(pt) Coletivo Anarquista Bandeira Negra CABN: O grande teatro conjuntural

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Sábado, 10 de Agosto de 2019 - 10:49:14 CEST


No dia 12 de julho, um conjunto de companheiras e companheiros de diferentes países da 
América Latina se reuniu no Ateneu do Cerro, em Montevidéu, Uruguai, para conversar sobre 
a conjuntura nos distintos países e sobre as lutas que temos travado por um novo mundo, 
socialista e libertário. ---- A peça abaixo, adaptada, foi a contribuição do Coletivo 
Anarquista Bandeira Negra para esse momento. ---- O GRANDE TEATRO CONJUNTURAL ---- Peça em 
processo, que precisa da colaboração de pessoas dispostas a transformar a trama de modo 
que a resolução não seja mais uma farsa burguesa. ---- PERSONAGENS ---- Pessoas de baixo: 
pessoas negras, brancas, indígenas, vestidas em paletas de cores iguais às da plateia que 
fica na parte onde os ingressos são mais baratos ---- Claque, a equipe dedicada a aplaudir 
o espetáculo: maioria branca, vestida de verde e amarelo ---- Super-homem de toga e cueca 
por cima da calça
O palhaço Bozo
Os atores de sempre: ao contrário do Bozo, esses não fazem piadas; são personagens sérios, 
que mexem com leis e planilhas
Jornalistas
Seguranças e guarda-costas-quentes, fardados ou não
CENÁRIO

Palco italiano: quando as cortinas se abrem, vemos que existem vários níveis em que os 
atores se posicionam.

O ritmo das cenas em primeiro plano é uma dança alucinante, enquanto no fundo do palco vão 
passando os atores de sempre, famosos por atuarem em dramas, comédias e tragédias 
anteriores, sempre em seus papéis tradicionais, caracterizados por muitos tapinhas nas 
costas e apertos de mão - mãos que pingam com sangue de indígenas, de negras e negros. Os 
atores de sempre são protegidos pelos guarda-costas-quentes.

O chão do palco é um imenso mar de lama. Lama da Vale, lama que vem de barragens 
estouradas: cidades inteiramente destruídas vão passando pelo palco, escorrendo pra 
plateia. Em outras partes do chão do palco, a cada minuto vão diminuindo as árvores e os 
rios, virando tudo cinza ou verde fosforescente pelos agrotóxicos que personagens espirram 
a torto e a direito como padres ou pastores colonizadores que querem abençoar indígenas.

Na parede do fundo se projetam lives e vídeos do palhaço Bozo, numa estética parecida com 
os vídeos do Estado Islâmico: homens falando detrás de uma mesa.

No topo do palco, pende uma grande faixa com um lema escrito em verde amarelo, pingando 
sangue: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos... No centro do palco, o pahaço Bozo, de 
forma patética, bate continência para milicos ianques.

PRÓLOGO

Um coro de atrizes e atores se ergue de baixo e declama:

Essa peça é um pastelão,
quem assiste diz "Ai não!
Tão de novo me enganando!"

Muitas cenas são patéticas...
Outras, totalmente trágicas
Mas com a nossa atuação,
no fim, a resolução
pode muito bem ser épica!

Com o povo em coro forte,
protagonistas rebeldes,
cenas bem organizadas
pode haver reviravolta:

em vez de farsa ou tragédia
uma obra libertária!

PRIMEIRO ATO

CENA 1

Homens brancos vestindo capas percorrem o palco fazendo ataques a pessoas idosas, 
trabalhadoras, estudantes, indígenas, quilombolas. Um senhor sentado atrás de uma mesa, 
fumando um cigarro e tomando uma coca-cola, faz um vídeo à frente de uma bandeira ianque.

Atores vestindo verde e amarelo, em uma plataforma que fica mais alta no palco, não param 
de aplaudir as cenas violentas.

Nas partes periférias do palco, onde a lama e o agrotóxico se acumulam com mais 
intensidade, as pessoas levantam as vozes e os braços em reuniões e assembleias.

