(pt) Liga-rj: Reflexões: "Camus: o sindicalismo revolucionário"

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Sábado, 22 de Setembro de 2018 - 06:32:11 CEST


A virtude não pode separar-se do real sem se tornar em princípio de mal. Mas também não se 
pode identificar absolutamente com o real sem se negar a si mesma. ---- O valor moral que 
a revolta põe a claro não está acima da vida e da história, como a vida e a história não 
estão acima dele (...) ---- A civilização jacobina e burguesa supõe que os valores acima 
da história e a sua virtude formal é uma mistificação repugnante. A revolução do século XX 
decreta que os valores só existem no devir histórico e a sua razão histórica justifica uma 
nova mistificação. ---- O sentido da medida ensina-nos que é preciso algum realismo em 
qualquer moral; a virtude que é assassina; e que é preciso alguma moral em qualquer 
realismo: o cinismo e assassino. É por isso que o palavreado humanitário não tem mais 
fundamento que a provocação cínica.

Enfim, o homem não é inteiramente culpado, porque não começou a história; nem inteiramente 
inocente porque ele a continua. Os que ultrapassam esse limite e afirmam a sua inocência 
total acabam no desespero da culpabilidade definitiva. Pelo contrário, a revolta os coloca 
na condição de uma culpabilidade calculada.(...) O fins justificam os meios? É possível. 
Mas quem justifica os fins? A esta pergunta, que o pensamento histórico deixa em suspenso, 
a revolta responde: os meios. (...)

Quanto a saber se uma tal atitude encontra expressão política no mundo contemporâneo, é 
fácil evocar, como um exemplo apenas, o que tradicionalmente se chama sindicalismo 
revolucionário. Este sindicalismo não é ineficaz? A resposta é simples: foi ele que, num 
século, melhorou prodigiosamente a condição operária, passou da jornada de 16 horas/dia 
para a jornada de 40 horas semanais.

O Império Ideológico fez regredir o socialismo e destruir a maior parte das conquistas do 
sindicalismo. Porque o sindicalismo partia da base concreta - a profissão - que está para 
ordem econômica como a comuna para a ordem política, célula viva a partir da qual se 
edifica o organismo, enquanto a revolução cesarista parte da doutrina e procura forçar a 
realidade a ajustar-se aos seus padrões. O sindicalismo, como a comuna, é a negação do 
centralismo burocrático e abstrato em benefício do real.

Pelo contrário, a revolução no século XX pretendeu apoiar-se na economia, mas foi primeiro 
que tudo política e ideológica. Não pode, em virtude disso, evitar o terror e a 
violentação do real. A despeito das suas pretensões, parte do absoluto para modelar a 
realidade. Inversamente a revolta parte do real e, num combate perpétuo caminha para a 
verdade.

Assim, a primeira (revolução política ideológica) tenta realizar-se de cima para baixo, a 
segunda (revolução social) de baixo para cima. Longe de ser romântica a revolta toma 
partido pelo verdadeiro realismo. Se quer a revolução, qure-a a favor da vida, não conta 
ela. Por isso parte de realidades concretas, a profissão, a aldeia, onde transparece o 
ser, o coração vivo das coisas e dos homens. Para ela a política deve submeter-se a esta 
verdade. Para terminar, quando faz avançar a história e e alivia a dor dos homens, o faz 
sem terror, se não sem violência, e nas condições políticas mais diversas.

Mas este exemplo vai mais longe do que parece. Precisamente no dia em que a revolução 
cesarista triunfou do espírito sindicalista libertário, o pensamento revolucionário perdeu 
um contrapeso de que não pode privar-se sem fracassar. A história da I Internacional, em 
que o alemão luta sem cessar contra o pensamento libertário dos franceses, espanhóis e 
italianos, é a história da luta entre a ideologia alemã e o espírito mediterrânico. A 
comuna contra o estado, a sociedade concreta contra a sociedade absolutista, a liberdade 
refletida contra tirania irracional, o individualismo altruísta contra a colonização das 
massas, são as antinomias que traduzem uma vez mais a longa confrontação entre o sentido 
da medida e a falta desse mesmo sentido que anima o ocidente desde a antiguidade.

(...) Mas o absolutismo histórico, a despeito dos seus triunfos nunca deixou de chocar com 
uma exigência invencível da natureza humana de que o Mediterrâneo, onde a inteligência   é 
a irmã da luz intensa, guarda segredo. Os pensamentos revoltados como os da comuna ou do 
sindicalismo revolucionário, não cessaram de proclamar essa exigência face, tanto ao 
niilismo burguês como ao socialismo cesarista.

O pensamento autoritário em consequência de três guerras e graças à destruição física de 
uma elite de revoltados, afogou esta tradição libertária. Mas esta triste vitória é 
provisória, o combate continuará sempre.

Sobre Albert Camus e o livro O Homem Revoltado:

"O Homem Revoltado Albert Camus. Quando foi publicado pela primeira vez em 1951, O Homem 
Revoltado valeu a Albert Camus um verdadeiro linchamento promovido por intelectuais 
franceses encabeçados pelo romancista e filósofo Jean-Paul Sartre. O ataque de Camus aos 
crimes perpetrados em nome da revolta repercutiu mal, e ele ainda foi acusado de defender 
a liberdade de forma simplista, privilegiando a questão individual. Foi assim que, por 
várias décadas, a complexidade de seu pensamento foi reduzida a uma tese de direita.

Stálin ainda vivia, muita gente começava a se desentender com o Partido Comunista, mas 
apesar disso Camus não podia ser perdoado ao criticar igualmente a violência e o 
totalitarismo de direita e esquerda. Não se podia aceitar uma crítica tão forte contra as 
prisões e os assassinatos perpetrados em nome da revolução. O novo humanismo de Camus - 
talvez por vezes contraditório, mas certamente sincero - era repudiado radicalmente."

Comentários:

Algumas tendências anarquistas na América Latina há muito flertam com o autoritarismo e o 
populismo. Talvez o pior destes momentos foi o apoio de algumas organizações anarquistas à 
ditadura cubana e que hoje ganha sua nova versão com anarquistas, sobretudo na América do 
Sul apoiando a ditadura venezuelana e em silêncio contra a ditadura na Nicarágua.

A cultura Brasileira e de toda a Latino América demonstram nitidamente uma tendência 
autoritária nas suas populações em todas as classes, gêneros, etnias e sexualidades.

Organizações anarquistas no Brasil introduziram elementos "conceituais e teóricos" 
originários do marxismo como: autoritarismo, centralismo, verticalização e cientificidade. 
Tentativas contínuas de transformar a cultura anarquista em uma simplória, tacanha e 
limitada "teoria política" com verniz "científico" roubado envergonhadamente dos 
autoritários marxistas está em curso no Brasil e também em outros países como Uruguai, 
Chile e Venezuela.

Constatações e considerações postas é necessário manter o caráter libertário da cultura 
anarquista e seguir com a construção das organizações de trabalhadores e organizações 
anarquistas para além do câncer autoritário e da droga do individualismo autoindulgente 
burguês que se incrustou no movimento anarquista.

Contra a verticalidade a descentralização. Contra o centralismo o federalismo 
autogestionário. Contra o autoritarismo a liberdade.

Leia o livro completo: Camus, Albert. 1951. O homem revoltado.

Tradução e comentários: Heitor dos Rios (colaborador).

https://ligarj.wordpress.com/2018/09/18/reflexoes-camus-o-sindicalismo-revolucionario/


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