(pt) Coletivo Anarquista Luta de Classe: ANÁLISE DA CONJUNTURA LATINO-AMERICANA

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Sábado, 28 de Setembro de 2019 - 09:12:51 CEST


América Latina, terra indômita e rebelde, herdeira de séculos de lutas e resistências, 
onde a magia invade o realismo, lugar onde passamos por uma situação crítica em termos 
ecológicos, humanitários e sociais. Hoje presenciamos um momento crucial, em que as 
ameaças sobre nossos corpos e territórios são cada vez mais concretas e por isso a 
indecisão e as meias medidas devem ser combatidas com posições e propostas. É nosso dever 
histórico, como anarquistas, gerar espaços de debate e crítica onde possamos entender os 
dias de luta que se aproximam da gente. Além disso, é necessário apresentar novas 
categorias de análise para poder atingir de maneira muito mais certeira aqueles que hoje 
nos submetem.
Durante as últimas décadas, nossos territórios serviram como espaço para as disputas 
geopolíticas dos imperialismos: China, Estados Unidos, Rússia, Turquia, entre outros, 
estabeleceram seus interesses sobre os espaços que habitamos. Devido a isso, é necessário 
romper com a velha análise baseada na guerra fria, em que os interesses dos EUA se 
instalavam no continente sem nenhum contrapeso. Hoje existem muitos atores nessa disputa 
geopolítica. Não podemos cair na miopia e dirigir todas as nossas críticas somente aos 
EUA, que obviamente nessa disputa geopolítica tenta garantir esta área como seu "quintal", 
como sempre quiseram que fosse. Porém, mesmo que eles tenham altos níveis de 
responsabilidade pela miséria em vastos territórios, eles não são os únicos que tentam 
aplicar uma política imperial.

Nos encontramos diante de um forte avanço da direita e da extrema direita por todos os 
lados da América Latina. É um fenômeno de escala mundial, já que diversos partidos com 
essas orientações estão crescendo eleitoralmente na Europa há três décadas: em países do 
ex bloco do leste, a extrema direita renasceu com inusitada força e em todo o resto do 
continente europeu diversas expressões direitistas ganham espaço. Nos EUA, Donald Trump é 
uma amostra desse fenômeno, com a particularidade de que isso tem efeitos, em sua política 
imperial, para a área latino-americana e o mundo.

No governo Obama, os EUA apoiaram e organizaram o Golpe de Estado em Honduras, em 2009, 
iniciando aos poucos essa guinada na direção de um maior controle sobre o que eles chamam 
de seu "quintal". Esse golpe teve continuidade no golpe no Paraguai em 2012 e no "golpe 
brando" no Brasil em 2016. Esse ambiente facilitou a vitória eleitoral de Macri na 
Argentina em 2015 e de Duque na Colômbia em 2017. O único país onde o "progressismo" 
avançou foi o México, e isso é muito discutível.

A direita organizou seu "retorno" à frente dos governos. Em todos os países elaboraram 
fortes campanhas contra os "progressismos", com foco na anticorrupção - na qual 
estãoenvolvidos todos os setores políticos, como ficou evidente no Brasil com a Lava Jato 
- mas além disso se organizaram no nível latino-americano, sempre contando com o apoio 
imperial.

Os governos de Macri e Bolsonaro somaram apoio ao Grupo de Lima, esse conjunto de governos 
reacionários que vociferam "democracia" mundo afora mas aplicam políticas antipopulares e 
repressivas portas adentro. E particularmente no caso de Bolsonaro, que fala diretamente 
contra a democracia burguesa, instalando abertamente a ideia de governos ditatoriais.

Esse grupo de países é o que serviu de cobertura latino-americana para os intentos 
golpistas da direita venezuelana apoiada pelos EUA. Eles lidam abertamente com a 
possibilidade de uma invasão estadunidense sem rodeios, como nos velhos tempos, recorrendo 
aos mecanismos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Tratado Interamericano de 
Assistência Recíproca (TIAR).

