(pt) [Espanha] Entre as estantes da ideia libertária. Crônica da XVI edição do Encontro do Livro Anarquista de Madrid. por Angel Malatesta By A.N.A.

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Terça-Feira, 1 de Janeiro de 2019 - 07:51:17 CET


Durante os passados dias de dezembro, entre a quinta-feira 6 e o domingo 9, aconteceu a 
XVI edição do Encontro do Livro Anarquista em Madrid, que esteve localizado no espaço 
anteriormente conhecido como CSO La 13-14, atualmente renomeado como Ateneu Libertário de 
Vallekas. ---- Já são dezesseis as edições que conseguiram manter continuidade este evento 
anual, e que se posicionou como referência e ponto de confluência do movimento libertário, 
não só madrilenho, mas de todo o Estado espanhol. Atividades variadas como rotas 
históricas, palestras-debate coletivas, comidas e ceias autogestionárias, editoras, 
livrarias e distribuidoras mostrando seus materiais, entrevistas radiofônicas, 
correspondência a presos/as... nutrem de dinâmicas sócio-políticas quatro dias intensos de 
encontros entre companheiras/os e discussão do pensamento libertário. A troca de 
experiências e a comunicação desenvolvidas em um ambiente onde se aposta por entender a 
realidade de uma maneira alternativa e desde a prática da desobediência.

Como integrante do movimento libertário estive ali esses dias para fazer um acompanhamento 
do evento, e trazer esta crônica que pode aproximá-los melhor do conteúdo das atividades 
que se desenvolveram nesta edição. Como ponto prévio, que me parece relevante e necessário 
comentar, é o fato de que o Encontro do Livro Anarquista se celebrou sob o posicionamento 
de vários coletivos e a realização de várias palestras de última hora, devido à gestão de 
atitudes e agressões sexistas no passado pelo entorno da assembleia do espaço onde se 
celebrava. Este posicionamento coletivo é um toque de atenção ao movimento libertário em 
seu conjunto que nos faz repensar a revisão dos espaços nos quais tratamos estas questões, 
e a necessidade de refletir sobre as atitudes na hora de trabalhar com as ferramentas que 
desenvolvemos, o que obviamos, no momento de levar à prática nossos princípios políticos. 
Esta menção prévia não pretende mais que assinalar uma realidade sob a qual se desenvolveu 
o evento, e colaborar com a visibilização de um posicionamento que teve umas consequências 
tanto coletivas como políticas.

Rota histórica pela frente de Villaverde na Guerra Civil espanhola.

Na manhã da quinta-feira 6 de dezembro se abriam as jornadas com uma rota histórica a 
cargo dos companheiros de ‘Contrahistoria', atividade que já vem sendo habitual cada ano 
para iniciar o Encontro do Livro Anarquista. Pouco importava madrugar em um dia festivo 
para estar pontualmente às 10h na estação de renfe de Villaverde Bajo. Mais de uma centena 
de pessoas caminhamos durante várias horas em uma rota que se bem começou sendo urbana 
pisando asfalto, continuou discorrendo pelos caminhos do Parque Lineal.

Entre autopistas e vias ferroviárias, comprovamos que ficaram ameaçadas pelo avanço 
inevitável da cidade as marcas da Guerra Civil espanhola nos combates de novembro de 1936, 
quando as colunas fascistas atacaram Madrid, e a formação das linhas defensivas no entorno 
do rio Manzanares. Também descobrimos alguns vestígios arqueológicos, como um antigo 
povoado carpetano, encurralado e esquecido às margens de uma urbe que invisibiliza a história.

Palestras-debate sobre temáticas de discussão atual.

O ciclo de palestras neste Encontro do Livro Anarquista se iniciou na sexta-feira 7 na 
primeira hora da tarde com uma visão antiautoritária da novela romântica do século XIX a 
partir da obra ‘Frankenstein' de Mary Shelley, relacionando a lenda popular com os contos 
de terror e seu potencial idealista. Esta obra recolhe uma tradição de experimentação 
científica superando os limites repressivos das religiões, e inicia ademais o imaginário 
romântico de criaturas não normativas em uma sociedade que lhes rechaça. Essa mesma tarde 
se desenvolveu a palestra que, provavelmente, derivou em um dos debates mais interessantes 
do fim de semana: as fissuras no anarquismo, ou as falhas na gestão da saúde mental dos/as 
companheiros/as; uma visão bem documentada desde a antipsiquiatria e que nos deixou uma 
leitura recomendada ‘Saldremos de esta', obra de Javier Erro.

