(pt) União Popular Anarquista UNIPA: A Grande Peste do século XXI, o Imperialismo e a Luta de Classes: Uma análise bakuninista

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Sexta-Feira, 1 de Maio de 2020 - 08:08:14 CEST


Comunicado nº 69 da União Popular Anarquista - UNIPA, 26 de abril de 2020 ---- Observe à sua volta e veja como este mundo, que se diz 
civilizado, está desvairado e impotente e não sabe o que fazer; para onde fugir. Ele parou em sua marcha, não pode ir mais longe pois foi 
abandonado por todos os elementos que levam à vida e ao progresso. Ele não acredita em mais nada, nem nele próprio, nem no futuro. Sua hora 
soou, sua vida atual nada mais é senão um último combate mortal; mas não tema, querida amiga, um mundo mais jovem e mais belo o seguirá; 
lamento apenas uma coisa, eu não o verei, e você também não, pois a luta, como eu o disse, durará ainda muito tempo e sobreviverá a nós 
dois. (Mikhail Bakunin)
A crise pandêmica atual têm acelerado as tendências gerais que já estavam atuando sobre a luta de classes e o sistema mundial capitalista, 
especialmente desde a crise econômica de 2008. A face epidemiológica ou "natural" representada pela expansão do coronavírus, como não 
poderia deixar de ser, está permeada pelas relações de poder mundiais, de dominação e resistência. Os próprios surgimentos das pestes estão 
relacionados, em geral, com um padrão de desenvolvimento tecnológico colonial-capitalista que implica uma noção de controle (de cima e de 
fora) sobre a natureza e que têm consequências nos diferentes ramos econômicos (farmacêutica, agropecuária, mineração, energético, etc.), 
que simplificam as múltiplas trocas de matéria e energia entre os ecossistemas. Basta ver a relação já comprovada entre o desmatamento de 
florestas para a expansão agrícola e a transmissão de bactérias e vírus que, tendo seus habitats destruídos, passam a entrar em contato com 
as sociedades.

No entanto, sendo a sociedade parte da natureza, as tecnologias que buscam maior controle sobre a natureza implicam necessariamente um 
avanço nas formas de dominação de uma parte da sociedade sobre outra, ou seja, das tecnologias de dominação, de exploração do trabalho, de 
guerra, controle populacional, contrainsurgentes. A relação sociedade-natureza está, portanto, materializada na luta de classes, nos 
conflitos entre a burguesia e o proletariado, particularmente desde ascensão do capitalismo.

Uma das características do atual vírus Sars-Cov-2, causador da doença Covid-19, é a sua rápida expansão mundial. Em quatro meses atingiu 
quase 200 países, contaminando três milhões de pessoas e matando mais de 200 mil, oficialmente contabilizados até o momento. Ao longo da 
história, uma série de outras epidemias atingiram as sociedades globalmente, com diferentes efeitos sobre a ordem social, tal como a peste 
de Justiniano, que matou cerca de 100 milhões de pessoas a partir do século VI; a peste bubônica, que matou metade da população europeia no 
século XIV; a gripe espanhola, com 50 milhões de mortes entre 1918-1920; o vírus HIV, já infectou mais de 40 milhões de pessoas e matou mais 
de 20 milhões; e a dengue, que só em 2019 infectou 3 milhões e matou 1.538 apenas no continente americano.

Portanto, apesar das comparações que se possa fazer com outras crises epidêmicas ou crises econômicas (de 1929, por exemplo), é fundamental 
analisar o contexto atual sem cair em anacronismo, catastrofismo ou idealismo. O anacronismo não enxerga as novas relações históricas; o 
catastrofismo supervaloriza a ação da crise na queda do sistema; e o idealismo idealiza uma melhora/reforma do sistema como resultado da crise.

É essencial compreender os atuais interesses em disputa. A atual pandemia tem evidenciado as estratégias de dominação imperial tanto dos EUA 
como da China, Rússia e países europeus. Se as evidências apontam que o vírus não foi criado em laboratório, o fato é que ele já está sendo 
utilizado com características de arma biológica pelos poderes imperiais-coloniais. Podemos ilustrar essa instrumentalização com os casos da 
deportação de imigrantes guatemaltecos dos EUA, com casos confirmados de infecção entre eles e com as interrupções do fornecimento de água 
nas regiões curdas na Turquia e as manobras preparatórias do exército turco para uma nova ofensiva contra Rojava.

Por outro lado, os grandes monopólios capitalistas atuam por todo lado para expandir lucros e regimes mais brutais de exploração. Os poderes 
teológicos e científicos também buscam se relegitimar, mas pouco tem se falado sobre as suas parcelas de culpa na crise atual. Conservadores 
e social-democratas apresentam soluções ilusórias e enxergam a crise como oportunidade de governar. Todos conspiram e fazem a guerra suja.

Como já temos analisado há alguns anos e, particularmente, em nosso VII Congresso - realizado em novembro de 2019, as tendências 
ultramonopolistas, despóticas e o acirramento das disputas interimperialistas já estavam em expansão no Brasil e no mundo. No entanto, 
acelerar no espaço e no tempo as tendências econômicas e sociopolíticas significa modificar relativamente as suas qualidades. Então, mais do 
que nunca, não podemos desconsiderar a pandemia como uma força agente na realidade. O bakuninismo rompe com o centralismo epistemológico que 
separa sociedade e natureza que domina as teorias liberais, marxistas e pós-modernas. Através do materialismo sociológico e da dialética 
serial analisamos as contradições permanentes entre autoridade e liberdade no mundo social e natural com vistas à emancipação integral da 
classe trabalhadora.

Dando continuidade aos Comunicados nº 67 e 68, buscamos contribuir aqui com uma análise política revolucionária da crise atual, desde um 
paradigma bakuninista-anarquista e, portanto, autônomo em relação aos demais sistemas de saber-poder. A nossa organização não o faz por 
capricho "acadêmico" ou "propagandístico", mas cumprindo sua missão histórica de atuar como amiga do povo, construindo a partir da teoria 
anarquista uma direção e uma organização de massas para a revolução brasileira e as insurgências que se avizinham.

1. Disputas imperialistas e ultramonopolismo

Mapa dos países com as maiores reservas de petróleo do mundo (janeiro de 2014)

Esta reação nada mais é senão a realização acabada do conceito antipopular do Estado moderno, o qual tem por único objetivo a organização, 
na mais vasta escala, da exploração do trabalho, em proveito do capital, concentrada em pouquíssimas mãos (...) A indústria capitalista e a 
especulação bancária modernas necessitam, para se desenvolverem em toda a amplitude desejada, destas grandes centralizações estatais, que, 
sozinhas, são capazes de submeter à sua exploração os milhões e milhões de proletários da massa popular. (Mikhail Bakunin).