Essa guinada continental para a direita não é algo menor. O sistema capitalista, depois de 
uma feroz aplicação do neoliberalismo, permitiu diante de embates populares algumas 
"mudanças", algumas melhoras, certo "afrouxamento" para aperfeiçoar a dominação e a 
espoliação constante das e dos debaixo. No período chamado "progressista" houve certas 
políticas sociais de contenção da pobreza,com medidas diferentes em cada país. Havia como 
denominador comum permitir certa melhora na vida dos setores mais pobres da sociedade, só 
que administrando a pobreza: não geraram políticas de trabalho real, deixaram as pessoas 
pobres no lugar do assistencialismo, ou no máximo como mão de obra terceirizada e 
precária, com o próprio Estado terceirizando tarefas, enriquecendo empresas ou ONGs e 
gerando uma classe trabalhadora muito mais precária e sem direitos, amputada de suas 
instituições e de seus processos de luta.

O extrativismo, tanto dos governos "progressistas" de diversos tipos quanto dos liberais, 
o extrativismo como regime e dinâmica neocolonial imperante em toda a América Latina, só 
aprofundou o intercâmbio desigual entre territórios e a divisão internacional do trabalho 
como expressões históricas da luta de classes, intensificando a exploração de grandes 
volumes de natureza (commodities) para exportação. A reacomodação geopolítica elaborou 
novas estratégias para aumentar a circulação de mercadorias para os centros industriais, 
abrindo estradas em lugares antes nunca pensados, como a série de projetos da Iniciativa 
para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) e do Conselho 
Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN), novos projetos de tratados de 
livre comércio como a Parceria Transpacífica (TPP-11, que inclui México, Peru e Chile como 
países latino-americanos), disputando os últimos bens naturais comunitários do planeta. 
Suas consequências trouxeram questões inerentes a essa dinâmica de exploração da natureza, 
abrindo importantes processos de desterritorialização através de migrações locais e 
globais, a perda da biodiversidade, o aumento da violência contra os corpos feminizados e 
racializados (mulheres e outras sexualidades - não binárias e trans), incluindo 
assassinatos de aluguel e, finalmente, os casos de corrupção que vimos no Caso Odebrecht, 
que envolve uma rede entre diferentes países.

Cabe mencionar que a hegemonia dos "progressismos" na década de 2000 intensificou o roubo 
e a espoliação de nossos territórios, já que seus programas com "ênfase social" se 
baseavam na extração de bens naturais e na venda para os países industrializados. Nesse 
sentido, os governos "progressistas" redistribuíram migalhas de uma época de bonança, de 
crescimento do preço internacional dos commodities.

Geraram algumas melhoras salariais e políticas sociais, porém não se tocou no fundamental 
do sistema. Essas políticas tinham como denominador comum elevar as condições de vida dos 
setores mais pobres da sociedade, funcionando simultaneamente como elemento de contenção 
social enquanto se construíram aparatos estatais repletos de uma casta política acomodada 
e parasitária, sem questionar o arrendamento da terra e o extrativismo como pilares 
econômicos do mal chamado "progresso".

Ao mesmo tempo, as classes dominantes latino-americanas multiplicaram seus lucros e o 
abismo entre ricos e pobres aumentou. Só que os ricos não queriam perder o controle 
administrativo do Estado. É o Estado deles: parte de seu poder de classe está enraizado 
ali e se condensa em suas instituições. Eles não estavam dispostos a permitir que uns 
"recém-chegados" tirassem o controle do Estado deles por muito tempo. Alguns anos eles até 
podiam aguentar, enquanto arrumavam a casa depois do saque dos anos 90. Mas já estavam 
perdendo a paciência.

Isso significa que os governos "progressistas" são a saída necessária e que são a antítese 
da direita? NÃO. Em primeiro lugar, além de permitir um enriquecimento histórico das 
burguesias locais e multinacionais, os governos "progressistas" redistribuíram poucos 
recursos em um momento de crescimento do preço internacional das matérias primas. Quando 
terminou o "boom" voltaram as dificuldades econômicas e a crise. Só que eles não usaram 
esse "período de bonança" para investir em geração de trabalho em nível industrial, nem se 
elaborou nenhuma Reforma Agrária, nem a transformação radical dos serviços para a 
população etc. Os governos "progressistas" permitiram um desembarque de projetos de 
extração de bens naturais em grande escala no continente: grandes projetos de mineração, 
de exploração de petróleo, de plantação de soja e florestas para extrativismo, 
hidroelétricas... tudo em benefício do capital internacional, especialmente chinês nos 
últimos tempos. Tudo isso como parte do plano da IIRSA, plano de espoliação elaborado nos 
EUA. As linhas gerais do sistema não se modificaram, simplesmente se adequaram a uma nova 
etapa que, então, contando com certo consenso popular, tornava mais fácil implementar a 
fundo a política de espoliação.

