(pt) federacao anarquista gaucha: Eleições no RS: entre o ajuste e a repressão -- O que dizem as pesquisas de intenção de voto

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Sábado, 29 de Setembro de 2018 - 10:42:48 CEST


Desde 2014, quando o "fenômeno" Sartori surge como um rechaço às promessas não cumpridas 
pelo Partido dos Trabalhadores (naquele ano, sob a figura de Tarso Genro), é possível 
enxergar o ascenso do pensamento de viés conservador pelos pampas gaúchos. ---- Para além 
da eleição de Luiz Carlos Heinze (racista e homofóbico declarado) como deputado mais 
votado naquele ano, hoje as pesquisas de intenção de voto mostram a preferência do 
eleitorado gaúcho entre dois candidatos abertamente de direita ao governo do estado - isso 
para não falar nos 29% de intenção de voto (só no RS) em Jair Bolsonaro (PSL). ---- Para 
além dos nomes, é importante ter em conta o avanço na implementação de um projeto 
neoliberal, com possível respaldo das urnas, que visa a liquidar com o patrimônio e o 
serviço público do estado sob a narrativa ilusória de um retorno positivo na capacidade de 
investimento em educação, saúde e segurança. Quando afirmamos ilusória, afirmamos tendo em 
vista que tanto Sartori (MDB) quando Eduardo Leite (PSDB) são fervorosos defensores da 
adesão ao regime de recuperação fiscal (RRF) como alternativa mágica para sanar as contas 
públicas do RS.

O que nunca é dito é que, em troca dos tão alardeados R$ 11 bilhões que viriam (o que não 
dá nem para um ano da folha de pagamento dos e das trabalhadoras do estado), entre as 
contrapartidas exigidas pela União é a NÃO CONTRATAÇÃO de mais servidores públicos, entre 
eles professores e profissionais da saúde. Ou seja, em troca de uma MERRECA (a nível de 
investimento público), a dita "recuperação fiscal" proíbe a contratação de professores e 
de outros profissionais que hoje já estão em falta. É explicitamente o sucateamento do 
serviço público estadual. Isso para não falar na entrega das empresas públicas, outra 
contrapartida exigida para assinatura do RRF, a troco do simples congelamento no pagamento 
da dívida pública por alguns anos. É a lapidação escancarada de um patrimônio da população 
gaúcha, e que representa também a entrega da gestão de serviços e recursos estratégicos 
para o estado, hoje ainda sob algum grau (mínimo, é verdade) de controle coletivo.

José Ivo Sartori, que apareceu como o "gringo boa-praça" e sem nenhum projeto expresso na 
campanha de 2014, fez grandes estragos nos últimos quatro anos e reafirma nesta eleição 
que vai seguir aprofundando o receituário neoliberal. Eduardo Leite, tentando a todo custo 
se fazer passar por alternativa de "novidade", já mostrou em Pelotas o que um governo 
tucano é capaz de fazer: acórdão com todo mundo para sucatear serviços e avançar na 
privatização, mesmo que à custa da vida de várias pessoas. Lembramos aqui o caso absurdo 
de várias mulheres que sofreram e sofrem com a fraude dos exames pré-câncer de colo de 
útero, em que os exames da rede municipal teriam sido feitos por amostragem, mascarando 
diagnósticos de câncer graves, porém tratáveis se identificados a tempo. As primeiras 
suspeitas e denúncias ocorreram no ano de 2014, ainda quando da gestão de Eduardo Leite, e 
desde então outras denúncias foram feitas, mas nenhuma providência tomada. Até o momento 
se tem o registro de duas vítimas fatais. Duas mulheres mortas e outras tantas 
prejudicadas que ainda não se pode mensurar.

Esse projeto neoliberal, que tem como grandes expoentes os candidatos acima citados, só é 
possível à base de muita repressão. Não por acaso uma série de medidas tomadas em conjunto 
entre os governos do estado e governos municipais materializam graves ataques às 
liberdades individuais e coletivas. Entre as medidas tomadas estão a conferência de poder 
de polícia às guardas municipais, a proibição de propaganda e manifestações, a 
criminalização da pobreza e de alguns grupos sociais, o cerceamento de liberdades via 
códigos de convivência, entre outras medidas. Também vem pela esteira da repressão o 
projeto de lei aprovado pela assembleia legislativa, com a complacência da bancada 
petista, que permite aos grandes empresários destinarem seus impostos diretamente para as 
polícias do estado. Ou seja, é garantido que o dinheiro que deveria ir para áreas como 
saúde e educação banque diretamente o braço armado do Estado, de modo a reforçar o 
controle da insatisfação popular (resultado das políticas de ajuste) pela violência.

Por isso, é preciso lembrar sempre que Sartori e Eduardo Leite são a versão gaúcha do 
governo Temer: todos aliados contra o povo!

