(pt) Agroecologia e Anarquismo Organizado: Uma Entrevista com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

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Sábado, 28 de Novembro de 2020 - 09:31:05 CET


Black Rose Anarchist Federation, entrevista, FARJ, Federação Anarquista do Rio de 
Janeiro, Federação Anarquista Rosa Negra, Federación Anarquista Rosa Negra, 
Frente de Luta Camponesa, luta pela terra, Rio de Janeiro ---- Divulgamos 
tradução de entrevista feita pela companheirada da Federação Anarquista Rosa 
Negra, dos EUA, com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro. Original em inglês 
aqui. https://blackrosefed.org/agroecology-organized-anarchism/ ---- Em resposta 
ao modelo industrial capitalista de produção de alimentos que dizimou modos de 
vida rurais e nossa mãe Terra, movimentos sociais ao redor do mundo identificaram 
a agroecologia como sua proposta alternativa para o desenvolvimento rural. 
Baseadas em conhecimentos camponeses e indígenas, lutas pela soberania alimentar 
e reforma agrária, a agroecologia é compreendida pelos movimentos sociais como 
"uma ferramenta para a transformação social, econômica, cultural, política e 
ecológica de comunidades e territórios."

Esta entrevista que o Rosa Negra conduziu no Verão de 2020[no hemisfério 
norte]com um militante da Frente de Luta Camponesa da Federação Anarquista do Rio 
de Janeiro (FARJ), mostra seu trabalho com a luta de alguns movimentos sociais 
brasileiros por agroecologia e soberania alimentar. Em um contexto de movimentos 
sociais camponeses altamente desenvolvidos, a FARJ compartilha questões 
importantes para o aprendizado dos militantes anarquistas.

BRRN: Você pode dar uma visão geral do tipo de trabalho social dxs militantes da 
Frente de Luta Camponesa da FARJ? Quais são os movimentos e organizações em que 
xs militantes participam/colaboram? Quem são xs protagonistas desses 
movimentos/organizações?

FARJ: Inicialmente a Frente se chamava "Anarquismo e Natureza". Em sua composição 
haviam estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A partir de um 
grupo de agroecologia da universidade, o GAE (Grupo de Agricultura Ecológica), 
buscavam fazer trabalhos sociais em assentamentos da Reforma Agrária do estado do 
Rio e com famílias de pequenos agricultores. E o espaço que articulava estas 
atividades era a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro.

A partir dessa atuação e contato frequente nos assentamentos o MST foi conhecendo 
o estilo de trabalho de nossa militância, até que um deles foi convidado para 
ingressar no movimento, contribuindo principalmente com os processos de 
organização do trabalho cooperado na região da Baixada Fluminense. Um dos 
resultados desse trabalho foi a contribuição na organização de uma cooperativa de 
comercialização de um assentamento do MST da região metropolitana do estado do 
Rio, por volta de 2008. Com o passar do tempo a frente foi agregando mais 
militantes, alguns vieram do campo, ou do MST, ou eram estudantes do campo agrário.

Por volta de 2012 o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) chega no Rio, e 
temos militantes de nossa frente contribuindo também com o movimento e sua 
construção no estado. Temos também uma companheira que atua na Comissão Pastoral 
da Terra (CPT).

Nosso trabalho nos movimentos e espaços do campo está relacionado a temas como 
educação do campo, formação, comunicação, produção, comercialização, direitos 
humanos. Buscamos manter sempre o vínculo com as bases dos movimentos, mesmo 
aqueles militantes que vivem na capital do estado ou na cidade. Buscamos 
contribuir com os acúmulos da FARJ e das experiências históricas do anarquismo 
organizado nas lutas camponesas, com nossa concepção de trabalho social e estilo 
militante buscando construir Poder Popular. Estimulando a participação política e 
o protagonismo das bases nos processos de luta quotidianos dos movimentos. 
Buscamos também estimular aproximações e ações conjuntas entre os movimentos do 
campo e movimentos urbanos onde também atuamos ou que apoiamos, como ações de 
solidariedade, ações de trocas de experiências entre as bases, visitas, 
campanhas, entre outras que possibilitem os contatos entre as bases.