A atual crise tem deixado evidente tendências que anos atrás estavam menos visíveis. Em relação ao sistema mundial capitalista e as relações 
de poder do colonialismo e imperialismo contemporâneos, podemos dizer que as suas tendências gerais atuais são:

1º A nova guerra fria, que se expressa pelo acirramento da disputa geopolítica entre os blocos EUA-UE x China-Rússia, gerando guerras 
indiretas por regiões de influência na América Latina, África, Ásia, e também na Europa (acelerando a crise da UE). Portanto, apesar dos EUA 
ainda ser a maior potência imperialista (e isso não pode ser desconsiderado), existe uma tendência de declínio da hegemonia norte-americana 
no sistema mundial. Esse declínio é o que impulsiona a nova estratégia estadunidense, mais agressiva em termos imperiais-coloniais, para 
combater a ascensão do bloco sino-russo;

2º A nova onda global de colonização que, iniciada nos anos 2000 e acelerada pela crise de 2008, tem gerado uma corrida mundial pelo 
controle de territórios, populações e recursos energéticos e naturais (terra, água, biodiversidade, alimentos, insumos etc.) por parte dos 
Estados e empresas estrangeiras e nacionais;

3º Como decorrência dos dois anteriores, os EUA vem abdicando paulatinamente dos pressupostos discursivos que marcaram a legitimação 
civilizatória do período neoimperialista (multiculturalismo, democratismo, ambientalismo) para adotar uma postura cada vez mais pragmática 
em termos "nacionais". A Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, lançada em 2017 (gestão Trump), assim como políticas protecionistas 
e maior espaço de expressão para ideologias de extrema direita, são exemplo disso;

4º Na economia mundial capitalista, tem se aprofundado as características do ultramonopolismo e da acumulação flexível do capital, com 
processos de fusão, aquisição e compras de empresas pelas grandes corporações, bem como a expansão das novas tecnologias de exploração do 
trabalho (tal como os "aplicativos") que aumentam a centralização do poder econômico mesmo com patrões aparentemente intangíveis, a 
superexploração do trabalho na ponta dos serviços e as pressões das classes dominantes contra os direitos trabalhistas e previdenciários 
mais básicos adquiridos no século XIX e XX, fazendo avançar o chamado regime de uberização do trabalho, que substitui a relação de 
exploração na forma emprego por formas menos regulamentadas.

5º Um ciclo de insurgências populares nos países centrais e periféricos, que está relacionada a constituição de uma nova classe trabalhadora 
que expressam suas características étnicas, ocupacionais, de gênero, geracionais, formas de organização, etc. As revoltas de imigrantes e 
greves gerais na Europa, passando pela insurreição em junho de 2013 no Brasil, até as revoltas populares no Equador e Chile em 2019-2020 são 
exemplos dessa tendência que tende a se aprofundar e também se renovar;

6º Por fim, existe um acirramento dos conflitos militares não apenas entre nações, mas também no interior dos próprios países. Nos países 
centrais, essa tendência repressiva e militarista tende a ser direcionada prioritariamente contra os imigrantes e contra países com 
abundância em recursos naturais e energéticos. Nos países periféricos, ela é direcionada prioritariamente contra o campesinato e ao 
proletariado marginal, majoritariamente negros e indígenas. As políticas militaristas, fascistas e de contrainsurgências particulares a cada 
realidade nacional e regional, são materializações de diferentes estratégias de contrarrevolução burguesa, gerando formas de poder 
neofascistas e podem gerar também ditaduras militares, ocupações estrangeiras, etc.

Nós temos analisado todos esses fatores e tirado lições para a luta revolucionária nos últimos anos, entendendo que todos eles estão 
dialeticamente relacionados a crise atual. Um fator estratégico é a atual crise do petróleo. No início do mês de março, em meio a expansão 
da pandemia e retração da demanda por petróleo, um conflito comercial entre Rússia e Arábia Saudita desencadeou a queda vertiginosa do preço 
do barril de petróleo, que caiu de US$ 70 para US$ 25 em apenas uma semana, provocando um abalo financeiro global. A queda ocorreu devido a 
superprodução lançada no mercado mundial pelos sauditas, que possuem capacidade de sustentar os custos de produção e ofertar barris a baixo 
preço.

A própria Petrobras já tem descrito esse fenômeno como a maior crise da indústria do petróleo dos últimos cem anos, e chegou cortar a 
produção de 200 mil barris por dia, levar a hibernação de 62 plataformas das bacias de Campos, Sergipe, Potiguar e Ceará, além da 
transferência de trabalhadores, demissão, redução de salários e pressão com o Plano de Demissão Voluntária. A combinação da queda da 
produção nacional com aumento da demanda doméstica e estocagem do gás de cozinha (GLP), um derivado do petróleo, explica a alta do preço em 
alguns municípios durante um tempo da pandemia, enquanto o preço da gasolina despencou pela diminuição da demanda.

A pandemia se transformou no fator determinante da queda da produção e da demanda do óleo em todo o mundo, mas particularmente na China, nos 
EUA e na Europa. Todas as tendências indicam uma redução da demanda no curto e médio prazo devido às políticas anti-coronavírus de 
fechamento de fronteiras, paralisia dos sistemas e fluxos de transporte, etc. Os EUA, maior produtor de petróleo, estava sendo o mais 
prejudicado com a queda dos preços e chegou a ameaçar a autocracia aliada, Arábia Saudita, com punições tarifárias caso não reduzisse a 
oferta. Buscando uma solução para crise, os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e mais 11 países produtores (OPEP+) 
se reuniram no último 12 de abril e selaram um pacto de diminuição mundial da oferta de petróleo.

Porém, a diminuição do volume de produção foi baixa, e como os estoques estão atingindo seu limite em todo mundo, uma consequência inédita 
foi o barril fechar com preço negativo. É a primeira vez na história que isso acontece. No dia 20 de abril, os contratos futuros (de maio) 
do barril de petróleo de tipo WTI (West Texas Intermediate) foram negociados nas bolsas de valores fechando a 37,63 dólares negativos. Ou 
seja, os vendedores estavam pagando para outros investidores assumirem seus contratos de maio. O West Texas Intermediate (WTI) é uma classe 
de petróleo produzida no Texas e no sul de Oklahoma que serve como referência para a precificação de outros fluxos de petróleo.

Estimativas disponíveis sobre as reservas de gás de xisto em 48 grandes bacias (38 países), segundo a Energy Information Administration 
(EIA). De cima para baixo na Legenda: Bacias com recursos estimados; Bacias com recursos não estimados; Países estudados; Países não estudados.

