(pt) uniao anarquista UNIPA Comunicado nº 70: Fora o poder, tudo é ilusão

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 24 de Junho de 2020 - 08:18:55 CEST


O combate à política genocida e reacionária exige um contrapoder autônomo das massas populares ---- "Acreditavam de tal forma na eficácia de 
seus debates parlamentares e de seus atos legislativos, que negligenciavam o único meio que possuíam de obstaculizar as forças reacionárias 
do Estado: a força revolucionária do povo, organizada de antemão. A facilidade inaudita com que as insurreições populares triunfaram sobre o 
exército em quase todas as capitais europeias, no início da Revolução de 1848, foi nefasta para os revolucionários, tanto na Alemanha quanto 
em todos os outros países, pois ela lhes deu a convicção insensata de que bastaria a mínima demonstração popular para quebrar toda a 
resistência militar. Esta convicção fez com que os democratas e revolucionários prussianos e, em geral, alemães, acreditando que sempre 
poderiam intimidar o governo por um movimento popular, se este se revelasse necessário, não viram a necessidade de organizar nem de 
orientar, sem falar em multiplicá-las, as paixões e as forças revolucionárias do povo."

Mikhail Bakunin, in "Estatismo e Anarquia" (1873)

À classe trabalhadora da cidade e do campo,

À juventude, aos povos indígena, negros e às mulheres,

Aos trabalhadores da saúde, informais e da iniciativa privada,

Aos comitês de solidariedade e apoio mútuo,

Aos sindicatos revolucionários e lideranças populares combativas,

Aos familiares das vítimas do coronavírus, do Estado e dos patrões,

São nesses momentos decisivos da história, em que a realização dos objetivos mais pragmáticos de garantia da existência dos trabalhadores e 
povos se chocam com os mecanismos centrais de reprodução do sistema capitalista e estatal, que as forças revolucionárias se tornam tão 
necessárias. São nesses momentos também que o papel desempenhado pelos partidos reformistas (socialdemocratas e liberais) e suas alianças 
"democráticas" com a burguesia buscam se apresentar como as salvadoras do sistema.

Em termos de classe, a burguesia e o proletariado tendem a se dividir politicamente entre setores que pregam a ruptura e a reforma. No 
entanto, estando sob o domínio do sistema capitalista e estatal, o proletariado só possui a ruptura revolucionária e insurrecional como 
representação legítima dos seus interesses. O "retorno à normalidade" e as "soluções para a crise" vindas de cima sempre significam a 
manutenção da dominação e exploração burguesa sobre as massas, seja em sua forma democrática ou ditatorial.

O fascismo, ou melhor, a contrarrevolução burguesa sob as suas variadas formas históricas e geográficas (bonapartismo, fascismo, ditadura 
militar, etc.) surge como uma reação ao desenvolvimento autônomo das forças coletivas do povo e às crises sistêmicas que coloquem em xeque 
os pilares do sistema capitalista e estatal. São uma ruptura por cima com a ordem institucional, e demonstram com a crueza de nossa história 
nacional que a forma "democrática" e "liberal" do Estado não é universal e necessária para a dominação burguesa.

Mas, o que isso tem a ver no contexto brasileiro? Como analisado em nossos Comunicados nº 67, 68 e 69, a pandemia do coronavírus tem levado 
a uma radicalização da luta de classes, acelerando cenários e posições das forças políticas na conjuntura. Como pano de fundo central está a 
necessidade emergencial de garantir a vida das pessoas, não apenas em relação ao vírus, mas, principalmente um enfrentamento às relações de 
saber-poder que se apropriam dele e possibilitam a sua expansão. Muitos elementos já foram analisados nesses Comunicados anteriores. Mas 
ainda há o que ser dito, e mais ainda o que ser feito.

A questão do poder se impõe de forma concreta e incontornável aos revolucionários anarquistas. Não como disputa pelo poder do Estado 
brasileiro, mas exatamente o contrário: a construção de organismos autônomos de (contra)poder popular, mais especificamente as assembleias e 
conselhos populares e, em escala nacional, o Congresso do Povo. As ações e agrupamentos de apoio mútuo e resistência dos trabalhadores são o 
germe desse poder. Só os idealistas e oportunistas podem abstrair a luta de classes e a questão do poder em nome da "humanidade", da 
"democracia" ou do que quer que seja. Esse pragmatismo conciliador e reformista é, precisamente, o que nos levou à encruzilhada atual.

Ao passo que avança a crise política, a oposição burguesa ao governo Bolsonaro (representada pela Rede Globo, governadores, etc.), apesar de 
possuir importantes instrumentos de poder em suas mãos, se acovarda frente ao projeto bolsonarista. Os métodos que propõem são recuados e 
ineficazes. O mesmo pode se dizer em relação à socialdemocracia, negociando e conciliando sempre que possível com os reacionários e 
genocidas. É como se revivêssemos como farsa a tragédia da luta contra o fascismo na Espanha na década de 1930. Ou a das ilusões do PCB com 
a burguesia nacional e militares "progressistas" no pré-golpe de 1964 no Brasil. Definitivamente, não podemos nos dar ao luxo de erros 
semelhantes.

Tudo tem indicado, como já afirmávamos desde o início do governo Bolsonaro/Mourão, que este possui um forte apoio da elite e da base 
militar. Os militares de governo já aceitaram as negociatas, ainda que a contragosto]. As declarações do ministro e general Heleno, dos 
militares da reserva, dentre outros, colocam a contradição evidente àqueles que pretendem retirar o presidente e se opor à escalada 
reacionária em nosso país: tem que aceitar o fato de que isso desencadeará uma guerra civil. Assim, o que vai decidir são as armas, a força, 
enfim, o poder, como o foi ao longo de toda a nossa história.

Mas esse contexto é um pesadelo para o projeto da esquerda socialdemocrata que alimentou durante todo o período da nova república o mito da 
democracia, do pacifismo e da conciliação. Junto à direita, rejeitaram tática e estrategicamente a via da resistência armada contra a 
ditadura, inclusive subvalorizam sua memória, em prol de uma transição negociada com a elite militar para o jogo eleitoral de 4 em 4 anos 
que nunca derrotou militar e ideologicamente a ditadura. Assim, a socialdemocracia e as organizações sindicais e populares hegemônicas 
estarão de fora dessa disputa pelo poder, ou terão que se repensar profundamente. Seguindo o seu repertório construído até então, o que ela 
poderá fazer é notas e mais notas de repúdio, passeatas ordeiras, clamar pelo STF, esperar as próximas eleições, espernear e, por fim, se 
submeter ao poder real da força. A estratégia socialdemocrata, portanto, têm sua parcela de culpa ao reduzir o debate e a prática do poder à 
integração da classe trabalhadora no sistema democrático burguês, sobretudo as eleições e as pressões parlamentares. Ela abdicou da 
estratégia de força e de poder popular por suas ilusões reformistas e pequeno-burguesas.

