(pt) uniao anarquista UNIPA - A Rebelião de Stonewall e a luta LGBT: Insurgência e apoio mútuo como legado de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera

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Quinta-Feira, 4 de Julho de 2019 - 08:54:02 CEST


Comunicado nº 64 da União Popular Anarquista - UNIPA, 28 de junho de 2019 ---- Site: 
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Rebelião de Stonewall completa, em 2019, 50 anos dos eventos que tornaram o dia 28 de 
junho um marco na luta de libertação da população LGBTQI. Nas primeiras horas da manhã 
daquela sexta-feira em 1969, gays e pessoas trans protagonizaram uma série de atos de 
insurgência as consecutivas invasões policiais ao bar Stonewall, localizado em Greenwich 
Village, Manhattan, na cidade de Nova York, nos Estados Unidos.
Naquele período, bares gays eram proibidos de funcionarem, os únicos bares que existiam 
eram os gerenciados pela máfia e os bares mais undergrounds. Era a segunda vez naquela 
semana que a polícia invadia o bar e "revistava" os seus clientes. Após os fregueses serem 
liberados, uma multidão reuniu-se na calçada e saudava aqueles que saiam. O clima de 
indignação contra a ação da polícia aumentou quando estavam sendo levados para a delegacia 
três drag queens, o barman e o porteiro de Stonewall. Diante daquela situação, alguém 
jogou uma garrafa em um policial que revidou com o uso do cassetete. Esse foi o estopim 
para uma chuva de latas de cerveja, garrafas e pedras em direção aos policiais.

Um confronto entre policiais e os frequentadores do bar teve início. Uma forte resistência 
de rua foi protagonizada na noite que foi o início de um protesto espontâneo que se 
estendeu por mais alguns dias, contando com manifestantes detidos e policiais feridos da 
famigerada Força Tática Policial, criada anos antes para controlar os protestos de massa 
contra a Guerra do Vietnã. Apesar de iniciarem de forma espontânea, um mês após aqueles 
dias de motins, a rebelião de Stonewall ganhou uma forma organizativa através da criação 
da Frente de Libertação Gay (Gay Liberation Front, no original em inglês), formada em Nova 
York, mas que se espalhou para outras cidades dos EUA, procurando estreitar laços com os 
movimentos de libertação do povo negro, das mulheres e com a luta antiguerra do Vietnã.

Em 1970, a FLG organizou uma passeata do Greenwich Village, bairro onde ficava o bar 
Stonewall, até o Central Park, local tradicional de manifestações públicas em Nova York. 
Por volta de 5.000 a 10.000 pessoas participaram do evento que deu início as hoje famosas 
Paradas do Orgulho Gay.

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera: Autonomia e apoio mútuo entre pessoas trans

Marsha era filha de um operário e de uma dona de casa negros de Christopher, Nova Jersey. 
Por não ser aceito pela família como gay, saiu de casa, morou na rua e sobreviveu com o 
dinheiro da prostituição de seu próprio corpo. Sylvia foi órfã e possuía descendência 
venezuelana e porto-riquenha. Sua avó reprovava seu hábito de se maquiar e seu 
comportamento visto como "afeminado". Sylvia passou a viver nas ruas aos 11 anos de idade 
e sobrevivia através da prostituição. Marsha e Sylvia se encontraram no ciclo de lutas 
aberto por Stonewall e foram membros fundadoras da Frente de Libertação Gay. 
Posteriormente elas organizaram a Ação das Travestis de Rua Revolucionárias (Street 
Transvestite Action Revolutionaries, no original em inglês, cujo a sigla é STAR).

As duas tornaram-se presença marcante nas marchas de libertação gay e em ações diretas. 
Contudo, em 1973, foram proibidas de participarem da Parada do Orgulho Gay, porque o 
comitê gay e lésbico organizador da Parada dizia que as drag queens manchavam o nome do 
evento. Elas eram mulheres trans, uma negra e outra latina, e experimentaram o sectarismo 
do próprio movimento que ajudaram a construir. Em resposta, elas marchavam desaforadamente 
antes do início das Paradas.

