(pt) Organização Anarquista Terra e Liberdade: Uma análise sobre o Liberalismo no Anarquismo por D0dds

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Quarta-Feira, 31 de Julho de 2019 - 06:56:44 CEST


A Organização Anarquista Terra e Liberdade, fundada no dia 13 de Dezembro de 2011, nasce 
do movimento popular do Rio de Janeiro com uma linha estratégica e uma história que 
traçava caminhos bem claros: Construir uma organização anarquista, com unidade teórica e 
prática, responsabilidade coletiva, e que atuasse como uma minoria ativa nos movimentos 
sociais, com foco principal de atuação nas favelas e ocupações, por acreditar no 
protagonismo destes lugares e pessoas na construção do poder popular. ---- Com o levante 
popular de 2013, o fascínio exercido pelo anarquismo e a divulgação que a OATL alcançou, 
provocou o crescimento da organização com um aumento muito grande do número de membros, 
mas esse processo unificou pessoas em torno de um falso consenso, sem ter uma verdadeira 
unidade teórica e prática, o que foi solo para o desenvolvimento do idealismo e do 
individualismo em meio à organização. O resultado disso foram debates cansativos e um 
cisma que seguiu com o desligamento de militantes.

Esta nova conjuntura, após 7 anos da nossa fundação e de muitas batalhas travadas, nos 
coloca necessidades e desafios que precisam ser encarados com muita seriedade e maturidade 
política, superando erros, traçando linhas estratégicas muito bem pensadas, fortalecendo a 
unidade teórica e prática do grupo, efetuando uma luta madura e radical contra as 
opressões, consolidando a existência da organização política e suas diferenças em relação 
aos movimentos sociais (com sua forma e dinâmica interna) criando formas de segurança e 
atuação que nos aproxime do nosso objetivo, que é a construção do poder popular.

A partir dessa necessidade de superação de erros e de fortalecimento da unidade teórica a 
OATL expõe hoje a sua análise sobre o liberalismo no anarquismo.

1- Uma análise sobre o liberalismo no anarquismo

Uma das frases mais consistentes e impactantes da Plataforma Organizacional dos Comunistas 
Libertários, escrita em 1926 por anarquistas russos e ucranianos que se encontravam no 
exílio após o golpe de Estado bolchevique na Ucrânia (que chegou a ser uma república 
autogerida e libertária no início da Revolução de Outubro), com certeza é essa:

"É muito significante o fato de que, apesar da força e o caráter incontestavelmente 
positivo das ideias libertárias, (..) o movimento anarquista permanece fraco a despeito de 
tudo".

Já neste texto, os anarquistas e camponeses russos e ucranianos, que fizeram a revolução 
de 1917 e derrotaram o exército branco, apontam que alguns fatores responsáveis pela 
inexpressividade política do anarquismo e a incapacidade de suas ideias guiarem o processo 
revolucionário estão numa leitura desastrosa de alguns conceitos imprescindíveis ao 
anarquismo como a ideia de liberdade:

No entanto, sem sombra de dúvidas, essa desorganização se origina de alguns defeitos de 
teoria, notavelmente de uma falsa interpretação do princípio de individualidade no 
anarquismo. Esta teoria freqüentemente é confundida com a total falta de responsabilidade, 
os amantes da asserção ‘eu', com o interesse voltado unicamente para o prazer particular, 
agarram-se obstinadamente ao estado caótico do movimento anarquista e citam em sua defesa 
os princípios imutáveis do anarquismo e seus professores.

Mas os princípios imutáveis e os professores têm mostrado exatamente o contrário. 
Dispersão e quebra de unidade são arruinantes: uma união bem suturada é um sinal de vida e 
desenvolvimento. Esta negligência de luta social aplica-se tanto às classes quanto às 
organizações.

Eles sentiram na pele os efeitos dessa desorganização, o desastre provocado pela linha 
liberal-individualista. Ficaram isolados nas aldeias ucranianas, de armas em punho, 
enquanto os "libertários" fugiam da revolução, os intelectuais "libertários" fugiam da 
fome e da guerra civil, os autoproclamados "verdadeiros anarquistas" escreviam textos no 
exílio os acusando de "bolcheviques", "anarco-bolcheviques", "autoritários", "centralistas".