Hoje temos militantes no MST, MPA e CPT. Os protagonistas são sem terras, 
pequenos agricultores, comunidades quilombolas. Muitos assentados, por exemplo, 
vêm da indústria da cana de açúcar, de trabalho análogo à escravidão, vêm de 
favelas, eram trabalhadores precarizados. Boa parte das bases dos movimentos são 
de negros e negras, jovens, mulheres.

BRRN: Pode falar sobre como você se envolveu nas lutas camponesas e movimentos 
para soberania alimentar e agroecologia? Porque você acha que é importante xs 
anarquistas se envolverem nessas lutas? Qual é a importância dessas lutas nesse 
momento de pandemia global de Covid-19 em particular?

FARJ: Minha militância era na Frente Comunitária, no Movimento de Organização de 
Base, que atualmente tem trabalhos no Centro de Cultura Social e na comunidade do 
Morro dos Macacos. Desde 2013 apoiava o MST com as artes gráficas da Feira 
Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, uma feira anual, durante 3 dias, no 
Centro da Cidade do Rio de Janeiro com a produção do estado, da região sudeste, 
parceiros da cidade e outros movimentos. Por volta de 2014 o MPA e o MST iniciam 
uma feira quinzenal no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro, que também passo a apoiar com comunicação e outras atividades. Então a 
partir destas aproximações e contatos que se apresentam as possibilidades de 
atuação a partir da capital, seja com as demandas de comunicação e propaganda, 
seja contribuindo para a organização de espaços de comercialização dos movimentos 
na cidade. E sempre buscando manter a vinculação com as bases.

Integrantes do MST vendem seus produtos em uma feira de produtores.
Historicamente o anarquismo esteve, e está, presente nas lutas camponesas: 
Manchúria, Ucrânia, Espanha, Peru e outros exemplos. O anarquismo deve estar nas 
lutas dos de baixo, e onde tivermos espaço para contribuir com nossas propostas e 
construir poder popular. As questões agrária, fundiária (acesso e concentração de 
terras), camponesa, indígenas, negra, quilombola são centrais na América Latina, 
apesar da concentração populacional nas grandes cidades. Em grande parte somos 
países agrário exportadores, de grande exploração de bens naturais pelo capital, 
que tem um povo de origem e base indígena, negra e camponesa muito forte, com uma 
extrema concentração de terras nas mãos de capitalistas, latifundiários, 
estrangeiros. Há muitos conflitos no campo, com assassinatos de lideranças 
comunitárias e militantes, expulsões, despejos etc. Sem falar na questão da 
soberania alimentar, na produção de alimentos para o povo em oposição ao modelo 
do agronegócio que produz commodities para exportação. Então a questão da terra é 
muito forte no Brasil e no continente, e daí a importância de estarmos inseridos 
também nestas lutas. Entendendo que mesmo com pautas particulares, as lutas do 
campo e da cidade devem ser conjuntas.

Também aprendemos muito nestes movimentos de massa, contribuindo para nossa 
formação de militantes, principalmente no trabalho de base. Seja em cursos, 
materiais e espaços de formação dos movimentos, seja no dia a dia do trabalho de 
base.

Atualmente, na conjuntura de COCID-19 os movimentos do campo tem grande 
importância por produzirem alimentos saudáveis para a população, por pautarem a 
questão ambiental, energética e de soberania alimentar. Há análises que apontam 
uma "pandemia" de falta de alimentos para população. Muitas favelas já apresentam 
pessoas em situação de fome. Estão acontecendo muitas campanhas de solidariedade 
e distribuição de cestas de alimentos para moradores de favelas e marmitas para 
moradores de rua. Sindicatos e pessoas estão fazendo doações para a compra destes 
alimentos dos movimentos do campo e de movimentos de agricultura urbana da cidade 
do Rio. Ou seja, as ações de solidariedade se multiplicaram, e organizadas pela 
população e movimentos sociais.

BRRN: Qual tem sido sua experiência como umx anarquista participando 
em/colaborando com estes movimentos? Como você pressiona por dentro desses 
movimentos/organizações por práticas mais anti-autoritárias/anarquistas?