Nos últimos anos, os EUA ampliaram sobremaneira sua produção a partir de fracking, uma técnica não convencional de fraturamento hidráulico 
para extração de petróleo e gás de xisto das rochas que armazenam dispersamente estes minerais. Os EUA chegaram em 2012 em seu nível mais 
elevado de produção em 15 anos e menor dependência estrangeira em décadas. Apesar de o fracking gerar desperdício, contaminação hídrica e 
elevado risco ambiental e para saúde humana, este risco foi desprezado por preferirem ampliar a independência energética a um custo 
relativamente baixo considerando que os EUA, como um dos maiores consumidores de petróleo do mundo, dependiam parcialmente da importação de 
petróleo.

Esta atual queda abrupta do preço do petróleo, portanto, também pode levar a quebra de diversas empresas norte-americanas e ditar o domínio 
do mercado pelos próximos anos. Entre 2014 e 2017, um terço das empresas norte-americanas de xisto faliu ou foi afetada financeiramente 
quando ocorreu queda acentuada nos preços do petróleo. Os EUA poderiam ser hoje ainda mais afetados pois sua situação como um dos principais 
focos da pandemia de Covid-19 anuncia possível forte recessão econômica no país. Porém, não se poderia duvidar da capacidade de recuperação 
financeira dos EUA. Vários países utilizam a exploração por fracking, como Rússia, China, México, Colômbia, Argentina, entre outros, mas EUA 
e Canadá estão no topo da produção. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a OPEP possuía, em 2013, 40,2% da produção mundial de 
petróleo, enquanto EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega (América+1) participavam com 23,7% e a projeção em 2025 era que América+1 e OPEP 
teriam cerca de 32-33% da produção cada.

O fato é que o petróleo é usado como uma arma geopolítica para a dominação imperialista. Assim, a tendência de acirramento dos conflitos por 
recursos energéticos e territoriais é marcante da atual crise pandêmica. As novas movimentações militares navais dos EUA na costa da 
Venezuela após a classificação do governo bolivariano como narcoterrorista, estabelecendo uma recompensa pela captura de Nicolás Maduro, 
fazem parte da estratégia imperialista norte-americana para a América Latina, de controle colonialista (e de governos subservientes "puro 
sangue") sobre os territórios e recursos naturais-energéticos.

Garantir o alinhamento do governo brasileiro aos EUA ou a aquisição do parque produtivo da Petrobras e avançar sobre a estatal venezuelana 
PDVSA garantiria vantagem estratégica aos EUA mundialmente. É preciso considerar que a Venezuela dispõe da maior reserva de petróleo do 
mundo e é membro da OPEP, apesar de não ter a mesma capacidade saudita de segurar o custo de produção com baixo preço de venda.

Condizente com sua reorientação de segurança nacional "anti-globalista", os EUA primeiramente assumiram um discurso obscurantista e 
conspirativo sobre o coronavírus e, posteriormente, frente ao caos muito real instaurado no interior das suas fronteiras, tem atuado de 
maneira pragmática e chauvinista com a utilização do seu poderio econômico e militar para garantir posições privilegiadas em relação aos 
demais países. Exemplos disso são o corte da contribuição à OMS, a manutenção das políticas de bloqueio econômico a países inimigos, e o 
criminoso desvio de mantimentos de saúde, entre eles respiradores, destinados a outros países. A aposta do poder americano nesse momento 
está inteiramente depositada na manutenção da sua supremacia no campo da moeda, no das finanças e no do controle naval de todos os mares e 
oceanos do mundo.

Por outro lado, a política externa e diplomática da China tem se modificado em meio a pandemia, com uma presença cada vez maior através de 
apoios sanitários e financeiros aos países atingidos, especialmente à Europa. A penetração da influência chinesa avança em igual proporção 
em que a União Europeia perde credibilidade como bloco entre os países membro, tal como a Itália. O enfraquecimento e fraturas da UE é uma 
das consequências que a China e os EUA têm buscado orientar ao seu favor. Assim, a atual política do Estado chinês e russo está longe de se 
guiar por valores "humanistas" e "altruístas" como se tem propagado de forma genérica e inconsequente pelos partidos 
social-democratas/comunistas.

2. As tecnologias de dominação e exploração

Tecnologia de geolocalização acoplada em aplicativos de celular permite startup monitorar deslocamento das pessoas em todo Brasil.

Quem diz Estado ou poder diz dominação, mas toda dominação presume a existência de massas dominadas. O Estado, consequentemente, não pode 
confiar na ação espontânea e no movimento livre das massas, cujos interesses mais caros são contrários à sua existência; ele é o inimigo 
natural destas, seu necessário opressor, e, sempre cuidando em não admitir isto, ele sempre deve agir enquanto tal. (Mikhail Bakunin, 1871. 
O império knuto-germânico e a revolução social)

Outra influência do bloco imperialista sino-russo tem ocorrido pela crescente demanda das classes dominantes por tecnologias de controle 
populacional e territorial, sob a ideologia da maior eficiência na "defesa da vida". As grandes pestes e guerras tem sido historicamente uma 
oportunidade para expandir novas tecnologias de dominação, que até então tinham resistência por parte das sociedades. Embora hoje sejamos 
induzidos tacitamente a falso consentimento de exposição pessoal nas tecnologias de informação e comunicação (por aceitar regras pouco 
claras em aplicativos ou mesmo com a ampliação da exposição voluntária da intimidade, como fornecer nossa localização e rede de relações).

A criação, no século XX, de registros como RG, CPF, passaportes, controles biométricos, tendem a avançar hoje para novas técnicas que 
viabilizem e legitimem o monitoramento via GPS, big data, microchips, redes sociais, etc. Hoje no Brasil, a startup In Loco está mapeando o 
índice de isolamento social nas cidades a partir da permissão de acesso a geolocalização embutida em aplicativos de 60 milhões de aparelhos 
e o governo Bolsonaro já articula semelhante controle via operadoras telefônicas.

Este aprendizado e volume de dados é um precedente de vigilância para utilização futura em diversas intenções de antecipação, controle ou 
direcionamento político, assim como já o faz o mercado no cruzamento de algorítimos ao sugerir aos usuários interesses a partir de nossas 
pesquisas, ou como foi feito pela Cambridge Analytica nas eleições norte-americanas que elegeu Trump. As alternativas estatistas (de tipo 
sino-russo, NSA, etc.) ou privatistas (como Google, Bill Gates, etc.) concorrerão para provar a maior eficiência tecnopolítica de dominação 
da Autoridade do Estado e do Capital sobre a Liberdade dos povos e da natureza.