Os membros da coluna Durruti, na Guerra Civil espanhola (1936-39), receberam os mesmos 
adjetivos. Curioso, e nada estranho, é o fato de serem estas as experiências mais fortes e 
concretas do anarquismo, onde os princípios da autogestão, do fim do capitalismo pela 
coletivização dos meios de produção sob autogoverno dos trabalhadores, do federalismo, 
democracia direta, anti-estatismo, ação direta, participação de minorias, valorização da 
diferença, se realizaram na sociedade e mobilizaram milhões de pessoas. O que os seus 
críticos fizeram? Quantas pessoas as suas ideias mobilizaram? A quantos corações chegaram? 
Em que proporção ameaçaram o poder dominante? Essas são perguntas bem atuais. Em tempos de 
pós-modernismo e militância em rede social (as novas expressões do liberalismo) é fácil 
perceber que estes são os seus seguidores e como conseguem tornar ou manter o anarquismo 
como algo inexpressivo, frágil, expressão estética de pequenos grupos de amigos, meros 
barulhos de facebook contra uns e outros, além do êxtase com novas "tiradas" teóricas.

Aparelhados com novas armas de discurso nascidas na década de 60, que veremos abaixo, não 
deixaram, entretanto, de usar os mesmos argumentos contra todas as formas de militância 
organizada, comprometida, séria, dedicada a fomentar os princípios libertários na 
sociedade e nos movimentos sociais e tirá-lo do desconhecimento e insignificância 
política. Para estes, como para os críticos dos camponeses anarquistas, todos são 
autoritários, centralistas, anarco-bolcheviques, marxistas enrustidos, personalistas, 
heróis, etc. E quais são os elementos da prática destes que eles acusam? De forma bem 
minuciosa, no que tange ao caráter organizativo e de ação, podemos apontar: a exigência e 
valor que atribuem à disciplina e responsabilidade, ao planejamento e metodologia, 
compromisso com o horário nas atividades, cumprimento de tarefas, participação em 
atividades do grupo, dedicação ao coletivo, autoiniciativa, responsabilidade nas ações, 
organização coletiva, respeito às decisões coletivas de um grupo, defesa de programas e 
linhas táticas e estratégias, formação teórica, identidade ideológica, etc. Tudo isso, 
para esse agrupamento de pessoas, é "careta", "moralista", "autoritário", "marxista", 
"machista", "racista", "eurocêntrico", "heteronormativo", "velho", "ultrapassado".

O discurso destes militantes, verdade, é bonito, cheio de emoção e parte de questões muito 
importantes. Aliás, a crítica à razão e ao "ocidente", um debate filosófico e político 
extremamente sério, é constantemente banalizado e fetichizado. Suas ações são marcadas 
pelo sentimentalismo, por uma excessiva emotividade, e pelo choro final. Uma militância 
orientada por esses "valores" circula entre o entusiasmo eufórico e a tristeza derrotista, 
o pessimismo sentimental, o abandono da luta. A fragilidade é a marca dessa militância. 
Sob o sentimentalismo, quando estão no topo, com euforia, são incapazes de avaliar com 
calma a realidade, as condições objetivas, as forças e passos do inimigo, entregando-se a 
ele facilmente. Tudo é "na emoção", na "espontaneidade", "sem metodologia, regras e 
controle", afinal, idealizam o conceito de liberdade, acreditam-se livres, indivíduos 
autônomos que não aceitam "controle de ninguém". O voluntarismo é outra marca de suas 
ações, pois a base do voluntarismo são dois de seus personagens fundamentais: o indivíduo 
e a espontaneidade. O voluntarista age por conta própria, seguindo decisões de seu eu, e a 
partir de uma determinada situação. Ele age por um impulso, guiado pela sua emoção, e 
quase sempre gera grandes prejuízos ao movimento.

São individualistas. Na arte, alguns poemas e canções lindas foram escritas valorizando o 
impulso, o sentimento, a liberdade irrestrita, a dor, a tristeza, a espontaneidade, o 
prazer, mas na política, e sendo a política uma guerra de posições, conflito, luta, 
dureza, isso só pode levar a um nada. E o nada marca a militância da maior parte dessa 
tendência. Que força possuem para enfrentar os partidos burocratas, o Estado, e todos os 
seus inimigos? Quantos prédios e terras ocuparam? Quantas creches construíram? Quantas 
organizações com produção autogerida criaram? Quantas ações coletivas de ampla proporção 
moveram contra as diversas formas de opressão? Quando fazem algo este algo logo acaba, 
racha, se destrói. Por quê? Porque não acreditam numa perspectiva coletiva, não tem um 
projeto de mundo comum, não constroem caminhos para alcançá-lo, negam toda a formação 
clássica da esquerda, vivem e se importam apenas com o agora, o presente e os sentimentos 
deste presente. Daí a grande impermanência que marca essa militância. Não sabem lidar com 
divergências e erros. Colocam a vontade individual acima do que foi construído e do que 
precisa ser construído. São liberais, pós-modernos, e é preciso entender porque podem ser 
chamados assim e porque levam organizações à ruína.

