(pt) federacao anarquista gaucha: Luta popular na região norte do RS - faguista

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Terça-Feira, 19 de Março de 2019 - 09:29:11 CET


Comunidade da retomada de Passo Fundo faz dança tradicional (2018) | Foto: Bibiana Canofre 
(Sul 21) ---- O norte do RS tem longa história de luta e resistência popular. Desde a 
chegada do primeiro invasor o conflito está aberto e ainda não está decidido, mesmo que 
queiram dizer o contrário. ---- Bugres da Norte, 19/02/2019 ---- A resistência Guarani e 
Kaingang, na nossa região, tem o mesmo tempo da colonização portuguesa e espanhola. Os 
Kaingangs, povo indígena mais populoso na atualidade na região sul do país, conseguiram 
resistir ao extermínio usando de uma determinação de povo em luta permanente e que teve de 
se estruturar para a guerra em defesa de suas terras. Não aceitaram pacificamente a 
invasão de seu território, nem baixaram a cabeça para o governo e interesses do fóg . 
Inúmeros casos de luta em defesa das matas de araucária, seu habitat ancestral, estão 
registrados por aqui a sangue e fogo, desde o planalto médio até as barrancas do rio Uruguai.

Também temos orgulho da presença de remanescentes de quilombolas na região de Passo Fundo, 
organizados em pelo menos duas comunidades reconhecidas. Mas também existem aos milhares 
de outros espalhados nas comunidades pobres das diversas cidades e municípios da região 
norte do RS. Povo negro que lutou por liberdade e se estabeleceu aqui à contragosto da 
historiografia eurocêntrica tão divulgada pelos de cima. A luta contra a invisibilização 
histórica talvez seja tão grande quanto a luta contra o genocídio e a necropolítica 
perpetrados pelo Estado e pelas elites brancas, pois todos os artifícios se complementam e 
fazem parte do mesmo acionar racista de eliminação dos corpos e da cultura do povo negro.

Por aqui também foram trazidos, ao longo do século XIX e início do século XX, com 
promessas de vida melhor, imigrantes pobres de várias etnias europeias, fugidos da fome, 
da guerra e da miséria promovidas pelos ricos e pelos governos em seus países de origem. 
Quase mortos de fome, chegaram por aqui os imigrantes italianos, alemães, poloneses, 
russos, ucranianos, etc. O governo repartiu e vendeu a eles pequenas áreas de terras, 
emprestou algumas ferramentas e deixou-os à míngua. A sobrevivência no campo, sem ser 
lacaio de políticos e poderosos, sempre é um obstáculo, só a vida comunitária e o apoio 
mútuo entre vizinhos pôde garantir a sobrevivência no campo à parte desses imigrantes. E 
são nesses sonhos de vida comunitária entre os imigrantes pobres do início do século XX 
que encontramos a história da comunidade de Ilias Iltheco, em Erebango (na época ainda 
Erechim). Junto a outros imigrantes ucranianos e nutridos pelo mesmo ideal insurrecionário 
de Nestor Makhno, tentou-se erguer uma comunidade de trabalhadores livres, além de novas 
experiências sindicais entre trabalhadores rurais.

A ideologia classista e libertária que motivou essa construção coletiva dos anarquistas 
ucranianos também animou outro momento importante da nossa história: a greve geral de 
1917. A partir da militância da FORGS (Federação Operária do Rio Grande do Sul), chegada à 
região pelos trabalhadores ferroviários, houve inclusive confrontos de rua em Passo Fundo. 
Grevistas, trabalhadores urbanos, que reivindicavam 8 horas de descanso, 8 horas de lazer 
e 8 horas de trabalho, além de melhores condições de vida, pelearam contra a Brigada 
Militar, que tratou de honrar ao latifúndio e à classe dominante, que desejava deixar tudo 
como estava.

Esse caldeirão de povos oprimidos, postos muitas vezes em conflito por interesse de 
governos na região, tornou-se várias bombas relógio que explodiram ao longo século XX. 
Feridas que perduram até o momento, lembremos de Kandoia, em 2014.

