(pt) [Espanha] O maior arquivo anarquista fica em um povoado de Toledo Por Jose Durán Rodríguez- A.N.A. (en)

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Domingo, 16 de Fevereiro de 2020 - 08:38:42 CET


No centro documental da Fundação Anselmo Lorenzo, que busca reunir, preservar e espalhar a história do movimento libertário, você pode ler 
Durruti em japonês, ver pôsteres originais de dias anti-Franco no exílio ou o que aconteceu com seu avô desaparecido em 1937. ---- 
Localizada a pouco mais de 50 quilômetros de Madrid, a cidade de Yuncler de la Sagra, em Toledo, aparentemente não oferece nada em sua 
vitrine que evita a passagem de visitantes ocasionais que viajam pela região. Mas as aparências enganam, é sabido. O território foi abalado 
pelo boom imobiliário de tijolos que varreu a região no início do século 21 - quandose vendiam os 40 minutos de carro até Madrid como outro 
incentivo para comprar um apartamento ali, o ‘novo' PAU da capital - o nome Yuncler é lembrado entre os que frequentaram o que hoje são as 
ruínas - outra operação imobiliária incerta - de Vicente Calderón: o clube Super López, fundado lá, pendurou sua bandeira fielmente nas 
arquibancadas na parte norte do estádio do Atlético de Madrid.

Vamos adicionar algumas informações mais importantes sobre o município: com um censo de 3.759 habitantes em 2018, nas eleições gerais de 10 
de novembro o PSOE foi o partido vencedor em Yuncler com 627 votos, seguido pelo Vox com 615. Unidas Podemos 188, o Pacma 25 e só recebeu um 
voto o Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha.

No site do Conselho da Cidade, você pode ler um texto sobre a história da cidade, que fala de Yuncler como "um exemplo constante de rebeldia 
entre seu povo", "daqueles que partem porque não querem pagar os impostos no século XV, passando pelos contínuos processos judiciais com a 
igreja, até a compra da cidade pelos vizinhos a D. Francisco Melchor de Luzón e Guzmán - antes este cavaleiro o tivesse comprado do rei 
Felipe IV - que com sua tirania obriga seus habitantes a ir deixando o local, fato que exorta seus vizinhos a comprar o povoado do fidalgo". 
Nesta cidade "rebelde" está o maior arquivo documental da Espanha sobre o movimento libertário.

"Estou movendo 1.250 quilos com três dedos", dizao Salto Sonia Lojo, arquivista de bibliotecas da Fundação de Estudos Libertários Anselmo 
Lorenzo (FAL) por dez anos. O faz de fato, e abre um móvel compacto que permite ver vários corredores cheios de prateleiras nas quais se 
distinguem numerosas caixas, pastas e vários materiais organizados e classificados. Como em Yuncler, a sala esconde coisas que não podem ser 
vistas à primeira vista. Estamos no "arquivo histórico da CNT, que se dedica a reunir, preservar e disseminar a história do movimento 
libertário e do movimento operário, em geral", explica as portas de um edifício industrial que nos convida a entrar.

No interior, na sala com móveis compactos, existe "a documentação gerada pela CNT desde o início do século XX - de fato, a origem da 
fundação, criada em 1987, é preservar a documentação da própria instituição, que possui mais 100 anos de história - e o que mais temos é do 
período da Guerra Civil, também do exílio, da clandestinidade e da Transição até o presente".

Atualmente, o trabalho de Lojo está focado no inventário geral da documentação gerada pela central anarcossindicalista, com cerca de 3.000 
caixas. "Existe uma parte inventariada e em processo de catalogação", detalha. É documentação interna: sessões plenárias, assembleias, 
congressos, como é que a organização funciona, seus acordos, formas de ação...". Os últimos materiais que chegaram são transferências de 
Barcelona e Valência. Quando eles não usam mais a documentação com frequência, ela é encaminhada para o arquivo da CNT. "Aqui é organizado e 
disponibilizado para consulta", explica Lojo.