2 - O pós-modernismo como tendência liberal no anarquismo.

A palavra "no", presente no título deste capítulo, constitui uma tese. Queremos debater o 
fenômeno do pós-modernismo, sua teoria e prática, como uma tendência atual NO anarquismo e 
não DO anarquismo. Compreender isso é fundamental, pois a luta pelo conceito de anarquismo 
como uma experiência radicalmente coletiva, da classe trabalhadora e de todos os grupos 
oprimidos em luta pela emancipação, é antiga. Já no tempo de Bakunin, Makhno, Louise 
Michel, da plataforma, a luta contra as interpretações liberais e idealistas do anarquismo 
era um ponto importante, e o que vemos hoje é a intensificação deste confronto com velhos 
e novos elementos. Destacar esse conflito é uma necessidade, pois, devido aos esteriótipos 
lançados sobre o anarquismo pelos partidos marxistas, muitas vezes esta concepção liberal 
e idealista torna-se a imagem pública de uma filosofia política que para nós, e milhares 
de anarquistas, possui sentido oposto. Desta forma, destacamos o que consideramos como as 
duas bases filosóficas principais desta tendência: o liberalismo e o idealismo.

2.1 - O liberalismo

O ponto central da filosofia política liberal é o indivíduo como centro do mundo e o 
livre-mercado como este mundo. Nesta visão, nascida com a burguesia, o indivíduo deve ser 
o início, o meio e o fim "de todas as coisas", realizando-se com perfeição numa sociedade 
estruturada pelo capital, com livre-concorrência, propriedade privada, circulação de 
mercadorias, exploração do trabalho assalariado e movimentação de mercados mediados pelo 
dinheiro. A razão e a forma racional de organização social para os liberais, o Estado, 
seriam referenciadas neste novo personagem histórico, jamais visto antes, o "indivíduo". A 
propriedade privada é a forma da razão, assim se expressou o filósofo liberal Jhon Locke. 
Trazendo este debate para os dias atuais e para o meio anarquista, o liberalismo se 
expressa na defesa da liberdade individual como negação de toda forma de organização 
coletiva ou de toda forma de organização política que retire a "independência" do 
indivíduo autônomo ou o seu protagonismo. Quer dizer, ele define como autoritária, 
marxista, bolchevique, leninista, toda forma de decisão e ação que não garante ao 
indivíduo a possibilidade de decidir e fazer sozinho. Nos termos militantes, qualquer 
forma de centralização, mesmo sendo de base, com a participação deste, sem qualquer 
hierarquia ou decisão tomada de cima, como nos moldes do "centralismo democrático" 
defendido por Lenin ou na forma do "conselho geral" defendido por Marx na I Internacional 
- um dos motivos da cisão com os anarquistas coletivistas - é repudiada por estes 
anarquistas. A decisão, em última instância, dizem, cabe à individualidade, ainda que esta 
se oponha à decisão tomada por seu grupo e que contou com a sua participação. O 
individualismo é a característica central do liberalismo no anarquismo.

2.3 - O idealismo

Um dos princípios em comum entre marxistas e anarquistas, na I internacional, era a defesa 
do materialismo contra as tendências idealistas. Na prática, o que isso representava? 
Trata-se da contestação de uma visão filosófica que resultava em diversas práticas 
voluntaristas, espontaneístas, que destruíam o movimento social. A base desta compreensão 
era o lugar que atribuíam à vontade e à ideia. Os idealistas acreditavam que a ideia 
determinava o real, que o mundo era a sua representação e vontade. Esta perspectiva levou 
e ainda leva o movimento à ruína, pois ele retira da ação uma avaliação concreta, 
detalhada, apurada, das condições objetivas do real. Basta, para o idealista, o seu 
universo subjetivo, o que considera certo, justo, necessário. São as suas vontades e 
ideias que determinam e movem, exclusivamente, a sua ação. Desse modo, se ele acredita, 
por exemplo, ser justo deflagar uma greve, ele votará por isso sem considerar qualquer 
critério objetivo para o seu êxito. Se julgar importante realizar uma ação direta 
específica, ele fará, ainda que esta coloque o movimento, em determinado momento, contra a 
sua posição, ainda que esta prejudique todo um movimento de resistência.

