(pt) resistência popular estudantil floripa: Carta à greve #3: Uma análise das disputas internas à greve e dos desafios para a radicalização de base

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Quinta-Feira, 17 de Outubro de 2019 - 10:58:12 CEST


Nossa terceira carta à greve chegou com os ventos de rebeldia e resistência das oprimidas 
do mundo! Chega em meio a revoltas contra o projeto neoliberal na América Latina do povo 
no Haiti, Argentina, Equador e Colômbia, também em pleno ataque genocida do Estado turco à 
revolução social no Curdistão. Nessa carta, queremos sugerir que nosso greve aqui na UFSC 
ainda não chegou ao fim. ---- ¿Cómo luchan los pueblos del Ecuador? Diciendo-haciendo, 
diciendo-haciendo, diciendo-haciendo, ¡carajo! ---- 1. Temos entidades nacionais, mas não 
vemos nacionalização das lutas ---- Os dias 02 e 03/10, chamados nacionalmente por UNE, 
ANPG, FASUBRA, SINASEFE e ANDES como paralisação de dois dias de luta da educação, não se 
concretizaram como acúmulo de forças na maioria das cidades brasileiras. Apesar da 
urgência dos ataques que sofremos nacionalmente e dos exemplos de luta na UFFS, UFSC, 
Unipampa e UFSM, essas datas não apontaram para a radicalização das lutas. Em partes por 
intenção explícita das principais forças políticas à frente dessas entidades nacionais, 
que não mobilizaram para as atividades e que buscam isolar a proposta de greve geral por 
tempo indeterminado. O ato realizado em Florianópolis, apesar de levar cerca de cinco mil 
pessoas às ruas, foi marcado por dois fatores que desanimaram a mobilização.
O primeiro deles foi a UNE. De cima do carro de som, a manifestação foi coordenada por 
estudantes da UNE vindos de outras cidades para nos enquadrar. A posição de quem vê uma 
manifestação de cima, típica do carro de som, já é geralmente antipática e autoritária, 
mas foi levada ao seu extremo no último ato: além de usarem o carro de som para propagar 
uma linha política rebaixada e desanimadora, sufocando o chamado pela greve geral, 
demonstraram sua total desvinculação com a militância nas ruas ao desconhecer as palavras 
de ordem escolhidas popularmente nos atos de Floripa, que foram cantadas sistematicamente 
fora dos seus ritmos usuais. É uma vergonha que a UNE, com o aval do DCE UFSC, que a 
constroi e dá legitimidade, concentre suas forças em mandar militantes para disputar nosso 
ato, em uma cidade em que a luta já tem seus contornos mais fortes e combativos, ao invés 
de buscar atuar em suas outras bases locais, impulsionando a mobilização. Isso demonstra, 
enfim, o verdadeiro objetivo a que a entidade se propôs com sua visita, que é frear nossa 
luta.
O segundo fator foram as práticas espontaneístas e oportunistas que, dentro do Movimento 
UFSC contra o Future-se, fizeram do ato um espaço de disputa por protagonismo, deixando 
nossa pauta em segundo plano. Por que isso ocorreu?
2. Contra o dirigismo explícito, um dirigismo informal ainda mais ilegítimo
O que estamos chamando aqui de dirigismo não é a tentativa de disputar uma orientação 
tático-estratégica para o movimento, tarefa política legítima para as organizações 
políticas e mesmo para sujeitos independentes. O dirigismo se expressa quando a busca por 
se legitimar e apresentar como liderança é visto como tarefa primordial, colocada acima da 
busca por fazer avançar a força e as conquistas da luta. É essa intenção de formar 
referência e ser visto como vanguarda que leva diferentes grupos a disputar quem faz mais 
falas, quem reivindica a glória de ter proposto determinado encaminhamento, puxado 
determinada ação - e, pior, quem é mais radical ou quem faz a crítica mais devastadora ou 
difamadora do grupo adversário. Tais disputas tiram do centro do debate a discussão 
honesta sobre nossas estratégias e nossos objetivos, impedindo a crítica e autocrítica 
feita com disposição, não só de assumir os próprios erros, mas de reconhecer os acertos 
das organizações e movimentos não alinhados. Visto dessa forma, identificamos dirigismo 
tanto na diretoria do DCE quando na atuação do Movimento UFSC contra o Future-se.