Portanto, o que nós propomos é construir desde já aquilo que deveríamos estar construindo desde sempre: um (contra)poder popular autônomo 
das massas trabalhadoras! Não mais desperdiçar nossas energias e nossas vidas em ilusões e atalhos oportunistas que nos conduzem à 
impotência e ao abismo! Nós anarquistas revolucionários, bakuninistas, assumiremos nossa responsabilidade história, sem claudicação, sem 
rendição e sem conciliação com a reação burguesa! E para tal, é necessário apresentar uma alternativa de (contra)poder, como medida efetiva 
para resistir ao genocídio e à opressão que nos impõem os poderes do Estado e do Capital. Não será com youtubers, cartas de repúdio, 
manobras jurídicas, famosos e políticos "arrependidos" que se ganhará essa guerra. A frente democrático-burguesa da esquerda e da direita 
institucionais só semeia a impotência, a confusão e a conciliação com os reacionários no poder, com os exploradores e genocidas de sempre.

É nesses momentos que a análise e a estratégia revolucionárias se tornam tão necessárias. Como revolucionários sérios não aceitaremos 
cometer os mesmos erros do passado, pois isso significaria sacrificar nosso povo, nossos familiares, nossos camaradas, se não hoje, na 
próxima crise que virá após o Covid-19, caso não construamos desde já a nossa "arca de noé", a nossa própria salvação. Assim, a teoria 
bakuninista apresenta uma interpretação radical e emancipadora para a classe trabalhadora e os povos oprimidos. É com base na teoria e 
ideologia anarquista que seguimos compreendendo e enfrentando de forma concreta a crise sistêmica atual.

Lockdown ou fim do isolamento: o que realmente está em jogo

"A campanha de aniquilação é mais do que uma ‘operação de limpeza'. Ultrapassa o terreno estritamente militar e constitui o procedimento 
político através do qual um governo impopular - para ser mais preciso, antipopular - pode impor-se a um povo assustado. Em outras palavras, 
a campanha de aniquilação é o exercício do poder através do terror."

Ruy Mauro Marini, in Pinochet e Maquiavel (1976)

O Brasil começa a tomar a dianteira internacional do número de mortos por Covid-19, alcançando quase 40 mil mortos notificados enquanto 
essas linhas são escritas. Não são apenas números: são vidas, famílias e comunidades destruídas. É uma das mais graves catástrofes 
humanitária, social e econômica da história brasileira, pelo menos desde o século XX. Segundo a OIT, as Américas serão as maiores impactadas 
pela pandemia. O avanço do coronavírus têm revelado a completa ineficiência do regime democrático burguês, levando também ao aprofundamento 
da crise política. As comparações da pandemia com as guerras ganham mais e mais materialidade.

A questão é que as guerras em geral possuem um inimigo definido e facilmente reconhecido, seja externo ou interno. Assim, a expansão do 
coronavírus não é uma "guerra" no uso tradicional do termo, mas tem expressado uma série de suas características. O seu uso 
político-discursivo como tal, pelos partidos e políticos da ordem, é da maior importância, afinal, como afirmou Clausewitz "a guerra é a 
continuação da política por outros meios". A crise pandêmica e sistêmica atual carrega o inegável fedor de pólvora, suor e sangue 
empesteando o ar das cidades brasileiras.

Historicamente, as guerras geram uma tendência de busca pela coesão social em torno do Estado ou outras entidades que se apresentem como 
possíveis salvadoras daquela situação extrema a que os indivíduos e grupos estão submetidos, incluindo a Ciência, o Mercado ou a própria 
Revolução (tal como na Comuna de Paris em 1871, e na Revolução Russa de 1917). Essa é uma questão central. Mas como conseguir essa coesão em 
termos concretos no caso das classes dominantes brasileiras? Duas políticas ilusórias (se pensadas de forma isoladas) têm sido largamente 
bombardeadas midiaticamente: o lockdown e o fim do isolamento social.

O lockdown, ou confinamento compulsório, têm sido defendido de forma descontextualizada e pequeno-burguesa por setores liberais e 
socialdemocratas/comunistas. Abordando o problema de forma idealista e desesperada esses setores querem que o Estado retome um papel de 
"protetor" (que nunca existiu para a maior parte do povo) e atue de forma repressiva contra as pessoas que estão "furando" a quarentena. 
Tamanha é a crença reformista no mito do Estado protetor que nem sob um governo genocida e reacionário de Bolsonaro os reformistas repensam 
o que significaria reforçar o controle populacional e a militarização das cidades e dos campos! A consequência é um Estado de exceção 
sanitarista, que após a presente crise desmontará o aparato sanitário e manterá os dispositivos de força.

Por que a pequena burguesia de esquerda aborda o problema de forma idealista? Nas condições atuais, a imposição de uma política estatal de 
lockdown significa, na prática, garantir a tranquilidade e a saúde de alguns setores burgueses e estáveis da classe trabalhadora. Mas para a 
ampla maioria do povo trabalhador (que segue sendo obrigado a lutar pela sobrevivência em empregos informais, autônomos e na iniciativa 
privada) significaria o sacrifício, a fome e a repressão feroz. Sob as condições atuais, essa política levaria a um conflito inevitável e de 
grandes proporções entre o Estado e o proletariado marginal. O que o discurso de lockdown tenta criar em meio a esse conflito eminente é uma 
coesão social e legitimação em prol do Estado e do seu poder absoluto.

O fato é que na maioria dos estados a política de isolamento social aplicada de forma legalista e demagógica pelos governadores está 
fracassando. Essa política, que num primeiro momento institucional serviu para reunir uma oposição burguesa e gerar fissuras no governo 
Bolsonaro, hoje demonstra toda a sua limitação. A continuidade da precarização da saúde, a falta ou ineficiência de políticas de renda 
básica, autonomia alimentar, moradia, organizações de base comunitária, estabilidade no emprego e a negação em garantir a não circulação do 
capital, explicam muito melhor a catástrofe social atual do que o circo montado em torno do "isolamento" sim ou não.