FARJ: Avaliamos que a experiência, aqui no Rio de Janeiro, possibilita abertura 
para atuarmos. Aspecto da formação na prática também, ao participarmos de 
movimentos de massa como estes, contribuindo para a organização de processos 
coletivos. Há o contato com o povo, com realidades e problemas concretos, e a 
necessidade de pensar formas de solucionar os problemas a partir do trabalho de 
base. Há também os processos formais de formação, como cursos nacionais e locais, 
visitas a experiências de outros estados, encontros estaduais e nacionais. 
Formações específicas em alguma temática ou mesmo no cotidiano, no convívio com 
outros/as militantes e companheiros.

Bandeira da FARJ junto à bandeira do MST.
Por exemplo, por causa das tarefas e formações dos movimentos pude aprender sobre 
comunicação, sobre gestão e cooperação agroecológica. Além do debate da questão 
agrária e alimentar. Estes acúmulos também trazemos para a organização política, 
no sentido de qualificar e contribuir nos acúmulos de formação que temos para o 
conjunto de nossa militância. Ou seja, é uma via de mão dupla, um processo 
dialético. Adaptando para a formação e interesse de nossa organização. Então é 
importante que não seja somente um acúmulo individual, mas que ajude de alguma 
forma na formação do conjunto da militância da organização específica.

Aqui no estado do Rio, acredito que a maioria dos desafios comuns ao movimentos 
sociais, do campo e da cidade, são da própria dificuldade de organizar o trabalho 
de base, muitas vezes a necessidade de se ter mais militantes, a dificuldade em 
conseguir recursos e estrutura, as dificuldades organizativas. Há também 
dificuldades em uma articulação mais consolidada entre os diversos movimentos 
sociais, que acabam ocorrendo de forma mais pontual ou em campanhas. E diante de 
uma realidade de avanço do ultraliberalismo e a sistemática extinção de políticas 
e direitos sociais, é um desafio permanente a construção de processos que 
consigam se autogerir e mobilizar o povo nas comunidades e locais de trabalho de 
base. Mas de forma geral buscamos ajudar a organizar o que está desorganizado, 
atuando como fermento nas lutas de massa.

Integrantes da FARJ e do MOB em uma manifestação popular.
BRRN: Na entrevista que a FARJ deu ao Zabalaza[organização anarquista da África 
do Sul], foi mencionada a Associação de Produtores Autônomos da Cidade e do Campo 
(APAC). Estou muito curioso de saber mais sobre esta organização, o seu trabalho, 
e como esta associação constrói solidariedade entre a cidade e do campo em torno 
de perguntas de soberania alimentar e terra.

FARJ: A APAC teve importante atuação produzindo implementos agrícolas voltados 
para pequenos produtores. Sua origem veio do CADTS - Centro de Aprendizagem e 
Desenvolvimento Técnico e Social um grupo ligado a Pastorais Sociais que atuavam 
com educação de trabalhadores urbanos, formando politicamente eletricistas, 
costureiras, torneiros mecânicos, gráficos dentre outros oficios. Desse trabalho 
se fortaleceu a atuação dos mesmos nos campos sindicais, e comunitários. Com o 
objetivo de fortalecer a solidariedade entre os trabalhadores do campo e da 
cidade o CADTS inciou um projeto de elaboração de implementos agrícolas com 
tecnologia construída juntos aos "lavradores da terra", expressão usada na época, 
em suas visitas aos trabalhadores do campo para coletar as informações e projetar 
os implementos os estudantes do CADTS decidiram por estruturar esse trabalhos 
para atender essa demanda que já produzia para diversos grupos de agricultores de 
todo o Brasil. Assim nasce no 1 de Maio a APAC reunindo não só "metalúrgicos", 
como também agricultores, donas de casas, desempregados, educadores populares e 
etc. Com a organicidade de associação compostas por diversos grupos de trabalhos 
autônomos que se articulação coletivamente em assembleia geral inspirados pela 
autogestão. Ao longo de mais de 30 anos desde a sua fundação a APAC já acolheu 
muitos grupos de trabalhadores citaremos apenas alguns para ilustrar a diversidade:

