(pt) UNIPA: Criar duas, três, muitas Rojavas: Viva os 8 anos de experiência revolucionária no norte da Síria! -- Comunicado nº 72 da União Popular Anarquista

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quarta-Feira, 22 de Julho de 2020 - 07:13:05 CEST


Nesse exato momento existe um processo revolucionário em curso no mundo. Ele está sendo levado a cabo pelos povos oprimidos do Curdistão 
Sírio, território localizado no norte da Síria também conhecido como Rojava. Começou em 2012, aproveitando as brechas da contraditória 
"primavera árabe". Mas diferentemente desta, as organizações revolucionárias curdas, em especial o PKK (Partido dos Trabalhadores do 
Curdistão), possuíam um programa, uma estratégia e uma experiência enraizada e desenvolvida através de décadas de luta revolucionária, 
guerrilheira e de massas. ---- Mas hoje esse processo também têm sido atacado das mais variadas formas, e a principal delas é a invasão 
militar colonial do Estado da Turquia, assassinando e destruindo cidades inteiras. Se aproveitam de um momento de crise pandêmica para 
aprofundar seus objetivos de dominação na região. Frente a tudo isso uma grande campanha de solidariedade e denúncia chamada de 
#RiseUp4Rojava se levanta em todo o mundo, ocupando ruas, embaixadas, muros e demonstrações de apoio em geral.

Breve contextualização histórica e geopolítica
A revolução de Rojava é a expressão mais avançada em termos de ação autônoma e consciente das massas populares que emerge do contexto da 
"primavera árabe". Mas comparando a distância desse processo com as formas e conteúdos assumidos nos outros países do norte da África e 
Oriente Médio, chega a ser desonesto reduzir um processo ao outro, como fazem muitos dos inimigos da revolução de Rojava. A narrativa 
elitista que joga toda a primavera árabe no mesmo saco da "manipulação imperialista", que desconsidera assim a ação dos povos, igualando 
processos políticos profundamente diferentes e inclusive opostos, é incapaz de compreender a revolução de Rojava.

Isso não quer dizer que não tenha ocorrido e que não há manipulação, conspirações e intervenções imperialistas. O caso da Líbia em 2011 é 
emblemático nesse sentido. Estamos falando de uma região estratégica na geopolítica atual, alvo de inúmeras ameaças internas e externas. 
Estados e organizações colonialistas, disputas imperiais, projetos de pilhagem de terras, águas e recursos energéticos. Exploração do 
trabalho, fundamentalismo e dominação patriarcal.

Mas em meio a esse contexto, as narrativas imperiais-coloniais tentam atribuir explicações homogeneizantes sobre o "Oriente Médio", sobre 
uma suposta aptidão inata à violência e ao autoritarismo. As narrativas imperiais dos EUA, Europa, China ou Rússia confluem para negar a 
capacidade política de autogoverno e liberdade dos povos dessa região. Confluem para tentar capturá-las e submetê-las aos seus projetos 
civilizatórios, seja em nome do mito da "democracia ocidental liberal" ou do mito da "cooperação eurasiática". Os projetos regionais de 
cunho estatista como pan-arabismo ou pan-islamismo sucumbiram em regimes autoritários e exploradores sobre seus povos.

Portanto, é óbvio que um processo revolucionário com a força e o apelo social/emancipatório como o de Rojava sofreria "assédios" e 
tentativas de cooptação por parte dos poderes estatais e capitalistas. Essa tentativa de cooptação claramente ocorreu durante a guerra 
contra o Estado Islâmico, no qual os revolucionários curdos foram os responsáveis principais pela derrota das gangues fundamentalistas que 
espalhavam o terror patriarcal e colonial aos povos da região. Mas é exatamente por ter um programa, estratégia e teoria revolucionárias 
claramente definidas e experimentadas a várias décadas por fortes organizações de massas e organizações armadas de autodefesa que ela 
conseguiu manter sua autonomia frente as variadas e pesadíssimas pressões imperialistas e estatais "de cima".

A continuidade de um processo revolucionário e seus vários inimigos
Quem reconhece essa complexidade do conflito não somos nós, mas os próprios curdos. Ao contrário da caricatura de "terroristas selvagens e 
brutos" feita pelos reacionários, o que tem garantido a sobrevivência e os avanços em Rojava é, dentre outros fatores, a inteligência, a 
sabedoria das massas e de suas organizações, a solidariedade internacionalista, bem como uma teoria revolucionária que garantiu a 
continuidade do processo. Os poderes dominantes e seus ideólogos, ao contrário, têm demonstrado durante esses 8 anos a sua ignorância. Uma 
"tese" após a outra foram caindo por terra. A saída dos EUA da Síria pactuada com a tirania turca em outubro de 2019 já era esperada pelos 
revolucionários curdos e demonstrou a falácia da "cooptação de Rojava" pelo imperialismo norte-americano.