A Ação das Travestis de Rua Revolucionárias criou no mesmo ano de sua fundação a STAR 
House, uma casa que acolhia drag queens e mulheres trans negras/latinas sem-teto. A casa 
atendia de 15 a 20 pessoas por vez, funcionava num trailer em um estacionamento e depois 
num apartamento. A experiência teve fim quando foram despejados pela prefeitura do prédio 
onde funcionava o abrigo. Ele pode ser interpretado como uma experiência de apoio mútuo 
entre a população de rua, trans, negra e latina de Nova Iorque, que sem a ajuda do Estado 
desenvolveu um trabalho necessário, heroico e acolhedor. Marsha e Sylvia continuaram na 
militância em defesa dos direitos da população LGBTQI até o dia de suas mortes.

50 anos depois de Stonewall: A atualidade do manifesto da Ação das Travestis de Rua 
Revolucionárias
O que mudou para a população LGBTQI depois de cinco décadas do evento que tornou pública 
suas lutas? Como as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, Stonewall começou de forma 
espontânea, localizada e rapidamente tornou-se uma referência nacional, abrindo um ciclo 
de lutas em defesa dos direitos e da visibilidade da população LGBTQI. Parte do movimento 
institucionalizou-se e hoje resume-se, no Brasil, a lutar por políticas públicas 
identitárias ou na defesa de candidaturas LGBTQI para o parlamento e o congresso nacional. 
Pode-se dizer que o "modelo social-democrata de movimento" hegemoniza a luta LGBTQI.

Por outro lado, tomando por exemplo as "Paradas do Orgulho LGBT", um setor empresarial 
também disputa as ações e visibilidade do evento, seja inserido na organização ou no 
financiamento dos mesmos, distorcendo suas raízes históricas e reduzindo as críticas mais 
radicais, criando assim a despolitização através da mera festividade e consumismo durante 
as Paradas. Ou ainda o crescimento do chamado mercado arco-íris das empresas interessadas 
em "aceitar" a comunidade LGBTQI como mercado consumidor tão somente. Poupando o regime 
político e econômico capitalista das críticas, este setor empresarial busca apenas uma 
aceitação estética ou comportamental momentânea e uma falsa inclusão através do mercado de 
consumo direcionado. Ignorando assim que a realidade da maioria das pessoas trans e 
homossexuais é de pobreza e que, portanto, não podem pagar por sua segurança diariamente 
em risco ou, na sociedade em que o status do "ter" supera os valores humanos do "ser", não 
são "reconhecidas" pois lhe falta objetos de consumo.

Assim, no regime capitalista, baseado na desigualdade e exploração econômica e na sua 
urbanização periférica, a comunidade LGBTI enfrentam no dia a dia mais severamente 
situações como a violência nas ruas, a repressão militar, a discriminação, o assédio, a 
exclusão e isolamento familiar, por vezes vivendo em situação de rua, a precariedade do 
sistema de saúde, a discriminação no sistema de ensino que leva a evasão escolar, o 
desemprego, subemprego e exploração sexual. A condição socioeconômica de pobreza e 
periférica, indissociável do sistema urbano capitalista, amplia a vulnerabilidade da 
comunidade LGBTQI por reforçar sua exploração econômica a partir da discriminação das 
sociabilidades afetivas e sexuais diferentes do padrão heterossexual e binarismo de 
gênero; e por outro lado, a discriminação é agravada com a sua situação econômica 
desigual. Uma situação que a "ação arco-íris" empresarial não somente ignora, mas a reforça.