A luta pela terra foi se tornando mais e mais decisiva na região com o passar do tempo. A 
chegada do modelo do agronegócio nos anos 1950 acelerou brutalmente esse processo, de 
desterramento do indígena, do negro, do imigrante pobre e de todos os descendentes dos de 
baixo que já começavam a ter múltiplos sangues e cores. No final dos anos 1960, a 
população indígena, enganada por governos e vendo seus territórios ancestrais ser dividido 
entre madeireiras vendidas para imigrantes, passou a reagir e, em meio à ditadura civil 
militar (1964-1985), começou a reorganizar desintrusões de suas áreas invadidas. A 
retomada da terra indígena de Nonoai passa a ser um dos marcos mais importante da historia 
recente da região. Essa retomada, além de motivar todo o povo Kaingang a pressionar o 
governo por suas terras, também tem o efeito de, ao lado dos camponeses pobres, sem 
terras, provocar uma reorganização nacional que não se via desde o tempos das Ligas dos 
Camponeses. Nos anos 1970, logo após Nonoai, surgem a Encruzilhada Natalino, 
enfrentamentos com o latifúndio e o governo da ditadura, e as ocupações das Fazendas 
Macali, Brilhante e Fazenda Annoni (que darão origem ao MST). Ressurge em Ronda Alta, 
portanto, a luta organizada por reforma agraria no país.

Retomada Kaingang Nonoai

Com esse impulso, surgem pela região, no final dos anos 1980, movimentos de pequenos 
agricultores, atingidos por barragens, mulheres do campo, que, além de muitas pautas dos 
trabalhadores e trabalhadoras do campo organizados junto à Via Campesina, também abraçam 
pautas da soberania popular, como o enfrentamento e rechaço a proposta da ALCA e às 
imposições do FMI. Desde a reabertura política, surge também o sindicalismo novo, que, 
muito atrelado ao Estado, acaba por afundar-se junto ao governo petista dos anos 2000. Mas 
que também manteve oposições combativas radicadas principalmente na cidade de Passo Fundo, 
que ainda hoje tentam a retomada do sindicalismo classista por essas bandas.

Importante fazer menção ao processo recente da metade da década dos anos 2000, da luta por 
moradia em Passo Fundo. Impulsionada pelos companheiros da tendência libertária 
Resistência Popular, 200 famílias ocuparam a área abandonada pela Companhia Riograndense 
de Saneamento, em busca de moradia justa no Bairro Zachia. Uma das maiores e, sem dúvidas, 
o mais importante processo de luta e organização autônoma por moradia na região. A área 
segue em disputa e foi o estopim para várias outras ocupações que proliferaram naquela 
periferia de Passo Fundo. Povo pobre, negro, e sem teto segue mobilizado em defesa do 
direito a moradia. Hoje existem em Passo Fundo cerca de 50 ocupações de trabalhadores 
sem-teto.

De 2013 pra cá, diversas lutas urbanas por transporte e por educação agitaram as 
principais cidades da região: a juventude pobre, estudantes e trabalhadores precarizados 
seguem enfrentando as elites locais. A estes tem se somado um contingente de novos 
imigrantes: haitianos, senegaleses e de outras origens., que também seguem vindo para 
nossa região em busca de trabalho e com sonhos de vida melhor, fugindo de guerras e da 
pobreza, e todos estes são muito bem vindos no lado de cá da luta de classes.

Região Norte do RS, a última fronteira agrícola semi aberta sobre corpos de indígenas e de 
bugres guerreiros, é onde nos cabe viver e atuar, sempre por dentro da luta popular, junto 
a trabalhadores do campo e da cidade, povo negro, mulherada em luta, estudantes pobres, 
povos originário. Contra os de cima, avançam os que lutam!

Acampamento MST Encruzilhada Natalino/Ronda Alta.

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2019/03/12/luta-popular-na-regiao-norte-do-rs/


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