As grandes pestes também costumam produzir consequências econômicas parecidas com as das guerras. Nas pandemias, os Estados nacionais também 
são obrigados a assumir o comando estratégico do combate ao "inimigo comum", estatizando atividades e implementando políticas econômicas 
típicas das chamadas "economias de guerra". No entanto, ao contrário das guerras que tendem a destruir cidades, infraestruturas, 
equipamentos físicos e fábricas, a pandemia por si só não têm essa característica. Ela tende principalmente à destruição da força de 
trabalho, que também pode ser perigosa para a acumulação de capital na medida em que as mortes em larga escala, ao gerar a diminuição 
imediata do desemprego, gera uma pressão para o aumento dos salários. Há também uma tendência no médio e longo prazo para ampliar a 
automação e multifuncionalidade no trabalho, levando a substituição de postos formais e alimentando a informalidade, e portanto ao 
rebaixamento da renda. Porém, esta tendência nos países da periferia e semiperiferia do capital não se aplicam igualmente em todos os ramos 
ou empresas.

Assim, a preocupação governamental com a saúde pública tende a ser reforçada, com vistas a cumprir esse objetivo de acumulação: mais saúde 
para trabalhar mais. Entretanto, isso não significa a expansão e o fortalecimento da rede pública de atendimento, pois a tendência é 
intensificar a complementação da insuficiência da rede pública com aquisição de produtos e serviços privados conforme a demanda, garantindo 
o atendimento dos interesses do empresariado do ramo farmacêutico e hospitalar e tornando o Estado refém do oportunismo empresarial de 
precificação arbitrária de recursos imprescindíveis, como tem acontecido com a alta de preços e o superfaturamento no fornecimento de 
máscaras, testes e respiradores.

Nada indica a priori que outros serviços públicos além da saúde e repressão serão reforçados. Na educação, a tendência é ampliar o Ensino a 
Distância, de forma exclusiva ou complementar, com a uberização do trabalho docente e a reformulação das licenciaturas. A tendência é o 
fortalecimento do poder necropolítico do Estado associado à sua capacidade de decidir e se legitimar sobre a vida e a morte das populações, 
escolhendo quem terá saúde e quem verterá sangue ou apodrecerá nas prisões.

A consequência macroeconômica mais marcante será o aprofundamento do ultramonopolismo, com a quebra de empresas da pequena e média 
burguesia, ou mesmo da grande burguesia que não estejam adaptadas às novas condições sociais e tecnológicas. Esses mercados serão 
incorporados pelos grandes monopólios que estejam mais adaptados à acumulação flexível e novas tecnologias de exploração do trabalho, tal 
como as empresas-aplicativo. A uberização do trabalho tende a se expandir junto ao ultramonopolismo para outros setores como já vem sendo 
visto com serviços domésticos, educação, etc. Empresas de compra online e aplicativos de serviço tal como Amazon, Ifood, dentre outras, têm 
tido lucros extraordinários, sustentados pelo suor e o sangue do proletariado esfarrapado do século XXI.

No Brasil, essa possível quebra da pequena e média burguesia é um receio latente de Bolsonaro. Por isso ele busca a todo instante se 
dissociar da culpa pela recessão econômica e forçar o fim do isolamento social, preferindo arcar com as mortes do que com a falência desta 
sua base fundamental de apoio. E embora o quadro econômico do Brasil antes da pandemia continuasse estagnado (de acordo com a medida 
burguesa de crescimento do PIB, que ficou em 1,1% em 2019, menor crescimento em três anos), existe um fortalecimento do tripé militarista, 
teológico (sobretudo evangélica neopenteconstal) e ideológico liberal/conservadora e anti-esquerda que pode demorar a ruir mesmo com a 
falência econômica e descarte de Bolsonaro, sendo mais provável, neste caso, sua adesão a um novo "messias" conservador.

O caso da saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça em 24/04 e com isso o desagrado de empresários bolsonaristas como do grupo Brasil 
200 - fato que será melhor analisado em breve -, aponta fissuras na classe dominante, surgimento de um possível novo nome para campanha 
presidencial 2022, além de fortalecer as forças armadas e seus quadros no interior no governo como fiéis da balança. A importância dos 
militares vem crescendo. Em 22/04, o general Walter Braga Netto, ministro da casa civil, anunciou o Plano Pró-Brasil para retomada da 
econômica pós-covid, baseado na perspectiva de injetar entre R$ 30 a 50 bilhões de recurso federal em obras públicas. Embora foram previstas 
parcerias público-privadas, concessões e privatizações, o modelo de centrar no investimento do Estado diverge da doutrina ultraliberal do 
Paulo Guedes, ministro da economia, que não participou da elaboração do Plano.

Assim, o estabelecimento de uma "economia de guerra" com um maior intervencionismo estatal não têm ocorrido de forma antagônica ao 
aprofundamento do ultramonopolismo das grandes empresas privadas. Existe uma ampliação dos gastos públicos para salvar a economia 
capitalista e os bancos, para reforçar o Estado policial-penal (com foco na defesa da propriedade) e para a complementação do setor público 
de saúde. Mas o mesmo não se pode dizer das tendências da educação (EaD, ensino domiciliar, etc.), da agropecuária, setor energético e 
mineral, serviços e comércio. O intervencionismo estatal não ocorre em oposição ao capital privado, mas ao contrário está associado a ele, 
basta olharmos as experiências recentes do neodesenvolvimetismo "progressista" no Brasil e na América Latina, do modelo de capitalismo 
chinês e russo, e outros.

E mesmo este intervencionismo de "salvação pública" terá um limite, seguido da continuidade da desregulamentação econômica (privatizações, 
flexibilização sindical-trabalhista etc.) com os pacotes de Reformas combinada com a ação estratégica de mais Estado-penal, se não for 
contrabalanceado pelas lutas das classes trabalhadoras no mundo.

Todas essas tendências devem ser pensadas nas várias escalas no interior do sistema mundial capitalista. Ou seja, é preciso falar de 
imperialismo e colonialismo. Assim como nas grandes guerras, a recuperação dos países centrais exigirá uma estratégia mais agressiva das 
burguesias e Estados coloniais-imperiais contra as classes trabalhadoras e os recursos naturais nos países periféricos. Isso significa o 
aumento das tensões geopolíticas mundiais que podem levar tanto a uma grande guerra entre potências quanto a extensão das situações de 
regimes de exceção intermitentes, coexistência de tirania no submundo social com aparências de estado democrático institucional nos países, 
ditaduras, fascismos, variadas formas de colonialismo, etc.

Nesses cenários, as disputas palacianas entre governos de esquerda e direita estarão cada vez mais restritas à pequena política. 
Republicanos, democratas, bolsonaristas, petistas, todos que se apresentarem como gerentes do poder estatal terão uma margem cada vez menor 
de "mudanças" se não operarem rupturas com as estruturas de poder e com a grande política burguesa-imperial às quais estão submetidos. Nesse 
contexto, o Brasil tem sido um laboratório, principalmente da relação entre o ultraliberalismo e o militarismo como base da nova onda global 
de colonização que se aprofunda com a primeira grande peste do século XXI.