O fracasso das candidaturas de oposição

Se, por um lado, a sanha privatista parece dominar o debate eleitoral, ainda que 
veladamente (pois o aspecto sujo de suas propostas nunca vem à cena), as candidaturas que 
se colocam como progressistas ou à centro-esquerda parecem estar longe de emplacar. Miguel 
Rosseto (PT) busca reencarnar a figura quase mítica do governo Olívio Dutra, no qual foi 
vice, adotando um discurso que aponta bem as contradições do atual governo (atraso de 
salários, falta de respostas concretas à narrativa da crise), mas as quais permanecem sem 
solução também por parte de seu partido (vide São Leopoldo, onde o atraso de salários 
segue na ordem do dia mesmo sob a gestão petista).

Já Jairo Jorge (PDT) segue por uma estratégia bastante similar àquela aplicada por Ciro 
Gomes a nível nacional, ao tentar arrebatar os votos dos desiludidos com o PT. É o 
candidato que encampou o discurso de defesa do Banrisul público e que colocou a pauta 
entre os candidatos ao governo do estado, inclusive levando Eduardo Leite a recuar (ao 
menos no discurso) sobre a necessidade de se vender o banco. Todavia, seu nome nas 
pesquisas está bem longe de emplacar, muito distante dos quase 80% de aprovação que teve 
na gestão de Canoas - possivelmente por não ter sido possível reeditar a aliança que fez 
quando prefeito, em que 16 partidos compunham seu governo e traziam para dentro dele todo 
tipo de interesses.

E o que tudo isso nos diz? Que atualmente sequer é possível crer nas eleições como via de 
manutenção de bens e direitos coletivos, quanto mais como via de transformação da 
realidade com ampliação no acesso a direitos básicos por parte dos setores mais oprimidos. 
Nós, enquanto organização herdeira de uma tradição política de prática e pensamento 
libertários, nunca caímos neste canto de sereia. No entanto, nos deparamos cotidianamente 
em nossos locais de inserção (bairros, escolas, fábricas, movimentos sociais) com esse 
discurso por parte de direções recuadas e vinculadas às disputas de poder pelos mecanismos 
liberal-burgueses.

O movimento sindical na atual conjuntura

Ao longo dos quatro anos de governo Sartori, o movimento sindical, dirigido pelos pelegos 
da Força Sindical, da UGT ou então da CUT, pouco ou nada teve a contribuir. Os primeiros 
sempre na conciliação aberta com patrões e governos, enquanto a CUT centrava forças nos 
jogos de cúpula com deputados e burocracias sindicais. Sobre a Central Única dos 
Trabalhadores, sua opção foi de NÃO fomentar a organização pela base para derrotar o 
ajuste do gringo (às custas de direitos coletivos) e o aumento do aparato repressivo (este 
sempre voltado contra aquelas e aqueles que ousam resistir). Preferiu apostar na velha 
tática de "desgastar o governo", evitando assim o risco de perder a direção dos aparelhos 
e visando sempre às próximas eleições.

O melhor exemplo disso é o CPERS: foram três greves em quatro anos de governo que 
desgastaram apenas uma categoria já massacrada pela política de congelamento e 
parcelamento de salários. Em 2017, a direção do CPERS, em meio a maior greve dos últimos 
tempos e que no início contou com apoio popular massivo, preferiu realizar previsíveis 
manifestações na Praça da Matriz do tipo "comício", com caminhão de som acima e 
expectadores abaixo. Ao invés de apostar em uma greve que quebrasse a normalidade, com 
descentralização de ações pelo estado, com ação direta e em parceria com comunidades para 
emparedar o governo, a direção cutista no sindicato dos professores fez a categoria crer 
que quanto mais se luta, maior o risco da categoria ser atacada. Ao fim, debaixo de um 
gazebo na praça, disseram: "nossa respostas será nas urnas". Pois aqui estamos: nem o 
governo Sartori foi derrotado, nem o candidato preferido da burocracia cutista tem chances 
de vencer. Toda energia e revolta contra Sartori canalizada para o jogo institucional, 
colocando as trabalhadoras e os trabalhadores como espectadores, só resultou em derrotas, 
em piora das condições de vida, em aprofundamento das precarizações de trabalho e o 
enfraquecimento de uma cultura de participação sindical.

Nós dizíamos e seguiremos dizendo: nossa resposta tem que vir da organização pela base, 
pelos locais de trabalho. Para respondermos nas ruas! A tarefa é longa e árdua, mas é 
primordial a retomada e a reconstrução das instâncias de participação política que 
historicamente pertencem ao andar de baixo (sindicatos, agremiações estudantis, 
associações de bairro, movimentos sociais), independentes de patrões, partidos e governos. 
Enquanto se espera que as eleições resolvam tudo, nesse meio tempo avança o projeto anti 
povo no Rio Grande do Sul. Por isso, o mais importante para o movimento sindical e social 
é o que fazemos entre uma e outra eleição, que é militar pela organização de um povo forte 
que garanta direitos e avance para novas conquistas.

Federação Anarquista Gaúcha - FAG

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2018/09/26/eleicoes-no-rs-entre-o-ajuste-e-a-repressao/


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