(pt) federacao anarquista gaucha FAG: Imperialismo e patriarcado Por Lila, militante da FAG

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Sexta-Feira, 22 de Novembro de 2019 - 07:25:10 CET


Temas habituais no nosso imaginário imperial geralmente incluem ocupações militares, 
expansão comercial e financeira, "missões civilizadoras", violência colonial, conceito de 
capitalismo. Contudo, o que interessa aqui é abordar as práticas discursivas do(s) 
imperialismo(s) na elaboração de fantasias coloniais do desejo e dominação, onde as 
questões de gênero e raça tomam lugar central. Para além da polêmica conceitual de 
imperialismo, imperialismos, império ou da discussão do aspecto imperialista neoliberal 
com foco na economia global e na interdependência com esferas de influência, essa reflexão 
se propõe a pensar gênero e raça como categorias necessárias e constitutivas do(s) 
imperialismo(s).
Para abrir o debate, uma primeira premissa é assumir que a conquista imperial do globo 
toma forma e legitimidade política por meio da primordial subordinação das mulheres como 
categoria da natureza, onde a geografia imperial do poder tem uma dimensão de gênero em 
que a erótica da conquista imperial é também uma erótica da subjugação. Originalmente, as 
mulheres como marcadoras das fronteiras do(s) imperialismo(s) estão nas imagens dos 
"descobrimentos" como metáfora sexual, na feminização da terra e no excesso de violência 
militar. "Descobertas" e colonizadas, pois nessa narrativa as terras não eram de todo 
originárias, porque passíveis de colonização. Assim como o corpo das mulheres não é 
totalmente das mulheres, sendo passível de controles múltiplos.

O projeto imperial, que surge inicialmente através de um crescimento baseado na 
escravização, tem no sistema da plantation, no culto da domesticidade (que toma forma no 
colonialismo e na ideia de raça) e no modelo colonial da família do homem branco 
heterossexual, experimentos de engenharia social e disciplina, produção em série, controle 
dos corpos e sistematização da vida humana que, a partir das relações, transforma a terra 
em uma única moeda econômica. A narrativa do estado primitivo de populações negras e 
originárias e o estado infantil e a natureza corrompida do feminino se complementaram como 
justificativa na criação de um tipo de poder masculino. É o discurso moral do progresso do 
pai branco da família global do homem (hoje mobilizado em nome da necessidade de 
crescimento econômico e estabilidade social) contra a degeneração da raça e do gênero (os 
sujeitos da desordem). Dito de outro modo, homens brancos originaram a nova ordem 
econômica do capitalismo, uma ordem que é racial e sexual.

As categorias inventadas desde o imperialismo moderno mais clássico para o controle do 
espetáculo do corpo feminino (culto da domesticidade, modelo de família, divisão sexual e 
racial do trabalho, etc.) são diferentes para mulheres brancas, negras e indígenas e tem 
desdobramentos até hoje. Assim como o patriarcado também não é categoria única, assumindo 
contornos diferentes sob as distinções de classe, raça e sexualidade. Nos fundamentos mais 
básicos do imperialismo colonial, a analogia do corpo feminino no mapa do explorador 
branco não deixa dúvidas de que gênero não é só uma questão de sexualidade e raça não é só 
uma questão de cor da pele, mas são questões de subordinação do trabalho e pilhagem 
imperial que explicam essas categorias historicamente construídas. Adicionar essa 
percepção é fundamental, pois  desnaturaliza as relações de poder masculinas. Seguindo 
essa lógica, se a geopolítica e a história imperialista estão articuladas às construções 
de gênero, raça e classe social, podemos dizer que os nacionalismos tem gênero, assim como 
a construção de raça é imaginada dentro das fronteiras nacionais e nacionalidade em termos 
de raça. Elaborações estas relacionadas ao poder político e às tecnologias da violência.

