(pt) Coordenação Anarquista Brasileira - CAB: Opinião da Federação Anarquista Uruguaia sobre as eleições presidenciais no Uruguai.

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Domingo, 1 de Dezembro de 2019 - 07:39:42 CET


"Nas próximas eleições, se definirá o grau de ajuste. Se será maior ou "à la uruguaia", e o grau de repressão que o acompanhará. O que vai vir ficou nítido com 
a repressão à manifestação contra a ingerência da multinacional UPM na Educação. São diferenças de graus, de se o ajuste se processará de forma lenta, gradual, 
progressiva sobre o povo ou se, em vez disso, será "tipo Macri", de uma forma abrupta e cruel. Também vai se definir se haverá ou não políticas de contenção 
diante do avanço da miséria, certos "remendos" que amorteçam os efeitos dessas políticas. ---- Digamos explicitamente: no próximo período o que vai vir é uma 
política de piora das condições de vida do povo. Durante os governos da Frente Ampla houve certa redistribuição, mas os ricos ficaram mais ricos. Agora que a 
economia está se apequenando, os de cima querem uma porcentagem maior da riqueza. É o que acontece sempre em períodos de recessão e crise. Nenhum governo vai 
fazer frente às classes dominantes para frear esse saqueio, por isso dizemos que o que está em discussão é se isso será feito de forma gradual ou rápida e 
contundente.

Um elemento que evidencia nossa afirmação é que, nestas últimas manifestações que se realizaram, aumentou a violência policial. Interrogatórios, prisões, 
espancamentos, policiais à paisana, presença da Guarda Republicana e ordem de dispersar manifestações na base da bala de borracha por nada estão começando a 
fazer parte dos novos elementos desta conjuntura. É que está ocorrendo uma guinada à direita, não importa quem ganhar a eleição. Uma guinada de ajuste com 
garrote. Insistimos, o que está em discussão é a "dose", mas não o ajuste em si.

Nitidamente, nem nesta nem em nenhuma eleição está em jogo o essencial: o poder e as relações de poder na sociedade, entre as classes. Não estão em disputa nem 
em discussão o direito de propriedade e sequer os amplos benefícios usufruídos pelas empresas. Por esse caminho não se consegue apoiar nem potencializar a luta 
operária e popular, nem colocar as propostas do movimento popular. As eleições, assim como o governo, são engrenagens políticas do Estado. O Estado é uma 
instituição de longa data, que não admite modificações profundas dentro dele. No capitalismo, o Estado se tecnificou e se complexificou, virou uma instância de 
condensação de relações de poder e de classes, mas que no fundamental mantém intacto seu funcionamento com o objetivo de manter o poder e a riqueza das classes 
dominantes e, por outro lado, dominar e reprimir as classes dominadas se for necessário. O Estado tem uma essência de classe: é intrinsecamente dos de cima. Por 
isso, quem governar o fará para esses mesmos setores que dominam na sociedade.

Em 1971, em um material intitulado "Tempo de luta, tempo de eleições?", nossa Organização colocava explicitamente: "Alguém poderá pensar: 'mas se tem eleições 
nós podemos, votando bem, colocar lá um presidente da gente, um presidente saído do povo, que esteja do lado do povo, e tudo estará resolvido'. Nisso acreditam 
muitas pessoas e por isso tem tanta gente que vota. Parece fácil. E no entanto há anos que se vai de uma eleição para outra, votando ora em um, ora em outro, e 
as coisas vão de mal a pior.
Será que é o povo que sempre se 'equivoca'? O que acontece é algo diferente. É que dentro do sistema atual, qualquer pessoa que chegar no 'poder' tem que atuar 
em benefício das classes dominantes, senão não chega lá... ou a derrubam. O Estado não é neutro. E muito menos é uma emanação ou representante do povo. Não é 
uma simples 'locomotiva' que pode ser conduzida por qualquer pessoa que consiga a maioria nas eleições. Seria uma locomotiva muito particular, que aceita só um 
maquinista, que dobra sempre para o mesmo lado: o da defesa das classes dominantes, que são as únicas - a experiência mostra isso - que a podem conduzir.

A verdade é que o Estado não é, simplesmente, uma 'locomotiva'. É uma parte constitutiva do sistema, certamente uma das mais importantes. É parte de um sistema 
baseado na propriedade privada dos meios de produção e na exploração da maioria que trabalha pela minoria, que acumula capital baseado nessa exploração. A 
função central do Estado, o que justifica sua existência, é a função do poder. A função de impor ao povo o acatamento da ordem social vigente."