A FAL recebe cerca de 400 consultas anuais realizadas por pesquisadores. Em Yuncler está o depósito, onde a documentação é mantida e o 
trabalho técnico é feito. Na sede de Madrid, os pesquisadores podem fazer uma consulta digital após uma reunião prévia. "30% são pessoas que 
procuram seus parentes ou estão investigando histórias locais, o que estava acontecendo em suas aldeias. A maioria é do período da Guerra 
Civil, mas é verdade que começa a haver mais interesse na Transição e na democracia", explica a arquivista, que também acrescenta que há um 
interesse crescente no conhecimento da história das mulheres. "Isso foi notado nos últimos anos, claramente por causa da ascensão dos 
feminismos em que vivemos".

O registro das consultas permite que Lojo priorize o enorme trabalho que está por vir - "se houver agora 30% de consultas sobre nomes e 
sobrenomes, temos que trabalhar com a onomástica, extrair os nomes dos documentos" -, embora o princípio é sempre catalogar o material mais 
antigo, pois é o mais delicado.

CONTAR SEM FALAR

Um arquivo não catalogado é um arquivo que não existe, pois não permite que as informações sejam ordenadas, acessíveis e possam ser 
recuperadas e consultadas, o que é o fim da tarefa documental. Como exemplo, Lojo ressalta que no depósito da FAL existem "livros não 
catalogados que são colocados em caixas e estão aqui há 30 anos" sem nenhuma evidência deles. A primeira coisa, explica, é estudar o tipo e 
o conteúdo dos documentos. Em seguida, passa para a fase de classificação, que informa a origem da instituição geradora do documento. E, 
finalmente, surgem os instrumentos de descrição, como inventários, guias, catálogos", que é o que é oferecido ao público para poder 
localizar a documentação que está buscando".

Juntamente com a documentação da CNT, o depósito da FAL tem outros arquivos: o da Associação Internacional dos Trabalhadores e do Fundo de 
Mulheres Livres, outras organizações relacionadas e fundos pessoais (Felix Álvarez Ferreras, Cayetano Zaplana, Abraham Guillén) doado para 
custódia. "Os materiais chegam por meio de doações, legadas pelos próprios militantes da CNT, por organizações de exilados ou por compras, 
que geralmente são as menores por falta de recursos financeiros", lamenta a bibliotecária. Na sua opinião, a joia da coroa é o arquivo 
fotográfico. "É o mais maravilhoso. Sem falar que ele conta tudo: modos de vida, psicologia". A FAL tem um fundo fotográfico da Guerra Civil 
com 1.735 positivos originais, preservados e digitalizados. Lojo também destaca um fundo de fotografias pessoais de Buenaventura Durruti e 
outro de Mauro Bajatierra com imagens dos iniciadores da CNT, com cerca de 130 fotografias do início do século XX.

A hemeroteca é uma terceira parte do fundo global. "Sempre se disse que quando dois anarquistas se reúnem a primeira coisa que fazem é um 
jornal, então imagine", diz Lojo, rindo. "Temos 2.500 cabeçalhos controlados, mas ainda há muito por catalogar". Entre as publicações mais 
marcantes preservadas pela FAL, desde o século XIX até o presente e em todo o mundo, está o Campo Libre (Campo Livre), um semanário que 
destinava uma página dupla às coletividades agrárias de Castela, contando como se organizavam e trabalhavam. Na edição de 28 de agosto de 
1937, eles dedicaram esse espaço à comunidade de Coslada, uma cidade de Madrid onde cresceu quem assina esse texto.

Outra área da FAL é a biblioteca, onde estão localizadas cerca de 40.000 exemplares, embora apenas 6.000 sejam catalogados, incluindo 
curiosidades como poder ler Durruti em japonês. "O livro mais antigo que temos é de 1848, um texto de Étienne Cabet sobre o socialismo 
utópico, que é um pouco a origem das ideologias do movimento operário: anarquismo, socialismo, comunismo. Do El hombre y la tierra (O Homem 
e a Terra), de Eliseo Reclús, temos todas as edições que estiveram na história desta publicação", diz Lojo, que enfatiza que estamos diante 
de uma biblioteca especializada, "que não é a mesma coisa que uma biblioteca pública. Nós nos concentramos em documentação muito específica, 
portanto, o objetivo é a conservação, porque temos documentação que nem a Biblioteca Nacional possui e a perda de um documento pode ser 
irreversível".