3. Colonialismo interno e Estado de contrainsurgência no Brasil

Exército ficha moradores de comunidades em larga escala de forma não habitual durante intervenção no Rio de Janeiro em 2018 pela GLO 
(Garantia da Lei e da Ordem)

É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até os nossos dias, tudo se transformou em capital europeu (...). 
Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e consumo, os recursos naturais e 
os recursos humanos. (Eduardo Galeano).

Diz o ditado que é na hora das grandes pestes e crises que a gente conhece a verdadeira natureza de uma sociedade. Essa nova peste está 
apenas desvelando o que já existia, mas que ainda estava encoberto pelo que talvez se pudesse chamar de último véu de hipocrisia da "nova 
república" ou da democracia liberal no Brasil.

A burguesia brasileira têm expressado de forma mais evidente que nunca abandonou a sua ideologia colonial e escravista, que sempre foi sua 
marca. Fala abertamente que não vê problema na morte de milhares de pessoas desde que os seus negócios continuem lucrando. Para empresários 
como Justus, Hang, Guerra e Durski a vida está a serviço da economia, e não o contrário. E isso - para a surpresa de alguns! - tem sido 
exatamente o elemento unificador da extrema direita. O bolsonarismo, apesar das múltiplas crises em que está envolvido (política, sanitária, 
econômica) ainda consegue mobilizar essa base da média e grande burguesia, bem como o setor teológico e obscurantista, para sair as ruas 
pelo fim do isolamento e pela salvação da economia.

A crise pandêmica associada às estruturas de colonialismo interno do capitalismo dependente brasileiro têm sido utilizada pelo governo 
Bolsonaro/Mourão para acelerar a política de genocídio, expropriação e controle territorial do povo negro, dos povos indígenas e camponeses, 
da política ultraliberal (precarização dos serviços públicos, retirada de direitos trabalhistas, etc.) bem como do militarismo e da política 
de contrainsurgência que lhes servem de base. O vírus tem sido utilizado como arma biológica dos poderosos contra os indesejados: os idosos, 
a população carcerária, os camponeses, os favelados.

As consequências da "PEC da Morte" (EC 95) demonstraram que a ênfase da crítica no seu caráter genocida não era apenas slogan. Era contra 
isso que as jornadas de junho em 2013 (que defendeu a saúde pública) ou o Ocupa Brasília em 2016 tanto lutaram. A derrota dessa e outras 
lutas no passado, ocasionadas pela repressão estatal e pelo peleguismo da esquerda, é parte fundamental da explicação da crise que vivemos hoje.

Fazemos coro com a avaliação da União Sindical Italiana (USI):

"Quando as mortes ocorrem pouco a pouco, parece que não é tão evidente. Mas agora, as mortes por coronavírus são muitas em muito pouco 
tempo. (....) Toda vez que deixávamos um leito hospitalar fechar, alimentávamos o nosso medo e angústia de hoje. Nos últimos anos, 
assembleias e greves em defesa da saúde não receberam apoio suficiente."

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), nos primeiros três meses de 2020 o desmatamento da floresta amazônica cresceu 
51% a mais do que no mesmo período no ano anterior. No total foram devastados 796 km², o equivalente a cidade de Nova Iorque. No mês de 
março, em meio a pandemia, os alertas de desmatamento cresceram 29,9% em relação ao ano anterior. O fato é que, em plena expansão do 
coronavírus, o governo Bolsonaro/Mourão reduz a fiscalização e mantêm o discurso colonial contra os povos e a natureza. Além disso, em 
dezembro de 2019, foi editada a MP 910/2019 que legaliza a grilagem de terras.

No Pará, durante a atual pandemia as novas regiões de expansão do desmatamento têm sido estimuladas pelos grandes projetos de 
infraestrutura, como o asfaltamento da rodovia Cuiabá-Santarém e trechos da Transamazônica na região de Altamira. Além disso, estão sendo 
construídos portos para escoamento de grãos. Em outras áreas como Mato Grosso ou Amazonas, a causa principal tem sido a corrida pela 
grilagem de terras públicas para a posterior regularização (favorecidas pela MP da grilagem).

No Maranhão, o acordo entre os governos Bolsonaro e Trump para a concessão da Base de Lançamento de Alcântara aos EUA foi aprovado pela 
Câmara dos Deputados em 22/10/2019 com o apoio do governador Flávio Dino (PCdoB). A Base é estratégica para o imperialismo norte-americano 
devido a sua localização geográfica. No último dia 27 de março foi publicada no diário oficial a resolução 11/2020 onde o governo Bolsonaro 
estabeleceu a expropriação de uma área de 12 mil hectares na qual vivem a mais de 200 anos cerca de 30 comunidades quilombolas com mais de 
700 famílias. A isso se somam outros projetos desenvolvimentistas do governo Flávio Dino (PCdoB) que tem levado a tensões expropriatórias de 
populações camponesas, como a duplicação da BR-135, a construção de uma linha de transmissão de energia e de um porto privado internacional 
(em parceria com a multinacional chinesa CCCC).

Em todo o país, os megaprojetos de mineração não pararam a pilhagem territorial e exploração do trabalho por conta do coronavírus. Apesar de 
já ter sido registrado mortes de 2 trabalhadores e várias denúncias de novos infectados, as mineradoras Vale, Samarco, CSN, Gerdau e outras, 
continuam as suas atividades colocando em risco a vida dos funcionários e das comunidades locais.

Junto a isso, os dados apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo demonstram a tendência da expansão do Covid-19 pelas 
grandes cidades: a maioria dos óbitos se concentram nas favelas e bairros pobres. O coronavírus também tem se expandido pelo sistema 
carcerário com poucas ou nenhuma medida para a garantia da vida dos presos. Este é um quadro considerando os dados oficiais, porém a 
subnotificação de contaminação e mortes deve ser considerada, uma vez que não há testes-diagnóstico suficientes.

Todos esses casos não podem ser reduzidos à expansão da fronteira "agrícola", a fatalidades ou casos isolados. Precisamos compreender esses 
casos dentro de um projeto amplo de desenvolvimento capitalista baseado nas estruturas de colonialismo interno e impulsionado pela nova onda 
global de colonização desde os anos 2000. Esse processo teve um impulso decisivo no grande pacto neodesenvolvimentista dos governos petistas 
no Brasil, e todo progressismo latino-americano.

Envolvem redes de infraestrutura, projetos hidrelétricos e energéticos, megaprojetos de mineração, monocultivos agrícolas, criação de 
povoamentos e cidades (e favelas), expansão e modernização das forças armadas e do sistema prisional. Nas grandes cidades as estruturas de 
colonialismo interno têm combinado a integração do Estado aos poderes narco/paramilitares com operações policiais e militares para o 
controle dos territórios do povo negro e pobre, a especulação imobiliária, a superexploração do trabalho. As milícias têm alcançado um poder 
territorial e comercial cada vez maior nas grandes cidades, enquanto o crime organizado têm se expandido para o interior e se vinculado as 
estruturas de poder do latifúndio capitalista.