2.4 - O pós-modernismo

Quais são os pontos e argumentos principais do atual discurso e prática que identificamos 
como pós-moderna?

1) Ruptura com a história. Negação das formas de organização e de pensadores do século XIX 
e início do século XX. Todos são tratados, ainda que não explicitamente, como 
ultrapassados, superados, etc. A frase emblemática - "Temos que construir a nossa teoria" 
- parece muito interessante, mas ela carrega consigo uma prática desastrosa. Rompe o fio 
do tempo, o elo entre as gerações e, com profunda arrogância, desconsidera o que outras 
pessoas pensaram e fizeram. Desconsidera, inclusive, que o aprendizado é contínuo e se 
desenvolve no tempo.

2) A interpretação dos debates entorno da "micropolítica", das esferas políticas do 
cotidiano, como superação destas formas organizacionais consideradas ultrapassadas, 
conservadoras e autoritárias (o que é um binarismo e uma oposição extremamente 
reacionária). No lugar ocupado antes pelas organizações políticas, ela coloca os círculos 
afetivos por afinidade, os pequenos grupos de convívio íntimo, onde as pessoas relatam 
suas vivências. Internamente, colocam acima de todas as discussões o debate sobre o 
"comportamento", sobre as práticas íntimas dos militantes, fazendo do coletivo e das suas 
instâncias máximas um espaço, exclusivamente, de discussão sobre a subjetividade de cada 
militante, sobre suas práticas cotidianas, deslocando-as de outras esferas e lutas e sem 
pensar uma metodologia coletiva para resolver os conflitos. Caem, assim, sempre nos 
grupelhos, em pequenos grupos de vanguarda, inexpressivos na vida política.

3) A tese principal, que sustenta o grupo de afinidade, é de que "o pessoal é político". 
Cortam uma frase famosa de Malatesta - "Antes de pensar em estabelecer a anarquia no 
mundo, devem pensar em tornar-se capazes de viver como anarquistas" - e transformam isso 
num lema para tornar os debates entorno do cotidiano dos militantes como os temas 
principais ou únicos de um grupo. Esquecem, entretanto, que assim como "o pessoal é 
político", "o político não é pessoal". Dessa forma, caem novamente no individualismo 
liberal onde o indivíduo decide e faz o que quiser. Esquecem que as contradições 
atravessam todas as pessoas e que estes debates, portanto, devem partir de casos concretos 
para atuarem como fortalecimento da pessoa realmente agredida e de aprendizado coletivo, 
de política coletiva para o próprio grupo e para os movimentos sociais, contra o machismo, 
o racismo, a homofobia, a transfobia, lesbofobia, e todas as outras formas de opressão e 
dominação.

4) "A vítima decide" é um lema perfeito desta política liberal onde o poder está no 
indivíduo. Baseada nela, questiona-se a necessidade de um grupo. Pra que existir um 
coletivo onde o indivíduo que decide, no fim? Ah, claro, para dar apoio emocional ao 
indivíduo, ao nosso amigue, pois este é o sentido real de um grupo de afinidade. Ainda: 
cria-se um sistema de justiça onde a verdade é revelada para além de um discussão, um 
debate, e sem a necessidade do acusado falar e de se averiguar os fatos. Em profunda 
contradição com seus teóricos pós-estruturalistas, acreditam numa verdade que está ligada 
a determinado sujeito a priori. O efeito disso é a conveniência, o oportunismo e a 
injustiça. Como estamos num grupo de afinidades, os casos aparecem e são tratadas quando 
são convenientes, quando interessam a determinadas pessoas deste círculo de amigos com 
convívio íntimo. Cria-se um sistema de justiça mais autoritário e reacionário que o 
próprio direito burguês, pois regressamos à política de vingança pessoal, de verdade 
ligada a determinadas pessoas - "se o rei disse, aconteceu", e de negação do direito de 
fala do acusado.

5) Não acreditam numa revolução social, numa esfera "macro-política" que alcançaria 
estruturas e totalidades de uma sociedade. Consideram esta proposta como algo 
"messiânico", "religioso", "teológico". Acreditam, somente, em "micro-revoluções", 
"revoluções moleculares", transformações no cotidiano do indivíduo e a partir de pequenas 
coletividades.