No sábado pela manhã se apresentaram alguns projetos de economias sociais que põem em 
marcha práticas libertárias em seu modo de fazer. A economia é um espaço do qual foge 
habitualmente o movimento libertário, mas é importante fazer florescer meios laborais que 
estejam impregnados de valores libertários; se recomenda a leitura de ‘Economía 
anarquista, una visión global' da editora La Neurosis o Las Barricadas. Na hora do café 
pudemos escutar algumas/os companheiras/os da Grécia que nos trouxeram uma perspectiva 
sobre a resistência às políticas anti-imigratórias e a militarização das sociedades. 
Aprendemos, por exemplo, que na Grécia o serviço militar é obrigatório, e se te declaras 
insubmisso, cada vez que te chamem a filas e não atendas, te põem uma multa de 6 mil 
euros, que é acumulável indefinidamente quantas vezes queiram requerer tua presença no 
exército.

No domingo no meio da manhã fomos despertando ao ritmo da palestra ‘Aplicando la anarquía' 
que descreveu as propostas anarquistas clássicas aproximando-as a nosso presente social, 
gerando uma autocrítica para nossas organizações no debate que aconteceu, para concluir na 
necessidade de aplicar os princípios libertários nas pequenas brechas cotidianas. Após a 
comida pudemos falar com companheiras de duas experiências de okupação do entorno rural, o 
povo de Fraguas na serra norte de Guadalajara, e que está okupado desde 2013, pesando 
atualmente sobre elas/os um futuro desalojo, multas escandalosas e penas de cárcere por 
reabilitar um povoado forçado a ser abandonado durante o Franquismo. Um caso similar é o 
de Sieso de Jaca, no Pirineo aragonês, onde umas vinte e cinco adultas e nove crianças 
vivem em comunidade, a 13 anos. Se dão as mãos nestas necessidades comunitárias os saberes 
extintos ou quase perdidos com as utopias que olham para o futuro, o debate em torno da 
convivência nestes espaços rurais e uma crítica à masculinização do rural esteve presente 
em todo momento.

Por outro lado, e como vem sendo habitual nas últimas edições, durante o desenvolvimento 
do Encontro a emissora Rádio Onda Expansiva, realizou entrevistas a diferentes coletivos, 
editoras, distribuidoras, livrarias e individualidades que participaram nesta edição. 
Ademais, se encarregarão de recuperar os áudios das palestras para que estejam disponíveis 
em separado na web dedicada à cobertura radiofônica do Encontro.

Editoras, distribuidoras e cartas a presos/as.

Obviamente que um dos pontos de maior interesse deste Encontro do Livro Anarquista radica 
nas editoras e distribuidoras que vem de muitas partes do Estado espanhol, e inclusive 
alguma internacional. Em seguida mencionarei algumas das que mais me chamaram a atenção, 
com as quais pude falar e comentar quais eram as obras que mais estavam vendendo neste 
Encontro.

Começo com Ediciones Marginales, que fundamentalmente editam panfletos ou fanzines de 
conteúdo primitivista e antitecnológico, recentemente editaram um novo texto que estão 
apresentando intitulado: ‘La Revolución na sociedad posmoderna'.

A editorial La Neurosis o Las Barricadas expôs no evento uma seleção dos três ramos de 
publicações que tem: fanzines, coleção geral de livros de temáticas políticas e sociais, e 
sua coleção de livros elementares, ou pequenas compilações de textos clássicos sobre o 
anarquismo.

