(pt) luta fob: Retomada Aty Jovem: auto-organização e luta da juventude rebelde Guarani e Kaiowá Por RECC/FOB-MS e SIGA/FOB-DF

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Sábado, 10 de Agosto de 2019 - 10:49:38 CEST


Entre os dias dois e cinco de julho de 2019, realizou-se a assembleia da Retomada Aty 
Jovem (RAJ). A RAJ é uma assembléia de base da juventude Guarani e Kaoiwá, formada por uma 
estrutura radicalmente democrática, com a rotatividade das responsabilidades, o que evita 
a centralização de poder. O evento se refere tanto à retomada de terras quanto da 
identidade Guarani e Kaiowá. Guarani e Kaiowá são duas etnias cujo território original 
abrangia o Cone Sul de Mato Grosso do Sul. Fazem parte do grande povo Guarani, que se 
estende por quatro diferentes países da América Latina (Bolívia, Argentina, Paraguai e 
Brasil). A RAJ nasce em 2016, em assembleia realizada na retomada de Paraguassu como 
resultado de anos de articulação interna dos jovens para debater demandas específicas e 
ter mais voz junto à Aty Guasu (grande assembléia Guarani e Kaiowá). Neste ano, a RAJ foi 
realizada no tekoha Pirakua. O povo Guarani e Kaiowá realizou a autodemarcação deste seu 
território tradicional, por onde atravessa o rio Apa, em plena ditadura militar, contra a 
pressão de fazendeiros, entre 1979 e 1986, conforme descrito em nota anterior da FOB 
(https://lutafob.wordpress.com/2019/05/22/recc-ms-aldeia-pirakua-autonomia-e-luta-na-mae-das-retomadas-guarani-e-kaiowa/)

A RAJ é construída de forma autônoma pelos jovens Guarani e Kaiowá: independentemente do 
Estado (por exemplo, Fundação Nacional do Índio e Ministério Público), partidos políticos, 
e das Organizações Não-Governamentais. Por vezes algumas destas instituições são 
convidadas a compor alguma parte da programação, mas não influenciam no processo de 
formação organizativa do encontro.

O tema norteador da assembleia deste ano foi o suicídio. De fato, este é um problema que 
atinge níveis alarmantes. O Mato Grosso do Sul segue liderando o índice de suicídios entre 
indígenas, e especificamente, em relação aos Guarani e Kaiowá.

Discusão nos GTs da assembleia da RAJ
Além deste problema foram abordadas as questões da violência externa e interna, a 
(auto)demarcação de terras, o racismo, o envenenamento da terra através do uso de 
agrotóxicos, que ficou evidente com o ataque químico na comunidade Guyraroka, que além 
disso é ameaçada pela tese do Marco Temporal, outro tema importante.

Os participantes questionaram o estereótipo do jovem guarani e kaiowá, sempre reduzido a 
aspectos negativos, como a violência, o suicídio, o abuso de álcool e drogas, etc. 
Demonstraram, no discurso e na prática, o quanto o estereótipo é falso, pela sua 
determinação no processo de retomada, seu protagonismo na luta e na organização, sua força 
e alegria nos inúmeros cantos e danças, como o guaxiré, e nas rezas que presenciamos.

A FOB foi convidada a participar do encontro e esteve presente através de seu núcleo de MS 
e de uma delegação do núcleo DF. No espaço da RAJ, tivemos a perspectiva de escutar e 
aprender com a organização dos companheiros, além de conhecer melhor suas demandas, e 
fortalecer a aliança entre organizações de luta. Durante o encontro, realizamos 
entrevistas com alguns participantes, que nos relataram diversos problemas de suas 
comunidades.

Chamou-nos a atenção a situação da proletarização dos jovens, inseridos em trabalhos 
precários como corte de cana, em frigoríficos, colheita de maçãs no sul do país, coleta de 
lixo, coleta de materiais recicláveis, construção civil, trabalho doméstico remunerado, e 
também na prostituição. Entendemos que esta situação é consequência da 
desterritorialização causada pelo avanço das frentes de colonização e diferentes ciclos 
das cadeias produtivas no grande território guarani e kaiowá, a exemplo das cadeias de 
produção do mate no século XIX, e sequencialmente, da pecuária e das monoculturas de soja, 
milho e cana-de-açúcar.

Como efeito deste quadro de extermínio e desterro, resultante da violência colonizadora, a 
criminalização, o genocídio e o etnocídio também avançam a passos largos, como nos 
relataram alguns jovens em entrevistas e relatos dialogados nas fogueiras acesas após o 
término das atividades diárias da assembléia. Como exemplo, jovens da retomada de Itahy, 
no município de Douradina, nos contaram sobre o assassinato de um idoso, encontrado com 
marcas de pancadas desferidas contra sua cabeça e tórax, assim como sinais de 
atropelamento. Segundo os companheiros, a perícia negligenciou deliberadamente a situação, 
avaliando de forma não-oficial como "morte causada por abuso de álcool", deixando a 
comunidade sem respostas. O outro caso foi a prisão de um jovem da retomada de Tajasu 
Iguá, no momento encarcerado em Itaporã, brutalmente reprimido pela Polícia Militar, que 
invadiu o tekoha e atacou os moradores com bala de borracha. Tendo em vista que este 
comunicado faz parte de uma serie de notas que lançaremos através de um esforço conjunto 
dos núcleos, que caminharam juntos pelo território de resistência Guarani e Kaiowa, 
trataremos posteriormente dos contextos acima elencados, com maiores detalhes sobre a 
criminalização e o extermínio do povo pelo terrorismo de Estado.

Saímos do encontro convictos de que somente a auto-organização e a histórica luta 
combativa dos Guarani e Kaiowá por território e autonomia, conduzirá as vitórias das 
retomadas dos Tekoha. O espaço da assembléia da RAJ é fundamental para o fortalecimento da 
juventude indígena, em seus esforços coletivos para organizar a resistência por terra e 
liberdade. A FOB se coloca lado a lado dos povos indígenas, buscando unir as lutas do 
campo e da cidade, e construir um sindicalismo revolucionário que também seja 
anticolonial, na defesa dos trabalhadores indígenas submetidos ao trabalho superexplorado, 
em conjunto da defesa das retomadas de terra. Nos posicionamos firmemente contra o 
latifúndio e o agronegócio, faces devastadoras do capitalismo na periferia do sistema 
mundial, e que um dia cairão diante da digna rebeldia popular. A luta indígena não irá 
esmorecer frente à conjuntura de acirramento da luta de classes e do avanço do fascismo no 
Brasil. Portanto cerramos fileiras no avanço das retomadas e autodemarcações pela 
reconstituição integral dos territórios originários dos povos. É preciso construir uma 
greve geral que lance uma ofensiva conjunta dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade 
com a destruição absoluta do latifúndio, por uma terra livre de patrões, para que não 
existam mais senhores sobre a terra. Nas palavras de um guerreiro Guarani e Kaiowá: "É 
chegada a hora de afiar a foice e ir pra guerra".

AVANÇAR AS RETOMADAS, DESTRUIR O LATIFÚNDIO!

TERRA, JUSTIÇA E LIBERDADE: FORA RURALISTAS DO CAMPO E DA CIDADE!

VIVA A RESISTÊNCIA DA JUVENTUDE GUARANI E KAIOWÁ!

https://lutafob.wordpress.com/2019/08/04/retomada-aty-jovem-auto-organizacao-e-luta-da-juventude-rebelde-guarani-e-kaiowa


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