(pt) cab anarquista: Uma indianista anarquista olhando Marx -- Marina Ari (en)

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Sábado, 7 de Novembro de 2020 - 13:23:17 CET


Comentário América Latina, Bolívia, indianismo, indianista, karatismo, Marx ---- Este artigo foi proposto como uma resposta ao texto de 
David Ali intitulado “É possível pensar Marx a partir do Indianismo – Katarismo?” (Pukara No. 149) [1]. Escrito por Marina Ari, historiadora 
e membro da Comunidade Pukara, e publicado no numero seguinte do mesmo veículo, em fevereiro de 2019, antes do golpe na Bolívia, em 
novembro, que derrubou o governo Evo Morales. Esta tradução vem no esforço de buscar e reunir reflexões e experiências no campo das questões 
camponesas, indígenas e dos povos das florestas desde o ponto de vista do anarquismo.
Como também contribuir com o debate sobre as lutas não urbanas, do campo, das florestas e das águas e a necessidade de busca e elaboração de 
ferramentas de análise que partam da realidade destes povos, ou que dialoguem com eles. Ficam evidentes os limites do marxismo e do 
leninismo nesse sentido, e é importante a reflexão sobre até que ponto a esquerda não reproduz a mesma lógica integracionista do Estado. 
Para nós anarquistas, coloca desafios na caminhada pelo poder popular e transformação social, entendendo como fundamental para a luta social 
a aliança entre campo e cidade; popular indígena, preta, camponesa.

Vamos ao texto

A desafiante pergunta do Sociólogo David Ali Condori “É possível pensar Marx a partir do Indianismo-Katarismo?”, em seu artigo publicado no 
número 149 (janeiro de 2019) do Periódico Pukara, é como uma constante badalada de sino que não deixa relaxar; não se esqueçam que, na 
Bolívia, supostamente vivemos em um regime marxista com um libertador do tipo Fidel Castro e tudo, só que vestido com mantas andinas de 
grife, aviões e carros de luxo, um museu próprio a sua figura e um palácio com jacuzzi.

A pergunta inteligente e precisa que Ali faz me traz à memória algo que escreveu Engels, quando em 1849 os EUA tomaram a Califórnia por cima 
dos direitos territoriais do México. Engels dizia:

Na América presenciamos a conquista do México, que ficamos satisfeitos. Constitui um progresso (…) É no interesse de seu próprio 
desenvolvimento que o México estará em um futuro sob a tutela dos Estados Unidos. É no interesse do desenvolvimento de toda América que os 
Estados Unidos, mediante a ocupação da Califórnia, obtêm o predomínio sobre o Oceano Pacífico… (Engels, 1972:183).

Sem esquecer a extraordinária sorte que Engels atribui à Califórnia por ter sido arrebatada dos “preguiçosos” e “indolentes” mexicanos:

Ou, por acaso, é uma desgraça que a magnífica Califórnia tenha sido arrancada dos preguiçosos mexicanos, que não sabiam o que fazer com ela? 
(É uma desgraça) que os enérgicos ianques, mediante a rápida exploração das minas de ouro (…) aumentem os meios de circulação (…) criem 
grandes cidades, estabeleçam rotas de embarcações a vapor (…) abram (…) o Oceano Pacífico à civilização (…). A ‘independência’ de alguns 
espanhóis na Califórnia e Texas sofrerá com isso, talvez; a ‘justiça’ e outros princípios morais talvez sejam violados aqui e ali, mas o que 
importa isso frente a tais feitos histórico-universais? (Engels, 1972:189-90)

A “justiça” e outros princípios morais violados que os marxistas consideram danos colaterais, aplicam-se de forma mais aguda nos povos 
indígenas, qualificados como bárbaros, situados – no melhor dos casos – na etapa do feudalismo e, por isso, constituem parte daquilo que o 
capitalismo deve arrasar, como etapa necessária a ser vencida pela revolução do proletariado.

Os índios, no contexto classista desejável para o marxismo – como é a etapa da burguesia versus proletariado – somos somente um obstáculo, 
um peso que deve ser aniquilado pela industrial e “vigorosa” burguesia para dar lugar ao proletariado, por isso não é estranho que o 
marxismo, durante a invasão europeia, coloque-nos como bárbaros com destinos inevitáveis: “os índios dos chamados povos do Novo México, os 
mexicanos, centroamericanos e peruanos da época da conquista se encontravam no estágio médio da barbárie” (Engels, 1972:29-30). Esses 
pensadores foram fruto da instauração do positivismo que projetava que a história era linear e progressiva, por isso defendiam que os 
processos político-econômicos estavam sujeitos ao progresso (ideia fundamental do positivismo), e como bons alunos de Hegel beberam das 
visões do filósofo alemão que propunha que a expressão mais elevada do pensamento humano se produzia na Europa com a modernidade. Claro, o 
pai do positivismo propôs a superioridade europeia sobre outros “territórios” que qualificou como “imaturos”. Europa, dona da história, ao 
“expandir-se” entregava à história os territórios vassalos que não existiam nem eram representados. Não é estranho, então, que o 
aniquilamento de povos originários do “novo mundo” (qualificados como “imaturos” e impotentes”) lhe pareça inevitável:

Tinham uma cultura quando foram descobertos pelos europeus, e a perderam ao entrar em contato com eles (…) tratava-se de uma cultura 
natural, que morreria assim que o espírito se aproximasse dela. A América sempre se revelou e continua a revelar-se impotente tanto física 
quanto espiritualmente. Os indígenas, desde o desembarque dos europeus, têm morrido sob o sopro da atividade europeia. Nos próprios animais 
existe a mesma inferioridade que nos homens… (Hegel, 2005: 266).

Coincide com o pensamento de Hegel quando Engels fala da subjugação da América e de seus habitantes como sem importância em face dos fatos 
históricos universais? Claro, é fruto da raiz hegeliana, ou seja, raiz positivista e eurocêntrica. Marx e Engels falam como europeus e a 
partir da visão da Europa.

Hegel já se referia de forma supremacista aos povos índios irmãos da América do Norte ao conceituá-los como fracos e inferiores, diante da 
superioridade europeia: “Esses povos de cultura fraca perecem quando entram em contato com povos de cultura superior e mais intensa” (Hegel, 
2005: 267). Ele vai se referir a nós, índios da América do Sul, como subservientes, submissos e desprovidos de auto-estima, como selvagens e 
sem “espírito”; e sem capacidade educacional; isto é: inferiores:

Lê-se nas descrições de viagens histórias que demonstram a submissão, a humildade, o servilismo que estes indígenas manifestam para com o 
criollo e ainda mais para com o europeu. Ainda falta muito para que os europeus acendam na alma dos nativos um sentimento de auto-estima. 
Nós os vimos na Europa, caminhando sem ânimo e quase sem capacidade para a educação. A inferioridade desses indivíduos se manifesta em tudo, 
até na estatura… (Hegel, 2005: 267).

É o positivismo com sua ideia de progresso que nos vê como retardados, adultos feito crianças, subdotados sem pensamento ou objetivo: 
“Assim, pois bem, os americanos vivem como crianças que se limitam a existir, longe de tudo o que significa pensamentos e objetivos 
elevados” (Hegel, 2005: 267).

No projeto marxista nem existimos, apesar dos esforços do grande pensador peruano J.C. Mariátegui, que tentou forjar que o índio é o 
verdadeiro proletário; não somos, e portanto nos tornamos necessariamente dispensáveis pra o marxismo, pois para que a teoria da história 
das lutas de classes se cumpra com a destruição de uma das classes antagônicas, como a burguesia, precisamos morrer para dar lugar à 
formação do proletariado. Para o marxismo, somos obstáculos, bárbaros que foram excluídos desse processo. É por isso que Engels nos descreve 
como “povos sem história”; aliás, Engels se inspirou em Hegel que se referia por essa categoria aos povos que não podiam ser estruturados em 
nações. Marx e Engels aplaudiram o colonialismo britânico na Índia, caracterizando-o como progressista porque, como na China, eram 
sociedades pré-capitalistas; Na sua concepção, são “parte das nações mais bárbaras”/ que / estavam destinadas a serem invadidas e 
modernizadas à força pelo novo e dinâmico sistema social que era o capitalismo” (Anderson, 2012).

A base hegeliana no marxismo é clara, quando Engels distingue os povos com história daqueles “sem história”, toma como base a teoria 
marxista linear evolutiva para postular que esses povos pré-capitalistas, bárbaros e agrários, “deveriam ser forçados à civilização e 
sucumbir a um inevitável processo de assimilação” (Tarcus, 2008: 13) e embora Marx perceba a importância do colonialismo europeu, ele o 
considera como um “instrumento inconsciente da história” (Tarcus, 2008: 13) sendo que, no degrau seguinte de sua teoria, representa o 
estabelecimento capitalista como um passo anterior à revolução social, portanto é progressista (atenção, o conceito favorito do 
positivismo), como progressistas serão as consequências da subjugação dos povos considerados pré-capitalistas. A nossa extinção como povos 
indígenas é um requisito para a “evolução”, que é o capitalismo, a ser posteriormente derrotado. Porque não fazemos parte DA história 
europeia e nem do seu projeto em que “A burguesia exerceu… uma ação essencialmente revolucionária. Onde quer que se tenha conquistado o 
Poder, foram pisoteadas as relações feudais, patriarcais e idílicas” (Marx, 2000: 29), neste esquema linear os índios (pior, as mulheres 
indígenas) somos “reacionários” por não podermos ser proletários, e nesta situação, elementos destinados a sucumbir. Visão legada do 
eurocentrismo porque “o materialismo histórico não rompe com a transversalidade da diferença imperial, mas a assume, como categoria 
implícita de sua teoria da história, para dar lugar, a partir de uma metodologia de interpretação que lhe é específica, a uma leitura 
intencional dentro da qual o significado histórico é subtraído dos processos e atores que se apresentam no cenário latino-americano …” 
(Güendel, 2011: 97).