A editora Ediciones Inestables nos visitou desde o México D.F. deixando-nos alguns de seus 
exemplares sobre pensamento crítico, arte social, e feminismo, principalmente uma 
compilação de textos de Yayo Herrero, ou alguns clássicos de Emma Goldman. Rojava Azadi 
nos apresentou um ano mais as coleções de livros relacionadas com o Curdistão e o 
confederalismo democrático que a comunidade de Rojava está levando à prática em uma 
revolução social, ecológica e de mulheres que está tendo um importante peso no Oriente Médio.

Libremanuals é una pequena distribuidora que nos aproxima questões informáticas ao 
movimento anarquista, pretende vincular o software livre ao mundo libertário. E em relação 
a este ponto, também destacou a presença da distribuidora Anarquismo en PDF, uma 
biblioteca de todo o movimento libertário na internet, e que também distribuem em papel.

Claro, não poderiam faltar neste Encontro duas editoras clássicas do anarquismo, uma delas 
é a Fundación Anselmo Lorenzo, e a outra a Fundación Salvador Seguí. Os interessantes 
livros da memória do anarcossindicalismo e do movimento libertário no Estado espanhol são 
um bom tesouro para encontrar as raízes comunitárias em nossos territórios. Comprovar quem 
nos precedeu na luta sempre nos oferece uma perspectiva irrenunciável.

O Grupo Surrealista de Madrid, um ano mais acompanhou este Encontro para trazer-nos 
propostas ligadas ao situacionismo e o surrealismo como via para imaginar outras 
revoluções possíveis. Concretamente teve bastante seguimento um livro que editaram 
recentemente intitulado ‘Pensar, experimentar exterioridad', volume coletivo que recolhe 
as palestras que realizaram na livraria Traficantes de Sueños em novembro de 2017.

Desde a província limítrofe, Guadalajara, chegaram nossos/as companheiros/as de Volapük, 
que nos resgatam temáticas e autores ligados aos movimentos sociais atuais, e que estão 
longe do interesse oficial ou acadêmico. Na mesma linha de encontrar a crítica radical e 
social sincera caminham edições Pepitas de Calabaza, que desde Logroño nos vem oferecendo 
interessantes questões de debate político atual no seio do anarquismo social.

Contra Toda Nocividad nos mostrou suas simples auto edições a preço livre, assim como por 
exemplo, Sons of Proudhon junto a Ediciones Irrecuperables tinham uma seleção de livros 
sobre contrapsicologia crítica. Por último ressaltar a presença de editoras de Euskal 
Herria, que ademais, tinham espaço anticarcerário de apoio a presos e presas, assim como 
camisetas em solidariedade com Altsasu. ZAP Ateneo desde Gasteiz, DDT Ediciones desde 
Bilbo e Subetz Banaketak desde Iruñea.

Em geral, as editoras comentaram que as obras mais vendidas ou procuradas neste Encontro 
foram as relacionadas com feminismos, concretamente sobre prostituição, animalismo e 
ecologismo. Obras de movimentos sociais atuais, assim como a temática antifascista. Também 
uma especial menção a livros de poesia e arte crítica, que são sempre bastante valorizados 
para fazer uma imersão na cultura crítica libertária.

Ademais das duas plantas completas onde podíamos encontrar a estas e mais editoras e 
distribuidoras, se habilitou um espaço de cartas a presos/as tanto do Estado espanhol como 
de outros países do mundo. Podias tomar livremente uma folha, caneta e envelope para 
dedicar-lhe umas palavras a algum preso ou presa, sabendo que é fundamental que sintam 
apoio desde fora e desde qualquer parte. Após anotar o endereços dos manuais de endereços 
de dezenas de presos/as, se podiam colocar as cartas a uma caixa de correio do Encontro, 
que posteriormente se encarrega de enviar as cartas a seus destinatários/as.

Espero que esta crônica ajude a repensar, potencializar e difundir o pensamento 
libertário, e que futuras edições do Encontro do Livro Anarquista conservem os acertos e 
se trabalhe arduamente sobre as falhas cometidas, pois disso se trata o caminho dos ideais 
libertários. Até mais, nos vemos nas ruas.

Fonte: 
https://www.regeneracionlibertaria.org/entre-los-anaqueles-de-la-idea-libertaria-cronica-de-la-xvi-edicion-del-encuentro-del-libro-anarquista-de-madrid

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana


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