Multimetal: Confecção de peças e equipamentos em metal, de onde surgiram vários 
equipamentos para o campo. Depois de alguns anos substituída pela OPMAC, que 
remete à palavra "campo", continuando esses serviços de projetos em metal e que 
com o tempo passou a desenvolver projetos para trabalhadores urbanos como 
carroças adaptadas para catadores para reciclagem, fabrica de vassouras 
recicladas etc.
Arte Fuxico: Reunindo artesãs que reaproveitavam sobras de tecidos da industria 
de roupa e elaboravam peças customizadas como bolsas, tapetes e utensílios em geral.
Pré-Vestibular Comunitário: Inciativa de educação popular que buscou espaço na 
APAC para montar turma de curso preparatório ao ingresso nas universidades. O 
núcleo do curso na APAC durou alguns anos e fazia parte de uma rede de cursos 
comunitários de diversas regiões.
Mecânica de Autos: Oficina de conserto de automóveis que reunia um mestre 
mecânico e seus ajudantes. O grupo prestava serviços internos e externos a APAC e 
com atuação muito marcante no ensino do ofício de mecânico e assiduidade nas 
assembleias da associação.
Gravida: Gráfica que reunia trabalhadores em grande parte oriundos das formações 
do CADTS que elaboravam projetos gráficos e editações de inúmeras publicações 
para movimentos sociais e diversos serviços externos.
Nossa chegada à APAC foi paralela a fundação da FARJ, e temos alguns militantes 
que tiveram e têm relações mais próximas com eles. Seja em projetos desenvolvidos 
e alguns fazendo parte da gestão da APAC. Chegamos a fazer uma oficina de 
serigrafia lá, reuniões politicas, mutirões de trabalhos na comunidade, palestras 
de formação politica e curso popular de idiomas. Destacaremos uma das inciativas 
mais estruturada de nossa militância que foi organizar a Cooperativa de 
Trabalhadores e Trabalhadoras em Agroecologia Floreal, onde tivemos grande 
interação com os grupos internos da APAC trazendo pautas debatidas com nossa 
atuação com o Fórum de Cooperativismo Popular, a Articulação de Agroecologia do 
Rio de Janeiro e setores de Assistência Técnica e Extensão. Foi um período que 
trouxe ânimo na APAC de contribuir com questões da conjuntura agraria, 
Agroecologia, Agricultura Urbana, Hortas Escolares, Grupos de Fitoterapia 
Popular, Ecologia Social, Solidariedade do Campo e Cidade e Soberania Alimentar e 
Reforma Agrária. Fator que fortaleceu a relação de nossos militantes com os 
movimentos sociais do campo como MST, CPT, e MPA também seja para o uso do espaço 
como entreposto ou sobre a fabricação de implementos agrícolas. Mas que nossa 
experiência com cooperativismo popular abriu portas para contribuirmos na 
construção de cooperativas e associações nos movimentos.

BRRN: Vocês estão envolvidos com os Comitês Territoriais de Solidariedade, 
organizados pelo MPA como uma resposta à crise social atual? Pode compartilhar um 
pouco sobre este projeto?

FARJ: Nesse contexto do COVID-19 os movimentos do campo, como MPA e MST, a CPT e 
grupos de agricultura urbana como a Rede Carioca de Agricultura Urbana, e a 
Articulação de Agroecologia, têm desenvolvidos ações de solidariedade no campo e 
na cidade.

O MPA está com os Comitês Territoriais de Solidariedade. Com a distribuição de 
alimentos agroecológicos, criando espaços de diálogo e debates políticos 
fortalecendo os processos organizativos entre os movimentos sociais e 
territoriais do campo e da cidade. As ações podem acontecer de diferentes formas 
dependendo da realidade e demandas locais. O movimento tem mantido o 
abastecimento na cidade com entregas semanais de cestas camponesas de alimentos, 
e doação de refeições para moradores de rua.

Logo do MPA.
O MST tem a Marmita Solidária, que recebe doações de sindicatos e apoiadores para 
compra de comida para preparar refeições para moradores de rua. E a Campanha Nós 
Por Nós, que se insere na Campanha Periferia Viva, e que o MPA e outros 
movimentos também participam. A campanha arrecada recursos para comprar a 
produção agroecológica dos assentamentos e pequenos agricultores para doar para 
favelas, e junto fazer um trabalho de apoio, como por exemplo ajuda jurídica para 
quem não tem documentos de identidade, ou outras ações para além de somente doar 
a comida.

