentos no SUS, recebendo apoio daqueles que vivem da dívida pública, cujo o pagamento é o principal argumento para se seguirem com os 
ajustes fiscais? Como consequência disso, parte de seu partido está exigindo que ele devolva esse dinheiro, pois estaria ferindo os 
princípios anticapitalistas da organizaçao. O candidato porém respondeu que aceitou esse dinheiro e nao irá devolvê-lo alegando que nao 
estará se sujeitando aos seus doadores e que isto servirá para que ele possa realizar seus projetos que irao beneficiar os mais pobres de 
Caxias. Recebendo inclusive apoio de "estrelas" do partido, que acusam os críticos de racismo. Nada de novo sobre o sol...

A estratégia de controle social vem se renovando com a milícia avançando como novo modelo de domínio das favelas e bairros do Rio de 
Janeiro. Nao como poder paralelo, mas como um tentáculo do Estado, já que gestores do Estado se confundem com agentes. As possibilidades de 
construçao de uma luta efetiva nestes territórios já se mostram quase que como clandestinas, pois há um assassinato sistemático daqueles que 
fujam a seus desmandos. Há importantes lições a se aprender com a morte da lutadora social Marielle Franco. No campo e nas florestas as 
lideranças vêm sendo assassinadas, os recurso naturais exterminados juntos com os povos que deles cuidam e sobrevivem. Este cenário nao 
surgiu com Bolsonaro, mas vem se construindo há anos, com o incremento do aparato repressivo, seja por aspectos jurídicos, ou pelo 
fortalecimento da atuaçao dos militares em GLO's, invasões nas favelas, ou as controlando quando ocupadas. A volta gradual dos militares na 
vida política do país pós-ditadura foi operada silenciosamente, tem suas origens nos primeiros mandatos petistas, com o envio de tropas ao 
Haiti, com a autorizaçao de Dilma da ocupaçao militar da Maré e hoje se concretiza nos mais de 6 mil militares exercendo variadas funções no 
governo federal.

A esquerda eleitoral freou os atos "Vidas Negras Importam!" surgidos em maio com a morte de Joao Pedro, no calor da luta antirracista 
internacional, dizendo que deveríamos respeitar o isolamento social. Talvez porque nao sabiam que o isolamento nunca foi a realidade para 
uma grande parte de nossa classe, espremida em ônibus, BRT's, metrôs e trens, devido às mudanças no mundo do trabalho para as quais, 
inclusive, o PT tanto contribuiu. Ou, encastelada no usufruto de seus direitos - perdeu o contato com povo - e passa a defender esses 
direitos, como se eles fossem universais. A potencialidade da luta antirracista quando esta é construída de forma coletiva, com mobilizações 
nas ruas, com radicalidade e combatividade, sem conciliaçao com nossos algozes, é vista muito claramente nos EUA. O governo estadunidense 
sentiu medo ao ver a continuidade e o número de pessoa que o movimento negro colocou nas ruas, cuja mobilizaçao pode ser o maior da história 
dos EUA[1]. Nao foram com belas palavras no parlamento que a maior potência militar do globo se dobrou, mas com ações de massa nas ruas. A 
radicalidade nao veio de pequenos grupos isolados, mas do povo preto organizado e seus aliados, enfrentando os aparatos de repressao e 
representaçao. Arminio Fraga diz se preocupar com o racismo e dá dinheiro para incentivar a representaçao, porém o que ele tem medo é da 
apresentaçao do nosso povo nas ruas. Nao veremos o mesmo apoio caso o Brasil fosse tomado pela revolta daqueles para os quais o Estado só se 
apresenta pela ponta do fuzil. Nao haveria dinheiro do Fraga (e nao o queremos) a movimentos populares que combatem o sistema capitalista. 
Nao há comoçao com as mais de 140 mil mortes, das quais a maioria é negra, e morre por estar sendo obrigada a trabalhar e porque temos um 
sistema de saúde pública que vem sendo sistematicamente desmontado há anos.

O que vemos é uma política de investimento do grande capital motivada por interesses de desmobilizaçao das massas, o empoderamento é 
colocado apenas no plano individual, em representantes e celebridades, desviando assim a capacidade coletiva de romper com as correntes 
impostas pelo capitalismo. Há um trabalho planejado e consciente da burguesia, em financiar por meio de think-tanks (institutos dos ricos) 
as candidaturas de esquerda e domesticá-las ainda mais. Sabemos como isso começa e como isso termina. Falam em "mandatos coletivos", 
representatividade, mandatos controlados pela base, onde os movimentos supostamente opinam. Curiosamente o mesmo discurso do 40 congresso 
nacional do PT em 1986, que criticava mandatos parlamentares afastados das bases e de um partido que ficasse apenas restrito como 
instrumento de conduçao ao parlamento. Ano após ano, eleiçao após eleiçao, as concessões inevitavelmente foram realizadas e cada vez mais os 
discurso anticapitalista, a democracia de base, foi se esfumaçando. Sabemos como essa história "terminou".