A redistribuição da riqueza foi bastante limitada. Como dissemos, não se tocou no 
fundamental do sistema: a propriedade privada, nem uma maior redistribuição da riqueza nem 
as relações de poder. Mesmo assim, a burguesia e os setores mais conservadores não estavam 
mais dispostos a tolerar Lula, Cristina e Néstor Kirchner ou quem quer que não venha da 
"alta estirpe". Um nítido ódio de classe percorre o continente e destila seu veneno sobre 
os povos.

Mas também nesse período se produziram dois processos que têm as suas peculiaridades nesse 
contexto: o venezuelano e o boliviano. Na Venezuela, impulsionadas em seu momento por 
Chávez, se criaram diversas "comunas" que, segundo dizem algumas notícias de jornal, têm 
hoje em dia um número considerável de povo envolvido e certo desenvolvimento em atividades 
econômicas, culturais e sociais, sem vinculação alguma com o Estado. Aconteceu ali uma 
ruptura comparando com o período anterior, em que até militares, burocratas e bolirricos 
("bolivarianos ricos") queriam controlar esse processo e encher os bolsos com o dinheiro 
que tinha sido investido nessa experiência.

Na Bolívia, há um "Estado plurinacional" dividido, porém, com influência do movimento 
indígena e camponês, aquele mesmo que protagonizou em 2000 e 2003 as insurreições da 
"guerra do gás" e a "guerra da água", botando abaixo governos e colocando freios no 
neoliberalismo. Essa mobilização dá um caráter diferente aos processos históricos que os 
povos vivem. Temos que lembrar que, no período anterior, o continente foi sacudido por 
amplas mobilizações populares que derrubaram mais de um governo.

Mereceria um capítulo especial a situação da Colômbia em que, depois de assinados os 
"acordos de paz", foram assassinados mais de 570 militantes sociais. Um setor das Forças 
Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) voltou à luta armada, o que demonstra que não 
existem garantias nem possibilidade de pacificação no país. Os paramilitares, grupos de 
narcotraficantes e o Exército continuam articulados aumentando a violência contra as e os 
debaixo. A Colômbia vive em guerra constante: no entanto, a mídia mostra seu governo como 
"democrático", embora seja o país latino-americano que mais recebe apoio militar dos EUA e 
que é vital para seus interesses, até pela possibilidade de acirramento no conflito na 
fronteira com a Venezuela.

Nos últimos anos o movimento popular colombiano tem protagonizado importantes lutas, 
especialmente as organizações camponesas e indígenas, nas quais os processos de ocupação e 
recuperação de terras tem sido mais do que relevantes junto com as paralisações agrárias.

Hoje a direita ataca com tudo diretamente contra a vida. Prova disso são os incêndios na 
Amazônia, em que governos como o de Bolsonaro dão "carta branca" para destruir a natureza 
e promover o genocídio indígena em benefício do agronegócio. É uma expressão de um 
protofascismo agressivo ao extremo, que não poupa esforços para implementar o sistema 
capitalista. É o neoliberalismo imposto com total agressividade e aplicando a máxima do 
império britânico: "cagando pra todas as consequências".

Um forte ajuste

A burguesia latino-americana precisa retomar a direção dos governos em todo o continente. 
Precisa disso para impor um ajuste maior, um ajuste duro como o que Macri impôs desde 
2015. Mas temos que considerar que essa direita já contava com fortes bases de apoio: no 
Peru ela não perdeu o governo em nenhum momento, incluindo todos os escândalos de 
corrupção possíveis, na Colômbia a ultradireita controla o governo com Iván Duque (lá quem 
governa é o uribismo) e no Chile a já dissolvida "Conciliação" governou em uma lógica 
pinochetista e neoliberal. Plataforma de lançamento nada desprezível.

Muitas dessas guinadas vieram do próprio "progressismo" ou de seus aliados. Lenin Moreno 
no Equador era o sucessor de Rafael Correa e deu uma guinada importante em nível político 
tanto interno quanto na região. Michel Temer deu um "golpe brando" parlamentar sendo o 
vice-presidente do governo de Dilma Rousseff.