Assim, a política do isolamento têm sido pautada pela lógica oportunista e voltada para atender os interesses imediatos de um setor da 
pequena burguesia integrada ao Estado e ideologicamente à esquerda. Representa o fracasso da pequena política reformista. A política dos 
governadores da direita e da esquerda, ao não enfrentarem os mecanismos básicos da acumulação capitalista, cobra o seu preço com o sangue do 
nosso povo. No auge da crise pandêmica, e diante da contradição evidente e insolúvel nos marcos do sistema atual, os governadores têm 
indicado um "retorno a normalidade".

Obviamente, tudo isso tem reforçado e dado novo fôlego ao poder e à legitimidade do governo Bolsonaro/Mourão, pois expõe as contradições dos 
seus adversários políticos mais imediatos. A operação da PF contra Witzel, que investiga justamente a corrupção no combate ao coronavírus, 
exemplifica essas disputas de poder no interior da classe dominante.

Isso significa defender a política ultraliberal e reacionária do bolsonarismo pelo fim do isolamento social? Muito pelo contrário! É fato 
notório que o governo Bolsonaro/Mourão caminha a passos largos no aprofundamento do militarismo e ultraliberalismo como "solução" para a 
crise atual. O discurso do governo deve ser duramente desmascarado. Ele não possui uma preocupação pela vida, pela família, pelo trabalho ou 
sequer pela economia em geral, é pura e simplesmente a defesa da propriedade privada. A questão central é essa. A propriedade privada não é 
só o patrimônio ou as mercadorias físicas, mas relações sociais de poder. O fato é que a base da propriedade é atacada quando o patrão não 
consegue explorar o trabalho alheio, circular a mercadoria e acumular capital. Essa política também visa atender à interesses de outro setor 
da pequena burguesia integrada ao mercado e ideologicamente à direta[Ver a análise da UNIPA sobre a pequena burguesia e a política 
brasileira no Comunicado nº51].

A política do governo Bolsonaro/Mourão, ao negar qualquer garantia real à quarentena para os trabalhadores pobres, e defender abertamente o 
fim do isolamento social, assume como pressuposto inquestionável o caráter inviolável e absoluto da propriedade acima da vida das pessoas. 
Em cima dessa base ideológica de naturalização e inquestionabilidade da propriedade, o governo Bolsonaro/Mourão busca gerar uma 
identificação falsa dos interesses entre patrões e trabalhadores ("todos precisam sobreviver"). Ela é falsa pois expõe aos riscos da morte 
apenas os trabalhadores. Na raiz da questão, ela é falsa pois assume que a manutenção da propriedade privada e da acumulação capitalista é a 
única base possível de uma economia e de garantia da vida das pessoas. No fim das contas, forçar a abertura do comércio é ameaçar de 
desemprego e consequentemente de fome e endividamento os trabalhadores que não retornarem, e isto cria a falsa identificação de que patrões 
e empregados, supostamente juntos, querem a reabertura da economia - quando se trata do poder impositivo dos donos da propriedade privada.

A polêmica em defesa da vida ou da economia é apenas uma farsa para os partidos da ordem. É claro que a economia é fundamental para a 
continuidade da vida. A questão é, que economia? A economia burguesa paralisada não pode produzir seu ciclo de crescimento e acumulação 
concentrada e, para que houvesse garantia de acesso aos itens vitais ao povo, os capitalistas seriam forçados a fornecer condições de 
segurança aos trabalhos essenciais e sobretudo dividir parte da riqueza acumulada - uma tensão que no período da pandemia sequer foi levada 
a frente nos limites de uma reforma para taxação de grandes fortunas pois nos parecer ser uma contradição insustentável para acumulação 
burguesa na periferia e semiperiferia do capital. Por isso, é necessário estrategicamente pautarmos a emergência e iniciarmos as 
experiências embrionárias de, junto a outro modelo de poder (o poder popular, antiestatal), outro modelo de economia (mutualista/socialista, 
anticapitalista), que não esteja assentada sobre a necessidade do esgotamento ambiental, aceleração do tempo e extenuação da força de 
trabalho para acumulação privada e divisão desigual de riquezas (muitas vezes para produção de supérfluos), mas que esteja assentada no 
controle comunitário/coletivo da propriedade, da produção e do tempo para a mútua redistribuição e satisfação das necessidades sociais - 
enfim, uma economia em que a diminuição do ritmo seja coerente com a preservação de vidas.

Para a burguesia o que realmente está em jogo é o capital (propriedade) e o Estado (monopólio do poder e da violência). Inclusive a 
naturalização ideológica do lockdown, feita pela esquerda institucional, é extremamente útil aos interesses autoritários da extrema-direita 
no poder. Muito provavelmente a esquerda reformista está cumprindo novamente (mas agora fora do governo) um papel de reforço do Estado de 
contrainsurgência que não apenas se voltará contra as massas populares, mas contra ela própria.

Um setor da classe dominante, representado por Bolsonaro, enxerga que não pode recuar um centímetro nesse princípio da propriedade privada, 
ainda que isso custe a vida de dezenas de milhares de brasileiros. Isso porque ela sabe que existe uma forte pressão e consciência popular 
que se aprofunda (e se aprofundará cada vez mais) no sentido de sacrificar a propriedade privada e a acumulação de capital como solução da 
crise. Essa tendência assume tanto a ameaça iminente do banditismo social pela vida (como saques, roubos e sabotagens individuais ou em 
grupos) quanto pode assumir formas insurrecionais de grande porte que coloquem em xeque o próprio sistema.

Assim, a política bolsonarista de fim do isolamento possui uma base de apoio que a sustenta. Apesar das fissuras que ocorreram no bloco no 
poder, o governo de Bolsonaro tem expressado uma relativa solidez principalmente pela coesão conquistada entre a pequena e grande burguesia, 
as milícias, os militares e as elites evangélicas. A pressão social desses setores, ou seja, a sua luta pelo poder, tem alguns exemplos nas 
manifestações protofascistas pró-Bolsonaro, nas ações das polícias e milícias alinhadas ao projeto bolsonarista, bem como o alinhamento 
demonstrado pelas elites militares (tal como a ameaça às instituições por parte do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança 
Institucional, em sua "nota à nação brasileira" no dia 22/05 em resposta as investigações do STF contra Bolsonaro). O fim do isolamento visa 
atender a essa base de apoio, mas também visa criar a desordem e o caos necessários para a ofensiva reacionária, militarista e colonial da 
extrema-direita no poder. Como analisou nos anos 1970 o revolucionário Ruy Mauro Marini, é a "política de aniquilação" como forma de 
governar pelo terror e pelo medo.

