(pt) colectivo libertario evora: (Venezuela) Maduro e Guaidó, duas faces da moeda da opressão e da exploração por Gargantas Libertárias

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Terça-Feira, 29 de Janeiro de 2019 - 06:41:23 CET


O acesso à Wikipedia foi bloqueado no país depois da publicação que colocava como suposto 
novo presidente interino Juan Guaidó (presidente da Assembleia Nacional, controlada pela 
oposição partidária de direita e socialdemocrata). Tal cargo nem sequer foi anunciado 
oficialmente como tal, mas a oposição de direita assumiu de maneira ambígua a proposta de 
activar os artigos 233, 350 e 333 da Constituição Bolivariana que contemplam o seguinte: 
---- "#Artigo 233: Serão faltas absolutas do Presidente ou Presidenta da república: a sua 
morte, a sua renúncia, ou a sua destituição decretada por sentença do Tribunal Supremo de 
Justiça; a sua incapacidade física ou mental permanente certificada por uam junat médica 
designada pelo Tribunal Supremo de Justiça e coma  aprovação da Assembleia Nacional; o 
abandono do cargo, declarado como tal pela Assembleia Nacional, assim como a revogação 
popular do seu mandato.

Quando se verifique a falta absoluta do Presidente eleito ou Presidenta eleita antes de 
tomar posse proceder-se-à a uma nova eleição universal, directa e secreta dentro dos 30 
dias consecutivos seguintes. Enquanto se elege e toma posse o novo Presidente ou a nova 
Presidenta, encarregar-se-à da Presidência da República o Presidente ou Presidenta da 
Assembleia Nacional.

Se a falta absoluta do Presidente ou da Presidenta da República se verifica durante os 
primeiros quatro anos do período constitucional, far-se-à uma nova eleição universal, 
directa e secreta dentro dos trinta dias consecutivos seguintes. Enquanto se elege e toma 
posse o novo Presidente ou a nova Presidenta, encarregar-se-á da Presidência da República 
o Vice-presidente Executivo ou a Vice-presidenta Executiva.

Nos casos anteriores, o novo Presidente ou Presidenta completará o período constitucional 
correspondente.

Se a falta absoluta se verifica durante os últimos dois anos do período constitucional, o 
Vice-presidente Executivo ou a Vice-presidenta Executiva assumirá a Presidência da 
república até completar o dito período.

#Artigo 333. Esta Constituição não perderá a sua vigência se deixar de ser seguida por um 
acto de força ou porque foi derrogada por qualquer outro meio diferente do que está 
previsto nela.

Nessa eventualidade, qualquer cidadão investido ou cidadã investida ou não de autoridade, 
terá o dever de colaborar no restabelecimento da sua efectiva vigência.

# Artigo 350. O povo da Venezuela, fiel à sua tradição republicana, à sua luta pela 
independência, a paz e a liberdade, desconhecerá qualquer regime, legislação ou autoridade 
que contrarie os valores e garantias democráticos ou menospreze os direitos humanos."

De modo resumido, propõe-se a investidura na presidência, por parte de presidente 
interino, ante a ausência prolongada, morte ou renúncia do presidente. Mas como esse não é 
o caso da Venezuela, já que Nicolás Maduro prestou juramento de facto perante o TSJ, 
apesar do nervosismo de Maikel Moreno, e apesar da enorme abstenção e das denúncias de 
fraudes e irregularidade que punham em questão o processo eleitoral levado a cabo no 
passado mês de Maio de 2018. Face a isto, o actual presidente da Assembleia Nacional 
convocou uma assembleia aberta para o dia 11 de Janeiro frente à sede do Programa das 
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para solicitar o apoio do povo venezuelano, 
das Forças Armadas Nacionais e da comunidade internacional para levar por diante tal 
investidura

A Fé move as massas

Não se pode negar a presença massiva e activa de pessoas nesta assembleia aberta, houve a 
presença de estudantes, algumas associações de trabalhadores, sindicalistas próximos da 
oposição de direita, dirigentes políticos de diversas tendências pertencentes à "Frente 
Ampla"...

Populismo puro e duro, mais militarismo. Ao melhor estilo latinoamericano.