No Uruguai, diversas referências da Frente Ampla se descolam agora da Venezuela e 
qualificam o governo daquele país de "ditadura", em sintonia com o Grupo de Lima e com a 
OEA. Alguns deles, como José Mujica, que até ontem recebia mãos cheias de dinheiro da 
Venezuela, hoje se mostra como ele é: um oportunista que muda de posição conforme sopra o 
vento. Agora a Venezuela não envia mais dinheiro por causa do bloqueio econômico e da 
crise que o país está vivendo, gerada e aprofundada entre outros mecanismos pela OEA, cujo 
secretário geral, Luis Almagro, foi colocado ali com grande ajuda do próprio Mujica. Se 
pode dizer que entre os "progressismos" se encontram personagens de toda laia, dignos de 
uma crônica das maiores infâmias da humanidade.

No Uruguai vai ter eleição em outubro-novembro, assim como na Argentina. A disputa é o 
grau de ajuste e de garrote: se a Frente Ampla conseguir seu quarto governo vai haver um 
ajuste e uma guinada à direita de menor grau do que se ganhar a oposição, porém a 
discussão é o grau do ajuste. E isso vai ser acompanhado de repressão, o que já se está 
vendo nas manifestações contra a instalação da terceira fábrica de papel do país, em que a 
polícia sai defendendo os interesses do capital multinacional em um governo 
"progressista". E a direita simplesmente viria com o libreto neoliberal duro e puro.

As alianças feitas em muitos casos por ditos "partidos progressistas" são próprias de um 
filme de terror: o PT se aliou até com a direita mais rançosa e reacionária para conseguir 
votos no parlamento... comprando votos com dinheiro também, como se demonstrou nas tramas 
no Mensalão e da Lava Jato.

Mas é aqui que a direita coloca para funcionar à toda os mecanismos do sistema que, em 
outros momentos, não recebiam essa relevância: o sistema judicial foi utilizado como um 
dispositivo de poder sinalizador, por si, de corruptos e vários juízes são os novos 
"cavaleiros" da austeridade e da justiça. E neste exato momento se está demonstrando que a 
trama de corrupção é maior do que podemos imaginar e que o jogo da direita não mede 
esforços para tirar quem ela quiser do meio do caminho.

A direita quer o controle político total e retomar as negociações que permitem a condução 
do Estado: licitações, subornos, compras e negócios, vários dos quais ela nunca esteve 
ausente, mas a sua voracidade não tem limites. Há uma espécie de "genética" que lhe indica 
que, por mais que os governos "progressistas" governem para a direita, protejam seus 
negócios e seus interesses de classe, que contenham as pessoas pobres e reforcem o aparato 
repressivo, esses "progressistas" não vêm da estirpe dela, não são burgueses de linhagem 
pura. Para a burguesia, no fundo eles não são confiáveis, mesmo que tenham feito muito bem 
a tarefa. Tem aí um instinto de classe que essa burguesia 
industrial-rural-financeira-comercial latino-americana expressa, um evidente ódio de 
classe que ela lançou às ruas com força inusitada. Ela não quer perder nem uma pontinha de 
poder. Não está disposta sequer a tolerar medidas paliativas, para não falar de reformas a 
céu aberto como ocorreu em décadas passadas com os populismos ou os governos 
desenvolvimentistas ou liberal-reformistas. Essa burguesia é liberal de linhagem pura: em 
seu sangue circula o ódio às e aos debaixo e uma sede constante de converter o mundo todo 
em um negócio.

E para que esse negócio funcione é necessário mais e mais terror de Estado. Os ataques vêm 
de todos os lados, com reformas trabalhistas e de previdência, cortes de orçamento na 
educação, vista grossa para queimadas, desmatamento e assassinatos de indígenas e pobres. 
Por outro lado, a esquerda eleitoral segue com seu discurso institucionalista e 
desmobilizador das bases. No Brasil, as centrais sindicais chamam paralisações de um dia 
de "greve geral" e não parecem conseguir se dissociar do chamado "Lula livre". No entanto, 
nossos esforços seguem sendo fomentar a organização pela base e apoiar lutas com ação 
direta, como as ocupações de indígenas na Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), 
contra as demissões em massa nesse órgão de saúde pública, e as greves e ocupações 
estudantis em universidades, como o exemplo da Universidade Federal da Fronteira Sul 
(UFFS) contra a intervenção federal que colocou ali um reitor bolsonarista em vez do 
reitor eleito pela comunidade acadêmica.