A verdade é que só "revolucionários" de gabinete poderiam conceber um processo revolucionário sem contradições, disputas e decisões 
difíceis. Muitos destes críticos das "limitações de Rojava" no Brasil e na América Latina são os mesmos que apoiaram a política dos governos 
progressistas de conciliação com a burguesia. São os mesmos que silenciaram a ocupação neocolonial do Exército brasileiro no Haiti liderada 
por Lula/PT, que silenciaram a entrega de Césare Batisti por Evo Morales/MAS aos seus carrascos da extrema-direita italiana, que silenciaram 
a ampla política neoextrativista de colonialismo interno, superexploração, expropriação e genocídio contra a classe trabalhadora 
latino-americana, especialmente o campesinato e o proletariado marginal.

Mas porque depois desses 8 anos de revolução em Rojava, que teve o dia 19 de julho de 2012 como estopim, das mais incontáveis provas de 
coerência, de heroicidade e de experiência viva de um processo revolucionário com base em assembleias e autodefesas populares esses setores 
de "esquerda" seguem sem apoiá-lo? Para nós só existe uma explicação: é exatamente por ele ser uma revolução. Rojava é uma verdade 
inconveniente. A verdade de que enquanto houver opressão haverá resistência, e a partir dessa dialética as revoluções seguem atuais e 
necessárias. Rojava é uma revolução social em curso em pleno século XXI. É uma ruptura radical com os sistemas de poder estatais e capitalistas.

Mas por tudo isso Rojava é uma ameaça não apenas para os opressores e exploradores de turno, mas a todos os aspirantes do poder: os partidos 
"de oposição", comunistas, socialdemocratas e nacionalistas e seus sonhos de grandeza estatal, de mandatos presidenciais, desfiles militares 
e distopias industrialistas. Por isso a luta dos homens e mulheres no norte da Síria têm encontrado inimigos por todos os lados.

A autodeterminação dos povos e um novo paradigma de revolução
É exatamente pelas bases radicais emancipatórias sob a qual nasce e floresce a revolução de Rojava que nós anarquistas saudamos e defendemos 
a sua vitória. É por isso que denunciamos as agressões imperialistas e colonialistas dos estados da Turquia, Síria, EUA, Rússia ou qualquer 
outro. Saudamos os 8 anos de uma autêntica revolução social, de base camponesa e popular, com um programa anticapitalista, antiestatal, 
ecológico e antipatriarcal em pleno "nó" da geopolítica global.

Tal como debatemos e decidimos em nosso VII Congresso Nacional em 2019, nós da União Popular Anarquista (UNIPA) acreditamos que além da 
solidariedade à Rojava (fundamental e decisiva) é necessário também construir uma linha de massas internacional capaz de construir pontes 
programáticas e estratégicas dos movimentos revolucionários em todo o mundo. Para tal, o anarquismo apresenta uma teoria revolucionária que 
deve ser retomada. A revolução de Rojava, com influência aberta do anarquismo, e plural como há de ser, é um exemplo disso.

Bakunin produziu uma análise sobre os Estados imperiais europeus e seu papel colonial sobre os povos, principalmente camponeses e operários 
superexplorados de nações oprimidas. Esta perspectiva, por muito tempo deturpada e esquecida, marca sua trajetória política que passa da 
luta anti-imperialista, vinculada à autodeterminação dos povos oprimidos, para a luta antiestatista, revolucionária e socialista. Bakunin, 
no período que compreende 1848-1876, elabora uma dura crítica ao Estado-Nação apontando para a autodeterminação dos povos e da classe 
trabalhadora. Não à toa, no auge de sua atuação política, afirma:

"sigo sendo francamente um patriota de todas as pátrias oprimidas" (BAKUNIN, Carta aos meus amigos da Itália, 1871).

Bakunin e Proudhon ofereceram uma contribuição fundamental de crítica aos centralismos econômico, político e epistemológico. Essa abordagem 
ganha materialidade na tendência global dos Estados de expandir seu território e legislação e formarem Impérios e domínios coloniais; bem 
como a tendência do Capital ao monopólio e a estratificação territorial e social dos regimes de exploração, tanto nacional como 
internacionalmente. Assim, para o anarquismo, a questão nacional da autodeterminação dos povos não pode ser resolvida pela formação de um 
Estado (centralizado, forte, industrial), mas exatamente ao contrário: só com o fim dos Estados e do capitalismo, através da confederação 
dos povos, de baixo para cima, poderá ser garantida a verdadeira liberdade das nações, povos e classes trabalhadoras do mundo.