O início do Movimento UFSC contra o Future-se está marcado por uma vontade legítima de 
fazer a luta acontecer, impulsionada por uma incapacidade do DCE em acessar as bases dos 
cursos e transformar a luta em algo menos centralizado do que a representação burocrática 
da entidade, inclusive ao não incorporar táticas de luta surgidas fora das organizações 
que compõem a gestão. No entanto - mesmo com algumas organizações e entidades participando 
das reuniões iniciais que levaram a formação do Movimento - ele surgiu sob o discurso de 
rejeição ao movimento estudantil e suas entidades. É a partir dessa narrativa que ele se 
desenvolveu cada vez mais como uma minoria radicalizada, sem disposição para construir as 
entidades de base, cujas ações se voltam à disputa e ao ataque contra o DCE.
É necessário apontarmos uma derrota ideológica ao individualismo nesse processo. Enquanto 
nossas principais lutas nos últimos anos foram organizadas por articulações de entidades - 
seja por uma rede de CAs à esquerda do DCE, pela Comissão Unificada, pela Coordenação 
Estadual de Entidades em Defesa da Educação Pública (COEEDEP) ou pelo Fórum de Lutas - 
agora estamos dependendo de uma articulação de indivíduos, onde a participação coletiva de 
estruturas de base é mal vista, chegando ao limite de considerar acordos coletivos e a 
participação da base como formas de burocratizar ou frear a radicalização. A luta, com 
pretensão de radicalidade, se torna uma tarefa relegada a poucas pessoas, aquelas 
"capazes" ou "iluminadas" para fazer tal ou qual ação. E, pior, justo na principal 
mobilização estudantil dos últimos três anos, quando estamos formando uma nova geração de 
militantes.
Um comentário à parte deve ser feito sobre a Juventude pela Revolução Brasileira (JRB) e o 
fetiche dirigista. A organização lançou o primeiro posicionamento público pelo fim da 
greve na UFSC e, hoje, junto com as organizações que compõe o DCE, fazem a frente de 
defesa do final da greve. O grupo construiu e insuflou a proposta de greve enquanto foi 
conveniente, a fim de se apresentar como alternativa mais radical ao DCE UFSC, com o qual 
essa organização rompeu. No entanto, pouco tempo após o início da greve, quando a JRB se 
vê incapaz de dar a linha política do Comitê de Greve ou hegemonizar o UFSC contra o 
Future-se, se volta rapidamente contra a greve, atuando para desmobilizá-la nos cursos.
3. A tirania das organizações sem estrutura
Um coletivo não é mais ou menos vanguardista e autoritário pela ideologia que diz possuir, 
mas sim por sua forma prática de organização e postura nos espaços de construção política. 
Ainda que não existam chefes ou lideranças eleitas, coletivos que não possuem uma 
estrutura interna com distribuição de tarefas e acordos coletivos de organização abrem 
espaço para lideranças autoritárias informais. É o que acontece em um bloco de rua que 
tenta arrastar pessoas para tomar a frente de um ato sem nem mesmo apresentar às pessoas a 
proposta do que será feito, ou o que acontece em uma reunião aberta do movimento em que as 
principais linhas a serem tomadas já foram discutidas antes entre um núcleo duro - mesmo 
que se apresente como independente ou autônomo.
Em nossa greve, essa criação de autoridades informais se aliou a uma forte meritocracia 
tarefista - quem participou de mais reuniões ou organizou mais ações de greve se vê na 
posição de quem pode decidir mais coisas e se torna imune a críticas. Não causa surpresa 
que essa postura afasta muitas pessoas da construção coletiva, especialmente estudantes 
mais novas, com menor histórico de ações ou conhecimentos práticos da luta, como coordenar 
reuniões, diagramar panfletos, fazer cola de lambe, montar um piquete, etc. A militância 
se torna tarefa de especialistas, aos quais as novatas devem obedecer ou sair de perto 
para não atrapalhar.
Valorizamos a importância do UFSC contra o Future-se para a greve que temos hoje. O 
Movimento fez a greve se tornar possível, possibilitou assembleias massivas e uma grande 
publicização das ações com produção de material, assim como tem pautado a fundamental ida 
de estudantes a outras cidades. Frente às dificuldades organizativas e o freio de mão 
puxado por alguns setores, conseguiu rapidamente puxar ações e iniciativas de luta que 
saíam do papel e, assim, deram vazão à vontade de atuação de muitas e muitos estudantes, 
inclusive nós. No entanto, esse polo aglutinador também levou ao esvaziamento de centros 
acadêmicos e espaços de base; e, neste momento, só a capacidade de construir a 
radicalidade dentro de cada curso e programa, com amplos setores, pode manter viva nossa 
greve. Forma de atuação esta que é oposta a se isolar em ações não discutidas nos espaços 
de representação de base, como os Comitês de Greve.