Enquanto os palácios estão formulando leis e projetos de crises, mais liberação econômica, 
menos direitos para as pessoas e mais lucros para os exploradores, a repressão nas ruas 
das cidades ataca o povo em revolta e trata de manter as pessoas em silêncio na base da bala.

No campo e florestas está a raiz de uma América Latina que não desfrutou da bonança da 
"esquerda" no governo. Não apenas as queimadas e o avanço ecocida dos latifundiários fazem 
vítimas, mas também o genocídio sistemático das populações rurais e nativas, cujos corpos 
continuam sendo acumulados como resultado direto do avanço da ultradireita no continente.

Argentina: garantir a governabilidade deles ou defender o nosso salário

Os números alcançados nas últimas eleições não evidenciaram nada além do que se está 
vivendo na rua, nos bairros, nos locais de trabalho. Inclusive nessa instância 
legitimadora do sistema - como é a democracia representativa - se expressou o desespero 
das massas populares diante do desmantelamento do país. Podemos começar argumentando que o 
cálculo errado - tanto das consultorias quanto da classe política - do resultado eleitoral 
tem relação com o pouco nível de conhecimento desses setores sobre o que se vive abaixo, 
sobre o rechaço dos setores populares em relação às assustadoras políticas de fome, 
desemprego e exclusão de Macri e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O panorama 
social, econômico e político que nós, oprimidos e oprimidas, estamos vivendo é cada vez 
mais complexo e urgente. Em um contexto de recessão, no meio de uma espiral inflacionária 
e um endividamento sem precedentes, o Peso argentino se desvalorizou 25% imediatamente 
após as eleições. Isso se transferiu logo para o preço da cesta básica e os combustíveis, 
em um deliberado lapso de tempo outorgado pelo governo nacional, antes de lançar dez 
medidas como incentivo em uma tentativa de enganar novamente as classes populares. O 
resultado: uma estrepitosa redução salarial. Porém, não é nossa intenção falar demais 
sobre os números para descrever a proporção do dano causado na última jogada especulativa 
dos setores financeiros e o governo.

Mas nós sabemos que esse período de ajuste que dura já quase uma década, aprofundado pelo 
macrismo em níveis descomunais, vai ir além do próprio "fim do ciclo" da coalisão 
Cambiemos. Entre os candidatos, no fundo, se discutem modalidades de ajuste. É por isso 
que é coerente a proposta de Alberto Fernández de levar o dólar a 60 pesos. Tampouco 
devemos desconhecer que nos encontramos já em um contexto de duro avanço neoliberal em 
toda a região, em um continente onde o imperialismo estadunidense tenta retomar o controle 
hegemônico.

Nesse cenário dramático, devemos analisar que nitidamente se explicitam duas saídas 
institucionais concretas no imediato. Uma é a que propõem os dirigentes da Frente de 
Todos, que consiste concretamente em não fazer nada, esperar sentados até dezembro, 
garantir o fluxo de votos e resguardar a governabilidade (mesmo que isso implique bancar 
as medidas antipopulares de Macri). Como temos dito, a crise social provocada pelo avanço 
neoliberal foi diretamente proporcional à crise de falta de participação política da 
classe oprimida durante um longo período. Devemos lembrar que estamos vindo de décadas de 
restrição vinda de cima contra a participação popular, através de mecanismos de cooptação, 
clientelismo e burocratização, quando não de deslegitimação e repressão dos protestos 
sociais. Esse "paradigma da não participação" pôde ser evidenciado lá no início de 2016 
quando, em pleno conflito contra demissões no setor público e no frigorífico Cresta Roja, 
a cúpula kirchnerista ficava convidando para tomar mate nas praças (o chamado "resistindo 
com perseverança"). Definitivamente, esse exacerbado pedido a "não bater panelas" - 
tentando inclusive frear medidas de força nos sindicatos - não esconde nada além da 
preocupação com a porcentagem eleitoral, em detrimento de impedir maiores níveis de 
pobreza e desemprego para o povo.

