(pt) anarkismo.net: Chile: lições que vêm da rebelião popular contra a herança maldita de Pinochet by BrunoL

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Sexta-Feira, 8 de Novembro de 2019 - 08:00:00 CET


Ao escrever estas linhas a rebelião do povo chileno em 2019 completa 15 dias. ---- Ao 
escrever estas linhas a rebelião do povo chileno em 2019 completa 15 dias. O estopim dessa 
vez foi o anúncio do aumento das passagens do metrô, em Santiago do Chile, conhecido como 
Transantiago, de extensão metropolitana. Como diz um dos lemas de quem está em luta, dos 
milhões que enfrentam a sanha repressiva da Fuerza de Carabineros, das tropas do Exército 
e Marinha, "não é por trinta centavos, é por trinta anos". ---- 03 de novembro de 2019, 
Bruno Lima Rocha ---- Ao escrever estas linhas a rebelião do povo chileno em 2019 completa 
15 dias. O estopim dessa vez foi o anúncio do aumento das passagens do metrô, em Santiago 
do Chile, conhecido como Transantiago, de extensão metropolitana. Como diz um dos lemas de 
quem está em luta, dos milhões que enfrentam a sanha repressiva da Fuerza de Carabineros, 
das tropas do Exército e Marinha, "não é por trinta centavos, é por trinta anos".
Logo, tem raízes muito profundas que remontam à transição negociada após ditadura advinda 
do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, derrubando o governo da Unidade Popular 
tendo o médico socialista Salvador Allende à frente. Remonta também à democracia liberal 
pós-Pinochet, onde as bases da vida em sociedade e o modelo de capitalismo seguem os 
mesmos do tirano e seus asseclas, incluindo notórios Chicago Boys, amigos e parceiros do 
triste ministro de Jair Messias, o especulador e ex-sócio do BTG Pactual, Paulo Guedes. 
Infelizmente, o país do cacique Lautaro e da nação Mapuche, das mártires do massacre 
mineiro de 1907 em Santa Maria de Iquique, dos mais de 11000 mortos e desaparecidos em 
ditadura, vive uma dupla mazela como Estado pós-colonial.
As duas mazelas no plano da economia política da dominação chilena
A primeira mazela é comum a toda América Latina e se trata da condição dependente, 
subalterna e periférica. Ao contrário do que arvoram os defensores do neoliberalismo, o 
Chile não é uma economia complexa, segue dependendo das exportações de cobre e sim, está 
muito privatizada. Como todos os nossos países, em maior ou menor escala, vivemos sob o 
domínio interno de elites oligárquicas, arrivistas e entreguistas. Gente medíocre embora 
bem articulada com frações de poderes hegemônicos mundializados, especificamente no 
bastião do imperialismo que nos toca diretamente e que não têm, em geral, um pingo de 
sentido de pertencimento à sua terra e os povos que nela habitam. Neste sentido, o Chile é 
com suas especificidades, mais um exemplo de complexo de vira-lata, entreguismo, gorilismo 
militar e vende-pátrias. Nada de novo no front. Mas, lá o modelo neoliberal se aprofundou.
Essa é a segunda mazela. Toda a rotina é muito cara (pela privatização e falta de amparo 
até na saúde pública), os índices reais de condições de custo de vida são altos e 
praticamente não há rede de proteção social. Não interessa se o país cresce uma média de 
2,5% ao ano se este bolo não é dividido, a expectativa de vida e a noção de "felicidade" 
se dá justo ao contrário. A educação superior é paga (mesmo quando são instituições 
públicas) e não há cobertura universal de saúde. Os salários são rebaixados, as leis do 
direito ao trabalho são frágeis (quebrando o poder do sindicalismo, do tipo "reforma 
trabalhista" e "liberdade econômica" implantadas no Brasil na sua guinada à direita) e 
cerca de 40% da população está concentrada na Capital e região metropolitana. A 
aglomeração metropolitana é comum em nossos países, mas faz com que as redes e fluxos de 
riquezas saiam dos territórios abundando as camadas superiores do poder composto por 
elites empresariais e políticas de tipo associadas ao capital transnacional. A ditadura 
transformou um país industrial e uma zona de serviços, com abundante presença de 
conglomerados transnacionais.
