(pt) federacao anarquista gaucha: Pelo mundo, o fantasma de uma nova crise, o avanço da miséria e da rebeldia popular

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Sexta-Feira, 8 de Novembro de 2019 - 08:00:29 CET


Nos dias 19 e 20 de outubro, o Conselho Federal da FAG (instância composta por delegações 
de base, como parte de nossa estrutura federalista), esteve reunido e, dentre outros 
assuntos, discutiu e afinou a caracterização da etapa histórica que vivemos. Abaixo segue 
a síntese do debate a respeito da conjuntura global. ---- A atual etapa do capitalismo, 
caracterizada notoriamente pela fluidez dos fluxos de capital a nível mundial e pela 
restrição cada vez maior da circulação entre fronteiras dos povos vítimas das guerras 
imperiais, depara-se com o fantasma de uma crise de proporções ainda maiores que a de 
2008. Ao norte do planeta, as disputas comerciais entre EUA e China chocam-se frontalmente 
com o projeto de aprofundamento da internacionalização da divisão social do trabalho e 
deixam o 1% mais rico do mundo de sobreaviso. Ao mesmo tempo, a redução no ritmo de 
crescimento de economias como a alemã e a chinesa caracteriza-se como indício de uma 
recessão nas grandes potências, potencializada pelo superendividamento dos Estados e sua 
consequente subjugação às vontades do capitalismo financeiro.

Nesse cenário, no ocidente voltam à cena discursos autoritários como promessas de 
restauração de uma ordem que nunca existiu, blindando e garantindo a implementação de 
políticas que sustentam o sistema das dívidas. Uma lógica que sequestra os orçamentos 
públicos em nome do privado e torna variáveis de ajuste os gastos com serviços sociais, 
cortando na carne do povo pobre. Esses discursos, quase sempre de caráter fortemente 
nacionalista, xenófobo e machista, alimentam-se de um sentimento generalizado quanto ao 
fracasso da democracia representativa, a qual tem se mostrado, cada dia mais, incapaz de 
garantir as mudanças estruturais que reclamam uma vida justa e digna para todas e todos.

Uma das razões pelas quais naufraga o sistema do sufrágio universal, dentro do mecanismo 
democrático liberal burguês, encontra-se na rendição da socialdemocracia à lógica de 
governo liberal. Além dos exemplos de governos progressistas na América Latina ao longo da 
primeira década dos anos 2000, o mais recente caso do Partido Socialista em Portugal 
demonstra que, na ânsia de fazer governo e sustentar um pacto de classes, a esquerda que 
vai às urnas assume o mantra neoliberal e apresenta crescimento econômico a partir da 
piora nas condições de vida dos setores populares (no caso lusitano, sem tocar na 
estrutura que torna caro o custo com moradia, além da precarização das relações 
trabalhistas e do desmatamento irrestrito).

Ou seja, como um dia afirmaram os zapatistas, as esquerdas no governo não passam de uma 
direita envergonhada.

Outra chave para entendermos a insatisfação geral com a democracia representativa passa 
pela reconfiguração das instituições a partir da predominância do capitalismo financeiro 
sobre outros tipos de capitalismo. Nesse sentido, a atual etapa que vivemos é de 
remodelamento do aparelho de Estado. Não no sentido de minimizá-lo, como juram defender 
teóricos da direita liberal, mas sim no sentido de dispô-lo de uma nova maneira, a fim de 
garantir e expandir as formas de exploração e apropriação da riqueza produzida. Um Estado 
mínimo nos serviços públicos e participação popular, mas máximo nos dispositivos de 
controle sobre os corpos marginalizados e no sufocamento da indignação popular. E é por 
essa linha que os discursos autoritários ganham força, levando não a uma radicalização da 
democracia, mas sim ao seu próprio estrangulamento.

Por outro lado, a piora nas condições de vida se generaliza e incendeia a rebeldia popular 
no hemisfério sul do globo. Na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador, no Haiti e no 
Uruguai, as classes oprimidas tomam as ruas e, com diferentes graus na radicalização das 
ações, manifestam sua raiva contra o resultado das políticas do ajuste neoliberal. Um 
destaque para a luta das e dos equatorianos e chilenos que, na ação direta com forte 
protagonismo indígena (no Equador) e popular, impuseram derrotas às medidas impostas pelos 
seus governos de turno. São exemplos de que é possível vencer as políticas de morte 
impostas pelos de cima; não pelo mecanismo eleitoral representativo, mas somente com o 
povo tomando pelas próprias mãos o seu destino.

Além da solidariedade às lutas que nossos irmãos e irmãs tocam pelo nosso continente, 
construindo as bases para que esses ventos de rebeldia também aconteçam pelo Brasil, 
estendemos a mão ao povo curdo e fazemos denúncia das mais recentes invasões militares 
turcas em seu território. O confederalismo democrático, sistema político econômico que põe 
abaixo a lógica patriarcal dos Estados nação - e o próprio patriarcado, com o protagonismo 
das mulheres curdas tanto nos fronts de batalha quanto na organização social da vida -, 
passa a ser encarado como inimigo tanto por EUA como pela Rússia, recebendo a pecha de 
terrorismo. Terrorismo apenas para a ordem miserável que nos impõe a lógica capitalista, 
mas um sopro de esperança para todas e todos que, verdadeiramente, sonham com um mundo 
menos injusto e desigual.

Há ainda outros casos de levantes populares que agitam o globo e que, neste momento, não 
nos detemos com maior cuidado (como na França, em Hong Kong, etc.). Se é certo que há, por 
um lado, um avanço das políticas de morte impostas pelos de cima, há também o aumento da 
rebeldia dos de baixo. QUANDO SE MOVEM OS DE BAIXO, OS DE CIMA CAEM!

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2019/11/04/pelo-mundo-o-fantasma-de-uma-nova-crise-o-avanco-da-miseria-e-da-rebeldia-popular/


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