Esse fato, ainda que desagrade setores da burguesia e dos políticos da direita tradicional preocupados com suas imagens (pautadas pelas 
discursividades da "nova república" e do neoimperialismo multiculturalista em decadência), atende de uma forma nua e crua a essa necessidade 
de coesão social em torno de um projeto de pilhagem, genocídio e superexploração do trabalho que esteve colocado desde o início da ascensão 
do bolsonarismo. É uma expressão das disputas de classe e intraclasse pelos significados e beneficiados no interior da nova onda global de 
colonização, da qual falaremos mais a frente.

O povo tem sido alvo de uma ofensiva ideológica da pequena burguesia de esquerda e de direita. Nenhuma delas responde corretamente às 
necessidades concretas da classe trabalhadora brasileira. Nenhuma delas apresenta soluções reais para a defesa da vida do povo. Ao 
contrário, tanto a solução ultraliberal quanto a solução estatista estão amparadas em mecanismos de violência simbólica e física.

Porque podemos falar da violência simbólica? Porque toda essa disputa ideológica apenas reforça a legitimidade do Estado, dos governos e dos 
empresários e caminha de mãos dadas com a violência policial-militar. Ao criar essas falsas contradições entre Estado X Mercado ou Vida X 
Economia, se pretende criar a divisão na classe trabalhadora entre um setor que pode ser legitimamente alvo da repressão (via lockdown, por 
exemplo) e outro que não. Um setor que é ator político legítimo e responsável e outro que não. A reação burguesa está se organizando para 
defender: 1) o caráter absoluto e inquestionável da propriedade privada; 2) a legitimidade absoluta do Estado e de seus atos, mesmo os mais 
ilegais, violentos e arbitrários. A reação, representada pelos capitalistas, pelo Estado e pela coalizão dos conservadores e neofascistas no 
poder precisa ganhar a sociedade para esse discurso.

A propriedade privada é um roubo! A pilhagem, o genocídio e a violência na reprodução da burguesia brasileira


"A corrupção campeia o governo. Não é de se estranhar que os maiores corruptos do país sejam ministros e oficiais das forças armadas. 
Membros do governo vivem como príncipes, praticando o contrabando e o roubo."

Carlos Marighella, in Chamamento ao Povo Brasileiro (1968)

No Comunicado nº 69 analisamos o papel do imperialismo na crise pandêmica e na luta de classes. Mas é necessário analisar como esse processo 
se desenvolve desde a luta de classes nacional e local. Isso está diretamente relacionado com as estruturas de poder-saber do colonialismo 
interno e do capitalismo dependente brasileiro. Essas estruturas econômicas e políticas possuem desdobramentos fundamentais para entender a 
crise sistêmica atual.

A nova onda global de colonização a partir dos anos 2000 reativa/aprofunda mecanismos do colonialismo interno e de contrainsurgência 
intrínsecos ao Estado brasileiro. Essa reativação acirra as disputas no interior das classes dominantes nacionais (e internacionais) sobre 
os modelos e beneficiados que essa ofensiva colonialista e neoextrativista pode assumir. Durante os governos do bloco PT-PMDB, a burguesia 
nacional e setores do poder teológico, militarista e conservador são fortalecidos no interior do aparelho do Estado. A crise de 2008, 
aprofundada em 2014, foi a oportunidade para esses setores se voltarem contra o modelo neodesenvolvimentista e operarem uma reestruturação 
do bloco no poder.

O fato é que o projeto de "Brasil potência" dos governos petistas em nenhum momento rompeu com a grande política imperial-burguesa da nova 
onda global de colonização: ele buscou se aproveitar e disputar os seus contornos, bem como os seus beneficiários. Isso se traduziu em um 
pacto agrário-industrial que reuniu a burguesia nacional, a aristocracia operária, uma pequena burguesia vinculada ao Estado e o capital 
monopolista internacional. É no interior desse pacto de classes que surge a lei das centrais, os megaeventos, os megaprojetos, o 
fortalecimento dos fundos de pensão, de incentivo ao consumo, fortalecimento do aparato militar-penal, etc. Nesse projeto, a aristocracia 
operária e a pequena burguesia de esquerda se integraram ao sistema de poder político e econômico. O poder político do Estado, como nunca 
deixou de ser, foi um instrumento para a concentração do capital em geral e, em particular, de alguns setores da aristocracia-burocrasia 
sindical e a pequena burguesia. Essa é a base sociológica do debate sobre o "capitalismo sindical" e sobre as pressões à direita no interior 
das cúpulas do PT e centrais sindicais pelegas.

A crise do governo petista e a reestruturação no bloco no poder que a segue estão relacionadas, portanto, não apenas à disputas no âmbito da 
política parlamentar e da ideologia, mas também às disputas econômicas e sociais das classes e da apropriação de capital no interior da nova 
onda colonialista nacional e internacional. É aí que entra a importância de compreender o "assalto (aberto) ao poder" pelas milícias e 
elites teológicas. Obviamente esses setores todos já estavam integrados de diferentes formas e graus no Estado e, inclusive, nos governos 
petistas. No entanto, a estrutura discursiva (participacionista, multiculturalista, ambientalista) que se materializava em formas concretas 
de exercício e negociação do poder, tal como os fóruns tripartites, se mostrou limitante aos interesses de classe desses setores.

O resultado da luta entre os partidos de direita e esquerda não foi a queda de Dilma, mas um grande "acordão" para um ataque contra o povo: 
contra os direitos trabalhistas, previdenciários, de acesso à terra, saúde, educação, de expressão e organização, e outros. Sabemos que esse 
ataque aos direitos do povo é o que assassina hoje o nosso povo nas filas dos hospitais. Não se combate o Covid-19 de forma abstrata. Para 
vencer o vírus é preciso derrotar os parasitas sociais, os governos e os patrões.

O governo Bolsonaro, ao integrar sistemicamente as milícias e as elites teológicas às estruturas de poder do Estado opera uma mudança 
importante. A pequena-burguesia miliciana possui interesses de enriquecimento a partir da sua prática de poder explicitamente colonial, 
bandeirantista e racista. A relação das milícias com o bolsonarismo é mediada pela lógica colonialista de acumulação do capital. É a 
ideologia da criação dos novos bandeirantes, desbravadores e conquistadores, seja controlando e explorando os territórios urbanos (favelas, 
empresas imobiliárias, gás, internet, etc.) seja os territórios rurais (daí seu apelo à ofensiva contra a Amazônia, as terras indígenas, 
quilombolas e camponesas, à regularização da grilagem de terras, etc.). Se na cidade a milícia bolsonarista atua como máfia, no campo ela 
atua como bandeirante. O "Dia do Fogo", quando ruralistas realizaram coordenadamente queimadas em terras é um exemplo muito claro dessa 
política. Tudo isso vinculado ao controle e apropriação de parcelas de terra e territórios. É a ideologia do roubo e da violência que sempre 
esteve na base da acumulação capitalista e colonial e de constituição do Estado.