Pela CAB estamos organizando nacionalmente a campanha Vida Digna, contra o 
aumento do custo de vida. Há comitês estaduais e locais, e conseguimos articular 
uma doação de alimentos do MST para duas ocupações da Frente Internacionalista 
dos Sem Teto. Também pela CPT articulamos uma possibilidade de recurso para 
assentamentos e comunidades quilombolas, entre outras, na região norte do estado 
do Rio, juntamente com MPA.

Mas em todo o país estão ocorrendo várias ações semelhantes com nossa militância 
da CAB envolvida, buscando articular ações de solidariedade entre o campo e a 
cidade, entre pequenos agricultores e comunidades indígenas. Ações que aproximam 
apoiadores da cidade que querem ajudar. Esperamos que tudo isso ajude a aproximar 
mais os movimentos do campo e da cidade, de forma mais orgânica, entre as bases 
destes movimentos também. Ações que façam os movimentos pensarem juntos formas de 
solidariedade no dia a dia, sem precisar tanto de projetos, de políticos ou 
políticas públicas.

Essa pandemia fez com que os movimentos e coletivos tivessem que criar outras 
formas de comercialização, outras formas de logística para continuarem com a 
produção e a comercialização. E tudo isso pode ser importante no futuro, se os 
movimentos conseguiram definir políticas estratégicas acertadas, pois teremos 
cada vez menos políticas públicas para o campo por parte do Estado. Pelo 
contrário, só aumentam os ataques aos indígenas, camponeses e a grilagem de terras.

BRRN: O MST é provavelmente o mais bem-conhecido dos movimentos sociais do Brasil 
no mundo. A organização e suas realizações impressionantes, como a ocupação e 
redistribuição de terras a milhares de famílias, promovendo agroecologia e 
soberania alimentar, e suas contribuições as movimentos camponeses globais, têm 
sido uma fonte de inspiração para revolucionarixs pelo mundo inteiro, incluindo 
anarquistas. De longe, parece que são vários aspetos das práticas e táticas 
alinhados com princípios anarquistas. Ao mesmo tempo, há caraterísticas do MST, 
como o seu marxismo-leninismo, e sua relação com o PT, que podem apresentar 
desafios para anarquistas quem quer fazer apoiar/participar/colaborar com o MST. 
Gostaria de saber como é a avaliação do FARJ sobre o MST: os aspectos positivos 
do movimento, suas críticas, e como guiam seu trabalho com o MST.

FARJ: No Brasil a questão fundiária, da concentração de terras, é central. Pois 
hoje ainda somos um país periférico agrário-exportador de commodities. Apesar de 
ser visto pelas outras potências mundiais como um contender, um player mundical, 
pelo tamanho e pelos bens naturais que possui, como água, petróleo, minérios etc. 
Por isso também os ataques e golpes, que são coisas bem presentes na história dos 
países da América Latina. Então o Brasil sempre teve fortes conflitos agrários e 
por terra, várias revoltas históricas, sem falar nos quilombos, os trabalhadores 
do campo, os indígenas.

Integrantres do MST em uma manifestação.
O MST, assim como outros movimentos do campo, vem desse acúmulo de lutas, 
conflitos e revoltas. Antes, um dos principais movimentos foi as Ligas Camponesas 
(1954-1964). Com o tempo foram surgindo também os sindicatos do campo que 
trabalhavam estas pautas trabalhistas e do trabalhador assalariado, empregado em 
fazendas etc. Com o golpe e a ditadura empresarial-militar (1964) os militantes 
do campo também sofrem muita repressão, com mais de mil mortos e desaparecidos, e 
perseguindo e reprimindo as Ligas Camponesas.

Depois aconteceu a abertura e transição conciliadora da ditadura para a 
democracia. Diferente de países como a Argentina, os militares no Brasil não 
foram punidos pelos crimes da ditadura. Naquele período foram vários os grupos de 
resistência armada e de esquerda que buscaram resistir à ditadura. Então o 
processo que se seguiu, nos anos 70-80, tem também o desenvolvimento e 
envolvimento de organizações sindicais, culminando na CUT (1983), setores 
progressistas da igreja (CEBs, Pastoral da Terra e Teologia da Libertação), 
movimentos do campo e o PT.

