(pt) [Reino Unido] Por que eu sou um Anarquista por Benjamin Zephaniah By A.N.A. (en)

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Sexta-Feira, 12 de Julho de 2019 - 08:45:58 CEST


Eu me politizei depois de ter sofrido o meu primeiro ataque racista, na idade de sete 
anos. Eu não conhecia nenhuma teoria política, eu só sabia que eu tinha sido injustiçado, 
e sabia também que deveria existir algo a se fazer. Alguns anos mais tarde, com quinze 
anos, uma viatura policial me parou enquanto eu caminhava em Birmingham nas primeiras 
horas da manhã, e três policiais desceram do carro, me arrastaram até a entrada de uma 
loja e me espancaram. Eles entraram novamente no carro, e saíram dirigindo como se nada 
tivesse acontecido. Eu não tinha lido nada a respeito da instituição policial, nem 
qualquer coisa sobre a Lei e a Ordem, eu apenas sabia que havia sido injustiçado. Quando 
eu consegui meu primeiro emprego como um pintor, eu não havia lido nada a respeito da 
teoria da Luta de Classes, ou sobre como os ricos exploram os pobres, mas quando o meu 
chefe chegava a cada dia com um super carro diferente, enquanto nós arriscávamos nossas 
vidas em cima de escadas e respirando vapores tóxicos, eu apenas sabia que havia sido 
injustiçado.

Eu cresci (como a maioria das pessoas ao meu redor) acreditando que o Anarquismo significa 
simplesmente todo mundo indo à loucura e o fim de todas as coisas. Eu sou muito disléxico, 
então eu frequentemente tenho que usar um verificador ortográfico para ter certeza que eu 
estou escrevendo as palavras corretamente. Eu estava ouvindo termos como Socialismo ou 
Comunismo todo o tempo, mas mesmo os Socialistas e os Comunistas que eu me encontrava 
tendiam a repudiar os Anarquistas ou como um grupo à margem, que eles sempre acusavam 
quando havia problemas em protestos, ou como sonhadores. Mesmo agora, eu acabo de 
verificar o corretor ortográfico e ele descreve o Anarquismo como caos, ausência de leis, 
bagunça e desordem. Eu gosto da coisa da desordem, mas para o cidadão ‘comum', desordem 
significa caos, ausência de leis, e bagunça. Precisamente as coisas que os cidadãos comuns 
mais aprendem a temer.

A melhor coisa que eu já fiz foi ter aprendido a pensar por conta própria. Eu comecei a 
fazer isso ainda bem jovem, mas é algo muito difícil quando pra todo lado tem alguma coisa 
te dizendo como pensar. O Capitalismo é sedutor. Ele limita a sua imaginação, e então te 
diz que você deveria se sentir livre por ter escolhas, mas as suas escolhas são limitadas 
pelos produtos que eles colocam na sua frente, ou os limites da sua agora limitada 
imaginação. Eu lembro de ter visitado São Paulo muitos anos atrás, na época em que 
introduziram a lei Cidade Limpa. O prefeito não tinha de repente se tornado um Anarquista, 
mas ele se deu conta que a publicidade contínua e onipresente a que as pessoas eram 
sujeitas não era apenas feia, mas também distraía as pessoas delas mesmas. Assim, mais de 
15000 outdoors publicitários foram removidos. Publicidade em papel ou em neon, em táxis, 
em ônibus, foi tudo banido. A primeira vista tudo pareceu um pouco estranho, mas no lugar 
de tentar olhar ou não para as propagandas, eu caminhei, e enquanto caminhava eu comecei a 
olhar ao meu redor. E descobri que eu passei a comprar somente o que eu realmente 
precisava, não o que me diziam que eu precisava, e o que foi mais perceptível para mim era 
que eu encontrava e conversava com novas pessoas todos os dias. Essas conversas tendiam a 
ser relevantes, políticas e significativas. O Capitalismo nos mantém em competição uns com 
os outros, e as pessoas que controlam o Capitalismo não desejam que nós conversemos uns 
com os outros, pelo menos não de uma maneira significativa.

Eu não vou continuar falando de Capitalismo, Socialismo ou Comunismo, mas fica claro que 
uma coisa que todos eles têm em comum é a necessidade de poder. Por trás da necessidade de 
poder todos esses sistemas têm teorias, teorias sobre tomar o poder e o que eles desejam 
fazer com o poder, mas é aí que se encontra o problema. Teorias e poder. Eu me tornei um 
Anarquista quando eu decidi abandonar as teorias e parar de perseguir o poder. Quando eu 
parei de me preocupar com essas coisas eu me dei conta que a minha natureza é a verdadeira 
Anarquia. É a nossa natureza. É o que nós fazíamos antes das teorias chegarem, é o que nós 
fazíamos antes de termos sido encorajados a competir uns com os outros. Grandes coisas vêm 
sendo escritas sobre o Anarquismo, e eu acho que isso é teoria Anarquista, mas quando eu 
tento fazer os meus amigos lerem (estou falando de livros grandes com palavras grandes), 
eles têm dor de cabeça e se afastam. Daí, eu desligo a publicidade (a TV, etc) e sento com 
eles, e os lembro o que eles podem fazer para eles mesmos. Eu dou exemplos de pessoas que 
vivem sem governos, pessoas que se auto-organizam, pessoas que tomaram de volta a própria 
identidade espiritual - e de repente tudo faz sentido.