Inspirador é, então, retomar alguns dos 9 pontos presentes no manifesto da Ação das 
Travestis de Rua Revolucionárias, do qual Marsha e Sylvia participaram. Sua mensagem é 
classista, revolucionária, antisectária, antihomofóbica e antimachista. Escrito desde o 
ponto de vista de moradoras de rua, trans, negras e latinas, muitas vezes marginalizadas 
dentro de meios mais elitizados do movimento, o manifesto preserva sua atualidade nesses 
tempos em que a auto-organização popular se faz necessária para enfrentar coletivamente a 
austeridade que a burguesia e o Estado enfiam goela abaixo da classe trabalhadora 
brasileira e mundial. Segue alguns trechos do Manifesto de 1970:

"A opressão contra travestis de qualquer sexo surge de valores machistas e esta opressão é 
manifestada por heterossexuais e homossexuais de ambos os sexos na forma de exploração, 
ridicularização, assédio, espancamentos, estupros e assassinatos. Por causa dessa 
opressão, a maioria das travestis é forçada a ir para a rua e nós temos que formar uma 
forte aliança com nossas irmãs gays e irmãos da rua. De quem somos parte e representamos; 
nós somos uma parte dos exércitos revolucionários que lutam contra o sistema.

2. O fim de toda discriminação no trabalho contra travestis de ambos os sexos e 
homossexuais por causa do traje.

3. O fim imediato de todo o assédio policial e prisão de travestis e gays, e a liberação 
de travestis e gays de rua de todas as prisões e de todos os outros presos políticos.

4. O fim de todas as práticas exploratórias de médicos e psiquiatras que trabalham no 
campo do travestismo.

6. Travestis e pessoas de ruas gays e todas as pessoas oprimidas devem ter educação 
gratuita, cuidados de saúde, roupas, comida, transporte e moradia.

7. As travestis e os gays de rua devem receber direitos plenos e iguais em todos os níveis 
da sociedade e voz plena na luta pela libertação de todos os povos oprimidos.

8. Fim da exploração e discriminação contra travestis dentro do mundo homossexual.

9. Nós queremos um governo popular revolucionário, onde travestis, pessoas de rua, 
mulheres, homossexuais, porto-riquenhos, índios e todos os oprimidos sejam livres e não 
fudidos por este governo que nos trata como a escória da terra (...) e nos joga na cadeia 
para apodrecermos. Este governo que gasta milhões de dólares para ir à lua e deixa os 
americanos pobres morrerem de fome. PODER PARA O POVO"

Opor a pluralidade e solidariedade contra o idealismo religioso e anticientífico
Ao tratar de desejos sexuais e identidade de gênero, voltam hoje a aparecer mais 
abertamente visões conservadoras que geram preconceitos e chegam ao limite de motivar a 
violência LGBTIfóbicas. Uma destas visões é a patologização pseudocientífica na 
psicologia, psiquiatria e medicina que pretendem a "cura" das pessoas LGBTI, como se 
tratasse de alguma doença ou desvio; outra, é a demonização e perseguição disseminadas 
pelo fundamentalismo religioso que entende relações fora da norma heterossexual 
(homem-mulher) como se fossem a destruição da família tradicional e da ordem divina.

No campo político, há uma cruzada contra o que equivocadamente se chama "ideologia de 
gênero", manifesto em programas como "escola sem partido" que pretendem, entre outras, 
proibir a educação sobre sexualidade com crianças e adolescentes nas escolas alegando que 
assim se estimularia a prática de sexo precoce, a pedofilia e relações homossexuais (sic). 
Na verdade, o objetivo é permitir a doutrinação única da heteronormatividade e de gênero 
binário (masculino/feminino), dissimulando como se fossem as únicas existentes. A maior 
difusão destas visões, inclusive institucionalmente, antecipa e ganha propulsão com a 
eleição do governo reacionário de Bolsonaro-Mourão (PSL-PRTB) - mas não se pode dizer que 
antes elas não existiam.

