(pt) federacaoan arquista gaucha: 28 de setembro: aborto, direitos reprodutivos e a liberdade das mulheres

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Sexta-Feira, 4 de Outubro de 2019 - 08:13:12 CEST


"Poderei ser presa, poderei ser julgada e enviada para a cadeia, mas não estarei nunca em 
silêncio; nunca consentirei ou me submeterei a autoridade e tampouco farei as pazes com um 
sistema que degrada a mulher à mera incubadora e que engorda graças a suas inocentes 
vítimas. Aqui e agora declaro guerra a este sistema e não descansarei até que se tenha 
aberto o caminho para uma maternidade livre e uma infância saudável e feliz." ---- Emma 
Goldman no texto "The Social Aspects of Birth Control", publicado na revista Mother Earth 
em abril de 1916. Tradução nossa. ---- Em nossa construção anarquista e feminista, a 
autodeterminação reprodutiva sempre foi pauta defendida pelas mulheres em luta. Nesse 28 
de setembro, dia de luta pelo aborto legal e seguro, pela descriminalização e legalização; 
no espírito de luta das Mujeres Libres, de Emma Goldman e tantas companheiras que nos 
precederam, refletimos sobre a conjuntura política à luz desta agenda tão cara para os 
direitos das mulheres.

Uma série de acontecimentos da conjuntura requerem nossa atenção e reação. Neste mês 
Bolsonaro anunciou que solicitou ao MEC um projeto para acabar com o que chama de 
"ideologia de gênero"[1]nas escolas, medida que objetiva interditar o debate de gênero e 
diversidade sexual no âmbito da educação. Na América Latina no geral há um forte movimento 
contra a suposta ideologia de gênero, levada a cabo por governos com apoio de bases 
católicas e evangélicas, numa guerra contra as mulheres e os avanços conquistados pelos 
movimentos organizados.  A censura nas artes têm tido como alvo prioritário as peças, 
filmes, livros e criações que tratam desse tema, como no exemplo recente da Bienal do Rio 
de Janeiro.

Após o lançamento do programa "Abrace Marajó", da ministra da Mulher, da Família e dos 
Direitos Humanos, uma recente investigação na Ilha de Marajó demonstra a relação 
consequente da fome, da pobreza e da ausência de políticas públicas com a exploração 
sexual de meninas e mulheres. É um dos locais com os índices mais altos de exploração 
sexual infantil com meninas se prostituindo por comida, sendo abusadas pelos pais, tios, 
avôs e engravidando dos estupros cometidos pelos familiares. O Anuário de Segurança 
Pública 2019, divulgado também esse mês, traz as sangrentas estatísticas de aumentos de 
feminicídios e de estupros, com uma menina estuprada a cada 4 horas.

Uma nova resolução do Conselho Federal de Medicina retirou das mulheres grávidas a escolha 
sobre procedimentos indesejados sobre seus corpos se os médicos acharem que não é o melhor 
para o feto. Procedimentos dolorosos ou invasivos poderão ser feitos mesmo sem autorização 
das mulheres, em mais uma manobra onde a medicina tutela os corpos em nome dos direitos de 
um feto, deixando claro que para o sistema somos incubadoras, não pessoas de direitos.

O discurso religioso que contamina as políticas públicas segue se acirrando. O novo 
procurador-geral da República Augusto Aras assumiu compromisso com setores evangélicos 
através de um manifesto para valores cristãos e pautas morais. Na pauta, além da 
anticorrupção, estão temas como a proibição do aborto, reconhecimento exclusivo da família 
heterossexual e monogâmica, cura gay, combate ao nome social e reconhecimento de 
identidades de gênero, criação de cargos de estado para a "defesa da liberdade religiosa". 
Em meio a crises no governo, há um movimento de maior aproximação de Bolsonaro com 
evangélicos para driblar as crises diplomáticas, a questão ambiental e os ruídos com o 
lavajatismo, acenando com mais isenções fiscais para as igrejas e reforço das pautas morais.

Por outro lado, as mulheres que são mães têm tido o futuro dos seus filhos arrancados pela 
mão do Estado racista e patriarcal a serviço do capital. Muitas mães choram a morte de 
seus filhos pela política genocida que corta nossa carne e é máquina de moer pobres e 
negros. Muitas crianças vivem a violência absoluta da miséria de tudo: não têm transporte, 
não têm moradia digna, não têm comida, não têm escola, não têm atendimento médico, não têm 
afeto. Os ricos e poderosos ao mesmo tempo impedem o direito de decidir das mulheres e nos 
matam com suas políticas antipovo que nos exploram só fazem aprofundar as desigualdades 
sociais.

