(pt) anarkismo.net: Retomando o debate sobre o conceito de imperialismo by BrunoL

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Quinta-Feira, 29 de Agosto de 2019 - 08:27:34 CEST


Existe imperialismo e existem potências - no plural sim - imperialistas. ---- Preciso 
começar esta nova série (creio eu) em função de algumas razões óbvias. A primeira e a mais 
sensível das razões porque os conceitos são reais, ou ao menos intentam interpelar, 
interpretar o real vivido como experiência concreta e não apenas o universo imaginário 
(que também forma o real vivido). Ou seja, isso existe, existe imperialismo e existem 
potências - no plural sim - imperialistas. ---- 25 de agosto de 2019, Bruno Lima Rocha 
---- Preciso começar esta nova série (creio eu) em função de algumas razões óbvias. A 
primeira e a mais sensível das razões porque os conceitos são reais, ou ao menos intentam 
interpelar, interpretar o real vivido como experiência concreta e não apenas o universo 
imaginário (que também forma o real vivido). Ou seja, isso existe, existe imperialismo e 
existem potências - no plural sim - imperialistas.
Algumas potências são também herdeiras do colonialismo, e talvez por isso o general Villas 
Bôas, no seu arroubo nacionalista circunstancial, tenha citado Ho Chi Mihn para atingir a 
imagem do presidente francês, o banqueiro Emmanuel Macron. Também existem impérios tardios 
que se alastra na esteira do Império matriz, tal é o caso dos EUA, o alvo da acusação de 
imperialismo de nove entre dez militantes das esquerdas (onde me incluo). Óbvio que do 
Império dos Gringos o mesmo general nada fala. Porque será?!
Outra razão prática do debate sobre o imperialismo é reconhecer as formas contemporâneas e 
sair da vala comum da caricatura. Imperialismo não é apenas uma invasão de fuzileiros 
navais gringos, mas também é isso, até hoje. O imperialismo é a forma superior do 
capitalismo, e nisso até o Lênin está correto - ao menos na análise - mas não só. A União 
Soviética foi imperialista no Afeganistão, seguindo a trajetória da disputa imperial 
anglo-russa nesta mesma região. A relação da China com o Vietnã recém-unificado e liberto 
da invasão dos EUA, isso após combater franceses e japoneses, foi horrorosa. Neste caso, 
Deng Xiao Ping disse a que veio em todas as áreas.
Mas, infelizmente, no século XXI, as capacidades de projeção imperialistas, ao menos no 
campo da economia, reproduzem formas de capitalismo. Hoje, EUA, China, Rússia e União 
Europeia (empatadas as últimas duas), Índia, Irã e Turquia em segundo plano, podem exercer 
pressões em alguma escala, gerando excedentes de poder de modo a violar soberanias e 
internalizar interesses externos para além de suas fronteiras e áreas de influência 
direta. Por seu peso relativo, podemos incluir sem dúvida alguma a Israel e Arábia Saudita 
nesta lista também.
São sistemas políticos, formas de governo e regimes distintos, mas em termos de Economia 
Política Internacional, a soma da concertação estratégica de frações de classe dominante 
com elite dirigente reproduz uma dimensão imperialista. Observemos a corrida ao "eldorado 
africano", uma das bases do renascimento de nosso continente co-irmão: China, França, 
Turquia e até o Brasil (em um belo exercício de cooperação, mas nunca sem críticas) 
disputam ou disputaram espaços importantes, além dos EUA de sempre.
Igualmente é válido debater o tema, pois quase sempre o modelo do século XIX, onde há um 
conjunto de alianças locais que se beneficia da pressão externa - ou da desnacionalização 
das riquezas e da perda de soberania popular - ainda existe e se reproduz. E, pasmem, os 
interesses são muitas vezes de motivação original ideológica - sentido de pertencimento - 
e caminham lado a lado com a mesquinharia típica de quem muito tem, quer mais ainda, e se 
julga com um mérito bem superior ao da maioria.
Cabe também observar que a complexidade do tema pede um debate à altura de sua ameaça, 
incluindo versões muito atuais, como os efeitos quase sempre nefastos da Cooperação 
Jurídica Internacional; da interpenetração de redes sociais e grupos de desinformação (o 
Brasil e a relação com neopentecostais e ultraliberais da escória do Partido Republicano 
exemplificam o problema) e também da loucura mal intencionada como da transloucada e 
perigosa tese da "conspiração globalista".
Por fim, conspiração e presença externa assim como espionagem e guerras híbridas são 
assuntos tão evidentes e sérios que não podemos ser irresponsáveis ao confundir esta 
seriedade com absurdas e delirantes "teorias conspiratórias totalizantes sem evidências 
nem conceitos". O debate urge e os prazos correm (no meu caso, literalmente). Este perfil 
e adjacências aceita (aceitam) sugestões e críticas.
A primeira etapa pós Guerra Fria até o auge posterior ao 11 de setembro de 2001
O mais evidente deste conceito é a presença militar, especificamente dos EUA, operando 
nove comandos combatentes permanentes. A projeção de excedentes de poder pela via da força 
não é exclusividade do Império Gringo, mas a dimensão e o volume em que isso ocorre sim. 
No período pós-Guerra Fria e pré 11 de setembro, o Pentágono inaugura uma etapa que vai 
atender pelo Guerra Total ao Terror (GWOT da sigla em inglês). Há controvérsias se esta 
inicia após o primeiro atentado contra as Torres Gêmeas (em 26 de fevereiro de 1993) ou 
derivados da explosão simultânea das embaixadas estadunidenses em Nairóbi, capital do 
Quênia e também em Dar es Salaam, na Tanzânia (em 07 de agosto de 1998). A escala ganha 
por estas operações após o 11 de setembro é enorme, mas a doutrina já estava estabelecida 
antes. Ou seja, começa com o governo Bill Clinton (Partido Democrata) e segue no governo 
eleito através de fraude, com Bush Jr (Partido Republicano) derrotando a Al Gore.
A concepção de um inimigo multipresente, e de fato, antagônico aos "impérios infiéis" como 
Estados Unidos, Rússia (no Cáucaso) e China (no Turquestão Leste), indica a enorme 
capacidade da Superpotência (através também de seus aliados na Europa, através da OTAN) e 
das potências em ascensão, de projetar seus interesses militares além fronteiras. A 
agressividade das forças especiais dos EUA e da "Guerra ao Terror" - com sequestros 
ilegais em países estrangeiros, cárcere não processado em Guantánamo e campos de 
concentração como em Abu Ghraib (Iraque) e Bagram (Afeganistão) - é a marca dos primeiros 
dez anos pós-11 de setembro.
Outra marca está nas chamadas revoluções coloridas dos antigos Estados soviéticos, como a 
Rosa na Geórgia (2003-2004), Laranja na Ucrânia (2004) e Tulipa no Quirguistão (2005).É 
importante ressaltar que ao mesmo tempo que há incidência através da manipulação cidadã 
via internet e meios de comunicação, também existe, sempre existe, maior ou menor demanda 
social legítima e processos reivindicativos realmente existentes. Como dizem os uruguaios 
"só se organiza o que existe", mesmo que seja com a pior das intenções. O tema da 
Primavera Árabe como "revolução colorida", afora o emprego da internet, não vejo como uma 
aplicação válida. No "movimento verde do Irã", ou "revolução verde iraniana", após a 
eleição de Mahmoud Ahmadinejad e derrota dos "moderados" Mir-Houssein Moussavi e Mehdi 
Karroubi, é evidente que houve tratativa de apoio ocidental, mas a disputa cultural entre 
a interpretação da Pérsia e a sofisticação das camadas urbanas iranianas é tema muito antigo.