São visões que caminham juntas buscando hierarquizar e desumanizar relações humanas, 
inferiorizando seres sociais que ficam reduzidos exclusivamente a estereótipos de sua 
diversidade sexual, expostos a toda sorte anticientífica, idealista e da violência 
injusta. É preciso, então, apresentar respostas teóricas e práticas: que expliquem o mundo 
a partir da interação multicausal de suas relações sociais e naturais ao mesmo tempo em 
que é urgente soluções pela autodefesa da vida e direitos da comunidade LGBTI. Estas 
respostas devem caminhar para uma sociedade justa, livre, igualitária e fraterna, nosso 
objetivo enquanto anarquistas, a Revolução Social tendo, portanto, a ação mutualista e 
solidária da classe trabalhadora como principal sujeito da ação.

A pessoa lésbica, gay, bissexual, transgêneros ou intersexual é um ser humano com uma 
condição e destino absolutamente humano. Não se pode desnaturalizar as orientações sexuais 
e identidades de gênero diversas da heteronormativa. É preciso considerar os estudos que 
vão da antropologia e história à genética para entender que a diversidade de identidade e 
atração afetiva ou sexual não é em si nem doentia, nem imoral, nem antinatural.

Por natural, não entendemos que sejam explicadas exclusivamente por fatores biológicos, 
genéticos, hormonais, neurais; mas, também pela influência e estímulo cultural, dos 
hábitos de vida e ambiente social, já que existe uma continuidade entre natureza e 
sociedade (e não oposição). Todos comportamentos são adquiridos pela interação complexa de 
causas objetivas (exteriores) e subjetivas (interiores), não havendo nem inatismo, nem 
hereditariedade global e absoluta (biológica-fisiológica ou social). As atitudes não sendo 
herdadas de forma absoluta, nem inatas, sempre guardam uma gênese indeterminada, caótica, 
baseada em ações-reações incessantes do todo (o mundo social e natural) sobre as partes 
(indivíduos, sociedades humanas), e estas podem sempre interpretar subjetivamente os 
instintos fundamentais da auto conservação individual e coletiva, de maneiras distintas. 
As forças LGBTfóbicas a partir da autoridade, discriminação e violência, impõe não somente 
o conflito aberto na sociedade contra quem ousa questionar o padrão histórico e cultural 
heteronormativo, mas a LGBTfobia impõe a própria inibição da liberdade sexual e cultural 
no íntimo das pessoas, contraditoriamente impedindo o integral desenvolvimento do sujeito 
para este se conservar perante a autoridade da discriminação e violência.

Há hoje pelo menos 3 categorias que explicam as diversas características de gênero 
(dimensão social) e sexualidades (dimensão biológica) da comunidade LGBTI: 1) o sexo 
biológico formado objetivamente pelas características da pessoa ao nascer como por órgãos, 
hormônios e cromossomos, sendo a vagina, ovários e cromossomos XX determinantes do sexo 
feminino; o pênis, testículo e cromossomo XY determinantes do sexo masculino; e a 
combinação fisiológica dos dois determinantes de seres intersexuais; 2) a orientação 
sexual sendo a predisposição involuntária de uma pessoa, independentemente de seu sexo 
biológico ou identidade de gênero, em sentir atração sexual, afetiva e emocional por 
pessoas de gênero diferente (heterossexualidade), de mais de um gênero (bissexualidade), 
do mesmo gênero (homossexualidade) ou outras orientações possíveis; 3) a identidade de 
gênero sendo a percepção íntima e por isso nem sempre visível de como cada indivíduo de 
sente consigo mesmo em relação ao gênero histórico e culturalmente construído do masculino 
e feminino, independentemente de seu sexo biológico, havendo ainda pessoas que não desejam 
ou não se enquadram nesta definição binária de homem/mulher, sendo a identidade de gênero 
por vezes manifestada publicamente nos comportamentos, nome, as roupas, voz ou 
características corporais.