No entanto, apesar de que eu não resgato Marx por considerar que o marxismo expulsou os índios (com a recomendação de arrasamento) da área 
dos temas do materialismo histórico, estou de pleno acordo com meu amigo David Ali, na última parte do seu artigo, quando determina o 
declínio do sistema capitalista:

Porém, o sistema capitalista está em crise com o aquecimento global, porque sua racionalidade baseada no “meio-fim” se traduz em dominação e 
acumulação; e essas conduzem à negação da vida. Portanto, continuar apostando nesse sistema é ir no caminho do suicídio coletivo… (Ali 2019).

Concordo com a proposta da necessidade de anular esse sistema brutal que também vem do positivismo. Mas concordo ainda mais com sua ideia de 
Pachakuti: “o retorno ao paradigma da vida, fundado em outra racionalidade, onde o fim seria a afirmação e reprodução da vida e assim sair 
do antropocentrismo moderno que coisificou o mundo” (Ali 2019). Concepção que nada tem a ver com o marxismo. Embora o capitalismo tenha 
imposto brutalmente a incorporação da tecnologia do trabalho para extrair, transformar e destruir a natureza, o marxismo tão pouco a 
considerou mais do que base de produção destinada ao consumo e também à mercadoria, dentro de uma concepção antropocêntrica, “Em última 
instância, uma mercadoria leva implícita a destruição da biodiversidade biológica e uma perda de material genético único e insubstituível, 
pois cada animal ocupa um nicho ecológico” (Taeli, 2018: 233).

A abordagem Pachakuti (fora do pachamamismo do atual regime “socialista” na Bolívia, que sem entender esta tendência de pensamento e 
deturpando e torcendo e prostituindo chamou de “os direitos da Mãe Terra”) tem a ver mais com a ecologia profunda criada por Arne Naess que 
em seu projeto de vida declarou que a luta é pelo fim do antropocentrismo.

https://jichha.blogspot.com/2019/02/es-posible-pensar-marx-desde-el.html
Bibliografia:
ALI C.D. (2019). ¿Es posible pensar Marx desde el Indianismo-Katarismo? Qullasuyu: Periódico mensual Pukara. Enro 2019. Año 12. No. 149.
ANDERSON, K. B. (2012). Marx en torno al nacionalismo, la etnicidad y las sociedades no occidentales. (En: 
https://viento¬sur.info/spip.php?article6987). Al 01, enero 2019
GÜENDEL, Hermann. (2011). Marx sobre América Latina, revisión crítica de una enunciación eurocentrada. Revista Praxis No. 67. Dialnet.
HEGEL, G. W.F. (2005). Lecciones sobre la Filosofía de la Historia universal. Madrid. Editorial Tecnos.
MARIÁTIEGUI, J.C. (2007). 7 Ensayos de interpretación de la realidad peruana. República Boliviariana de Venezuela: Ed. Fundación Biblioteca 
Ayacucho
MARX, K. (2000). Manifiesto Comunista. Ed. Elaleph
MARX, K. ENGELS, F. (1972) Materiales para la historia de América Latina. Córdoba, Argentina: Ed. Cuadernos de Pasado y Presente 30.
TAELI, G. F. (2018) Marx: la naturaleza y la mercancía. Chile: Nuevos Nómadas. 229-237. (En: http://nomadas.ucentral. 
edu.co/nomadas/pdf/noma-das_48/48_14G_marx_la_na¬turaleza_y_la_mercancia.pdf) Al 02 enero 2019
Tarcus, Horacio. (2008). ¿Es el marxismo una filosofía de la historia? Marx, la teoría del progreso y la “cuestión rusa”. Andamios, 4(8), 
7-32. Obtido em 01 de janeiro de 2019, em http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1870-00632008000100001
Fonte: Pukara No 150. La Paz, fevereiro de 2019. Visto em https://jichha.blogspot.com/2019/02/indianista-anarquista-mirando-marx.html

tradução: GT Agrário da CAB

http://cabanarquista.org/2020/11/02/uma-indianista-anarquista-olhando-marx/


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