No Chile, assim como no Brasil, o 1% mais rico fica com 25% da renda nacional. Não há 
sociedade moderna que sustente isso. Como é possível uma sociedade ser sadia onde a 
condição normal é o desencanto, somada com a desesperada luta pela sobrevivência, além da 
certeza da maioria, que não terá uma velhice tranquila? É uma sociedade "metamorfoseada" 
como os EUA, com a singela exceção do poderio da Superpotência diante dos diminutos PIB e 
da posição do Chile no Sistema Internacional. Não bastasse a influência de valores 
individualistas como marca de "sucesso" na terra de Violeta Parra, a situação é muito 
direta, sem "hipocrisia". O Estado ainda controla parte da exportação de cobre e esta é 
usada para assegurar a aposentadoria integral sob um sistema público para as forças de 
segurança e militares. Assim, a riqueza nacional garante a repressão antipovo a mando de 
elites civis (e também parcelas do generalato) que são evidentemente antinacionais.
Para as maiorias resta tentar sobreviver com as Administradoras de Fundos de Pensão (as 
famigeradas AFPs), passando de uma educação pública para o "precariado", incluindo muitas 
vezes o endividamento com o ensino superior, após a vida sob um salário mínimo e múltiplos 
empregos chegando até a aposentadoria com menos de um salário mínimo. Neste caso, gastando 
quase tudo com remédios, pesando no orçamento familiar, fazendo com que o país de Victor 
Jara e Miguel Enríquez seja o triste campeão latino-americano em depressão e suicídio de 
idosos.
Democradura e resistência pós-Pinochet
Após quase 30 anos de democracia formal, o Chile ainda vive sob a égide da legislação 
antiterrorista - que deu base ao texto aprovado no Brasil, ainda no governo Dilma - o que, 
na prática, implica em criminalizar a luta social e suas mais variadas formas de protesto. 
E tal como era no início do século XX em nosso Continente, a repressão social não impede a 
luta, mas a agudiza. Um regime "democrático", tutelado pelos Carabineros (polícia militar 
nacional) e aplastrada pelo abismo da desigualdade, não pode pretender muito. Ao contrário 
do que tentam nos passar, há uma cultura de rebeldia no Chile e isso se deve a alguns 
fatores bem relevantes. Creio que passa pelo arraigo dos bairros de "pobladores" - 
equivalente a periferias onde as condições de vida são precárias e a urbanização não 
existe quase - como foco da resistência contra a ditadura e com fortalecimento na década 
de '80. Um marco desse período e que opera como característica da resistência popular se 
encontra no emblemático bairro de La Victoria, e no martírio do padre francês André 
Jarlán, assassinato cometido pelos Carabineros em setembro de 1984 ao reprimir protestos 
contra a tirania militar e neoliberal de Pinochet.
Esta década marcou também o retorno do movimento secundarista, que nunca cessou, criando 
as condições de luta da Rebelião dos Pinguins (abril a junho de 2006, no primeiro governo 
Bachelet); tal como a segunda rebelião estudantil (abril a dezembro de 2011, primeiro 
governo Piñera).
Os Carabineros, além de odiados nas periferias e centros estudantis, também têm a 
tenebrosa função de conter a paixão popular, visto o engajamento das maiores torcidas 
organizadas de futebol do Chile na luta popular. Garra Blanca do Colo Colo; Los de Abajo 
da Universidade do Chile e Los Cruzados da Universidade Católica estão alinhados nas 
marchas de protesto em Santiago, chegando a colocar contingentes de mais de 10.000 
torcedores contra a repressão e por direitos sociais.
