(pt) anarkismo.net: A baderna militar e o conflito ainda controlado dentro da direita by BrunoL

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Sábado, 7 de Março de 2020 - 07:46:40 CET


Ao terminar o carnaval o ano começou de fato com uma 4ª de cinzas "inesquecível". A extrema direita foi convocada para na data de 15 de 
março, marcando o novo momento de micareta proto-fascista no Brasil ---- em transe pós-golpe coxinha. Parece piada, mas a situação é bem 
séria. O general de Exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira (4 estrelas), ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), como 
figura de proa do reacionarismo militar de alta patente, está dobrando a aposta. ----  O uso discricionário do orçamento da União é o sonho 
putrefato de Paulo Guedes e sua laia de Chicago Boys e mesmo que saia um acordo de oligarcas, apenas a hiper-exposição do ex-membro da alta 
hierarquia do Comitê Olímpico Brasileiro na Era Nuzman já foi demonstração suficiente de estranhas lealdades na caserna. Augusto Heleno se 
coloca à frente da destinação do orçamento impositivo. Se o Parlamento ceder, o pinochetista civil do governo, Paulo Guedes, apontaria uma 
contrapartida, prometendo aumento da margem orçamentária destinada aos estados. Na prática seria o golpe de morte na Constituição de 1988, 
ponto de confluência de toda direita, que vai de oligarcas decadentes aos ultra liberais do "novo", passando por tucanos e arrivistas 
militarizados como os do PSL.
Ainda tem muito em jogo, mas a dimensão estrutural já foi alterada. Para a camarilha de fariseus pentecostais e "neopentecostais", os que 
manipulam os milhões de brasileiros e brasileiras das várias linhas do evangelicalismo, o gol já foi marcado no governo Temer. Ainda que 
sempre pressionam por mais legislação de hereges praticantes do pecado da usura, as "igrejas" empresariais são o fluxo de caixa da pobreza, 
ultrapassando tanto as pastorais sociais como o digno esforço das linhas evangélicas de tipo diálogo ecumênico, fé e política de libertação.
Digo isso porque quem mobiliza parcialmente a pobreza são as empresas controladas por fariseus midiáticos, considerando que com a "reforma 
trabalhista", o caixa dos sindicatos (mesmo burocratizados) minguou. De onde já não saía quase nada, agora sai menos ainda. Logo, as redes 
sociais e os canais de comunicação de primeiro nível societário - grupos de amigos, familiares, espaços de trabalho, afinidades de costumes, 
religião e espaço geográfico - todos estes nichos de comunicação estão permeados por bandos de direita pregando de forma irracional suas 
imbecilidades. É o padrão Homer Simpson, não precisa provar nada, basta querer crer que a crença se torna parcialmente "real". Repetidos mil 
vezes, os clichês se tornam "conceitos" e a cloaca ideológica é transformada em estrutura de mentalidade. Maldita "pós-verdade", cada vez 
mais presente no Brasil.
Com tamanho bloqueio, a luta da "sociedade civil" recai sobre quem está mobilizado, tanto socialmente como virtualmente. Na mosca para a 
direita fascistoide. Atacam o feminismo difuso - observando o fenômeno geracional das mulheres brasileiras -; os territórios indígenas e 
quilombolas - mais organizados que nunca e hoje formando a primeira linha de resistência-; fazem um escândalo acusando a defesa LGBTQ+ como 
sendo "ideologia de gênero"; promovem a guerra cultural contra as "esquerdas" - e aí atacam diretamente a instituição universitária que 
supostamente seria a maior difusora desta matriz de pensamento.
Enquanto a guerra foi essa, a "nata colonizada" ganhava simpatias ou ao menos um que de "mal menor" porque os entreguistas não gostam do 
chefe mas amam o especulador Paulo Guedes e idolatram Sérgio Fernando Moro, o juiz da província que a mídia transformou em xerife do país, 
uma espécie de herói da TFP de Miami. O problema para a governabilidade é a luta "interna" em todas as instituições estatais e privadas do país.
Quem está na fogueira das direitas? A saber: os jornalões golpistas, a caserna golpista (vide o "profissionalismo" de Villas Bôas ameaçando 
o STF pelo Twitter) e o estamento jurídico e coercitivo (ou seja, a meritocracia de toga que arma todas desde a Lava Jato e está rachada de 
ponta a ponta incluindo a luta no MPF e principalmente na PF).
Já existem mais variáveis de jogadas do que cálculos possíveis e a tendência é sair um "centrão" ainda mais articulado, incluindo a 
dissidência de Dória Jr (PSDB, governador paulista) e Wilson Witzel (PSC, governador fluminense). Se o mineiro Romeu Zema (Novo) se soma, 
aumenta o balanço da corda bamba e as apostas. Alguém imagina um governo totalmente em oposição a São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais? 
Em seus estados, tais chefes do Poder Executivo operam ao estilo protofascista como Bolsonaro, mas ainda conseguem calibrar o discurso para 
se apresentarem como "opções viáveis".
Se em meados de 2019 pensávamos que o governo vivia entre crises, hoje sabemos tratar de algo mais grave. Estamos diante de uma crise 
política provocada pelo próprio governo, sua petulância e seu pânico. O presidente governa sem partido e se escora em robôs e proselitismo 
para milicos de alta patente com super salários.