Nesse sentido, as representações sexuadas de nação são poderosas. De um lado, o corpo 
físico do patriarca, com toda sua autoridade, move-se para o corpo político nacional. De 
outro, um modelo de mulher da mãe da pátria e a consequente nacionalização do corpo 
feminino, um corpo sexualizado e reprodutor (que tornam nossos corpos propriedade). A 
família heterossexual é construída então como a imagem natural da vida nacional e um 
modelo de ordem social. Não à toa, a interpretação dessa elaboração das fantasias 
coloniais de desejo e dominação pelas direitas aciona o princípio da desordem e da 
corrupção familiar. Basta ver o posicionamento de suas pautas via avanço neopentecostal na 
vida social e política, a crescente disputa conservadora pelas infâncias, pela cultura, 
pela educação, as pautas ditas morais, o militarismo, o controle dos corpos, os delírios 
de ideologia de gênero e da conspiração globalista. Nenhuma ingenuidade nisso. O 
imperialismo do patriarcado faz da opressão das mulheres uma necessidade.

Assim, para além do elemento mais aparente dos mecanismos de comando imperial do capital 
(seja ele mercantil, industrial ou financeiro), outros temas importantes a se considerar 
são a transmissão do poder masculino e branco pela dominação das mulheres colonizadas e o 
surgimento de uma nova ordem global de conhecimento cultural. Nesse caso, não é mais 
através de argumentos biológicos que definimos a inferioridade de alguns sujeitos, mas é 
pela cultura que seguimos reforçando o racismo e o sexismo na criação discursiva da 
diferença do outro, do que está abaixo da regra definidora, o parâmetro que define a posse 
masculina militarizada da terra e também de quem (que corpos) recebe a agressão imperial. 
Isso tudo importa porque, ao fim e ao cabo, a dimensão de gênero no(s) imperialismo(s) e a 
invenção da raça (com seus regimes discursivos de discriminação) são centrais nos 
desdobramentos concretos atuais dos policiamentos e tecnologias de controle das "classes 
perigosas" para a manutenção da ordem imperial: trabalhadores, pobres, negros, lésbicas, 
gays, "criminosos", mulheres, lutadores sociais...

Ou seja, apesar de mudanças, o modelo de acumulação financeira do imperialismo globalizado 
não altera sua essência estrutural no âmbito de gênero e raça, e conserva sua identidade 
de acumulação e opressão. Trata-se da radicalização da subordinação de corpos e grupos 
inteiros para interesses privados de alguns poucos homens. Os sistemas políticos e as 
formas de governo, as revoluções coloridas, a agência da soberania e a necropolítica, as 
redes sociais como manipulação da vida e da política, o ordenamento jurídico dos Estados, 
esses e outros fatores, mesmo que em uma nova etapa do capitalismo, reproduzem uma 
dimensão imperialista desde sua gênese. Dito de outro modo, as assimetrias estruturais da 
construção da diferença analisadas também refletem as assimetrias imperiais do poder 
global no Sistema Internacional.

Acumulação financeira, privatização dos bens coletivos, violência militar, a autoridade de 
um estado centralizado, são possibilitadas pela domesticação do gênero e da raça e se 
ampliam na medida que essas desigualdades são mantidas. O projeto do(s) imperialismo(s), 
mais do que a conquista de territórios e domínio do capital, significa uma forma global de 
economia viabilizada por modelos de redes de poder que são também de ordem racial e 
sexual. Caminham de mãos dadas a ordem reprodutiva masculina da monogamia patriarcal, a 
ordem econômica do capital baseada na exploração racial e de gênero e a ordem política 
global do império.

Isso significa que temos que considerar essas problemáticas na construção de nossas 
estratégias de luta de ruptura contra os sistemas de dominação. Não há transformação 
possível enquanto não incorporarmos nas práticas cotidianas, de vida e militância, que o 
problema de gênero e de raça são econômicos.

(Estas reflexões foram elaboradas a partir da síntese de leituras de bell hooks, Anne 
Macclintock, Grada Kilomba, Achille Mbembe, Georges Bataille, Michel Foucault e outras/os.)

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2019/11/15/imperialismo-e-patriarcado/


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