Assim, uma pessoa que nasce biologicamente mulher pode eventualmente não se identificar 
com o gênero feminino; bem como alguém que nasceu biologicamente homem pode não possuir 
identidade de gênero masculina. O sentimento, afeto e ideias bem como as ações de 
relacionamento não são meramente determinados pela estrutura fisiológica, mas 
relativamente livres em relação a ela, resultando em uma indeterminada quantidade de 
formas de manifestação das orientações sexuais e ainda mais das identidades de gênero. As 
condições sociais e econômicas também acabam por condicionar a forma pelas quais gênero e 
sexualidade se manifestam publicamente, sendo, devido ao preconceito, as relações e 
identidades tornadas clandestinas em determinados espaços, como nas relações trabalhistas, 
escolares e do cotidiano hostil, como veremos a seguir. Nos colocamos, assim, na defesa 
integral da pluralidade de relações afetivas e sexuais consensuais e identidades subjetivas.

A violência e exploração sobre LGBTI no Brasil

Levantamento independente do Grupo Gay da Bahia, que o realiza há 38 anos, apurou que 
houve um aumento de 30% nos homicídios de pessoas LGBTI no Brasil entre 2016 e 2017, 
passando de 343 para 445 mortes: a cada 19 horas um LGBT é assassinado ou se suicida 
vítima da LGBTfobia. Em 2018, de janeiro a outubro, o grupo registrou 347 mortes de LGBTs. 
Os dados colocam o Brasil no topo do ranking deste tipo de violência no mundo. Apesar de 
não ser oficial este levantamento, é um sinal alarmante; e o próprio fato da inexistência 
da produção de estatísticas oficiais pelo Estado brasileiro revela sua negligência 
institucional.

Em contexto global, a LGBTIfobia institucionalizada possui leis severas: em 2019, a 
homossexualidade ainda era criminalizada em 65 países com prisão e, em 11 deles, com pena 
de morte.

O regime capitalista desvaloriza e não reconhece a orientação sexual e/ou identidade de 
gênero distinta dos padrões heteronormativos a partir da homofobia, transfobia, sexismo. A 
violência e a criminalização são consequências diretas disso. Estas discriminações 
consolidam relações de hierarquia e desigualdade, não apenas sexual, mas também políticas 
e econômicas, sendo fundamentais na manutenção da ordem e reprodução do capital. A 
heterossexualidade é uma orientação compulsória na sociedade, hegemônica pela difusão nos 
meios religiosos, familiares, escolares etc.

Nas relações de trabalho, o setor LGBT enfrenta barreiras que vai desde as fases de 
seleção até a demissão. Nas seleções de emprego formal, a discriminação está presente já 
nos questionamentos invasivos e investigações sobre a vida particular do(a) candidato(a), 
um primeiro filtro no qual muitos homossexuais se veem tacitamente obrigados a manter 
sigilo sobre sua orientação sexual. Se contratado(a), a dissimulação de comportamentos 
vistos pelos patrões e gerência como inadequado ou destoante pode ir adquirindo caráter de 
sofrimento e prejudiciais à saúde física e psicológica. Levados a situações de exclusão 
muitas vezes entre os próprios colegas de trabalho, suportando ofensas e assédio moral por 
outros trabalhadores ou seus superiores. A dissimulação comportamental, já humilhante, 
entretanto, torna-se até isso inviável às pessoas trans, pois sua identidade de gênero é 
muitas vezes impossível de ser ocultada em seu comportamento e aparência física.

Esta situação coloca uma dificuldade ainda maior ao setor LGBT de acesso ao emprego 
formal, portanto um público mais vulnerável para se enquadrar no exército de desempregados 
que chegam aos 18 milhões de pessoas hoje no Brasil (IBGE, 2019). Barreira ainda maior 
colocada às pessoas trans, jogando-as quase sempre ao mercado informal, desemprego, 
subemprego e não sendo incomum casos de viverem em situação de rua e obtendo renda da 
prostituição, com toda sorte de problemas que isto implica da saúde física, sexual e 
emocional. Deve-se lembrar, ainda, que já desde os bancos escolares as humilhações e 
discriminações de colegas de sala, dos próprios docentes ou com a negligência destes, 
torna o ambiente hostil levando a evasão escolar, o que também limita as atividades 
profissionalizantes. Na rápida rotatividade hoje dos postos de trabalho, nem as demissões 
se bastam. Assim como grevistas, sindicalistas, trabalhadores que acionam a justiça muitas 
vezes entram nas chamadas "listas discriminatórias" que circulam entre as empresas com 
objetivo de evitar a contratação destes, estão vulneráveis a entrar nestas listas também 
os(as) trabalhadores(as) LGBTI.