Baderna de alta patente, militarização do governo federal e o imponderável em cena
Sei que costumo fazer analogias com a situação brasileira da década de '50 e a crise que chegou ao clímax em 1964. Estamos longe disso, 
dessa segunda parte, mas perto da primeira. A "baderna das vivandeiras" criou asas de barata cascuda e voou. Primeiro surfando nas redes 
sociais, burocratas de uniforme querendo uma fatia de prestígio manipulando hordas de idiotas e supostamente dividindo as preferências e 
lealdades com a "ala profissional". No enredo que seguiu, este analista aqui faz autocrítica pela equivocada apreciação. Cheguei a pensar em 
uma ala "saudosista e revanchista", representada por generais como Hamilton Mourão (vice-presidente eleito) e Sérgio Etchegoyen (ex-chefe do 
GSI do governo golpista de Temer) e outra, a dos coturnos de carreira, tropeiros convictos, como Eduardo Villas Bôas e Fernando Azevedo. 
Ledo engano.
Agora recai a "esperança" sobre o general de divisão Carlos Alberto Santos Cruz, que supostamente explicita um mínimo de sensatez. A mesma 
que lhe faltou para aceitar entrar no governo do capitão expulso do quartel e que não existe na coleção de oficiais de alta patente em verde 
oliva servindo no desgiverno.
Se no "governo" Temer o problema mais visível seria o Entreguismo, Bolsonaro e sua dinâmica olavista aumentam o problema, sendo que qualquer 
manifestação sensata e não intervencionista já é vista como sendo de "centro".
Aumenta a aposta de Bolsonaro e multiplicam-se os problemas nos quartéis. Como fazer com que mais de 100 oficiais superiores e generais 
voltem para os quartéis ou vistam comodamente o pijama da reserva? Pensem na imagem das conversas de bastidores no Clube Militar? Imaginem a 
prosa entre as partidas de carteado no Posto 6 em Copacabana? Pois bem, agora estão presentes no cotidiano do Poder Executivo assim como em 
representações parlamentares e nos governos estaduais. É tudo inversamente proporcional. A capacidade dos militares de carreira se dedicarem 
à defesa do país - em seus múltiplos e disputados significados - é inversamente proporcional às peripécias da "polititica" à qual vêm se 
dedicando com afinco ao menos desde 2015.
Estamos a caminho de uma ditadura? Creio que não, embora com um governo propenso a qualquer coisa desde que combine repressão social com 
Entreguismo colonizado. A ditadura militar tinha um projeto de país distinto ao de Bolsonaro, Guedes, Olavo e companhia? Evidente que sim.
Ou seja, a "papagaiada dos periquitos" de alta patente seria reprovada até por Golbery do Couto e Silva e pelo seu rival Carlos Meira 
Mattos. Se é patético o discurso olavista, é ainda mais absurda a posição de pessoal treinado pelo Estado e que domina como ninguém as 
correlações de apadrinhamento, "coxada e peixaria". O pior é que não é exceção, e sim a regra na interna das instituições militares ou 
coercitivas. Levar essa cultura para o centro do Poder Executivo, caminhando lado a lado dos Chicago Boys liderados por Paulo Guedes é muito 
perigoso.
Qual projeto de país os colonizados querem? Vejam o Chile herdado por Pinochet, multiplicado pelo gigantismo do Brasil e veremos o que a 
extrema direita hoje no Planalto projeta para a sociedade brasileira.