Na CUT havia o Departamento Rural, que reunia trabalhadores do campo, com pautas 
mais relacionadas aos direitos trabalhistas. E o MST (e depois MPA) surgem também 
para dar conta de pautas de demandas do campo que não eram só trabalhistas, mas 
de acesso à terra, a crédito e políticas públicas para produzir a para continuar 
reproduzindo sua vida no campo. Ou seja, a CUT e os sindicatos do campo não davam 
conta de todas as pautas camponesas.

As pastorais e Teologia da Libertação tinham importante papel junto com os 
movimentos do campo, fazendo trabalho de base nas comunidades, mobilizando o povo 
e contribuindo com os movimentos sociais que vinham ocupar as terras.

Esse era o grande "caldo" político de base social, que abordamos aqui de forma 
muito geral. E todo esse caldo e lutas iam sendo acumuladas no chamado Projeto 
Democrático Popular, tendo o PT como expressão política partidária. Ou seja, 
alguns destes grandes movimentos de massa do Brasil tem uma relação histórica 
muito forte com o PT. E com a chegada do PT no governo, os movimentos também 
foram incorporando uma cultura política de fazer parte do estado, se 
burocratizando também. E teve como consquência um grande enfraquecimento dos 
movimentos, principalmente nos dias de hoje, com dificuldades de mobilizar as 
massas e fazer frente aos ataques do governo Bolsonaro de orientações fascistas.

Além disso, o principal referencial organizativo destes movimentos é o 
marximo-leninismo e centralismo democrático, mesmo que algumas vezes os próprios 
movimentos reconheçam a necessidade de buscar outros elementos que melhor 
contemplem a realidade do campesinato e dos sujeitos do campo. Então se os 
mecanismos de participação política forem trabalhados há os riscos de se cair em 
relações de distanciamento entre as bases e as direções destes movimentos. Ou 
seja, a necessidade de espaços que possibilitem uma participação política 
qualitativa das bases, refletindo sobre o trabalho em que se inserem, se 
formando, conduzindo os processos e contribuindo, desde sua realidade, com os 
rumos do movimento. Evitando também os riscos de se cair no pragmatismo, ou o 
chamado "apagar incêndios" diariamente, que se acumula pouco politicamente e 
socialmente, mesmo que se esteja fazendo muita coisa.

Em nossa concepção anarquista, acreditamos que o sujeito de transformação social 
não está dado, mas se forma no trabalho e na luta cotidianos, e o poder popular 
se constrói com participação política dos sujeitos, assumindo responsabilidades e 
protagonismo nas lutas. Por isso a forma organizacional precisa estar alinhada 
com uma concepção ideológica transformadora, para que possibilite o avanço de 
formas organizativas não alienantes.

Camponeses do MST.
Portanto buscamos também trazer e projetar outras experiências históricas de luta 
e organização da classe trabalhadora, do campesinato, das comunidades 
originárias. Temos exemplos como a a Revolução Mexicana (1910), e o depois 
movimento Zapatista no México. A luta do exército Makhnovista na Ucrânia, no 
processo da Revolução Russa, processos com protagonismo indígena e camponês na 
expropriação de terras e organização social. Os processos de coletivização e 
organização da produção e social na Guerra Civil Espanhola, no campo e na cidade, 
com o exemplo da CNT. Assim como o Confederalismo Democrático no Curdistão, com a 
organização, autodefesa, gestão territorial e do trabalho e da produção de forma 
coletiva e direta. Experiências comunitárias atuais na Colômbia com a concepção 
da terra como bem comum, e exigindo a permanência e reprodução das formas de vida 
comunitária nos territórios. Enfim, são várias as experiências, algumas 
conhecidas pelos movimentos, além de outros referenciais que eles também buscam, 
e que procuramos estudar e identificar elementos que podem contribuir com nossos 
processos aqui.

Portanto, o anarquismo precisa também elaborar ferramentas concretas de 
intervenção na realidade, de mobilização e gestão da vida nos seus diferentes 
aspectos, social, cultural, produtivo, econômico. Ou seja, precisamos também 
elaborar propostas para organizar o campo e que deem conta destas questões.