Diferentes materiais guardados pela FAL são milhares de pôsteres originais do exílio, documentos da luta antifranquista fora da Espanha e 
outros que difundiam as idéias libertárias onde os militantes tiveram que se instalar. E também um arquivo audiovisual com diversos meios de 
comunicação: latas de 35 mm com filmes históricos do Sindicato da Indústria e Espetáculos, microfilmados com documentação digitalizada de 
guerra ou gravações completas de plenos do sindicato.

Após a Guerra Civil, a ditadura ilegalizou todos os sindicatos, inclusive a CNT, e se apropriou dos recursos que o sindicato servia 
coletivamente: bens móveis (veículos, impressoras, máquinas) e imóveis (prédios, terrenos, minas), contas bancárias, empresas coletivizadas, 
filmes, fotografias e documentação. Em 1936, a CNT alcançou cerca de um milhão de membros e seu peso político foi muito importante nos 
primeiros meses da guerra, especialmente na Catalunha e Aragão. Mas essa história foi apagada pela repressão e pelo exílio. "É difícil 
reconstruir toda a história da CNT devido à falta de documentação. Na guerra, muita coisa foi perdida, outra foi salva, o que os 
pesquisadores consultam atualmente. As coisas da clandestinidade vêm das pessoas do exílio, que mantiveram essa documentação e depois se 
transferiram para cá graças aos companheiros que jogaram suas vidas para mantê-la e que ela serve para a memória", lembra Lojo.

Uma vez legalizada no final dos anos 70, a CNT iniciou uma campanha para reivindicar o retorno de seu patrimônio histórico, ainda hoje nas 
mãos da Administração, depositária da documentação que comprova a propriedade desses bens. "É um relacionamento hostil", avalia a 
arquivista, "principalmente por causa da questão dos direitos. Agora o Ministério da Cultura tem o Centro de Documentação da Memória 
Histórica, eles chamam assim, mas na verdade foi um arquivo policial que nos tirou a documentação. Estamos em litígios para a devolução ou, 
pelo menos, para que a propriedade seja reconhecida e poder haver uso e divulgação de nossa própria história. Se a tivéssemos aqui, a 
atividade de divulgação seria muito maior".

A FAL mantém um relacionamento mais frutífero e próximo com o Instituto de História Social de Amsterdã, onde grande parte da documentação 
salva pela CNT acabou: "Temos um contrato com eles, pelo qual eles mantêm a documentação, mas a propriedade é nossa. Nós os visitamos uma 
vez por ano. No futuro, a ideia é que essa documentação volte".

O espaço em si - adquirido pela FAL - exige o cumprimento de uma série de requisitos para a conservação do material, incluindo uma certa 
altura e um perímetro de segurança ao redor do edifício, que economizarão dois dos riscos que ameaçam um centro documental: o fogo ou 
inundação. Também deve ser um espaço em que a temperatura e a umidade possam ser controladas 365 dias por ano, que devem ser constantes em 
torno de 21 graus. Outro perigo é o aparecimento de bibliófagos, insetos que atacam o papel.

Mas a principal dificuldade enfrentada por essa Fundação para a memória libertária é a falta de recursos humanos e econômicos. Lojo lista 
uma lista de emergências: "Precisamos de mais pessoas especializadas trabalhando no arquivo para avançar mais rápido. E também precisamos de 
dinheiro para poder conservar. Nós precisamos de móveis planejados. Temos mais de 200 pôsteres em cada gaveta, o que impossibilita o 
manuseio. Mas cada móvel planejado custa 3.000 euros. A imprensa é muito delicada e temos jornais do século XIX. Precisamos de móveis 
específicos que são muito caros".

Fonte: 
https://www.elsaltodiario.com/memoria-historica/fal-fundacion-anselmo-lorenzo-mayor-archivo-anarquista-yuncler-pueblo-toledo?fbclid=IwAR30KOu5HGpL9YpLb9JYf6ba43XkPn9NVW8NVNN

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana


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