A inconsequência que é "gigante pela própria natureza" da estupidez
Observando o comportamento do ministro do GSI como a primeira linha verborrágica e de difusão ideológica da formação da extrema direita 
brasileira a conclusão é tétrica. Não adianta esperarmos arroubos de genialidade e tampouco reclamar da ausência sequer de patriotismo. Esta 
geração não tem nada disso, é uma mescla do pior do pior dos anos '50 como a "Cruzada Anticomunista" do almirante Penna Botto, as 
estripulias dos seguidores do "brigadeiro" Eduardo Gomes (aquele que seria "bonito e solteiro") e as manobras cruéis de Mourão, não o 
Hamilton, mas o Olympio ex-chefe de inteligência integralista. Haroldo Veloso e João Paulo Burnier sorriem no inferno, com o aval de JK, o 
bunda-mole que não puniu nenhum dos dois apoiou o golpe de '64 e terminou de forma mais que suspeita com "problemas no freio" de seu carro. 
Triste e previsível para quem "dá asas às cobras" (ver comício em https://www.youtube.com/watch?v=aGAJrcjWrdM), parafraseando a impagável 
deputada estadual e jurista do golpe com apelido de impeachment, Janaina Conceição Paschoal (PSL-SP).
Como o "pensamento" geopolítico ainda é rasteiro (estando anos luz atrasado em relação à própria área), a capacidade de derivar em "teses 
racistas de crítica à miscelânea cultural" e outras aberrações é enorme. Ou seja: a chance de surgir uma geração de oficiais nacionalistas 
neste exato momento é muito difícil, em especial se observarmos que se estes existissem seriam minimamente antiimperialistas - rechaçando a 
desindustrialização brasileira, a transnacionalização de setores estratégicos e as teses americanófilas.
Quem conhece os processos do Continente sabe que de 9 entre 10 ocasiões ocorre o seguinte: - o populismo quase sempre rói a corda, assim 
como os reformistas, mesmo que com gestos individuais louváveis (como a resistência de Allende em La Moneda no 11 de setembro 
latino-americano e o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954); - a outra certeza é de que nenhuma força armada reacionária é 
antiimperialista e para a turma de pijama recém engomado, uma disputa realista regional é o melhor dos mundos.
Eis o porquê da fascinação dos "irmãozinhos" com a Venezuela chavista sem Chávez (no caso, um populismo reeditado que não roeu a corda 
embora não seja isento de críticas) e mais recentemente a prevenção contra a França Amazônica do neoliberal Macron. O consenso é uma agenda 
de tipo linha chilena, e o outro consenso é tomar medidas prontas de segurança interna caso o protesto social chileno se torne brasileiro.
Fora isso, qualquer "expectativa" vinda da caserna é em vão. Realmente gostaria de estar errado, de ter uma "perspectiva razoável" de senso 
de profissionalismo com defesa dos interesses do Brasil, mas realisticamente está longe disso.
O Entreguismo atual supera qualquer previsão, estando à altura de uma radicalização do primeiro governo golpista, o de Humberto de Alencar 
Castello Branco, "eleito" por Lincoln Gordon e Vernon Walters. Nem o desastroso governo Figueiredo cedeu tanto para os gringos, embora tenha 
sido "governado" pela encarregada do FMI para o Brasil.
Este que escreve sempre repetiu como ladainha de Canudos o princípio que "não dá para confiar no exército escravocrata de Caxias para 
defender Palmares e Pindorama". Só não pensei que num período tão rápido o Desgoverno Bolsonaro-Guedes fosse absolutizar o exemplo.
Ontem como hoje valem duas máximas de oficiais militares brancos, mas comprometidos com a independência da América Latina.
Simón Bolívar praguejava "maldito seja o soldado que apontar armas contra seu próprio povo!". Já o platense-pampeano José Gervasio Artigas 
entendia "que nada podemos contar a não ser com nós mesmos". Não por acaso Bolívar acabou no isolamento e antes no desterro e Artigas 
exilado, sendo que este último sofreu a traição final de um de seus capitães-tenentes, Fructuoso Rivera (branco e castelhano), que passou 
para o lado dos invasores luso-brasileiros e em 11 de abril de 1831 promoveu o Massacre de Salsipuedes, contra a vanguarda da cavalaria 
charrua numa emboscada traiçoeira na saída de uma coxilha. As tropas afro-uruguaias e dos povos originários pelearam ombro a ombro pela Liga 
Federal até o derradeiro exílio para Assunção em setembro de 1820. Que a lição seja aprendida. No caso brasileiro não é nada diferente: Rui 
Moreira Lima, Carlos Lamarca, Cândido Aragão e Onofre Pinto são exceções e não a regra.
Apontando conclusões e não disfarçando as dúvidas concretas
Sinceramente não sei qual o efeito nos próximos dez anos da pregação de Jair Bolsonaro e Augusto Heleno, precedidas pelas falas absurdas de 
Hamilton Mourão em lojas maçônicas e chantagens no Twitter de Villas-Bôas. A julgar pelos cinco anos já passados, é de se esperar um 
isolamento reacionário da caserna. Se não bastassem os exemplos brasileiros, vejam o papel nefasto de Guido Manini Ríos, ex-comandante em 
chefe do Exército uruguaio e pertencente a uma geração promovida em seus altos mandos por ex-tupamaros governando como frenteamplistas 
encantados com a caserna, como Eleutério Fernández Huidobro e o próprio José Mujica.
A cada ilusão mais distantes estaremos de nossas segundas e derradeiras independências na América Indo-Afro-Latina. No Brasil, a baderna 
militar é sem precedentes desde a Abertura Lenta, Gradual e Restrita. Estamos diante do imponderável com os galinhas verdes do século XXI 
tentando surfar nas ondas das cloacas de esgoto, simulando uma morey boogie nas tampas de bueiros que a própria extrema-direita escancarou.
Bruno Lima Rocha (blimarocha  gmail.com) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política, professor universitário 
nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito.

https://www.anarkismo.net/article/31769


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