Proudhon escreveu há mais de um século: "A Propriedade é um Roubo!" e, portanto, quando nós bakuninistas insistíamos, ainda nos governos 
petistas, sobre a radicalização da dualidade dialética Democracia x Tirania intrínseca ao sistema político brasileiro (que se manifesta de 
forma concreta na ação de milícias, grupos de extermínio, tecnocracias e funcionários públicos corruptos que se utilizam da violência e da 
pilhagem para benefício próprio) estávamos falando de setores fundamentais que hoje compõe a base de apoio do bolsonarismo e, a partir das 
novas formas de exercício de poder-saber, pretendem reverter isso em acúmulo de capital e propriedade privada.

O mesmo ocorre com o poder teológico: o sonho de ascensão ao poder e de acúmulo de riquezas através do roubo e da violência e sua posterior 
legitimação pelo Estado. Durante toda a história colonial e imperial brasileira não houve separação entre Igreja e Estado. Na prática essa 
separação nunca se consolidou de forma plena, pela forma como se deram as "transições políticas", ainda que tenham se modificado 
profundamente. Nunca houve uma ruptura radical entre as estruturas estatais e as estruturas religiosas cristãs, constituindo assim uma 
dialética colonial que uniu, no pólo da Autoridade, o Estado e a Igreja, como uma constante em nossa história, e articulada sob diferentes 
combinações concretas. Hoje o poder clerical se coloca como parte fundamental do bloco no poder dominante e exige a sua parte do roubo 
organizado desde os aparelhos de Estado em sua ampla ofensiva sustentada no colonialismo interno e na contrainsurgência. A expressão 
"pequenas igrejas, grandes negócios" nunca fez tanto sentido. A essa poderia ser acrescentada uma outra: "Pastor rico, ovelha pobre". A 
isenção de impostos sobre terrenos ou a ocupação de imóveis da União por Igrejas é um sinal da permissividade do Estado que fornece 
condições materiais para sedimentar o teologismo e a exploração da fé.

É óbvio que a grande política econômica tanto dos governos Lula e Dilma quanto dos governos Temer e Bolsonaro atendiam de diferentes formas 
ao capital monopolista internacional e nacional, mas a compreensão do papel da pequena burguesia também é fundamental para entender o 
equilíbrio dinâmico e as mudanças em cada um desses blocos no poder. Essa base miliciana, militar e teológica é, ao mesmo tempo, uma 
garantia de força e um incômodo para a governabilidade e alguns interesses da grande burguesia como, por exemplo, a burguesia agrária que 
teme perder capacidade de exportação devido a política de destruição do meio ambiente do governo Bolsonaro (assim como o foi contraditória a 
integração sistêmica de frações de pequena burguesia de esquerda e da aristocracia-burocracia sindical durante os governos do PT-PMDB).

Assim, essa configuração de classe e política do bloco bolsonarista apresenta um aspecto ideológico essencial na legitimação do seu projeto: 
abdica do "universalismo" do neoimperialismo em decadência (tal como Trump o faz) e assume o viés abertamente unilateral e pragmático de 
seus objetivos de classe. Isso é o que leva o bolsonarismo a se desprender de certos mitos e ilusões da burguesia liberal tradicional, tal 
como a democracia em abstrato, ou da violência em geral, da corrupção em geral, da humanidade em geral, e inclusive do universalismo científico.

Abdicar deste "universalismo" neoimperialista é o que explica a aparente contradição no discurso bolsonarista que denuncia um "globalismo de 
esquerda", encaixando aí entidades como a ONU e empresas transnacionais. Estas entidades liberais/capitalistas em dado momento de fato 
absorveram subvertendo reivindicações sociais dos pobres, mulheres, negros, ambientais, democráticas, etc., para melhor governar: tratando a 
miséria absoluta com políticas focalizadas de renda e não de classe, as demandas de raça e gênero sendo integradas na lógica do consumo e da 
ocupação de espaços de poder empresarial e de governo, a pauta ambiental sendo encampada pela crítica seletiva da emissão do carbono e 
estimulando fontes alternativas de energia sem questionar o modelo de produção e acumulação, a ausência de políticas sociais sendo 
"resolvidas" pelo financiamento privado e direto de grupos populares através de fundações e ONGs em um cínico "antiestatismo empresarial" 
supostamente desinteressado, etc.; a questão é que o discurso bolsonarista é ultraliberal e conservador e não admite tais absorções, taxando 
de "esquerdistas" estas formas de domínio através da cooptação e subversão de demandas sociais aplicadas há décadas por tradicionais 
organismos internacionais e empresas capitalistas.

Outro exemplo disso foi a recente polêmica envolvendo o ENEM, quando o ministro da Educação Abrahan Weintraub disse abertamente que "o ENEM 
não foi feito para corrigir injustiças". Isso é verdade. Os anarquistas e o movimento estudantil classista e combativo denunciam há anos 
todos os processos seletivos (vestibular ou ENEM) e a meritocracia como reprodutores da desigualdade. Mas o que o bolsonarismo faz ao 
assumir isso é retirar do projeto de dominação de classe burguesa todo o véu de conciliação.

Assim, o sentido do desenvolvimento do programa bolsonarista reacionário no poder significa o reconhecimento jurídico-institucional das 
relações de poder e propriedade instituídas através do roubo e da violência colonial por esses setores. A história brasileira, há quinhentos 
anos, é testemunha da verdade radical revelada pelo anarquista Proudhon. É a concentração do capital e da riqueza fruto do poder político e 
da conquista, não apenas no "início" do capitalismo, mas da lógica permanente da acumulação de capital, centralização estatal e centralismo 
epistemológico/racismo.

Apesar de Boslonaro se apresentar como um "cidadão comum" é fundamental desmascarar a sua escalada ao poder repleta de sangue, corrupção e 
roubo. A família Bolsonaro é fruto desse esgoto da "infrapolítica dos dominantes", das estratégias de ascensão ao poder político e econômico 
pelas milícias. Esse poder, portanto, não pode ser explicado apenas pelo aspecto político e moral (como a maldade, etc.) ou reduzido à 
questão psíquica e intelectual da "loucura". É fundamental revelar os interesses econômicos de classe envolvidos e que revelam o caráter 
intrinsecamente colonial e mafioso da propriedade privada em si.