Outra frente de luta, irredutível e com incrível capacidade de se nacionalizar, ganhando 
adesão na capital e em todas as dezesseis regiões administrativas do Chile, é a luta 
Mapuche. A nação que defende o território da Araucanía (ampliada) inunda a sensação de 
defesa anti-colonial, em luta por descolonizar consciência e defesa absoluta dos biomas. O 
conselho de caciques desta nação anunciou logo no início da rebelião de 2019 que aceitaria 
entrar em um processo constituinte (a Constituição do Chile data de setembro-outubro de 
1980), já que o texto da tirania mal foi transformado na reforma de 2005. Os territórios 
de todos os povos originários do país, passa pelo mesmo drama de outros povos indígenas, 
quilombolas e tradicionais, sendo atacados por empresas de mineração, de 
"reflorestamento", especulação imobiliária e hoteleira além de intentos de destruição de 
suas condições mais concretas de reprodução da vida conforme suas bases culturais. O país 
de Raúl Pellegrin teve idiomas indígenas fortíssimos e ainda tem profundas raízes 
originárias. Diante da escassez de possibilidades dentro da distopia capitalista, 
reforça-se a ideia de defender o território e seus biomas como forma de vida e sobrevivência.
Para Mapuches, nações indígenas e a imensa maioria dos mais de 18 milhões de chilenos não 
há boas perspectivas fora da luta coletiva e popular. Não há como governar sem o mínimo de 
condições materiais imediatas e expectativas de futuro. E isso, o neoliberalismo não sabe 
e não quer assegurar.

Traidores, pinochetistas e insurgentes
Muito do que hoje ocorre está para além das políticas antissociais dos governos Piñera 
(2010-2014 e atual), que se encaminha para o caos, e que intercalou dois mandatos com 
Michelle Bachelet (2006-2010 e 2014-2018). Tal como Macri (presidente desde 2015), na 
Argentina, Piñera não prometeu nada diferente do que está fazendo. Era evidente que a vida 
se tornaria mais difícil, com maior nível repressivo e desespero societário. O problema 
não é só a direita sendo a direita, mas os governos social-democratas e social-liberais 
que nada ou quase nada fizeram. Patricio Aylwin (1990-1994, PDC), Eduardo Frei (1994-2000, 
PDC), Ricardo Lagos (2000-2006, PPD) e Michele Bachelet (2006-2010) todos membros da 
Concertación (coalizão liderada pela Democracia-Cristã do PDC e Socialistas do PS, 
secundada por |"democratas e liberais"). Governaram por vinte anos não tocando nas 
estruturas de Estado deixadas como legado da herança maldita da ditadura de Augusto 
Pinochet (1973-1990). A tirania governou ao lado a DINA (polícia política que também 
operou no narcotráfico) e seus sócios Chicago Boys, da economia neoclássica de Milton 
Friedman cuja versão brasileira é o Ministro da Economia da extrema-direita que chegou ao 
poder através do clã Bolsonaro e do generalato. A "democradura" seguiu reprimindo sem dó, 
dando carta branca aos Carabineros, militarizando os territórios indígenas, tendo 
desaparecidos, presos políticos e muita, muita concentração de renda.
Na defesa da herança de Pinochet em 1983, liderados por facínoras como Jaime Guzmán (um 
dos autores da Constituição de Pinochet, senador e professor de diireito da Católica, 
justiçado por um comando rodriguizta em abril de 1991) e Andrés Chadwick (primo de Piñera 
e o ministro do Interior que autorizou o massacre deste ano, antes de ser derrubado), 
sociopatas conservadores criaram a União Democrática Independente (UDI), sendo este o 
partido pinochetista por excelência. Como herdeiro do partido golpista por excelência, o 
antigo Partido Nacional, foi criada em 1987 a Renovação Nacional (RN), legenda de 
Sebastián Piñera. Ressalto que ambos partidos convocaram o Sí para Pinochet, no plebiscito 
de outubro de 1988, quando o No a Pinochet ganhou por 55,99% a 44,01%. Logo, ao afirmar a 
transição tutelada, as forças políticas aceitaram a convivência pacífica com os apoiadores 
civis de genocidas, torturadores e violadores.
O famigerado golpe de Estado contra o governo constitucional de Salvador Allende 
(1970-1973), à frente da Unidade Popular, assassinou, além de mais de 11.000, também um 
arranjo social que seria minimamente estável, solidário e economicamente regulado. A 
economia chilena, de base cooperativa, com fortes empresas estatais, indústria nacional e 
presença de setores públicos, foi praticamente aniquilada tal e qual os corpos no Estádio 
Nacional. A resposta é muito evidente também. A noção de seguir em rebelião é muito 
galvanizada na juventude chilena de várias gerações. Destacamos o papel fundamental das 
forças insurgentes contra a ditadura, como o Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR 
chileno), a Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR até 1999 que inicia como o braço 
armado do PC Chileno e ganha autonomia na transição) e o Movimento Juvenil Lautaro (MJL ou 
MAPU Lautaro, à esquerda da esquerda cristã do MAPU).
