(pt) Covid-19 e sindicalismo revolucionário: quando o apoio mútuo e a ação direta se encontram por União Popular Anarquista - UNIPA

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Quarta-Feira, 15 de Abril de 2020 - 07:48:15 CEST


Comunicado nº 68 da União Popular Anarquista ? - UNIPA, 9 de abril de 2020 ---- Site: https://www.uniaoanarquista.wordpress.com ---- 
Facebook:  ---- /uniaopopularanarquista ---- E-mail: unipa  protonmail.com ---- Twitter: @UNIPAbr ---- Leia em PDF 
https://uniaoanarquista.files.wordpress.com/2020/04/c68_covid2.pdf ---- A crise pandêmica de coronavírus tende a se agravar no Brasil. Hoje 
(08/04) já contabilizam oficialmente 15.927 casos e 800 mortes pelo vírus. Estes dados crescem de forma exponencial, duplicando em média a 
cada 5 dias. Combinada com a política genocida, militarista e ultraliberal do bloco no poder do Estado brasileiro o resultado tende a ser 
uma catástrofe social. A pandemia tem acelerado alguns cenários: crise política no governo Bolsonaro; ampliação do poder militar no 
controle/tutela da política nacional (não apenas no Brasil); miséria, desemprego e precarização generalizada das condições de vida e de 
trabalho; conciliação da socialdemocracia com as forças reacionárias e burguesas. No mundo, a pandemia associada à nova guerra fria tem 
aprofundado a crise hegemônica dos EUA e a ascensão imperial da China. Além de outros fatores analisados no nosso Comunicado nº67.

Mutualismo e reivindicações
Por outro lado a crise atual também tem liberado uma outra força, uma força vinda de baixo, de solidariedade e ação coletiva. Formas de 
resistência de tipo mutualistas ainda pouco desenvolvidas por organizações autônomas e combativas se expandiram rapidamente pelos quatro 
cantos do país. O mutualismo, teorizado no século XIX pelo anarquista Joseph Proudhon, se materializa nas práticas e instituições de apoio 
mútuo da classe trabalhadora (escolas, cooperativas de produção e consumo, caixas de solidariedade, etc.). O mutualismo historicamente foi 
essencial para os trabalhadores se defenderem da fome, do desemprego, da violência e de catástrofes, sem depender de políticos, igrejas ou 
patrões. O mutualismo está diretamente vinculado ao surgimento e expansão do sindicalismo revolucionário no século XIX e XX, especialmente 
entre o proletariado marginal. Hoje, ele demonstra toda a sua atualidade.

Kits de higiene e limpeza para distribuição em favelas e comunidades pobres de Feira de Santana (BA). Material foi arrecadado pelo Comitê de 
Solidariedade Popular, estimulado pela Casa da Resistência (FOB).

Frente a crise pandêmica de Covid-19 e sob o lema "Só o povo salva o povo!" uma série de ações de apoio mútuo (arrecadação de materiais de 
higiene, alimentos, contribuições financeiras, etc.) foram iniciadas rapidamente por organizações sindicalistas revolucionárias, movimentos 
populares e comitês de solidariedade. Junto a isso, ações de denúncia, reivindicação e protesto explodiram em empresas de call center, 
comércios, presídios e bairros pobres. Ainda que de forma irregular foram registradas paralisações, manifestações, sabotagens que não 
podemos ignorar. O sindicalismo revolucionário, por exemplo, sem se ater aos métodos limitados da socialdemocracia, vem defendendo no mundo 
todo a "greve de aluguel", unindo a ação grevista à luta comunitária-territorial, fundamental para garantir a quarentena.

A prática do apoio mútuo e solidariedade não significam a caridade de tipo religiosa nem o assistencialismo de tipo estatal. Estas 
experiências olham as pessoas com maior vulnerabilidade socioeconômica de cima para baixo como se fossem incapazes de ação política, quando 
não são. O mutualismo deve envolver - com dignididade, igualdade e fraternidade - as próprias pessoas que eventualmente necessitem de 
doações, todos colaborando para expandir a rede de solidariedade, a propaganda e as decisões políticas. Por outro flanco de ação, devemos 
também exigir do Estado e das empresas que se responsabilizem pela crise, afinal estes atores concentram todo poder e riqueza. O fundo 
público, gerenciado pelo Estado, é baseado nos impostos pagos com nosso trabalho e ,sobretudo, pelo que consumimos, enquanto os grandes 
capitalistas recebem incentivos e isenções fiscais, não tendo suas fortunas, propriedades e heranças taxadas como deveriam. Portanto, 
devemos exigir a distribuição do fundo público, seja com programas de renda ou investimento social, e não abandonar esta riqueza aos 
capitalistas sanguesugas.