Por isso, quem governa, governa para os de cima, senão não governa ou não deixam governar. O sistema capitalista não tolera nenhum tipo de reforma. Já não temos 
que nos referir à Guatemala e Chile, onde a intervenção estadunidense derrubou governos que tinham impulsionado reformas de certa profundidade. Vejamos hoje o 
ataque grosseiro à Venezuela e as constantes tentativas de invasão e o bloqueio econômico; a potência imperial dos EUA não permite a existência de nenhum 
governo com certo grau de autonomia. Nisso podemos incluir o "golpe brando" no Brasil para frear um papel mais independente do gigante regional em matéria de 
política externa.

Um exemplo concreto ocorreu em 2004, quando Tabaré Vázquez viajou junto com Danilo Astori para apresentar ao FMI o futuro ministro da Economia. De fato, a 
condução dessa pasta não mudou e nada parece indicar que vá mudar.

Para deixar mais nítido: no âmbito do Estado e das eleições em particular, não está em disputa a política econômica, nem a política de moradia, de saúde ou de 
emprego, nem de fomento da indústria e menos ainda do cooperativismo. Tampouco estão em discussão os benefícios fiscais dos ricos e das empresas multinacionais: 
está garantida a retirada de capitais ao estrangeiro, ninguém discute a necessidade dos tratados de livre comércio e a abertura comercial etc. E nem se fala em 
anular a lei de impunidade e desmantelar as Forças Armadas. Ninguém que jogue no sistema político burguês discute os "sagrados direitos" da burguesia, ninguém 
discute nesse terreno o "capitalismo" como sistema social ordenador da vida.

Porque as instituições da burguesia só podem servir à burguesia. Nisso tudo o que se reproduz são privilégios. E ao se colocar um voto em uma urna a cada cinco 
anos não se produz um ato de magia. O que acontece nessa situação, em um domingo folclórico a cada cinco anos, não dissolve o poder. O poder está sendo 
disputado - e a Resistência - todos os dias nos locais de trabalho e estudo, nos bairros, no campo, onde estiverem os oprimidos e as oprimidas lutando e se 
organizando, brigando para tornar dignas suas condições de vida e existência. Fortalecendo essa Resistência se constrói Poder Popular, poder do povo, dos e das 
de baixo. Se constrói capacidade de ação e instituições que prefiguram um mundo novo.

Porque, definitivamente, se as eleições fossem realmente importantes, se algo relevante estivesse em jogo nelas, elas seriam proibidas. Nenhuma classe ou grupo 
social que detenha o poder vai "rifar" o próprio poder a cada cinco anos. As eleições são um mecanismo, um dispositivo que dá certa imagem de "democracia", de 
participação. Evidente que essa participação é falsa, porque a verdadeira participação do povo, por si mesma, geraria uma nova situação político-social, 
permitiria outras possibilidades que não são do agrado das classes dominantes.

Os processos de verdadeira participação popular, aqueles onde o povo foi protagonista de seu destino e construiu, mesmo que de maneira e em tempo limitados, uma 
sociedade diferente, foram por fora do Estado e de toda a dinâmica dele. Desde a Comuna de Paris em 1871, a Revolução Espanhola em 1936 e a construção das 
"Coletividades" em boa parte da Espanha, da Makhnovitchina na Ucrânia durante a Revolução Russa - inclusive os amplos níveis de participação gerados com a 
construção dos Sovietes no primeiro período da Revolução em toda a Rússia -, a imensa participação na Nicarágua em 1979 e anos seguintes, e o atual processo de 
construção social que ocorre em Rojava, região do Curdistão onde estão se construindo comunas com uma ampla participação de mulheres, e isso em um contexto 
geral de guerra na Síria, são apenas alguns exemplos que podemos mencionar em escala mais geral; mas também no âmbito micro podemos ver processos deste tipo em 
todos os lugares.

Apontaremos como exemplo, de passagem, que foram justamente os processos eleitorais e os mecanismos estatais que arruinaram a Revolução Sandinista, porque foram 
os espaços escolhidos pela burguesia nicaraguense e pelo império para derrubar esse processo revolucionário. Por outro lado, as eleições são utilizadas com 
total cinismo pela burguesia e pelas potências mundiais: são exigidas eleições em certos países e não em outros. Ninguém ousa exigir eleições na Arábia Saudita, 
por exemplo, e que essa monarquia absolutista se converta em um país republicano, porque isso não é importante para os EUA.

Portanto, como dizíamos, nas eleições nada importante está em jogo, nada que implique mudanças substanciais, nada que implique modificações profundas nem 
transformações estruturais. As eleições são uma boa reafirmação do sistema capitalista, é uma das engrenagens que garantem o seu funcionamento na esfera 
pública. O povo, nisso tudo, fica totalmente ausente, a não ser para legitimar essa farsa."

(Respostas para o "Hemisferio Izquierdo", outubro de 2019)


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