Terra e liberdade! Por uma aliança internacional de trabalhadores e povos oprimidos

Nós, anarquistas revolucionários, defendemos a reconstrução de uma Aliança Internacional de Classes Trabalhadoras e Povos Oprimidos. Isso 
significa hoje que as organizações revolucionárias de tipo sindicais e urbanas devem integrar e estabelecer redes de solidariedade com as 
experiências de luta dos povos originários e camponeses em seus países e no mundo, tal como os curdos, zapatistas e mapuches. Essas redes 
devem evoluir, de acordo com as condições, para estruturas mais orgânicas de federações ou confederações regionais e internacionais de 
autogovernos, comunas autônomas e organizações de resistência e apoio mútuo. Não buscando vitórias eleitorais no Estado ou a cogestão de 
empresas capitalistas, mas a ocupação e autogestão territorial permanente.

Essa linha significa uma ruptura com a tradição socialdemocrata/comunista que deturpou o princípio do Internacionalismo a partir de 
concepções centralistas e eurocêntricas, especialmente pela URSS que, no pior cenário, se direcionou para um "social-imperialismo": 
determinando de fora e de cima uma leitura linear de evolução histórica e a consequente ação na vida política das nações e 
partidos-movimentos. Além disso, ela rompe frontalmente com a atual polarização interimperialista EUA x China que tem capturado muitas 
organizações populares para atuar como força de apoio de interesses burgueses e estatais, muitas vezes sob um discurso mentiroso de 
"internacionalismo" ou "anti-imperialismo" pró sino-russo (sic).

Assim, o Internacionalismo Revolucionário que defendemos é de baixo para cima, sem nenhum povo ou nação como central ou dominante sobre os 
demais, sem uma visão de mundo única, mas plural, enfim, federalista. Isto deve ser resgatado da tradição bakuninista na Associação 
Internacional dos Trabalhadores (AIT). Hoje essa concepção deve ser enriquecida com a teoria e experiência do Confederalismo Democrático, 
formulada pelo preso político e líder revolucionário curdo Abdullah Öcalan.

Como tem nos reforçado a revolução de Rojava, é essencial a incorporação e o impulsionamento das lutas feministas classistas, das mulheres 
camponesas, indígenas, negras, trans, trabalhadoras e estudantes pobres, como parte de um programa e estratégia revolucionária de combate ao 
patriarcado, ao estatismo e ao capitalismo.

A construção do autogoverno e do socialismo (bases da revolução integral) não é uma noção abstrata, mas significa a desconcentração global e 
radical da riqueza e do poder. Dispensa a ideia de planificação centralizada em prol da reorganização da propriedade e uma política 
econômica coletivizada, quer dizer, baseada na direção coletiva dos processos produtivos e econômicos e na política de 
mutualidade-redistribuição sobre a renda e riquezas para eliminar as desigualdades e hierarquias sociais. Envolve, portanto, a transformação 
profunda, e como processo integrado, das relações assimétricas de gênero, étnicas, geracionais, culturais e discriminatórias de forma geral, 
do respeito ambiental, junto com a destruição da propriedade privada e do Estado.

Reafirmamos desde o Brasil a nossa defesa de Rojava e com ela os aprendizados anticoloniais, antidesenvolvimentistas e antipatriarcais. 
Temos levado esse aprendizado na forma de um debate coletivo e não dogmático nos movimentos populares sobre Rojava como processo vivo, real, 
conflituoso, e por isso mesmo rico e profundo. Por isso temos a forte convicção e esperança que ele deve continuar por muito mais anos! E 
mais ainda, parafraseando Che Guevara, nosso papel hoje é criar duas, três, muitas Rojavas em todo o mundo!

A Revolução de Rojava vencerá!
Honra e glória aos mártires revolucionários!
Pelo fim da invasão Turca e toda agressão colonialista!
Liberdade para Abdullah Öcalan e todos os presos políticos!
Por uma Aliança Internacional das Classes Trabalhadoras e Povos Oprimidos!
Morte ao Estado, ao Capital, ao Racismo e ao Patriarcado!
Avante a Ação Direta dos povos por Terra e Liberdade!
Em defesa do Socialismo e do Autogoverno popular!

Clique na imagem para abrir publicações sobre Rojava

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2020/07/19/criar-muitas-rojavas/#more-3116


Mais informações acerca da lista A-infos-pt