Dei estes exemplos para verificarmos um esforço que modestamente faço para retirar os 
rótulos e o "debate de lacração" os quais as parcelas politizadas e mal formadas de nossa 
gente estão expostas e irmos além das denominações por conveniência.
Se a Guerra ao Terror e as "revoluções coloridas" inauguram o imperialismo estadunidense 
no pós-11 de setembro, a avalanche das redes sociais é a marca globalizada de manipulação 
da esfera pública de países inteiros. As evidências são escancaradas com o caso Edward 
Snowden em 2013, já passados cinco anos do estouro da "Farsa com nome de Crise OU da 
Fraude com nome de Bolha" imobiliária e seus derivativos mundo afora. A interconexão das 
consciências, o ataque da esfera pública, a criação de fantoches na sociedade civil que 
podem vir a se massificarem é a marca deste período, radicalizando o processo na subjunção 
das novas direitas às pautas marcadas pelas direitas ainda mais à direita dos EUA. O 
processo que leva à eleição de Trump e sua repercussão globalizada refletem esta nossa 
afirmação.
Bruno Lima Rocha (blimarocha  gmail.com / t.me/estrategiaeanalise) é pós-doutorando em 
economia política, doutor e mestre em ciência política e professor nos cursos de relações 
internacionais, comunicação social e direito. É membro do Grupo de Pesquisa Capital e 
Estado (https://www.facebook.com/capetacapitaleestado/)

https://www.anarkismo.net/article/31517


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