Mas e o que tudo isso tem a ver com o aborto?

O tema do aborto é ainda uma questão relegada ao campo da religião, da moralidade e da 
clandestinidade. É pauta das feministas que defendem como um direito, mas também das 
igrejas e dos políticos, abordado numa agenda para a religião e um modelo de família.  O 
patriarca branco é a versão familiar do corpo político nacional. As narrativas 
disciplinadoras do controle da força reprodutiva e de trabalho das mulheres na família e 
na vida pública são pilares da ordem racial, sexual e econômica do capitalismo. O controle 
dos nossos corpos e o cisheterossexismo são instrumentos para a manutenção de uma ordem 
global baseada em explorações múltiplas. Todos os elementos que pontuamos se interligam 
demonstrando que as políticas de morte e de "vida" dos poderosos e o controle dos corpos 
mantêm o sistema funcionando e reproduzem as desigualdades. É por isso que os temas 
chamados morais estão na ordem do dia da ofensiva conservadora e neoliberal em curso.

Nas ruas, pelo mundo afora, as mulheres gritamos pelo nosso direito de decidir. Nos 
congressos, nas igrejas, nas mesas dos poderosos de ternos e fardas, homens se unem para 
impedi-lo a todo custo. A legislação do aborto é feita por homens para os homens, onde a 
criminalização do aborto é um exemplo escandaloso da negação da liberdade das mulheres. 
Decidir ser mãe ou não ser mãe é a expressão de uma liberdade. Não reconhecemos nenhuma 
lei de deuses, homens, ou culturas que possam nos impor a maternidade ou a negação dela 
(no caso de políticas de esterilização). Não há nada que possa impedir uma mulher de 
interromper uma gestação. Mas o direito de decidir e políticas de educação e saúde sexual 
eficazes podem nos impedir de morrer.

Quando falamos em aborto, estamos falando não apenas do procedimento em si, que queremos 
disponibilizado na rede pública de saúde de forma legal e segura, mas de uma série de 
temas e pautas que envolvem os direitos reprodutivos. É uma questão que não admite debate 
no âmbito do ser contra ou a favor, mas sim no campo da saúde pública e do direito ao 
corpo. Quando falamos em aborto estamos falando de educação sexual, orientação de 
planejamento familiar, atendimento psicológico, acesso a contraceptivos, combate à 
desigualdade de gênero.

Não abrimos mão da liberdade de escolher. A luta pelo aborto legal e seguro é uma luta por 
liberdade, pelos nossos corpos, pelas nossas vidas. Não recuamos da luta contra o avanço 
conservador e pelo direito à vida plena de todos os corpos. Defendemos uma educação 
emancipadora de gênero e sexualidade como forma de combate à violência de gênero e à 
violência LGBTfóbica. Queremos autonomia e autogestão dos nossos corpos. Educação sexual 
para prevenir, contracepção para não engravidar, aborto legal, seguro e gratuito para não 
morrer. Precisamos estar organizadas e tomar as ruas em luta. Com ação direta, lutar 
contra o estado racista, o capitalismo e patriarcado. Construir o poder popular para 
barrar a opressão dos nossos corpos. É o caminho que nós, anarquistas, trilhamos.

POR NENHUMA A MENOS!

POR TODAS AS MULHERES MORTAS EM ABORTOS CLANDESTINOS NENHUM MINUTO DE SILÊNCIO!
TODA NOSSA VIDA DE LUTA!
Construir um povo forte! Construir mulheres fortes!
Coordenação Anarquista Brasileira

[1]"...termo cunhado pelo Vaticano, mas que hoje serve de guarda-chuva para reunir 
diferentes grupos de interesse que lutam contra o avanço dos direitos sexuais e 
reprodutivos, visando a preservar uma estrutura de poder que tem o homem branco 
heterossexual no topo de todas as hierarquias sociais. O termo é a divergência entre o 
movimento feminista e os interesses religiosos e políticos, que associa a luta por 
igualdade no âmbito dos direitos humanos com perversões e crimes como pedofilia, no 
delírio de uma conspiração feminista global." Fonte: 
http://reporterpopular.com.br/especial-8m-mulheres-resistem-queimem-as-bruxas-ideologia-de-genero-e-a-guerra-contra-as-mulheres/

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2019/09/29/28-de-setembro-aborto-direitos-reprodutivos-e-a-liberdade-das-mulheres/


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