CENA 2

Um redemoinho cênico passa pelo teatro inteiro, tentando envolver as pessoas da periferia 
do palco e da plateia de baixo para fazer parte de um outro pastelão que está sendo 
representado em um teatro próximo: a peça se chama "luta livre", algo assim, mas há um 
aviso que, se você quiser lutar, não pode entrar naquele espaço.

Em um camarote, homens brancos tomam uísque e fumam charutos com sensação de missão cumprida.

CENA 3

A lama e o sangue do palco contrastam com um cubículo em um canto da periferia, com som 
ensurdecedor de microfone, onde o chão é mantido muito limpo. Um homem promete que é 
possível tirar o pé da lama e pisar em nuvens, basta dar uma contribuição mensal e confiar 
na trupe de palhaços.

Todas são convidadas para viver em paz e harmonia nas nuvens! (Menos as lésbicas, as 
trans, as bichas, as mulheres livres, as pessoas que não leem O Livro Certo, as 
maconheiras, as subversivas...)

CENA 4

Um homem vestido de super-homem e toga de juiz aponta pra plateia de baixo, pois algumas 
pessoas estão tentando subir no palco, e manda os seguranças prenderem elas. Os seguranças 
formam um paredão, impedindo a plateia de baixo de assistir grande parte do que está 
acontecendo nele.

Ao fundo do teatro, ouvem-se ruídos de botas marchando. O palhaço Bozo faz piadas no 
centro do palco, rindo de nordestinos, de mulheres e de pobres que morrem antes mesmo de 
se aposentar. Não tem graça nenhuma. Atrás dele, projeta-se a sombra de milicos apontando 
o dedo para a plateia de baixo e para as atrizes da periferia do palco, que erguem faixas 
e gritam GREVE GERAL.

CENA 5

Jornalistas, seguranças, guarda-costas-quentes e os atores de sempre, que estavam dando 
tapinhas nas costas no fundo do palco, agora se colocam na frente do palco fazendo gestos 
para acalmar os ânimos. Enquanto isso, as cortinas se fecham como se nada estivesse 
acontecendo.

SEGUNDO ATO

CENA 1

Antes da cortina se abrir, projeta-se na cortina uma série de mensagens de celular em que 
personagens de terno e toga combinam a trama da peça. Quando a plateia de baixo começa a 
se revoltar, os seguranças voltam a formar um paredão e as cortinas se abrem, revelando 
novamente as cenas alucinantes do primeiro ato.

CENA 2

O super-homem de toga pede silêncio para fazer um monólogo, mas sua dicção não é boa e a 
plateia não entende. Os seguranças arrastam para o palco quatro pessoas, que afirmam serem 
as responsáveis pela projeção das mensagens que deram spoiler da trama da peça.

CENA 3

O palhaço piora o nível das piadas machistas, racistas, LGBTfóbicas, enquanto os atores de 
verde e amarelo riem forçadamente. O super-homem tira do bolso uma folha onde se lê "666", 
e os seguranças passam a cercar um jornalista. Canhões de gelo seco criam uma cortina de 
fumaça tóxica no teatro inteiro.

CENA 4

O barulho de botas marchando se intensifica, mas vemos que algumas atrizes não se 
intimidam e começam a dançar às costas dos milicos. Jornalistas assistem anotando 
freneticamente em seus tablets, filmando, falando em celulares. Estão de costas para um 
canto do palco onde não há iluminação, mas nesse canto do palco um grupo de pessoas está 
resistindo há mais de 500 anos contra os seguranças, os atores de sempre, os 
guarda-costas-quentes e a claque.

CENA 5

As atrizes da periferia do palco chamam as pessoas da plateia de baixo para subirem no 
palco. Confusão, barulheira. No meio disso tudo, é possível ouvir uma fala:

ATRIZES EM CORO: Quantos atos terá essa peça? Será que vai ter cinco atos como as 
tragédias antigas? Será que vai ter três atos como dramas do século passado? Ou será que a 
gente vai conseguir usar o que aprendemos com o Teatro do Oprimido e acabar com essa 
divisão entre palco e plateia, entre protagonistas e público?

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Posted in: Análise Social

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