Bolsonaro é fruto de uma organização da tirania e representa uma fração de classe marcada pelo racismo, machismo e elitismo abertos. É por 
isso que ele não resiste a uma investigação com base nas regras atuais "democráticas" e precisa apelar à ameaças e ultimatos da alta cúpula 
militar para impedir ou cercear as investigações do STF. Por isso é tão vital para o seu projeto mudar os marcos legais expandindo o 
reconhecimento do Estado às práticas criminosas, não apenas dele mas de toda a fração de classe burguesa que ele representa.

A família Bolsonaro não considera as práticas genocidas e de superexploração que ele e seus pares praticam como "crimes". Para eles, não são 
eles que tem que mudar suas práticas, é o Estado que deve legitimá-las. Para a lógica colonialista que orienta essa fração de classe, seria 
tão absurdo julgar e condenar suas práticas e relações de propriedade privada e controle populacional (instituídas com base no roubo e na 
violência) quanto seria julgar e condenar os bandeirantes e colonizadores europeus que desbravaram e construíram os Estados nacionais nas 
Américas. É para atender a esses objetivos que se inserem os projetos de extrema direita de liberação de armas, legalização da grilagem de 
terras, comercialização de terras indígenas e quilombolas, escola sem partido, excludente de ilicitude militar, etc.

A estratégia do medo e do caos, próprios da política de aniquilação que falamos anteriormente, é essencial para a governabilidade quando se 
abdica do universalismo. Porém, com a ineficiência em aniquilar seus inimigos internos (em último caso, o próprio povo) a tendência 
repressiva deste projeto de poder reacionário a curto e médio prazo só pode ser ascendente. Portanto, para garantir a sobrevivência imediata 
do nosso povo é vital destruir o bolsonarismo, e não cortar apenas a sua cabeça, mas também as pernas que lhe dão sustentação.

Fora Bolsonaro e Mourão: Construir o Congresso do Povo e um Plano de Emergência Popular Revolucionário


"Quando o povo perde a fé em sua própria potencialidade a ditadura é a compensação de seu ceticismo ou covardia. Continuar recuando é 
próprio dos frouxos. A vacilação é irresponsável. Um movimento com a envergadura do atual precisa de menos oradores e literatos e mais 
homens que saibam interpretar a revolução longe de claudicações e erros convertidos em dogmas."

Amigos de Durruti, in Los Amigos del Pueblo (1937)

"O movimento que produz tanto pavor nos ‘gorilas' surge de baixo para cima. Não vem dos políticos privados de seus direitos, mas sim das 
entranhas de um povo descontente, decidido agora a recorrer à força das massas para sua unidade e organização. Não derrubaremos a ditadura 
através de quarteladas, nem de eleições, redemocratizações ou outras panacéias da oposição burguesa consentida. (...) Violência contra 
violência. E a única saída é fazer o que estamos fazendo: utilizar violência contra os que tiveram a primazia em usá-la para prejudicar os 
interesses da pátria e das massas populares."

Carlos Marighella, in Chamamento ao Povo Brasileiro (1968)

No mundo inteiro as massas populares estão se levantando contra o sistema de opressão e exploração que as condenam à morte e à miséria. Nos 
EUA, o assassinato de George Floyd pela polícia foi o estopim para a grande insurreição que agora se alastra por diversos estados e cidades, 
rompendo com os partidos da ordem (democratas e conservadores) que tentam controlar e reprimir as massas. No centro imperialista, a força 
coletiva insurgente não veio da aristocracia operária ou da esquerda tradicional, mas das periferias, dos trabalhadores negros e pobres, dos 
imigrantes. No Brasil, a situação caótica gerada tanto pela oposição burguesa e socialdemocrata quanto pelo governo reacionário de 
Bolsonaro, aprofunda a indignação popular e transformam nosso país em um barril de pólvora.

Como apontaram os Amigos de Durruti e Carlos Marighella, o problema segue sendo o do poder: não do poder de "cima para baixo" do Estado, dos 
patrões e dos políticos acovardados, mas do poder do povo, de "baixo para cima", que se desenvolve por fora e contra as instituições da 
ordem dominante. As concepções socialdemocratas, liberais e conservadoras negam essa capacidade política e a ação autônoma da classe 
trabalhadora. Porém, é ela, e somente ela, que pode salvar o povo da crise atual.

Assim, junto ao combate do governo reacionário de Bolsonaro/Mourão, é fundamental a crítica da política de "frente democrática" da oposição 
burguesa e socialdemocrata. Desvincular uma da outra seria desarmar ideologicamente a classe trabalhadora e impedir o seu desenvolvimento 
autônomo. Por que? Vejamos alguns exemplos.

Quando Lula diz que "o monstro do coronavírus veio para demonstrar necessidade do Estado" não está evidenciando apenas sua degeneração 
moral, mas uma marca central da política reformista: a insistência na ilusão estatista como saída para as crises e para a governabilidade do 
capital. O fato é que a esquerda reformista e pequeno-burguesa quer se mostrar eficaz para governar novamente o Estado capitalista e 
colonial brasileiro. Quer se mostrar mais apta que o bolsonarismo a salvar o sistema.

Outro exemplo significativo é o do PSOL no Rio de Janeiro. O pré-candidato Freixo (PSOL) retirou a sua candidatura nas eleições municipais 
pela não adesão do PDT e do PSB a sua chapa, fator que, segundo ele, romperia a unidade da esquerda e das forças democráticas. A política é 
de que a defesa da democracia deve estar acima de tudo. O problema é que o PSOL e a esquerda pequeno-burguesa e reformista abstrai a luta de 
classes em nome de ideias republicanas e democráticas abstratas para a grande maioria do povo trabalhador. Abstrai que o PSB e PDT são 
representantes de um setor da burguesia nacional, sendo seus políticos culpados de inumeráveis crimes contra o povo.

A mesma lógica é a que levou o governador Flávio Dino (PCdoB) a sentar para negociar com o vice-presidente Mourão. Muitos outros exemplos de 
supostos aliados militares, burgueses, famosos, youtubers, redes de televisão, oligarcas, demonstram que os reformistas não só não confiam 
no poder do povo, como também o temem, e trabalham sistematicamente para desorganizá-lo como força autônoma. Buscam a sustentação e a 
direção do seu projeto de "frente democrática" não na ação e organização popular, mas fora dela. A classe trabalhadora serviria apenas como 
"força de apoio".