Hoje a ofensiva colonial e extrativista em marcha se despe paulatinamente das narrativas "progressistas", "democráticas" e de 
"sustentabilidade" que lhe serviram de base inicial, mas que não passavam de uma superfície ilusória repetida mil vezes pela 
social-democracia apodrecida e sua burocracia sindical-partidária. A essência sempre foi o colonialismo interno, com forte apoio do Estado, 
das forças armadas e de uma burguesia nacional associada ao capital estrangeiro. A crise pandêmica atual e os cenários futuros, portanto, 
tendem a ampliar as disputas expropriatórias sobre os territórios camponeses, indígenas e quilombolas, bem como as estratégias de controle e 
superexploração do proletariado marginal.

Dessa forma, a grande peste se alastra rapidamente, e com ela se alastram a crise econômica, social e política nos países centrais e 
periféricos. No Brasil e na América Latina é importante compreender que a pressão do imperialismo norte-americano será cada vez maior A 
ascensão da ala de extrema direita e a conformação do atual bloco no poder em torno a ela atende a esses objetivos. Tal como analisamos no 
Comunicado nº 61, lançado no primeiro dia de governo Bolsonaro/Mourão:

"(...) o presidente eleito, seu vice e a maioria do alto-comando do exército foram todos formados na Academia Militar das Agulhas Negras 
(AMAN) no final dos anos 1970. Isso significa que representam o pensamento da caserna, da doutrina anticomunista e da subserviência aos EUA 
do período da Guerra Fria. Portanto, a vitória de Bolsonaro é a vitória dos porões da Ditadura Empresarial-Militar."

O projeto de poder do bolsonarismo tem levado a dualidade política Democracia x Tirania ao seu limite, pois ele integra cada vez mais as 
milícias e grupos de extermínio (sempre existentes e fundamentais na estrutura colonial brasileira) nas disputas partidárias e até ao 
governo federal (o assassinato de Marielle e Anderson demonstra isso). Essa contradição tem sido central e apresenta possíveis cenários 
importantes a serem considerados:

1º) Um golpe militar que desestruture de forma geral as instituições democrático-burguesas e republicanas em favor de um sistema político 
ditatorial de base militarista-clerical-burguesa; 2º) Uma ofensiva da burocracia partidária e republicana (de direita e de esquerda), 
apoiada em setores populares e da burguesia insatisfeitos, para realização de um impeachment e manutenção da democracia burguesa; 3º) Uma 
reestruturação política da burguesia por meio das eleições de 2022, que pode apontar para uma alternativa eleitoral mais 
pragmática/neoliberal (sem o bolsonarismo), um novo pacto de conciliação de classes com as burocracias sindicais-partidárias de esquerda ou 
ainda a continuidade do bolsonarismo.

O Brasil e grande parte dos países periféricos e semiperiféricos, por sua estrutura de classes e inserção dependente no sistema mundial 
capitalista, muito provavelmente não seguirão o mesmo modelo do fascismo europeu, ainda que elementos de extrema direita e neofascistas 
estejam presentes no governo. O problema é que o eurocentrismo da social-democracia brasileira banaliza o termo "fascismo". O fascismo foi 
uma das estratégias da contrarrevolução burguesa na história e particularmente nos países centrais, um necessário "expediente de emergência" 
para Europa segundo o liberal Misses. A contrarrevolução tendeu a se expressar nos países periféricos e semiperífericoss sob outros modelos.

No Brasil podemos dizer que a reativação das estruturas de colonialismo interno a partir dos anos 2000 caminharam juntas com a reativação 
dos mecanismos de um Estado de contrainsurgência (especialmente pós-2013) que nunca foram completamente destruídos no processo de 
redemocratização dos anos 1980 pós-ditadura, e essa reativação tem sido a principal face da atual tendência autoritária e 
contrarrevolucionária no Brasil.

Hoje, a banalização eurocêntrica do termo "fascismo" (seja por correntes liberais, social-democratas ou revolucionárias) tem se tornado uma 
armadilha teórica e política no seguinte sentido: 1º) A definição do Estado brasileiro como fascista mistifica a realidade política atual, 
analisando de forma errada as estruturas do Estado e da luta de classes no Brasil, bem como as suas tendências; 2º) Isso tem gerado uma 
reação contrária, igualmente idealista, que desconsidera as ameaças do autoritarismo, da ditadura, enfim de uma ofensiva 
contrarrevolucionária, advogando uma estabilidade ilusória da forma "democrática" do Estado brasileiro. O que há em comum entre ambos é que 
fecham os olhos para a realidade e para o futuro, desarmando os trabalhadores para os desafios que virão.

Não é verdade que fascismo seja o único "sinônimo" para tortura, racismo, perseguição, execução política, teologismo, autoritarismo. Nós 
vivemos isso há mais de 500 anos sob diferentes formas e intensidades. O que estamos vivendo hoje, por várias características aqui 
analisadas, é uma nova ofensiva contrarrevolucionária que pode levar a modificações maiores ou menores no regime político a depender da luta 
de classes.

Aqueles que comparam o Brasil com a história europeia são inocentes com o que pode estar por vir. Tudo indica que a estratégia de 
contrarrevolução burguesa que ganha corpo na crise atual será muito pior para as classes trabalhadoras da América Latina, África e Ásia 
(sejam nos seus países ou como imigrantes) do que se pode imaginar nos países centrais. Não nos enganemos: no sistema atual, a nossa carne, 
o nosso suor e as nossas terras serão parte fundamental dos programas "muito civilizados e modernos" de recuperação dos Estados e burguesias 
imperialistas. Ou nos colocamos à altura dos desafios históricos ou perecemos frente a barbárie colonial e capitalista.

4. A Era das Insurgências: Reorganização da classe trabalhadora e linha revolucionária anarquista

Trabalhador Quilombola na comunidade em Alcântara, Maranhão

A ruína não nos dá medo. Sabemos que não vamos herdar nada mais que ruínas. Porque a burguesia tratará de arruinar o mundo na última fase da 
sua história. Porém, nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo nesse momento. 
(Buenaventura Durruti)

Diante de tudo o que foi analisado, é preciso extrair lições para uma linha política e de massas revolucionária. É preciso combater as 
ilusões, oportunismos e os medos gerados pela crise atual. Primeiramente, seria um grande idealismo supor que a crise levará a alguma 
sensatez ou bom senso por parte dos poderosos. Muitos tem falado de um capitalismo mais "solidário" pós-coronavírus. O que temos visto é o 
oposto. A pandemia tem explicitado a face monstruosa e tirânica da ordem social vigente. As exceções confirmam esta regra.