É equivocado apenas exigir do Estado e empresas, quando sabemos que sua resposta é quase sempre demorada ou inexistente e neste caso a 
urgência é a fome e a vida, que não podem esperar; é igualmente equívoco querer resolver nossos problemas ignorando os gigantes estatal e 
capitalistas que sugam a riqueza por nós produzida e conduzem nossa sociedade a este colapso sanitário, urbano e ecológico. Fortalecer a 
organização popular tem o duplo objetivo de resolver com autonomia nossos problemas e ampliar nosso poder de pressão contra opressores e 
exploradores.

Todas essas ações, sejam elas de tipo mutualistas, informativas ou reivindicativas, tem ocorrido interligando aspectos sociais e 
territoriais da luta de classes. Grande parte delas tem se dado à revelia dos sindicatos oficiais, partidos, associações comunitárias 
tradicionais e ONGs oportunistas e liberais. Uma importante brecha de ação popular antisistêmica tem se aberto, não fruto de um apelo 
ideológico abstrato, mas da necessidade concreta da classe trabalhadora, especialmente os trabalhadores pobres, do setor privado, as 
mulheres, os idosos, os negros, os encarcerados, os moradores de favelas e bairros periféricos.

Ilusão eleitoral X Poder Popular
Além disso, a pandemia tem demonstrado mais uma vez a paralisia do sindicalismo de Estado, tão milionário quanto inútil nos momentos de 
crise (basta lembrar de junho de 2013), ou seja, quando o povo mais precisa. A burocracia sindical e os partidos socialdemocratas tem visto 
a barbárie como uma oportunidade a mais para propor um "acordão", um novo bloco de conciliação de classes, com a burguesia, a direita e os 
militares e assim voltar ao poder, ou pelo menos aumentar as chances para as próximas eleições. Grande ilusão. As próximas eleições podem 
nem ocorrer. Nas condições atuais a política conciliatória liderada pelo PT, caso tenha êxito, não salvará o povo da crise, muito pelo 
contrário, significará uma aliança por cima com os reacionários e exploradores de sempre em troca de cargos, sobre os cadáveres e o suor do 
povo trabalhador. Tal tem sido a tática de pedir a renúncia de Bolsonaro conduzida pela "frente democrática" dos partidos oportunistas (PT, 
PCdoB, PSB, PDT, PSOL e PCB), conjugada com a ação de governadores e líderes desses partidos.

Paralisação de trabalhadores de call center, São Paulo.

Ao contrário dos reformistas, a palavra de ordem dos anarquistas e revolucionários tem sido: "Só o povo salva o povo". Essa palavra de ordem 
materializa uma política estratégica de Autonomia e Poder Popular. Ou seja, essas práticas de solidariedade e ação direta não podem ser 
simplesmente acessórias dos projetos reformistas ou de uma burguesia "benevolente" e assistencialista. Os projetos reformistas e burgueses 
tendem no médio prazo a negar e desarticular as práticas de solidariedade entre o povo, gerando novamente a dependência e a insegurança 
popular sob as quais se fundamenta o poder do Estado e do Capital. Afinal, se é verdade que só o povo salva o povo, como os partidos 
oportunistas (de direita e de esquerda) apresentarão seus "salvadores da pátria" nas próximas eleições?

Portanto, para o desenvolvimento de seu grande potencial, para se libertar das amarras do reformismo e do conservadorismo, as práticas 
mutualistas e reivindicativas que hoje avançam por todo o país precisam se consolidar e se integrar como parte de um novo projeto 
estratégico autônomo da classe trabalhadora. Nas bases de uma grande Confederação Sindicalista Revolucionária, essas práticas se encontrarão 
e desenvolverão todo o seu potencial criativo (de criação de novas relações sociais, territoriais e de produção, com o avanço da autonomia e 
controle do povo sobre elas) e destrutivo (de combate radical e pela base a todas as relações de exploração, concentração de renda e poder). 
Para vencer o inimigo que quer nos matar, precisamos de coragem e ação, mas também de uma estratégia e programa corretos. Só assim nos 
salvaremos hoje do vírus e, amanhã, quando ocuparmos novamente as ruas, marcharemos com força para varrer os parasitas, políticos e 
burgueses, que nos matam e roubam todos os dias.

SÓ O POVO SALVA O POVO!
FORA BOLSONARO! TODO PODER AO CONGRESSO DO POVO!
AVANTE O MUTUALISMO E O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO!
ANARQUISMO É LUTA!

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2020/04/09/covid-19-e-sindicalismo-revolucionario-quando-o-apoio-mutuo-e-a-acao-direta-se-encontram/


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