Muita gente sob os efeitos do ópio da "democracia" justificou o discurso de Guaidó dizendo 
que ele não tem qualidades para a oratória. Esta é uma afirmação bastante ingénua, uma vez 
que ele é só mais um populista.. Entre a efusividade e a exaltação colectiva, as pessoas 
não se deram conta de que a suposta "Assembleia aberta" foi sobretudo uam manobra 
manipuladora e persuasiva para vincar de maneira forçada a ideia de que há que convocar a 
Força Armada Nacional Bolivariana e cito:

  "Há um elemento que falta a essa pata, a essa mesa, qual é esse elemento? A quem 
chamaram os estudantes, os grémios, os sindicatos, (as pessoas gritam "presidente!, 
presidente!") assim é, o povo já não é ingénuo, sabemos e por isso falámos directamente à 
família militar, à que também passa fome e passa mal, há alguém aqui usurpando, há aqui 
alguém que rompeu a cadeia de comando e vocês sabem-no, essa família militar que quer 
mudança, que quer o mesmo que nós, lançamos-lhe hoje um apelo, aqui está a assembleia 
nacional legítima que assume a sua responsabilidade e que a vai assumir" (1)

Ao escrever estas linhas fico com uma sensação imensa de asco, de raiva e de indignação, 
por essa maneira tão asquerosamente populista de nos querer meter a ideia da "união 
cívico-militar" pelos olhos dentro, esses mesmos que se encarregaram de reprimir as lutas 
de base e que apoiaram o poder totalitário de Nicolás Maduro a troco das regalias que este 
lhes oferece, esses mesmos são os que este senhor está a convidar. Por acaso as pessoas já 
se esqueceram do que as FANB nos fizeram? Por acaso vamos convidá-los a que nos apoiem em 
nome da democracia? Vamos "passar a página", dar a outra face para passarmos por 
democráticos, bons cidadãos dispostos a reconciliar-nos e unir-nos com os nossos 
repressores? Enquanto Rubén Gonzalez e os 13 sindicalistas ainda continuam presos e 
foram-no por essa mesma FANB que tanto convocam, e especificamente a Rubén fizeram uma 
montagem judicial em que o acusaram de ultraje à FANB e o mandaram para a prisão militar 
"La Pica". Que resposta darão a Rubén? Que essa acção foi realizada por "um grupo isolado 
da FANB"? E os outros, os que supostamente estão com o povo, o que fizeram?

Madurismo e oposição de direita: Patético servilismo. Continuação do Neoliberalismo 
imperialista na região

Para além do evidente militarismo presente no seu discurso é também evidente a tendência 
neoliberal imperialista quando agradece a personagens como Piñera, Macri, Duque e à 
"comunidade internacional " (Grupo de Lima), repressores inatos da classe trabalhadora, 
saqueadores que hipotecam os territórios indígenas e campesinos às transnacionais, a esses 
agradece que apoiem a constituição da "assembleia legítima e do governo de transição". 
Para além disso, nas suas propostas, em nenhum momento falou do respeito pelas 
contratações colectivas nem dos salários de fome, claro, porque não estão na agenda da 
oposição de direita do patronato, ainda que se diga solidária com a luta das e dos 
trabalhadores, por pura demagogia, enquanto, por outro lado, não duvidam em vender as 
causas destes trabalhadores para negociar com os patrões. (Tal e qual como o Bigodes).

A mim vão chamar-me divisionista, radical, pessimista, inclusive vão-se atrever a afirmar 
que eu, por criticar, estou a favorecer os interesses do governo. Nada me estranha, as 
semelhanças entre um lado e o outro são abismais. Mas prefiro ser divisionista a ser 
complacente (perdoem-me a expressão) e vender os meus princípios e a minha dignidade. É 
lamentável que as pessoas não se apercebam deste populismo tão notório e aplaudam como 
focas cada frase que pronuncia sem analisar o que está por debaixo.

Mas essa realidade tem a ver com o facto, que é bem sabido, de todos os partidos da 
oposição de direita se terem valido do descontentamento que a maioria tem para com o 
governo de Nicolás Maduro, para as instrumentalizar, cooptar, manipular e embriagar de 
forma a aceitarem propostas que contemplem uma tomada do poder assumida pelos líderes dos 
ditos partidos.