Os poderosos não medirão esforços para manter a ordem capitalista, mesmo que isso signifique destruir o mundo, tal como analisou o 
anarquista espanhol Buenaventura Durruti. Longe de ser pessimista, Durruti apresenta uma análise dialética onde a ação da burguesia não pode 
ser tomada como "absoluta" desconsiderando o conflito real entre esta e a classe trabalhadora, pois também em meio as grandes crises crescem 
a solidariedade e a insurgência entre os povos e classes trabalhadoras, ou seja, cresce um mundo novo. Exemplos no Brasil e no mundo de 
ações mutualistas e reivindicativas não faltam, tal como analisamos no nosso Comunicado nº 68.

Mas esse mundo novo nunca virá de um apelo ao bom senso "humanitário" do sistema capitalista, tal como se têm propagado hoje. Existe uma 
tendência, própria da crise de organização e direção do proletariado, que leva as pessoas a depositarem esperança de que fenômenos externos 
de grande porte (crises pandêmicas, crises econômicas, a volta do messias, etc.) realizem as aspirações igualitárias e libertárias que o 
povo quer e necessita. No entanto, é um erro acreditar que fenômenos externos aos sujeitos materialmente interessados em tais mudanças farão 
aquilo que é uma tarefa que só eles podem e querem realizar.

Por isso mesmo, depositar ilusões no fortalecimento do Estado, nos organismos multilaterais ou no bloco imperialista sino-russo como agentes 
dessa mudança (como tem feito os reformistas) é uma farsa que devemos combater com firmeza. Esses pensamentos são oriundos de uma situação 
de crise organizativa e relativa impotência do proletariado, que tende a apelar ao catastrofismo e agentes políticos exteriores como atalhos 
políticos frente as suas próprias debilidades. É um erro profundo. Os atalhos fazem parte das armadilhas da pequena política eleitoreira, do 
imediatismo e do idealismo. Eles só tendem à manutenção e ao prolongamento do sofrimento do povo.

Assim, é necessário assumir como ponto de partida a tarefa revolucionária em toda a sua profundidade e com todas as suas consequências. A 
ruptura e a insurreição são caminhos incontornáveis para enfrentar a crise atual e o sistema que a gerou. Mas essa insurreição não cairá do 
céu, nem será fruto da ação vanguardista, contraditória e voluntarista de indivíduos ou coletivos isolados. A insurreição é um processo de 
sublevação das massas que só pode ser vitoriosa se sustentado por fortes organizações populares, programa e instrumentos de contrapoder.

No curto e médio prazo, os revolucionários e os trabalhadores enfrentarão três grandes problemas: 1) a ofensiva ultraliberal, imperialista e 
militarista que tende a se aprofundar em quase todos os cenários; 2) A tendência à polarização bolsonarismo versus lulismo-petismo, 
especialmente em véspera de eleições, que buscará de forma cada vez mais agressiva centralizar amplamente as subjetividades e coletividades, 
em uma visão binária, estreita e superficial da realidade social; 3) Os desafios práticos e políticos do processo de reorganização 
revolucionária da classe trabalhadora.

Em relação ao primeiro ponto, conforme apontamos nos Comunicados nº 67 e 68, é fundamental que a classe trabalhadora construa alianças 
transnacionais e internacionais cada vez mais fortes, a exemplo da Confederação Internacional do Trabalho (CIT). Essas devem necessariamente 
combater o corporativismo sindical e o eurocentrismo, incluindo as organizações populares e povos originários dos países periféricos, 
imigrantes, etc.

É preciso, com atenção e paciência, persistir na reorganização internacional dos sindicatos revolucionários extrapolando suas limitações 
organizativas para incorporar, por exemplo, os chamados internacionais dos zapatistas no México, dos curdos no norte da Síria e dos mapuches 
no Chile e Argentina, a riqueza de seus ensinamentos e táticas de resistência. Uma luta internacionalista deve unificar todas estas 
iniciativas autônomas que, cada uma a seu modo, expressam estratégias territoriais pela autodeterminação dos povos e a ruptura tanto com o 
modelo capitalista quanto com o Estado-nação. Esta unificação pode irradiar não apenas a esperança aos corações deserdados do proletariado, 
mas produzir os instrumentos concretos da luta pela libertação.

O classismo e o internacionalismo são paradigmas centrais e devem se materializar na expansão das ações de solidariedade; greves globais ou 
transnacionais; o combate às tendências nacionalistas, xenófobas e imperialistas; contra as guerras injustas e coloniais-imperiais contra os 
povos (Venezuela, Rojava, Líbia, etc.); contra o aprofundamento das desigualdades da divisão internacional do trabalho com a ampliação da 
superexploração e expansão de novas formas de servidão e escravidão; contra as disputas imperialistas que se apresentam hoje sob a forma da 
nova guerra fria, e que aumentam as possibilidades de uma guerra direta entre potências; por fim, combater o autoritarismo no Brasil e as 
tendências a uma ditadura aberta, sem as ilusões e defesas da farsa democrática burguesa, através da autodefesa e do contrapoder popular.

Em relação ao segundo ponto, é fundamental compreender que a tendência à crise do bolsonarismo e da social-democracia leva ambos a tornar 
mais agressiva a sua estratégia para manter ou retomar o poder do Estado. O fator "crise" é importante pois indica que nem o bloco 
conservador nem o social-democrata têm encontrado respostas reais aos problemas das massas populares.

No caso da social-democracia, para construir sua legitimidade, ela precisa derrotar as lutas atuais e aprofundar a desorganização e a 
impotência da classe trabalhadora. Só assim (em cima do medo, da miséria e da impotência) será possível para eles relegitimarem sua 
estratégia eleitoreira, tão desgastada e desacredita pelo povo. Assim, é necessário compreender que a social-democracia e o sindicalismo de 
Estado são forças auxiliares da dominação burguesa e, como tal, devem ser destruídos no processo histórico de autoafirmação e 
autoconstituição da classe trabalhadora como sujeito revolucionário.

Daí a necessidade histórica de ruptura com esses paradigmas e a construção de uma tendência sindicalista revolucionária autônoma, com uma 
nova tradição, métodos e concepções. Hoje isso é decisivo se não quisermos prolongar o impasse político da reorganização da classe (a 
decadência do velho que não leva necessariamente a emergência do novo) ou nos tornarmos forças auxiliares das disputas eleitoreiras. Olhando 
para a história recente, muitos dos esforços coletivos e individuais frutos do levante popular de junho de 2013 foram integrados a esses 
blocos da política hegemônica. Dentre outros motivos, isso ocorreu pela falta de uma alternativa revolucionária de massas que fosse capaz de 
capitanear e tornar permanentes as formas horizontais e coletivistas de ação insurgente das massas.

