(pt) Coordenação Anarquista Brasileira CAB: [Maria Iêda] Contra ditadores e senhores: o que a onda antifascista e a morte de Miguel têm em comum além do coronavírus

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Sexta-Feira, 19 de Junho de 2020 - 07:36:38 CEST


A nova onda de manifestações contra o governo Bolsonaro trouxe o antifascismo de volta ao debate público. Porém, entre Xuxa se declarar 
antifascista e afirmar que não é de esquerda nem de direita e o presidente associar antifascista a terrorista, tem muita confusão no ar. No 
compasso da conjuntura, o antirracismo se amplifica: nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd impulsionou o imaginário popular 
contra o racismo estrutural. Em Pernambuco, a morte do menino Miguel, de 5 anos, atrai gente para as ruas e nos lembra da importância da 
luta do povo negro contra o racismo que se reproduz desde a colônia. Essas lutas não só acontecem conjuntamente durante a pandemia, como 
historicamente estão ligadas à luta dos movimentos de esquerda pela emancipação popular.

Todo antifascista tem de ser antirracista. Sempre.
Lucy Parsons, militante anarquista, 1886
Vamos começar do começo pois História não é bagunça: antifascismo é, na raiz, se opor ao fascismo. E um dos principais troncos do discurso 
fascista é a SUPREMACIA BRANCA. Por isso, todo fascismo é racista. Todo. Além do caso indiscutível da Alemanha nazista, tanto a Itália de 
Mussolini, quanto o Integralismo no Brasil eram racistas - mesmo que este último afirmasse que não.

O fascismo italiano concebeu um "racismo místico" e caucasiano com leis que perseguiam politicamente o povo judeu, ou que simplesmente 
massacravam à época os povos de África com o seu imperialismo, sendo estes perseguidos de forma aberta e brutal, e os primeiros por meio da 
discriminação pura e simples, sob o lema "discriminar não significa perseguir". Já o Integralismo defendia que os povos indígenas e 
afrodescendentes deveriam obrigatoriamente se fundir aos ideiais da "civilização cristã" de origem portuguesa, perdendo assim suas 
características e particularidades em nome de uma suposta raça mestiça autenticamente brasileira.

Aqui no Brasil, e especialmente em Pernambuco, o racismo é parte de nossa História e de nossas práticas. Resquícios coloniais estão 
presentes de forma descarada. A casa-grande permanece perseguindo e massacrando o aquilombamento do povo negro e pressionando-o em direção à 
senzala. Em meio a uma democracia de fachada e burguesa, decretou-se às negras e negros uma liberdade que nunca foi vivida de fato. O povo 
negro continua com poucos direitos ou com nenhum, em indíces alarmantes de pobreza e precariedade. As mulheres negras são as que mais sofrem 
com os hábitos coloniais que seguem existindo, sendo empurradas a formar um exército de trabalhadoras domésticas para servir à casa-grande.

O caso do menino Miguel Otávio Santana é retrato disso. Aos 5 anos de idade, Miguel faleceu após despencar dos absurdos 35 metros de altura 
das Torres Gêmeas enquanto a patroa de sua mãe fazia as unhas. A mãe, trabalhadora doméstica, recebeu a ordem de passear com o cachorro e 
teve de deixar o filho aos cuidados de Sarí Gaspar Côrte Real, esposa do prefeito de Tamandaré. Patroa e prefeito, aliás, pertencem a 
oligarquias tanto empresarial quanto política. Assim, compõem uma aristocracia bem típica desta eterna capitania. E é simbólico que esta 
fatia da elite resida na dupla de prédios de luxo que ameaça o caráter popular do bairro de São José e demarca um projeto de higienização da 
cidade.

A morte de Miguel é mais um ato de racismo cometido pela elite desta terra de atmosfera colonial. Mesma elite que aposta na fascistização da 
sociedade e da política quando oportuno. Sem arrodeios, racismo e tirania andam sempre de mãos dadas. E, por isso, se opor ao fascismo é 
também se opor ao racismo.

Somos antifascistas porque somos de esquerda

Imagem da Revolução espanhola, 1936.
Tanto fascismo como racismo são males modernos gerados e reforçados pelo capitalismo e pelo colonialismo. Por isso e não por acaso, foram 
combatidos pelos movimentos de esquerda, que em substância sempre se demarcaram como anticapitalistas e contra as opressões. E faz sentido. 
Movimentos de caráter socialista que tinham como pauta a libertação ampla e irrestrita do povo e da classe trabalhadora combateram estes 
males e foram também protagonistas da luta antifascista .

Na primeira metade do século XX, houve forte presença de amplos setores revolucionários e socialistas que se opunham ao fascismo. Em Roma, a 
"Arditi del Popolo" (Resistência do Povo) foi pioneira na resistência a Mussolini. A "Schwarze Scharen" (Rebanho Preto, ou Tropas Pretas), 
na Alemanha foi criada para proteger reuniões do sindicato anarcossindicalista União dos Trabalhadores Livres da Alemanha (FAUD) e da 
Juventude Anarquista. Na Espanha, o feminismo da Mujeres Libres e o sindicalismo da CNT combateram frontalmente as tropas fascistas do 
general Franco em 1936. No Brasil, o Comitê Antifascista (composto por anarquistas) e a Frente Única Antifascista (FUA) (trotskista), 
enfrentamentaram os integralistas durante a década de 1930, com destaque para a batalha de rua conhecida como "A revoada das galinhas verdes".

O antifascismo, portanto, se originou e continua no seio das lutas socialistas. Vale lembrar que as cores da bandeira "antifa" são vermelha 
e preta pois representam o sangue dos que lutaram e o luto pelos que tombaram na busca por uma sociedade igualitária. As figurinhas e memes 
que vêm circulando com outras cores podem mesmo ser muito bonitas e engraçadas, mas também podem servir para transformar uma ideia tão 
necessária e urgente em mais uma piadinha de internet.

Da história às cores, o antifascismo é de esquerda.

Fascismo e racismo têm de ser destruídos

Charge do cartunista Aroeira sobre Bolsonaro e Netanyahu, a qual foi alvo de processo
Declaramos isto porque a direita, além de nos roubar todos os dias via políticas de Estado, agora quer apagar o que o sangue de milhões 
gravou nas páginas da História. Fascismo é, em último caso, o nome que devemos dar para as atrocidades que eles defendem. E terrorismo é o 
que faz o governo Bolsonaro: jogar o povo à miséria no meio de uma crise sanitária mundial. Enquanto nós, antifascistas e de esquerda, 
integramos movimentos que distribuem mantimentos e kits de limpeza e tentamos, com muito suor e sacrifício, assegurar a resistência da 
população negra e pobre neste momento tão dramático.

A família de Miguel não deveria estar trabalhando. Ele não deveria estar perdido naquelas torres enquanto patrões com ares de sinhô e sinhá 
continuam apreciando a vista que privatizaram, como uma afronta. Miguel tombou por racismo. Sua família e milhões de outras estão sofrendo 
as consequências de ideias e práticas que, estas sim, deveriam ser jogadas no fosso de uma História que não queremos que exista mais.

Antifascismo é romper com tiranos. Antirracismo é romper com os senhores. Nada mais antifascista que apoiar a luta do povo preto.

A resistência é vermelha. A resistência é negra.
Arriba las que luchan! Arriba los que luchan!
Miguel, presente.

Organização Anarquista Maria Iêda

http://cabanarquista.org/2020/06/12/maria-ieda-contra-ditadores-e-senhores/


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