Configura-se, assim, complexas interações de hierarquias sobre os setores LGBTI da classe 
trabalhadora. Ela vai desde a criminalização de sua orientação sexual e identidade de 
gênero como se as discriminações sofridas fossem de suposta responsabilidade de suas 
"escolhas", até a omissão ou precariedade e subjugação nas escalas inferiores do mercado 
de trabalho, quando não completamente excluídos dos direitos trabalhistas e sociais.

A classe trabalhadora não é e nunca foi homogênea em sua história, seja qual for o sistema 
econômico que ela sustentou com seu trabalho. Não podemos interpretar a classe social 
somente desde a localização econômica dos sujeitos, muito menos reduzir sua potencialidade 
revolucionária a fração industrial. É preciso interpretar a multicausalidade que 
determinam os seres sociais, desde sua hierarquia e desigualdade do ponto de vista também 
político e cultural. E interpretar a expressão das sexualidades também em suas formas 
históricas e não de forma pura, essencialista e anacrônica. Entender, por exemplo, como as 
relações homossexuais adquirem particularidades de cultura para cultura e época para 
época. As formas de diversidade sexual e de gênero vão sendo condicionadas pela sociedade 
capitalista-imperialista para satisfazer as necessidades do capital ultramonopolista, que 
se utiliza da superexploração e do exército de desempregados para pressionar pela 
diminuição dos salários bem como busca se apropriar das culturas e identidades 
particulares para sufocá-las com a fabricação de necessidades de consumo direcionadas e 
assim ampliar super lucros das empresas. Então, a luta contra a discriminação e pela 
liberdade e igualdade das orientações sexuais e identidades de gênero deve também ser a 
luta contra a exploração e monopólio do capital e a opressão e centralização política do 
Estado. O orgulho e a luta pela visibilidade são parte importante, mas em si insuficiente: 
é necessário combater objetivamente as instituições de poder discriminatórias como o 
capital, o Estado e as igrejas sectárias e fundamentalistas.

Assim, são afetadas sobretudo as LGBTI da classe trabalhadora, que precisam de luta e 
organização para a insurgência contra a estrutura que lhe condena, humilha, exclui e mata. 
As soluções devem ser criadas, e as práticas de autodefesa colocam-se como urgentes, pois 
vidas correm risco; não apenas a autodefesa individual das LGBTI, tampouco a autodefesa 
exclusiva de um grupo de identidade em separado. Mas a criação de redes de apoio mútuo e 
solidariedade por todo o Brasil nos territórios da classe trabalhadora que abrace e 
estimule os setores discriminados a tomar a linha de frente na luta da nossa classe: 
mulheres, indígenas, negros, LGBTI, imigrantes. Uma autodefesa que iniba as violências 
injustas, seja da polícia ou no interior do próprio povo, e crie relações cooperadas para 
a auto-sustentação econômica para enfrentar tempos de desregulamentação trabalhistas, 
subempregos e miséria, bem como o acolhimento afetivo e psicológico. Cada violência e 
morte de lésbica, gays e transgêneros não ficará impune! Cada centavo roubado do trabalho 
penoso e voz silenciada será cobrado do Estado e do Capital!

Defender com solidariedade e rebelião a pluralidade da classe trabalhadora!!!
Combater a homotransfobia!!!
Anarquismo é luta!!!

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2019/06/29/a-rebeliao-de-stonewall-e-a-luta-lgbt-insurgencia-e-apoio-mutuo-como-legado-de-marsha-p-johnson-e-sylvia-rivera/


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