6) Na coletividade pós-moderna não há estratégia, programa, política coletiva, análise de 
conjuntura, pautas sociais, mas apenas o que consideram como "apoio mútuo" entre xs 
membrxs presentxs. Mesmo os coletivos que não se definem como grupos de afinidades passam 
a ser como tais pois movem todas as suas reuniões, discussões, ações, para a resolução de 
conflitos e para o apoio emocional de umx membrx específicx (não se delibera, nunca, uma 
política geral para um determinado ponto e questão, que alcance todas as pessoas do grupo 
e dos movimentos sociais, mas apenas uma política individual). Esta lógica, ainda que seja 
sustentada por uma teoria de negação da família como organização social, acaba tornando um 
espaço que deveria ser diverso em número de pessoas, bairros, profissões, num círculo 
quase "familiar", uma outra família, espaço de amizade, pois o que une essas pessoas é o 
apoio emocional ao indivíduo. Vale destacar, aqui, que políticas coletivas de apoio mútuo 
são descartadas por estes, já que escapam do plano íntimo e da pessoa próxima, conhecida. 
A política pós-moderna é uma política pessoalizada. Só participa dela quem participa do 
convívio pessoal.

7) A centralidade do indivíduo e a ilusão da liberdade individual. Esta se mostra quando o 
modelo de centralização coletiva das decisões - unidade tática e responsabilidade 
coletiva, como as definem a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários - é 
tratado como autoritário, burocrático, "bolchevique". Este confronto acompanha o 
nascimento do anarquismo e foi debatido por muitos autores em diversos momentos 
históricos. Segundo traço dessa centralidade: cabe ao indivíduo, independente do coletivo, 
a decisão em última instância.

8) O vanguardismo. Tratando todos e tudo - fora eles - como conservadores e sustentados em 
suas práticas por uma filosofia política (liberal e idealista) que garante ao indivíduo o 
poder exclusivo de ação e à vontade "irracional" o direito legítimo e positivo da ação 
(resultando, como vimos, no voluntarismo e no espontaneísmo), desprezam o diálogo, o 
debate, a conversa, o princípio da comunicação. Como a maior parte das vanguardas 
artísticas, desprezam o outro, o leitor, preocupando-se exclusivamente com sua ação, a sua 
mensagem e vontade. Agem impulsivamente, transformam a palavra de ordem "rebelar-se é 
justo" e o lema "não confunda a violência do opressor com a reação do oprimido" num dogma 
simplista e inquestionável que visa protegê-los da crítica. Sendo justa e boa qualquer 
ação do oprimido, independente do contexto, não aceitam dialogar sobre suas práticas, 
fazem ações diretas sem relação com o momento e com as pessoas de uma coletividade. 
Consequentemente, caem num isolamento completo da "massa" reacionária e opressora, 
culpabilizando-a.

9) A representatividade do capital. Desde 2013, sobretudo, considerando o campo da 
militância política, algumas discussões tem se destacado, entre elas o tema da 
representatividade e do centralismo. Desde sempre, na esquerda, algumas figuras 
hegemônicas na sociedade exerceram o protagonismo, o lugar maior de visibilidade, fala e 
expressão. Homens, brancos, europeus, héteros, cis e, em determinado local e tempo 
histórico, membros da classe média e intelectuais, apareceram muito mais como os grandes 
lutadores, pensadores, militantes. Eram mais ouvidos, lidos, e um dos motivos era a série 
de privilégios que possuíam. A crítica, na década de 60, à ideia da representatividade - 
que expandiu os limites da eleição e atingiu a ideia da verdade e o nível do discurso - 
saiu dos muros da academia e chegou aos movimentos. No anarquismo e meios libertários, 
questionou-se o protagonismo destas figuras, apareceu em questão o lugar de fala e a série 
de privilégios existentes nos meios de esquerda. Fora desse campo ou às vezes dentro dele, 
fortaleceu-se, por outro lado, passivamente e de modo acrítico, a distância com o discurso 
de classe e passou-se a exaltar mudanças dentro do sistema (ao invés de rupturas) que são 
cooptadas ou feitas pelo mercado. Essa via fortaleceu a perspectiva liberal, pautou as 
questões a partir do indivíduo, do mérito, da conquista individual, e estimulou e 
valorizou figuras de poder e riqueza como príncipes e executivos negros, número de 
mulheres que são gerentes de empresa e donas de ações, etc. Sem uma perspectiva 
anticapitalista, integrada às questões de classe a totalidade de um sistema, levou o 
importante questionamento do sistema de privilégios e protagonismos nos meios de esquerda 
e na sociedade à uma via, exclusivamente, de integração ao sistema do capital. É preciso 
ressaltar! Questionar isso, de modo algum, implica em não apoiar as ações afirmativas, 
políticas específicas para lgbts, mulheres e outros grupos oprimidos. Mudar a cor de uma 
universidade, o número de médicos, é importante sim! Agora isso não pode aparecer numa 
perspectiva capitalista e liberal. Não, as ações afirmativas, ainda que necessárias hoje - 
justamente porque existe capitalismo e racismo -, não vão tornar brancos iguais a negros. 
As oportunidades não serão iguais e, entre os ricos e pobres, a "representatividade" nunca 
será igual. A presença cada vez maior de atrizes e atores negros na televisão, por 
exemplo, é um aspecto positivo sim na questão da valorização da diversidade, da 
auto-estima, da valorização de si, no ponto de vista de quem sofre racismo na pele, mas é 
muito pouco e pode ser muito suja quando guiadas por empresários que buscam apenas 
mercados de consumo com a estética negra. Neste caso, querem manter o lugar de objeto às 
mesmas pessoas.

