(pt) [Espanha] Por quê defender, de novo, a Filosofia nas aulas? By A.N.A. on 18 de

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 25 de Novembro de 2020 - 09:10:46 CET


Faz dias por iniciativa do grupo CNT Irakaskuntza difundimos, depois de um debate 
interno, o comunicado da REF (Rede Espanhola de Filosofia) ante a eliminação da 
Ética e da História da Filosofia nas aulas (comunicado que pode ser consultado em 
sua página web). Sirva este texto para justificar esse apoio ou ao menos, o que 
não é pouco, para deixar por aqui uma reflexão sobre o tema. ---- Voltando à 
pergunta do título, por quê desde um sindicato anarcossindicalista como é a CNT 
defendemos a Filosofia e a Ética? Em quê contribui concretamente para a nossa 
luta diária no sindicato a defesa de uma matéria? Por que, insisto, tem tanta 
importância para nós a Filosofia? Talvez desde uma organização que se propõe a 
uma transformação radical da sociedade poderíamos ser mais corajosos e ousados, 
alguém poderia pensar, propondo grandes mudanças revolucionárias na forma em que 
é proposta a educação, pondo em questão seus objetivos reais, metodologias, etc. 
Poderíamos, sim, e é, de fato, algo sobre o qual debatemos geralmente no grupo, 
mas nesta ocasião escolhemos nos posicionar a favor de algo muito mais humilde, 
de um pequeno objetivo que cremos importante: defender que a Ética e a Filosofia 
tenham o lugar que tinham antes da Lei Wert.

Desde a CNT Irakaskuntza decidimos defender a Filosofia precisamente porque 
nessas aulas se abre um espaço para a reflexão, para a dúvida, para o diálogo 
fundamentado e o pensamento crítico. "Sempre que ensines, mostra ao mesmo tempo a 
duvidar do que ensinas", como diria Ortega e Gasset (para deixar falar a um dos 
autores tratados nas aulas do Bacharelado). Pois bem, o quê melhor que as 
matérias de Filosofia para seguir o conselho de Ortega? É possível, acaso, 
ensinar Filosofia sem ensinar a refletir sobre ela mesma, sem que a Filosofia se 
converta, um pouco, em um mais humilde filosofar? Temos a sorte (nem tudo está 
perdido!) de contar com professorado e pessoal educativo empenhados na educação e 
que, entendendo que o pensamento crítico e a dúvida são condições fundamentais de 
todo conhecimento, tratam dia a dia de lavrar esse espírito em suas aulas. 
Ademais, complementam isso com tudo o que tem suas matérias de enriquecedor e com 
tudo o que nos oferecem desde seus diferentes âmbitos. E, no entanto, creio que é 
totalmente necessário defender o que a Filosofia oferece especificamente.

Brevemente, nas aulas de Filosofia a dúvida e a reflexão não são só algo que pode 
se fomentar por parte de alguns professores comprometidos com isso, mas que faz 
parte da própria disciplina que se ensina! Duvidar sobre o ensinado não depende 
do bom trabalho do professor ou professora, é, também, parte indispensável e 
iniludível da Filosofia. Os próprios conteúdos fazem duvidar deles mesmos, a 
razão se volta contra si mesma e a crítica se torna autocrítica, pois, como 
ensinar, por exemplo, os argumentos contra a democracia que elabora Platão e ao 
mesmo tempo crer na defesa desta que fazem os sofistas? São os próprios 
conteúdos, independentemente do mensageiro de turno, os que entram em contradição 
entre eles, o que implica, de fato, um posicionamento crítico. Por muito que nos 
empenhemos em defender um autor ou corrente filosófica concreta, nada nos impede 
ver todo um universo de diferentes perspectivas filosóficas que se apresentaram 
durante a história e que seguem apresentando-se e prestando-se a discussão. Será 
trabalho do alunado, portanto, tirar suas próprias conclusões.

Enfim, a ninguém escapa a estas alturas que, assim como no resto dos setores, 
vamos para um modelo que prioriza a economia e a rentabilidade, deixando de lado 
o cuidado da vida e de outros aspectos que nos oferecem algo como seres humanos. 
As políticas atuais nos fazem avançar para um paradigma no qual a educação é 
reduzida a seu trabalho como reprodutora de força de trabalho. Ensinamos coisas, 
para que a juventude se adapte ao mercado laboral. E sejamos honestos, a 
Filosofia, segundo este modelo, não produz nada. A racionalidade capitalista se 
impõe e tudo o que escapa a sua lógica é visto como desnecessário, um luxo 
supérfluo que não serve para nada. Assim, o ser humano fica diminuído, 
empobrecido e reduzido a sua função de trabalhador e consumidor. Só aquilo que 
serve a este duplo fim de produzir e consumir é visto positivamente, só aquilo é 
digno de ser desenvolvido, trabalhado e ensinado.

Frente a este cenário, temos que estabelecer prioridades. Não acreditemos em seu 
dogma unilateral, defendamos tudo aquilo que cremos bom e necessário para uma 
vida digna e feliz e uma sociedade desejável, ainda que não seja compatível com a 
"necessidade" de que a roda da economia capitalista siga girando. E, 
precisamente, não é a Filosofia algo que deveríamos defender por seu valor para o 
ser humano? Alguém é capaz, acaso, de imaginar uma sociedade na qual queria viver 
e na qual não existisse o pensamento filosófico e crítico? Pois não nos 
enganemos, não crer no discurso hegemônico e declarar-nos "antissistema" não é 
prova nenhuma de nosso espírito crítico, como mostra o variado e extravagante 
leque de grandes Verdades às quais nossa sociedade se aferra nos últimos tempos, 
desde o terraplanismo até insanidades sobre a pandemia que não vou comentar aqui. 
Nosso status quo perde credibilidade, se quebram os valores aos quais nos 
aferrávamos ("o sagrado é profanado", como escreveu Marx e, na linha deste, 
Bauman) e em vez de aproveitar a ocasião para tomar perspectiva, nos lançamos o 
mais rápido possível nos braços de novas Verdades e respostas (não é este o 
contexto que aproveitou a extrema direita para pôr sobre a mesa algumas simples 
soluções e um ou outro bode expiatório?). É por isto que devemos defender a 
Filosofia desde a CNT Irakaskuntza e desde onde possamos, pois -ainda admitindo 
que seja custoso - temos que nos acostumar a viver na dúvida, na crítica e na 
análise, na argumentação e na busca da verdade, e não instalados na Verdade 
absoluta. Demasiado dano fizeram as análises simples e as ortodoxias...

Definitivamente, a luta é a de sempre, a que tantos companheiros estão levando a 
cabo na CNT e em outros muitos coletivos: a defesa da vida frente a imposição 
totalitária da economia. Esta vez será a Filosofia a que sucumbirá frente a 
lógica capitalista, mas que surpresas trará a próxima reforma educativa? Qual 
será o próximo a cair? Defendamos desta vez que o pensamento crítico tenha seu 
lugar nas aulas, façamos um espaço, em nosso sindicato e em nossas escolas para a 
Filosofia.

Fonte: 
http://www.cnt-sindikatua.org/es/noticias/por-que-defender-de-nuevo-la-filosofia-en-las-aulas

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana


Mais informações acerca da lista A-infos-pt