Ainda que sendo colocadas em uma posição isolada a partir da década de '90, deixaram o 
legado da resistência e de não aceitar a "coexistência pacífica" com os sócios de Pinochet 
e Manuel Contreras (este último, coronel à frente da DINA, criminoso de lesa humanidade e 
narcotraficante). O legado das forças insurgentes arraigou na luta estudantil e popular, 
na posição de valentia permanente (chegando a ser uma característica da militância 
chilena). Há uma posição de antemão altiva, rebelde e libertária nesta militância do 
século XXI, cultura política essa oriunda da década de '80 do século XX e que segue cada 
vez mais vigente. O Estado e suas oligarquias dobram a aposta e o povo repele a investida.
Do golpe de Estado ao pós-Estado de Exceção
O golpe de 1973 deixou marcas profundas, estruturas societárias cruéis e feridas muito 
longe de serem sanadas. É preciso estudar e aprender com e a partir dos processos 
históricos. Apesar do heroísmo do médico presidente, era óbvio que nem o Departamento de 
Estado (aliado dos militares entreguistas, chamados de "vende patria", em espanhol) e 
menos ainda a oligarquia chilena iriam permitir uma "transição pacífica" para o 
socialismo. Ao contrário, promoveram o Terrorismo de Estado e tais instituições continuam 
perpetuando a repressão social generalizada, marcada no Estado de Exceção de Piñera (durou 
de 19 a 28 de outubro de 2019) e o Toque de Recolher dando aval para os Carabineros 
barbarizarem as periferias.
Diante deste desenho societário e da impotência dos governos de turno (independente se 
mais à direita ou menos à esquerda), a cada geração de jovens chilenos fica evidente que o 
modelo não mudaria por "boa vontade" dos controladores das riquezas do país e seus patrões 
externos. Some-se a revolta social com o racismo anti-indígena atravessado pelo consumo 
frustrado e a memória histórica do pinochetismo, sempre viva diante da carestia e do 
desespero para fechar as contas do mês para as famílias de baixa renda.
Podemos comparar o momento do Chile atual com outros episódios latino-americanos sob 
democracia oligárquica. Penso no Caracazo venezuelano e no Estallido social argentino com 
a hiperinflação, do fim do Plano Austral. No Chile, além da explosão popular, também há 
incidência dos movimentos sociais organizados e as esquerdas mais à esquerda dentro e fora 
do espectro eleitoral. Caberia aprender das capacidades organizativas do povo em luta e 
buscar instituições sociais permanentes, como assembleias territoriais e frentes de luta 
entre distintos setores.
Há muita expectativa na conquista de uma nova Assembleia Constituinte dotada de uma rede 
de proteção social pública e gratuita. Evidente que tal medida seria um avanço 
considerável, mas toda a energia pode resultar em ilusões institucionais se uma absurda 
legislação repressiva e privatista não for eliminada imediatamente. Caso isso ocorra, 
acompanhada de medidas emergenciais para melhoria das condições materiais de vida e a 
vitória pontual pode ganhar outro vulto. Por todo e qualquer ângulo que se observe a luta 
chilena, trata-se de uma lição histórica. Tanto pela capacidade de resposta do povo em 
luta como da amoralidade do aparelho de Estado pós-colonial na sanha repressiva, gerando 
dezenas de mortos, pessoas que ficaram cegas por levarem tiros "não letais", isso sem 
falar de mulheres violadas e desaparecidas.
As jornadas de outubro de 2019 na terra de Paylacar e das Guerras de Arauco têm e terá 
efeitos em toda a América Latina.

Bruno Lima Rocha é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência 
política e professor nos cursos de relações internacionais, direito e jornalismo. 
Contatos: blimarocha  gmail.com (para email e Facebook); t.me/estrategiaeanalise (grupo no 
Telegram) e estrategiaeanaliseblog.com.

https://www.anarkismo.net/article/31635


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