Tudo isso os reformistas dizem fazer em nome da "democracia". Mas porque um poder popular autônomo ameaçaria a democracia? Precisamente 
porque não estamos falando de uma democracia em geral, mas de uma democracia burguesa, racista e patriarcal, que mata, explora e oprime as 
massas trabalhadoras todos os dias. A ilusão no "Estado democrático de direito" e, portanto, nas disputas eleitorais e institucionais é o 
"terraplanismo da esquerda". É preciso se despir dessa bagagem apodrecida para seguir avançando.

Os revolucionários e anarquistas sabem o quão nefasto seria para a classe trabalhadora se submeter novamente a essa estratégia de poder, 
seja da direita ou da esquerda institucionais. Seria um crime. Mas a crítica da política de "frente democrática" não cai no sectarismo, 
porque recoloca a questão da Unidade sob novos parâmetros. A construção de uma nova Unidade para garantir a vida e os direitos do povo devem 
ter novos critérios a curto, médio e longo prazo, bem como um novo programa, estratégia e organização. Essa nova unidade tem um caráter de 
classe. É, portanto, uma Unidade Proletária e dos Povos Oprimidos. Ela se fundamenta em organismos de (contra)poder popular que se organizam 
de baixo para cima, desde as Assembleias e Conselhos populares até a escala nacional do Congresso do Povo Trabalhador e Explorado. Ela será 
constituída pela ação e auto-organização das massas, sendo necessário um Plano de Emergência Popular que imponha através da ação direta as 
medidas para garantir a vida e os direitos da classe trabalhadora.

Como dissemos no Comunicado nº 68, as iniciativas comunitárias de apoio mútuo no combate ao Covid-19, bem como as novas lutas trabalhistas 
(tal como a dos trabalhadores de aplicativo, da saúde e de supermercados) são a matéria prima dessa nova unidade proletária. Os sindicatos 
revolucionários, os movimentos e lideranças populares combativas também. Assim, a construção do Congresso do Povo e do Plano de Emergência 
Popular não são ideias que partem do nada, mas que emergem da experiência coletiva e histórica do povo. E por isso mesmo elas se apoiam, 
avançam ou retrocedem de acordo com o desenvolvimento autônomo das forças proletárias em meio aos desafios concretos da luta de classes.

Por isso dizemos: é hora de começar a construir um Congresso do Povo Trabalhador e Explorado. O Congresso do Povo será um contrapoder, um 
poder paralelo e deverá ser o poder reconhecido como legítimo pelo povo. O Congresso do Povo será um órgão de luta contra o Congresso 
Nacional, a Presidência da República e os Governos estaduais e municipais, todos antipopulares.

Para ser legítimo, o Congresso do Povo precisa ser representativo. Para ser representativo, ele precisa ser organizado pela base. Os 
organismos de base de um Congresso do Povo serão as comissões de mobilização e assembleias de trabalhadores, categorias e povos locais. Uma 
fábrica, uma escola, uma universidade, uma favela, um acampamento, uma aldeia.

Essas comissões locais devem eleger delegados de base e estes delegados de base irão compor uma assembleia popular. A assembleia popular 
pode abranger um município ou conjunto de municípios. O critério deve ser a existência de problemas e inimigos em comum a enfrentar e não os 
limites administrativos.

O segundo passo é, depois de construir muitas assembleias, unificá-las num Conselho Regional de Delegados do Povo, que pode abranger um 
estado ou uma zona ampla entre dois ou mais estados. Os Conselhos de Delegados do Povo serão o embrião do Congresso do Povo trabalhador e 
explorado de abrangência nacional. Depois de multiplicar os Conselhos Regionais até algumas dezenas, será possível eleger delegados destes 
conselhos para convocar o Congresso do Povo de abrangência nacional.

O Congresso do Povo não é uma utopia irrealizável. Ele se inicia na construção de Assembleias Populares e Comissões de Base. Ele deve ser 
construído de baixo para cima como resposta à crise atual e aos ataques do governo Bolsonaro, mas também dos governos estaduais do PSDB, 
MDB, PT e outros. Sua principal missão imediata é garantir a sobrevivência do povo frente a pandemia, organizando a resistência contra os 
patrões e derrubando as medidas antipopulares da Presidência da República, do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas, Governos 
estaduais e municipais.

Este é o verdadeiro poder popular, é o poder do povo organizado e em luta. A partir dele o povo trabalhador tomará o destino em suas mãos, 
combatendo o centralismo e o autoritarismo estatal. Fora disso, tudo é ilusão.

A nossa tarefa então é fazer com que o Povo tenha seu próprio Plano de Emergência, de acordo com seus interesses e necessidades. A 
estratégia de Bolsonaro e demais poderosos apenas sacrifica o povo. Nós dizemos: devemos sacrificar o lucro e privilégios dos banqueiros e 
empresários e não as vidas e o futuro do nosso povo. Um Plano de Emergência Popular deve dar conta dos seguintes pontos:

1) Redução dos salários de deputados, juízes e governadores, ministros, presidente e demais cargos eletivos para um salário mínimo. O ajuste 
deve reduzir despesas para combater a pandemia e a crise, então que sejam os salários daqueles que ganham mais;

2) Suspensão do pagamento dos juros da dívida pública. No Brasil, o pagamento dos juros aos banqueiros e credores estrangeiros consome 
grande parte das riquezas do país.

3) Boicote e ocupações em empresas que apoiam as medidas reacionárias e genocidas do governo Bolsonaro; ocupação e autogestão de empresas em 
falência e que estão demitindo; colocar essas empresas e seus produtos a serviço do povo.

4) Ocupação de hotéis de luxo e prédios abandonados para garantir moradia popular; organização de greve e boicote de aluguel.

5) Em resposta ao desemprego, à fome, à violência e às aglomerações urbanas, o povo deve atacar a concentração de terras; organizar um Plano 
de Retomada de todas as Terras do latifúndio, das mineradoras e das hidrelétricas. Os trabalhadores e povos devem retomar suas terras de 
trabalho, sem esperar o INCRA ou qualquer órgão estatal;

6) O lucro e a propriedade não estão acima da vida. Os produtos das grandes redes de supermercados devem ser colocados a serviço do povo 
gratuitamente para combater a fome e a miséria que as classes dominantes causaram; Organizar a retomada dos produtos produzidos pelos 
trabalhadores e suas distribuições.

7) Reajuste do salário mínimo, garantia da Renda Básica, ampliação dos investimentos em saúde e educação; transporte gratuito nos ônibus, 
metrôs, trens e etc.