Consideramos que a situação de desarticulação nas bases de vários cursos é fruto desse 
processo espontaneísta e sectário de construção da greve. A primeira tarefa de cada 
estudante que acredita nessa luta é conversar e construir com as pessoas que estão na 
mesma situação que a sua, ao invés de conversar apenas com seu grupo de afinidade 
política. A melhor ação a se tomar não é aquela que gera mais adrenalina, mas aquela que 
produz mais força coletiva.
4. Nossa greve é muito maior do que essa disputa por protagonismo
Estamos entrando agora na sexta semana de nossa greve. Apesar de muitos cursos não terem 
efetivado a greve e outros já terem saído dela, o fato é que, neste momento, ainda temos 
greve na maioria dos cursos do CFH, CED, CCB, CCE e CCA, além de alguns cursos e programas 
em outros centros. Não por acaso, muitos desses espaços são aqueles que tiveram atuação 
cotidiana de seus centros acadêmicos nos últimos anos, em especial com forças políticas à 
esquerda do DCE UFSC.
Ao invés de interpretar a greve a partir das posições tiradas por cada organização 
política, é necessário olhar para essa base, constituída por milhares de estudantes que 
ousaram lutar, enfrentar professores, a mídia e o governo para afirmar interesses 
coletivos: garantia de suas bolsas, sua alimentação, educação pública e o emprego de 
tantas trabalhadoras terceirizadas. Se outras forças políticas olham para essas maiorias 
com desinteresse, ou como uma massa amorfa para ser conduzida, é papel de quem acredita na 
ação coletiva e de base priorizar a participação nesses espaços e analisar a greve 
partindo desse ponto de vista, de sua estratégia e vontade de lutar. São esses os sujeitos 
que decidem se a greve continua ou não, pois são eles que a fizeram acontecer desde o início.
Abaixo do radar da maioria das análises, a mobilização nas bases dos cursos nos mostra um 
processo de formação política; ida para as praças e escolas; articulação nacional; vínculo 
com trabalhadoras de todas as categorias da UFSC, incluindo terceirizadas; e participação 
em outras lutas que já acontecem fora da universidade. Um caldo de construção e vínculos 
que pode dar reflexos importantes para os próximos anos, dependendo da capacidade de 
nossas entidades, movimentos e coletivos de acolher a militância que se forma no processo.
5. Nossa tarefa, seja na greve ou após dela, é construir a radicalização de base
A greve estudantil na UFSC vem revelando a necessidade e o potencial da articulação das 
milhares de estudantes na luta em defesa de uma educação a serviço do povo e de uma 
formação que possibilite que decidamos o futuro que queremos construir. Enquanto o 
Programa Future-se segue avançando nas instâncias de poder do governo, trabalhadoras 
terceirizadas da UFSC seguem demitidas e o orçamento para as universidades públicas segue 
reduzido para o ano que vem. Caminhamos para o retorno à universidade restrita à elite 
branca do país, enquanto a população caminha para a fila do desemprego. Isso só mostra que 
nossa luta deve seguir e que devemos seguir fortalecendo as bases, nos formando e 
construindo horizontes coletivos que nos permitam agir também coletivamente.
Essa construção deve ser permanente e se dar de forma organizada, na criação de relações 
de confiança e aquisição de sentido às ações realizadas. É necessária a articulação com 
estudantes independentes, evitando uma atuação difusa, desgastante e individualizada, 
capaz de crítica e autocrítica; é necessário reconhecer que as vitórias são possíveis 
quando vemos no fortalecimento das bases a razão de engajamento na luta e a garantia de um 
horizonte comum e significativo; é necessário admitir que ser radical somente é 
revolucionário e muda a vida quando essa radicalização é desde a base, de forma massiva. É 
o exemplo que a luta popular no Equador tem nos dado; milhares de indígenas ocupam Quito 
organizadas em sua entidade, a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador 
(CONAIE), que desde 1986 faz trabalho de base e agrega força social para que neste momento 
possa tomar as ruas, avançando com o povo oprimido contra o projeto neoliberal que toma 
toda a América Latina. Protagonizada por um povo organizado, vemos na radicalidade 
equatoriana a ação coletiva como seu motor de luta e no dizer-fazer sua estratégia.
CONSTRUIR DESDE A BASE UMA GREVE FORTE!
EM TODA A AMÉRICA LATINA, LUTAR DIZENDO-FAZENDO, DESDE ABAIXO E A ESQUERDA, CARAJO!
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Resistência Popular Estudantil - Floripa
14 de outubro de 2019

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