BRRN: Lutas por soberania alimentar, agroecologia, e reforma agrária trazem 
algumas questões cruciais para anarquistas, particularmente porque muitos 
movimentos e acadêmicos que dominam o debate não compartilham de nossos críticas 
do Estado, eleitoralismo, etc. e muitas vezes veem o Estado-Nação como o meio 
para alcançar a soberania alimentar, reforma agrária, etc. Eu não encontrei 
muitas perspectivas anarquistas contemporâneas sobre soberania alimentar, 
agroecologia, e reforma agrária - especialmente duma perspectiva de anarquismo 
social - e estou curioso de saber de suas reflexões como umx anarquista 
participando nesses movimentos no Brasil, e como você e outrxs militantes da FARJ 
pensam sobre a soberania alimentar e reforma agrária de uma perspetiva anarquista 
- podemos articular uma perspectiva particularmente anarquista sobre como podemos 
alcançar soberania alimentar, agroecologia e reforma agrária que seja distinta 
das perspetivas das correntes marxistas-leninistas, socialdemocratas e liberais 
nos movimentos sociais?

FARJ: Estamos começando a fazer esse debate atualmente na CAB, no Grupo de 
Trabalho Agrário, entre os/as militantes que têm trabalho com movimentos do 
campo, com comunidades indígenas, não-urbanas. Com outros movimentos como o MAM 
(Movimento pela Soberania Popular na Mineração) E tem a ver um pouco com a 
pergunta anterior. Ou seja, quais as propostas concretas do anarquismo para a 
realidade? Qual é o nosso programa de lutas anarquista?

Então estamos começando a discutir quais concepções são importantes e centrais 
para nós. Como Soberania Alimentar. Reforma ou revolução agrária, os bens 
naturais e energéticos. O bem viver, em oposição à lógica de desenvolvimento. 
Entre outros.

Para nós estas questões precisam estar relacionadas com as demandas populares, 
com a realidade popular. A agroecologia para nós deve ser ferramenta e princípio 
para fortalecer a luta e a organização dos povos e comunidades do campo. Ou seja, 
vamos buscar também aplicar estes conceitos e questões como referenciais, dentro 
de nossa concepção anarquista, a partir da realidade popular, para o 
fortalecimento do trabalho de base e do poder popular.

Alguns destes conceitos também são trabalhados pelos movimentos sociais do campo 
como soberania alimentar, agroecologia, feminismo. Mas é claro que precisamos 
desenvolver também nossas concepções sobre eles. Mas podemos dizer, de forma 
geral, que a esquerda muitas vezes tem uma leitura da realidade muito urbana, 
valorizando mais as questões sindicais e urbanas, reproduzindo essa centralidade 
no urbano. E o anarquismo não está livre de reproduzir um pouco disso também.

BRRN: Desnecessário dizer que os processos históricos do colonialismo e 
desenvolvimento capitalista pelo mundo inteiro deixaram uma série de contradições 
para as diferentes classes oprimidas e comunidades agirem em torno da questão da 
terra. Aqui nos Estados Unidos, pelo fato de os movimentos sociais serem fracos, 
o debate e lutas sobre terra e reforma agrária não estão tão avançados em relação 
ao contexto brasileiro. Uma questão crítica aqui nos EUA e Canadá - dois projetos 
coloniais europeus situados em territórios indígenas - é como diferentes 
populações nas lutas sobre terra e território - indígenas, afrodescendentes, 
pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas migrantes, etc - podem se 
solidarizaer uns com os outros em vez de serem jogados uns contra os outros pelas 
contradições criados pelos sistemas colonialistas e capitalistas. Estou muito 
interessado em saber onde está o debate sobre estas difíceis questões nos 
movimentos sociais em que vocês trabalham, e quais são suas perspetivas sobre 
elas, como anarquistas. No Rio de Janeiro, há sinais promissores de solidariedade 
entre indígenas, comunidades quilombolas, camponeses e trabalhadores agrícolas? 
Pode nos recomendar fontes boas para pessoa que gostariam de aprender mais sobre 
essas questões e lutas?