Nós, anarquistas, "concebemos o poder como uma relaçao social estabelecida a partir do enfrentamento entre diversas forças sociais, quando 
uma ou mais forças se impõem às outras"[2]. Saos forças da classe dominante que vêm impondo suas vantagens e definindo nosso destino, 
cumprindo o Estado papel essencial para a dominaçao. Sao essas forças que, com poder material, decidem as eleições, nao a livre vontade dos 
sujeitos em seu voto pessoal. Nao acreditamos que é por meio de uma estrutura que tem servido historicamente para oprimir, manter a 
exploraçao, reprimir e assassinar os nossos, que virá a mudança que necessitamos nessa correlaçao de forças. Nao acreditamos que é se 
aliando com um comandante da Policia Militar que daremos fim o genocídio de nosso povo, assassinado dentro de suas casas, arrastado pelos 
camburões, e que as vezes nao tem nem a possibilidade de enterrar seus mortos. Que tipo de políticas e projetos um vereador é capaz de 
implementar frente a uma maioria de direita e miliciana? As mudanças que necessitamos nao virao deste lugar. O candidato usa belas palavras, 
mas como todos, projeta apenas seu ego pessoal na busca de um palanque performático, como é de praxe de seu partido.

A disputa eleitoral é a disputa pela gestao do Estado, ou seja, da manutençao da ordem capitalista e do sistema de dominaçao. Mesmo que 
ganhando, nao é possível efetivar políticas de fato anticapitalistas. Portanto, realizar esta disputa nos marcos do ‘socialismo' é 
hipocrisia, oportunismo ou ingenuidade. Ao mesmo tempo que assistimos às palhaçadas e esquemas de corrupçao históricos de mais um governador 
incriminado, prefeitos responsáveis pela destruiçao da vida de centenas de milhares de pessoas se candidatando com mais mentiras e falsas 
promessas, estes partidos buscam ganhar espaço nos espaços de governo para ‘defender os pobres' a partir de programas mais ou menos ousados 
de reformas. Daí, das duas uma: ou o partido consegue um grande apoio e conseguirá governar com sucesso, permitindo que a polícia siga 
matando o povo preto e favelado e que os patrões sigam ganhando a vida sobre o esforço de quem trabalha, e deixará tal partido de incentivar 
a organizaçao dos de baixo, roteiro que já vimos antes; ou entao nunca conseguirá governar e estará condenado a permanecer para sempre na 
oposiçao. A democracia seria muito linda, nao fosse ela um show de horrores.

Nao tem nada de muito novo na política brasileira, mas como diz a continuaçao da parte da letra do samba que dá nome ao título deste texto, 
"os bastidores se fecharam para a desilusao".

Nós estamos convencidos de que a liberdade política é uma mentira no que concerne à classe trabalhadora. Os pobres nao recebem nenhum 
benefício com o fato de poder designar o homem que vai dominá-los, e é por isso que lutamos pela emancipaçao econômica do proletariado, e 
nosso objetivo é que a terra e a maquinaria de produçao fiquem em poder de todos e cada um dos habitantes do México, sem distinçao de sexo

  Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano

Com essas palavras os e as revolucionárias do México responderam às propostas de paz da burguesia após a derrubada do ditador Porfírio Diaz 
em 1911. Nao havia espaço para a conciliaçao, a queda da ditadura se fosse seguida por um governo "democrático" nao significaria o fim da 
opressao dos latifundiários e dos gringos. Indígenas, camponeses\as e operários\as, avançaram rumo à tomada das terras e das fábricas, sem 
passar pelos gabinetes, erguendo a bandeira de Terra e Liberdade, pois a emancipaçao da classe trabalhadora, diziam, pode ser apenas obra da 
própria classe trabalhadora, e suas próprias lideranças - como Ricardo Flores Magón, Praxédis Guerrero e Emiliano Zapata - eram conscientes 
de que um povo forte nao precisa de chefes.

Se hoje os de cima detêm o monopólio da violência e escolhem quem vai viver e quem vai morrer pela cor da pele, a mudança disso só poderá 
vir por nossas maos, de baixo para cima. Se queremos mudar as coisas de fato e conquistar uma vida digna, temos que mirar - a partir da 
construçao de um programa de transformaçao social concreto e radical - para além dos políticos, para cima dos ricos e dos nossos patrões: os 
privilegiados detentores da riqueza e do poder. Fora isso, é ilusao. Como cantava Almir Guineto: É mentira! Cadê toda promessa de me dar 
felicidade? Bota mel em minha boca, Me ama, depois deixa a saudade, será... Será que o amor é isso? Se é feitiço, vou jogar flores no mar. 
Um raio de luz, Do sol voltará a brilhar, Que se apagou e deixou noite em meu olhar.

Utópico é falar em problemas estruturais em nossa sociedade enquanto busca-se a conciliaçao e a participaçao nestas estruturas de 
dominaçao,afinal como alertava Bakunin antigos operários, mas que, tao logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarao de ser 
operários e pôr-se-ao a observar o mundo proletário de cima do Estado; nao mais representarao o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de 
governá-lo. Devemos de uma vez abandonar estas ilusões. A autogestao da sociedade, a democracia sem Estado, nao existe apenas em nosso 
programa, é uma realidade hoje em Chiapas (México) e em Rojava (Curdistao Sírio), experiências que apontam para o único caminho 
revolucionário possível: organizar o povo em movimento populares de massa com uma perspectiva anticapitalista, antiestatista, 
anti-patriarcal, anti-racista e profundamente ecológica. Todo o resto é ilusao.

FARJ-CAB, outubro de 2020

[1]https://quilomboinvisivel.com/2020/08/02/black-lives-matter-pode-ser-o-maior-movimento-da-historia-dos-eua/

[2]CAB - "Nossa concepçao de Poder Popular" https://www.anarkismo.net/article/23022
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FARJ | 13/10/2020 às 18:47 | Categorias: Eleições | URL: https://wp.me/p1JXNu-15K	

https://anarquismorj.wordpress.com/2020/10/13/pode-parar-com-essa-ideia-de-representacao/


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