Se nós continuarmos falando sobre teorias, então nós só vamos poder continuar falando com 
pessoas que já conhecem essas teorias, ou tem teorias elas mesmas, e se continuarmos 
andando em círculos ao redor de teorias nós excluímos um monte de pessoas. Exatamente as 
pessoas que nós precisamos alcançar, exatamente as pessoas que precisam de se livrar das 
amarras da escravidão moderna do Capitalismo. A história de Carne Ross é inspiradora não 
por ele ter escrito algo, mas por ele ter tido uma vivência. Eu amo o trabalho de Noam 
Chomsky e eu amo a estória sobre como a avó de Stuart Christie fez dele um Anarquista, mas 
eu estou aqui por entender que a polícia racista que me espancou tem o Estado como 
salvaguarda, e o próprio Estado é em si mesmo racista. Eu estou aqui pois agora eu entendo 
que o chefe que me explorou para o seu próprio enriquecimento não dava a mínima sobre mim. 
Eu estou aqui por que eu sei que os Marrons na Jamaica se libertaram sozinhos, fugiram 
para as colinas e provaram para todas as pessoas que eles podiam cuidar de si mesmos. Não 
me entendam mal, eu amo livros (eu sou um escritor, a propósito), e eu sei que nós 
precisamos de pessoas que pensam profundamente - nós todos deveríamos pensar 
profundamente. Mas as minhas maiores inspirações vêm de pessoas do dia-a-dia que pararam 
de buscar o poder, ou esperar que os poderosos as resgatem, e elas fazem as próprias vidas 
por elas mesmas. Eu conheci pessoas que vivem o Anarquismo na Índia, Quênia, Jamaica, 
Etiópia, e na Papua-Nova Guiné, mas quando eu digo pra elas que elas são Anarquistas, a 
maioria me diz que elas nunca ouviram falar de tal palavra, e o que elas vêm fazendo é 
simples e natural. Eu sou um Anarquista por que eu fui injustiçado, e eu vi todo o resto 
colapsar.

Eu passei o final dos anos 70 e a década de 80 vivendo em Londres com muitos exilados 
ativistas do ANC - depois de uma longa batalha, Nelson Mandela foi libertado e os exilados 
voltaram para as suas casas. Eu me lembro de olhar para uma foto do primeiro governo 
democraticamente eleito na África do Sul e me dar conta que eu conhecia dois terços das 
pessoas na foto. Eu também me lembro de ter visto uma foto do recém-eleito governo Blair 
(do Partido Trabalhista Britânico) e de ter me dado conta que eu conhecia um quarto das 
pessoas ali presentes, e em ambas as ocasiões eu me lembro de ter ficado cheio de 
esperança. Mas em ambos os casos não demorou muito para ver como o poder tinha corrompido 
tantos membros daqueles governos. Essas pessoas eram as que eu chegaria e diria, "Ei, o 
que vocês estão fazendo?", e a resposta era sempre algo como "Benjamin, você não sabe como 
funciona o poder". Bom, eu sei. Foda-se o poder e vamos só cuidar uns dos outros.

Quase todo mundo sabe que a política está colapsando. Isso não é uma teoria ou o meu ponto 
de vista. As pessoas podem ver, sentir isso. O problema é que elas simplesmente não podem 
imaginar uma alternativa. Elas não possuem confiança. Eu simplesmente ignorei toda a 
publicidade, desliguei a minha ‘tel-le-visão'¹, e comecei a pensar por mim mesmo. Então eu 
comecei a realmente encontrar pessoas - e, confie em mim, não há nada tão incrível quanto 
conhecer pessoas que estão seguindo as suas vidas, tocando fazendas, escolas, lojas, e 
mesmo economias, em comunidades onde ninguém possui poder.

É por isso que eu sou um Anarquista.

>> Benjamin Zephaniah é um escritor, poeta e anarquista. O seu último livro é A Vida e as 
Rimas de Benjamin Zephaniah (Simon e Schuster).

Fonte: http://dogsection.org/why-i-am-an-anarchist/

>> Nota do tradutor:

[1]Aqui, o autor faz um trocadilho intraduzível para o português, escrevendo 
‘television'[televisão]como ‘tell-lie-vision', que em português seria algo como 
‘visão-que-conta-mentiras'.

Tradução > Natureza Selvagem

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/09/reino-unido-por-que-eu-sou-um-anarquista/


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