Aí chegamos ao ponto principal da análise: tudo indica que as amplas formas de auto-organização e apoio mútuo para resistir ao Covid-19 que 
hoje se expandem por favelas, aldeias, locais de trabalho, etc. estarão sob forte assédio político da social-democracia e do conservadorismo 
para integrá-los aos seus interesses eleitoreiros. No próximo período, além de impulsionar as próprias ações mutualistas e reivindicativas é 
necessário um combate político e ideológico dos anarquistas e revolucionários contra essa tendência de integração (e portanto, de negação) 
dessa ampla experiência coletiva no combate ao coronavírus pelos blocos políticos dominantes e pelas disputas palacianas entre "direita" e 
"esquerda".

A principal tendência da social-democracia brasileira (PT, PCdoB, PSOL, CUT, UNE, MST, etc.) têm sido a tentativa de renovação do projeto de 
conciliação de classes e, para tal, a imposição da capitulação ao conjunto do movimento sindical-popular. É o que explica a apatia 
proposital em 2019 (com peleguismo sindical, diminuição em 70% o número de ocupações de terra, etc.) e a marcha das centrais sindicais em 
defesa da indústria nacional, do desenvolvimento capitalista e dos fóruns tripartites (entre as centrais, a burguesia e o governo Bolsonaro) 
que ocorreu em frente a FIESP no dia 03 de fevereiro de 2020. Essa tendência de conciliação de classes tem sido a tônica da atuação 
social-democrata no contexto atual de crise pandêmica.

Chegamos então ao terceiro e último ponto. Em relação ao processo de reorganização da classe trabalhadora brasileira, podemos dizer que 
desde o início do século XXI nós tivemos duas grandes experiências históricas: 1º) A experiência de rompimento com o governismo no movimento 
sindical, popular e estudantil que deu origem a Conlutas em 2004; 2º) A insurreição popular de massas em junho de 2013.

A Conlutas, ao não romper com o sindicalismo de Estado e o eleitoralismo do setor majoritário (PSTU), capitulou ao burocratismo sindical, 
tendo como marco a sua liquidação em 2010 para a criação da CSP-Conlutas. Por sua vez, as jornadas de junho de 2013 expressaram uma 
característica de fluidez organizacional/ativismo que permitiu a ruptura com a política hegemônica naquele momento, mas que num momento 
posterior foi a sua principal debilidade, sendo assimilada de diversas formas à política hegemônica e/ou limitando o desenvolvimento 
organizacional ao localismo e a desintegração.

O surgimento de um projeto de reconstrução do sindicalismo revolucionário no final de 2013 é o mais autêntico e importante legado das 
jornadas de junho no Brasil, que busca aliar combatividade a organização de massas, tarefas segregadas pelos autonomistas e reformistas. A 
reconstrução do sindicalismo revolucionário é peça chave da reorganização da classe trabalhadora brasileira. No entanto, se quiser avançar, 
ela precisa evitar os desvios, principalmente o burocratismo e o ativismo/espontaneísmo, que abortaram as oportunidades de reorganização 
anteriores.

No caminho da reorganização devemos nos atentar aos desvios para impedir a conformação de uma social-democracia "mais radical" ou 
"libertária", assim como de um sindicalismo de "intenção revolucionária" submetido aos paradigmas e estruturas gerais do sindicalismo de 
Estado e da social-democracia, tal como propõem os revisionistas e reformistas da CAB. O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções.

O reformismo libertário da CAB mantém hoje no Brasil um "burocratismo de baixa intensidade": como não possui uma linha política para o 
movimento de massas opera uma política genérica (das cartas e declarações de princípios) e restringe o desenvolvimento de suas frentes de 
massas ao localismo e a dependência de suas "organizações específicas" igualmente localistas e incapazes de romper o cordão umbilical com a 
política social-democrata. (Sobre o reformismo "libertário" no Brasil e na América Latina, veja os nossos Comunicados nº 37 e 42). A 
expansão de suas redes de contatos com os quais assinam documentos internacionais revela ainda a carência de uma teoria e programa 
revolucionário, como apontávamos há quinze anos, mas que é exatamente a estratégia eclética do espeficismo.

Está evidente para nós que novos "junhos" virão, novas insurgências virão, mas a classe trabalhadora brasileira precisa de mais do que uma 
repetição de junho de 2013. Todas as "ginásticas revolucionárias" precisam acumular aprendizados coletivos, organizativamente e 
programaticamente. No campo da reação burguesa está claro que houve um aprendizado significativo com as lutas insurgentes desde 2013, e é 
exatamente para os novos "junhos" que eles tem preparando sua estratégia de contrarrevolução preventiva.

Portanto, para os bakuninistas não basta "repetir junho", numa tentativa infantil e voluntarista de reviver o passado. Insistir na repetição 
descontextualizada e vanguardista da fluidez organizacional e do espontaneísmo articulados com métodos e verbalismos "insurrecionais" nos 
levará no melhor dos cenários não a um "novo" junho, mas ao "velho junho", em um contexto que a luta de classes nos exige muito mais do que 
isso. Num cenário pior esse desvio vanguardista e idealista poderá levar setores revolucionários honestos e importantes ao isolamento das 
massas, à desintegração via repressão e à capitulação ao reformismo, antes mesmo que emerja de fato um novo processo insurrecional de massas 
no Brasil.

Aos bakuninistas não basta desejar e "anunciar" a insurreição, é fundamental criar hoje as condições para o salto de qualidade na capacidade 
de resistência e auto-organização das massas que será decisivo nas lutas insurgentes do próximo período. Esse salto depende essencialmente 
de um sindicalismo revolucionário de massas, do partido revolucionário anarquista e da construção, ainda que embrionária, de organismo de 
contrapoder popular.

Assim, o propagandismo por mais radical e importante que seja também é insuficiente para essa tarefa. A formação de uma nova consciência 
revolucionária das massas só pode ser fruto de uma nova experiência coletiva, de organização e luta da classe trabalhadora por si mesma. Por 
isso a importância de agir sobre as contradições concretas que existem e que irão se aprofundar. A resistência das massas, sob formas 
organizativas autônomas e federalistas, é a base concreta de uma verdadeiramente nova consciência de classe, e sobre a qual deve se dedicar 
a política anarquista de organização e direção revolucionária das massas populares. Como afirmou Bakunin em 1870, um pensamento atual 
sobretudo com as insurgências de nossa era:

"A questão não é saber se o povo é capaz de sublevar-se, mas se ele está apto a formar uma organização que possa assegurar a vitória da 
sublevação, uma vitória que não seja efêmera, mas durável e definitiva. Aí está precisamente, podemos mesmo dizer, exclusivamente, todo o 
fundo de nossa questão vital."

Só o povo salva o povo!
Destruir o imperialismo e o colonialismo!
Construir o Partido Revolucionário Bakuninista e a Confederação Sindicalista Revolucionária!

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