A outra saída a esse golpe contra o bolso das e dos debaixo tem a ver com o que se propõe 
nos setores combativos do movimento operário e as organizações populares, como a 
possibilidade de uma resistência organizada na rua. Logo que ocorreu a desvalorização da 
moeda, pudemos ver a resposta de alguns desses setores, como a manifestação da Associação 
dos Trabalhadores do Estado (ATE-Capital) e a paralisação da Associação Gremial de 
Trabalhadores Metroviários e Ferroviários (Metrodelegados) da Cidade Autônoma de Buenos 
Aires, assim como os cortes de Empregados do Comércio em Rosário. O plano de luta 
estendido dos trabalhadores estatais em Chubut sem dúvidas é um exemplo de resistência 
organizada contra as foiçadas do governo. Os movimentos sociais, por causa da fome nos 
bairros, também organizaram refeições populares em todo o país, em um contexto de um 
operativo policial de grande envergadura.

Do ponto de vista do anarquismo organizado estamos conscientes que não existe um clima 
generalizado de efervescência popular e muito menos de rebeldia profunda. Tem luta, 
descontentamento e altas expressões de rechaço à situação social, porém sabemos bem que 
estamos longe de um "fora todos" e que os sindicatos e movimentos sociais carecem de um 
programa de classe representativo. No entanto, é evidente que o humor social não tem os 
mesmos tempos que o calendário eleitoral. É óbvio que a classe política em seu conjunto 
tem mais medo da ideia de uma explosão social do que da ideia de que haja mais 10% de 
pobres. Inclusive, diante da iminente vitória de Alberto Fernández, a dirigência 
kirchnerista prefere uma vitória com pouca margem e descrença social do que um 
transbordamento popular com a pressão nas ruas. Neste momento devemos ter cautela. Sabendo 
que existem setores populares que depositaram esperança no voto e em propostas eleitorais 
"progressistas" - e que anseiam como nós por uma sociedade sem exploração - é necessário 
conversar com esses setores e chamar para a resistência imediata através da mobilização 
popular. Transbordar e transcender a imposição de "soluções vindas de cima" é uma questão 
vital para devolver a confiança na própria força e na organização das e dos debaixo, para 
que se expresse com vigor essa resistência que dá mostras de existir. A resposta popular 
aos roubos do governo e do capital financeiro não pode se fazer esperar. Diante da 
alternativa de garantir a governabilidade deles ou defender nosso salário, sempre vamos 
optar pela segunda, buscando com que estejam presentes os métodos que fortalecem as e os 
debaixo.

Chile: o "modelo" neoliberal funciona.... para os de cima

Na região chilena o sistema de dominação administrado pelo bloco dominante recrudesceu e 
aprofundou sua política neoliberal. Nesses dois anos de governo Piñera se desmantelou o 
pouco ou nada de direitos sociais que a classe dominada possuía e, por sua vez, houve um 
recrudescimento da repressão contra os setores em luta.

No mundo do trabalho assalariado, os instrumentos de flexibilização trabalhista se 
fortaleceram. Expressão disso é o Estatuto Trabalhista Juvenil e a Iniciativa de Lei que 
buscou aumentar a precarização do trabalho com o falso discurso de redução de horas de 
exploração, anulando a possibilidade de negociação coletiva com a patronal e 
flexibilizando ainda mais as condições do trabalho. Por outro lado, a reforma tributária 
garante o resguardo das taxas de lucro para o empresariado local e as transnacionais, em 
um contexto de crise e desaceleração da economia, prejudicando consideravelmente as 
classes dominadas.

Nos territórios, a Lei de Integração Social consolidou o monopólio de acesso ao solo para 
o mundo imobiliário, erradicando as comunidades da produção e gestão da cidade e seus 
territórios, impossibilitando a realização concreta de projetos autogestionados e 
participativos. O extrativismo e a mercantilização da terra e da água, hoje, mantêm nossos 
territórios em uma grave situação ecológica, com uma crise hídrica cada dia mais complexa, 
expandindo as zonas de sacrifício e a alteração dos ecossistemas, como os casos da 
contaminação da água potável em Osorno, onde se visibiliza a mercantilização das fontes 
hídricas através das empresas sanitárias, a situação de Puchuncaví-Quintero que não foi 
resolvida, a morte da vida camponesa, da fauna e da flora em zonas devastadas pela seca, e 
as falsas saídas que apresenta o bloco dominante através da Conferência das Nações Unidas 
sobre as Mudanças Climáticas (COP 25) e os tratados econômicos como o TPP-11 e a 
Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), que vêm para reforçar o ataque aos corpos e 
territórios.