Como o eixo de teoria dessa tendência é a fragmentação - eles pegaram a crítica aos 
estruturalistas na década de 60 e fizeram o que bem entendiam -, eles afirmaram uma via 
boa para o capitalismo, algo, inclusive, bem velho, pois o capital já havia operado dessa 
forma quando foi confrontado com a luta radical e revolucionária das minorias na década de 60.

3 - Reapresentação da organização, dos seus princípios teóricos, estratégicos e ideológicos.

A OATL é uma organização revolucionária específica anarquista de minoria ativa. Nos 
organizamos em torno de um programa estratégico e histórico, visando como objetivo final a 
construção do socialismo através da disseminação e fortalecimento dos Organismos 
Populares, o desmantelamento do Estado e do centralismo político, a expropriação das 
classes dominantes e o fim da exploração capitalista e de todas as opressões e dominações.

Entendemos o anarquismo como uma corrente do socialismo, um socialismo contra o Estado e 
federalista. Como um produto histórico das lutas da classe trabalhadora brasileira e 
internacional, contra o imperialismo, contra a dominação e repressão estatal e contra as 
opressões dentro do próprio seio da nossa classe.

A organização revolucionária dos anarquistas é uma necessidade histórica e estratégica de 
um projeto político que conduza para ruptura revolucionária, que garanta a vitória do povo 
na consolidação de uma sociedade de transição temporal sem classes e contra Estado, no 
qual o povo avança em suas expropriações, coletivizações e vitórias militares sobre a 
reação. Desta maneira, a organização revolucionária dos anarquistas é o recipiente que 
recolhe os frutos do trabalho militante para que não se percam as experiências de luta da 
nossa classe, dando sentido, continuidade e direção no trabalho social.

Defendemos:

1. O materialismo como método para entender a sociedade, porém um materialismo 
economicista não é suficiente; são os problemas concretos e objetivos da classe 
trabalhadora que pautam a nossa luta e nosso método de análise da realidade; são as 
condições dadas pela influência mútua de fatores políticos, sociais, econômicos, 
ideológicos, culturais e ambientais colocam as possibilidades de construção dos caminhos 
da revolução e que ordenam o devir histórico. Rejeitamos, assim, o idealismo, o 
individualismo, o pós-modernismo, o voluntarismo e o coleguismo.

2. Que a luta pelo socialismo parte do princípio do classismo e da independência de 
classe, isto é, é só a mais completa emancipação, econômica, política e subjetiva das 
classes trabalhadoras e de todos os povos que caracterizam a função máxima da revolução 
social. Entendido como a base da igualdade econômica, o socialismo só existe quando a 
produção está sobre controle da classe trabalhadora auto organizada.

3. O federalismo - a negação e a destruição do Estado, a Anarquia, a sociedade contra o 
Estado, do autogoverno dos povos. Da base ao topo, o controle de todas as esferas da 
sociedade deve estar nas mãos da classe trabalhadora, organizados federativamente em torno 
da realização das demandas sociais e sua transformação, gerindo a sociedade, negando e 
destruindo o aparato estatal. É a base da igualdade política.

4. A ação direta como instrumento de ação coletiva da classe, pois a emancipação da classe 
trabalhadora e dos povos oprimidos é obra de seu próprio e mais revolucionário esforço. 
Isso significa o não-colaboracionismo com os aparatos burgueses (polícia, forças armadas, 
judiciário e parlamento).

https://terraeliberdade.org/uma-analise-sobre-o-liberalismo-no-anarquismo/


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