FARJ: Aqui também ocorrem questões territoriais semelhantes, acredito que 
consequências também dos processos históricos do colonialismo, a escravidão e o 
patriarcado estruturantes e as demais opressões potencializadas pelo capitalismo.

O Brasil, por ser um país de dimensões continentais, coloca vários desafios. Por 
exemplo, há uma realidade, relação com a terra e cultura de colonos no sul do 
país, e há outra das comunidades indígenas e outros sujeitos no norte do país. 
Isso já coloca várias questões para a luta e os movimentos também. Por exemplo a 
questão de trabalhar a ideia de sujeito camponês, diante destas diversidades. 
Passa também por conhecer e saber entender outras formas organizativas, que podem 
ser diferentes das formas organizativas que a esquerda tradicional reproduz.

Por outro lado, o Brasil tem esse grande potencial de luta e de povos e sujeitos 
do campo. Quase 40% das terras no país são assentamentos da reforma agrária, 
terras indígenas (reconhecidas ou não), quilombos, comunidades camponesas. Os 
poderosos sabem dessa potencialidade e têm medo. Por isso investem em repressão e 
no desmonte de direitos sociais, na grilagem, na violência paramilitar etc.

É uma diversidade social que é uma realidade da América Latina. A força dos 
indígenas no Peru, Equador, Bolívia. Os Mapuche na Argentina e Chile. A Colômbia 
é também um país bem rico e interessante, com comunidades afro-colombianas, 
várias etnias indígenas, camponeses. Há a CNA (Coordinador Nacional Agrario), um 
significativo movimento camponês do país, há um debate bem interessante de 
"território agro-alimentar", por exemplo.

No Rio o MPA vem realizando contatos e trabalhos com algumas comunidades 
quilombolas, e agora indígenas. Na capital há a luta da Aldeia Maracanã, que 
mobilizou bastantes apoiadores contra a especulação e gentrificação que o 
mega-evento das Olimpíadas escancarou. Há muitas possibilidades de diálogo entre 
quilombos, aldeias indígenas, favelas, movimentos do campo e da cidade e podemos 
avançar mais. Ações como hortas comunitárias, a agricultura urbana, também são 
possibilidades interessantes para a soberania alimentar de moradores de favelas, 
e possibilidades de diálogo com movimentos do campo. Organização de coletivos de 
consumidores nas cidades, se organizando para terem acesso a alimentos saudáveis 
no campo e sua distribuição. Grupos de investimento coletivo de apoiadores, 
viabilizando a produção no campo. Relações de apoio entre diferentes setores da 
classe trabalhadora, entregadores, trabalhadores da educação, estudantes. As 
possibilidades do/as de baixo se organizarem são muitas.

Alguns endereços de referências e informações:

Biblioteca Virtual do MST
http://www.reformaagrariaemdados.org.br/biblioteca

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) - https://mpabrasil.org.br/

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) - http://mamnacional.org.br/

Coordinador Nacional Agrario (Colombia)
https://www.cna-colombia.org/

Comissão Pastoral da Terra
https://cptnacional.org.br/

Frente Quilombola Rio Grande do Sul
https://www.facebook.com/FrenteQuilombolaRs/

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
https://www.facebook.com/coiabamazoniaoficial/

APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
https://www.facebook.com/apiboficial/

Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul
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Mídia India
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Conselho Indígena de Roraima(CIR)
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Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e 
Espírito Santo
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Teia dos Povos
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BRRN: Tem mais alguma coisa que você gostaria de compartilhar?

FARJ: Gostaríamos de agradecer o espaço e a oportunidade difusão das experiências 
e trabalhos aqui. Há outras companheiras e companheiros organizados na CAB que 
também podem contribuir com suas experiências de seus estados e nosso trabalho 
também tem contribuições deles. Esperamos poder ter contribuído com a Black Rose, 
e a ajudar para que mais pessoas conheçam um pouco mais sobre as lutas no Brasil 
e em nosso continente. Nós também esperamos ter mais oportunidades de trocas como 
esta com as companheiras e companheiros da BR, que nos inspiram também. Espaços 
como este são fundamentais. Arriba lxs que luchan!!!

http://cabanarquista.org/2020/11/21/agroecologia-e-anarquismo-organizado-entrevista-farj/


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