Atualmente presenciamos um recrudescimento do aparato repressivo e a criminalização dos 
protestos sociais. A lei Aula Segura, a Agenda Curta Antiterrorista, a Lei Migrante são 
mostras nítidas de que o aparato estatal atualiza e aprofunda sua ferramenta de controle e 
disciplinamento, golpeando fortemente a classe oprimida: ambulantes, feirantes agrícolas, 
comunidades Mapuche em resistência e estudantes secundaristas. Somado a isso, o 
assassinato de lutadoras e lutadores sociais tais como Macarena Valdés, Camilo Catrillana, 
Alejandro Castro e os feminicídios cada dia mais frequentes em espaços públicos, a 
homo-lesbo-transfobia e o racismo nos evidenciam o Estado de Exceção permanente em que 
estamos habitamos.

Se abre um novo período de luta e resistência

Ninguém nunca deu nada de presente para os povos. Todos os tempos são de luta, todos os 
períodos têm as suas complexidades. Agora que a direita e a ultradireita estão retomando o 
controle dos governos e os "progressismos" dão guinadas nessa direção em maior ou menor 
grau (caso da rearticulação peronista na Argentina ou uma eventual vitória da Frente Ampla 
com minoria parlamentar no Uruguai, por exemplo), se abre uma nova etapa de lutas, de 
resistências variadas e complexas. Porque todos os governos virão para cortar direitos, 
com algum grau ou plano de ajuste. Já não existe crescimento para repartir, apenas miséria 
e garrote. Portanto, os governos e as classes dominantes vão graduar os níveis de ajuste e 
repressão: alguns serão mais intensos, outros mais suaves, e outros, descaradamente, com 
extrema violência de classe. Todos esses regimes têm e terão em comum a defesa do 
interesse das classes dominantes latino-americanas e estrangeiras.

É por isso mesmo que vão se intensificar os níveis de luta popular. O neoliberalismo traz 
resistência. Eles sabem, por isso apostam com força na milicada. Porém os povos também 
sabem, intuem e desejam uma sociedade diferente. Os povos sabem que toda essa exploração 
precisa de um freio, que é preciso frear tanta arbitrariedade. Aí está toda uma história 
de luta dos povos indígenas, quilombolas, trabalhadoras e trabalhadores da cidade e do 
campo, estudantes, e as diferentes expressões e níveis de ação direta que ocorreram no 
continente. Feitos históricos que apontam um caminho, lutas atuais, recentes, que convocam 
amplos setores do povo a continuar indo para a rua, para ocupar e recuperar terras, para 
defender a vida.

Esses tempos que estão vindo exigem de nós, militantes anarquistas organizadas/os 
politicamente, que intensifiquemos o esforço militante e tratemos de oferecer as 
ferramentas necessárias ao campo popular para resistir e avançar em uma perspectiva de 
longo prazo.

Um longo processo de luta nos convoca. Um longo caminho de anseios e esperanças, de 
experiências compartilhadas, de dores mas também de vitórias, de avanços. O Anarquismo 
Especifista tem muito a dizer e um papel a assumir na construção dessa sociedade 
diferente. Nas nossas organizações e espaços militantes tem lugar para todas as pessoas 
que buscam maiores níveis de militância e compromisso, para todas as pessoas que colocam o 
melhor de si a serviço da causa das e dos debaixo.

É nesse debaixo que o Socialismo vai encontrar militantes, construtores e construtoras. 
Podemos dizer que a única alternativa a esse mundo de barbárie é o Socialismo, e que o 
Socialismo será Libertário ou não será!!!

PELA CONSTRUÇÃO DE PODER POPULAR!!!

FORTALECER A RESISTÊNCIA!!

ARRIBA LAS Y LOS QUE LUCHAN!!

FEDERACIÓN ANARQUISTA URUGUAYA (FAU)

COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA (CAB)

FEDERACIÓN ANARQUISTA DE ROSÁRIO (FAR) - ARGENTINA

FEDERACIÓN ANARQUISTA DE SANTIAGO (FAS) - CHILE

GRUPO LIBERTARIO VÍA LIBRE - COLOMBIA

ROJA Y NEGRA ORGANIZACIÓN POLÍTICA ANARQUISTA (RYN OPA) - BUENOS AIRES, ARGENTINA

https://anarquismopr.org/2019/09/23/analise-da-conjuntura-latino-americana/


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