8) Instituição do atendimento médico gratuito na rede privada de saúde para toda a população; Revogação imediata da EC 95.

9) Punição imediata com prisão e demissão/confisco de bens para os agentes de Estado e empresários envolvidos em massacres do povo negro, 
indígena e população pobre;

10) Anulação ou arquivamento de todas as leis de caráter autoritário e repressivo contra as liberdades democráticas (lei antiterrorismo, 
redução da maioridade penal e etc.)

11) Liberdade aos presos pobres, negros ou presos políticos do sistema carcerário.

12) Estabilidade no emprego, garantia de EPI nos serviços essenciais, garantia da quarentena com salários integrais aos setores não essenciais.

13) Suspensão do pagamento de aluguel, luz, água, televisão e internet, dívidas, empréstimos sem juros ou cortes dos serviços para as 
famílias de trabalhadores.

Esse Plano de Emergência Popular contra a crise serve para iniciar o processo de resistência e tomada de consciência coletiva. É um Plano de 
Emergência em defesa da vida do povo e deve ser organizado desde as assembleias populares e do sindicalismo revolucionário.

A partir do Plano de Emergência Popular, a propriedade privada deve ser anulada temporariamente ou integralmente se isso for necessário para 
garantir a vida e o futuro do povo. Não apenas as riquezas do Estado pertencem ao povo (como fazem crer os reformistas) mas toda a riqueza 
dos patrões também. Toda a riqueza do Brasil foi construída pelo povo, mas os governos e patrões roubam diariamente o suor e o sangue do 
trabalhador.

Hoje, tanto a oposição nas ruas ao governo Bolsonaro/Mourão quanto as ações de apoio mútuo nos bairros e favelas sofrerão uma forte 
tentativa de controle por parte da esquerda reformista e as burocracias sindicais. É preciso ter claro que o Congresso do Povo e o Plano de 
Emergência Popular Revolucionário não surgirão da burocracia sindical e partidária da esquerda, muito menos da "frente democrática" com a 
burguesia. A vitória do poder popular só pode significar a destruição das burocracias e das conciliações de classes. E, para implementar o 
Plano, devemos colocar nas ruas uma resistência dez vezes maior do que de Junho de 2013. E então os ricos e poderosos irão se lamentar por 
sua covardia e arrogância em atacar o povo.

Assim, é fundamental colocar um forte peso na construção das resistências contra o governo Bolsonaro/Mourão, mas lutando para que o povo não 
seja marionete de disputas parlamentares e de trocas do chefe do executivo. A oposição parlamentar e burguesa à Bolsonaro (que vai do PSOL à 
Rede Globo) tende a individualizar os "problemas da nação" na figura de Bolsonaro, mas aceitar que Mourão, Rodrigo Maia ou outro assumam a 
presidência, por supostas posturas "moderadas", mas que no fim defendem um projeto de Reformas semelhantes.

Entendemos o bolsonarismo como uma expressão particular e momentânea da estrutura e pensamento militarista e colonialista permanentemente 
presente na elite brasileira e que tem polarizado a opinião e ação pública, por isso que vencer o bolsonarismo não se trata apenas de 
retirá-lo da presidência: este é o erro de análise que conduz a socialdemocracia a aceitar e clamar pela aliança com a centro-direita e 
"burguesia republicana" pelo mero impeachment; devemos também organizar o povo pelos interesses materiais comuns e fazer a disputa 
ideológica, criando forças para a ruptura com o militarismo.

A resistência contra a escalada autoritária não deve se dar pela bandeira abstrata de "democracia", mas sim pela mobilização popular a 
partir de pautas que exijam e criem condições de vida e trabalho imediatas, as mesmas que nem a ditadura e nem "redemocratização" garantiram 
ao nosso povo. As mobilizações populares não devem, então, servir de força auxiliar para interesses parlamentares, mas como forças de seu 
próprio poder autônomo.

A luta real pelas revindicações da classe trabalhadora implica construir Colunas e Blocos Autônomos de autodefesa para proteger a ação e 
organização autônoma e revolucionária do povo aliada ao trabalho de base cotidiano, com paciência e persistência, para construir 
organizações de massas. Resistência não se reduz a uma linha de frente combativa nos atos de rua, esta é indispensável, mas significa ainda 
mais: massificar a luta e a retaguarda com consolidação de base; protestos são um momento fundamental da militância que exigem coesão, 
disciplina, tática e energia, mas reduzir a luta à protestos reduz nossa chance de vitória. Isso significa, em nível de ação organizativa, 
reforçar a construção do sindicalismo revolucionário como um projeto estratégico que poderá impulsionar e sustentar os organismos de poder 
popular no Brasil.

O sindicalismo revolucionário será essencial para a construção desse movimento de resistência. Isso por que não bastará iniciar ou resistir 
aos conflitos com as forças da ordem dominante, mas será necessário ter condições de sustentar esse conflito e alcançar vitórias. Quantos 
conflitos sociais não são iniciados e são rapidamente sufocados ou traídos? Isso traz uma grande responsabilidade histórica aos anarquistas 
e militantes do povo. Uma tática correta não pode se restringir a ações combativas ou ao denuncismo. É necessário assumir cada vez mais 
todas as esferas e tarefas necessárias à reorganização da classe trabalhadora, desde as mais simples, básicas, às mais complexas. Isso é 
romper com os mitos e tutelas da socialdemocracia!

A luta pela vida e pelo Plano de Emergência Popular deve iniciar desde já, nas greves, manifestações, solidariedades, ocupações. O processo 
de construção do poder popular depende de diversos fatores e pode demorar um longo período ou se precipitar em pouco tempo. O fundamental é 
uma alternativa correta de ação para todo o povo explorado. Chamamos todos os militantes sinceros da base do movimento sindical, 
comunitário, estudantil, operário e camponês; aos mais diversos grupos anarquistas; a juventude, as mulheres trabalhadoras, ao povo 
oprimido, lgbt, negro e indígena; Aos sinceros ativistas e lutadores do povo, em partidos, sindicatos, cooperativas, midiaativismo, torcidas 
e demais entidades; Ao bravo povo brasileiro de forma geral a construir essa alternativa!

SÓ O POVO SALVA O POVO!

MORTE AO ESTADO E AO CAPITAL!

FORA BOLSONARO E MOURÃO! TODO PODER AO CONGRESSO DO POVO!

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2020/06/17/fora-o-poder-tudo-e-ilusao/


Mais informações acerca da lista A-infos-pt