Venezuela. Entre a realidade e a Ciber-ficção

A publicação de Juan Guaidó como presidente interino na Wikipedia, por insignificante que 
pareça, permite entrever as pressões internas exercidas por parte da direita nacional, 
assim como pela direita internacional, sobre os ombros deste novo fantoche. Em resposta, a 
partir do estado venezuelano, foi ameaçado de prisão e atacado pela censura dos meios de 
comunicação digitais que bloqueara a Wikipedia.

O "Golpe pelo twitter" (assim chamado pelo governo) ou a moderação e a cooptação do 
descontentamento.

Os diferentes dirigentes da oposição de direita começam a difundir por twitter uma "agenda 
de luta de rua" (repete-se a história), os seus esperançados seguidores fazem-se eco 
destes apelos e da afirmação que coloca a Guaidó como presidente interino, uma coisa 
falseada, já que, como o mesmo referiu, para isso necessita primeiro do apoio das pessoas 
e da FAMB nas ruas. Esta gente parece que sofre de falta de memória de curto prazo porque 
esquece tudo o que estes personagens fizeram para desmobilizar as lutas autónomas, para as 
moderar, limitar, e expor as pessoas à repressão militar, sem promover primeiro que se 
desenvolva uma consciência política (de classe, de género, de etnia, de raça e ambiental), 
uma formação política, para que desenvolvam propostas populares claras, e que, por sua 
vez, desenvolva alguma forma de defesa própria que seja proporcional à repressão. Mas, 
basicamente, o que querem é que as pessoas se sacrifiquem de maneira cega e infantil, não 
pelas suas próprias causas, mas sim pela fé nas promessas destes políticos, que tal como 
Maduro, utilizaram o povo, utilizam-no e utilizarão para poderem tomar o poder e nele se 
manterem.

E o povo mais empobrecido cada dia que passa, pontapeado pelos dois bandos, comendo mal, 
sofrendo pelos salários quase invisíveis, os contratos colectivos espezinhados, as 
paupérrimas condições tanto laborais, como de saúde pública, enquanto que os dois bandos 
disputam o poder entre si.

Entre o mal menor e o mal maior, não quero nenhum, nenhum é alternativa, não temos que nos 
conformar com nenhum mal, não vamos nisso, tenhamos dignidade e não permitamos que as 
elites dominantes fiquem com o poder, e nos manipulem. O povo, desconhecendo o seu próprio 
poder, fica à mercê deste par de monstros, enquanto as lideranças e os activismos mais 
dissidentes e autónomos são esmagados, tornados invisíveis e encarcerados. Activismos com 
propostas e contributos que contribuem e semeiam uma verdadeira esperança para o país.

Eu aposto (não por fé, mas pelos frutos tangíveis que deixa) pela organização autónoma de 
base, na auto-convocatória e na autodeterminação dos povos, não só da Venezuela mas sim de 
toda a região e do mundo, em alternativas construídas desde abaixo, desde as entranhas da 
terra, independentes, que fazem frente ao governo, a partidos da esquerda autoritária 
oportunistas e aos partido de direita, que fazem frente às políticas patronais. 
Militaristas, extractivistas e populistas. Nenhum partido ou dirigente nos deve impor o 
que fazer. Abracemos a nossa dignidade e a nossa autonomia. Aprendamos com a história, os 
governos passam e a pobreza e a fome permanecem.

Que lutar e trabalhar pela nossa libertação e despertar o colectivo de consciências seja o 
nosso caminho e o nosso horizonte. É necessário e é vital para a nossa re-existência como 
humanidade e para a da mãe terra.

1. https://www.youtube.com/watch?v=eSI5N0yIwUM

Aqui:  https://gargantas-libertarias.blogspot.com/2019/01/juan-guaido-y-nicolas-maduro.html

Sites e blogs anarquistas e alternativos para seguir a situação na Venezuela:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2019/01/24/uma-opiniao-libertaria-sobre-a-situacao-que-se-vive-na-venezuela/#more-22862


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