(pt) A FAG e o Socialismo Libertário: Relato de um militante que encontrou um lugar na esquerda revolucionária que não cede ao vai autoritarismo

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Quinta-Feira, 29 de Novembro de 2018 - 08:12:12 CET


Quando descobri a esquerda, foi por entender que muita gente em muitos momentos históricos 
lutaram por um mundo justo, sem exploração e opressão. Me identifiquei e soube mais ou 
menos por onde canalizar meu sentimento de indignação diante da injustiça. Tinha 15 anos e 
buscava informação onde achava (na época que mal havia internet discada). No mesmo 
processo me afastei do modelo estatista stalinista, provavelmente parte de um movimento 
pós-Muro de Berlim, embalado por trabalho de base petista e, depois, pelos fóruns sociais 
mundiais. Quando entendi um pouco das disputas, achava que a única alternativa 
revolucionária ao stalinismo era o trotskismo. Ao mesmo tempo, estava no movimento 
estudantil, criando coisas em nível local de forma coletiva com pessoas incríveis, na 
peleia contra a ALCA, contra o sucateamento do ensino no governo FHC. O anarquismo, na 
época, só parecia algo distante.

Esse "início" militante me lembra a luta pelo transporte público na cidade de Pelotas e 
meu primeiro embate com a esquerda no poder. Foi no governo municipal do PT em Pelotas, 
nos idos de 2000, quando experenciei estar à esquerda do que era o governo da "frente 
popular". Ainda que minha "entrada na militância" tenha se dado, em grande parte, através 
do PT antes do governo na cidade, logo entendi que havia alternativas.
Também vi na greve do magistério durante o governo estadual do PT um exemplo: a luta não 
para por que um governo se elege com slogans ou histórico de esquerda. De certo modo eu 
nunca soube ser de esquerda sem ter que enfrentar em alguma medida a burocracia de 
esquerda no poder de governos, sindicatos, grêmios estudantis ou diretórios de estudantes.

De lá pra cá, estive em dois partidos à esquerda do PT. Com ambos meu problema, sem eu 
saber conceituar muito bem, foi o centralismo (dito democrático), a hierarquia dura, o 
método de decisão por cúpulas, a tática eleitoral e os personalismos. Um autoritarismo 
destrutivo difícil de se desmanchar. Os meios não fechavam com os fins. Por isso, também 
tentei militar sem estar organizado em partido (ainda que muito próximo
a esses partidos).

Tive, por anos, dificuldade de achar um lugar me mantendo socialista, defensor da 
organização e da democracia radical. E daí chegou 2013, esse ano que ainda não acabou. 
Quando o lulismo em crise e o PT transformado de vez em partido da ordem... Tudo foi posto 
em cheque e as tradicionais lideranças da esquerda pouco souberam intervir. Afinal existia 
vida fora das instituições, fora dos partidos tradicionais, fora do horizonte
governamental, fora dos métodos e repertórios da esquerda institucionalizada e 
domesticada. É verdade que não tivemos ganhos organizativos permanentes. Mas, mesmo que 
adormecidos, seguem existindo os anseios daquelas ruas rebeldes, ainda que latentes, 
confusos. Muita gente se formou ou se reinventou nesse período. As ocupações de escolas e 
universidades talvez sejam (até agora) as grandes heranças de 2013.

Mas na crise da representação, dos partidos e instituições, também há uma crise de fórum 
pessoal. E eu estava perdido. Aquele clima libertário em 2013 me encantava, mas me fazia 
pensar que eu não podia abandonar o socialismo por uma ideologia anti-organização ou 
imatura. Porque a esquerda tradicional me fez acreditar por anos e anos que era disso que 
se tratava tudo que cheirasse a anarquismo. Ou era desorganização, ou
era infantilidade, ou era individualista. Pra isso, precisou negar a história, as disputas 
políticas em jogo desde o século XIX no campo socialista. Precisou afirmar do alto da 
soberba quem é maturidade e quem é infância, quem é ciência e quem não é, quem é 
organizado e quem não é. Tudo para destruir a pluralidade na esquerda.

Nem todo mundo na esquerda sabe, mas o anarquismo é socialista desde que nasceu como 
organização na Primeira Internacional - com a Aliança da Democracia Socialista (mesmo o 
termo "anarquista" se consolidou depois disso). E o problema da ala federalista com a ala 
marxista era - vejam só! - o centralismo, o personalismo, o eleitoralismo com aposta no 
Estado, a hierarquia, o autoritarismo, o oportunismo. Eu, que me achava bem formado na 
esquerda, não sabia que a minha crise pessoal era, em grande parte, a crise que produziu o 
dissenso entre o socialismo libertário (anarquista) e os outros socialismos, tanto ou mais 
reformistas e social-democratas quanto os mais revolucionários. Era uma diferença profunda 
sobre quais meios utilizar. Mas na organização comum da história do socialismo no meio 
militante se recorta apenas a divergência entre marxistas revolucionários e 
social-democratas. E depois entre marxistas pró e anti stalinismo. Apaga-se a história e a 
teoria da esquerda para se construir uma forma única de entender (e lutar) o socialismo. E 
assim, em macro-escala, segue a confusão marxista entre revolução social e tomada do 
poder, entre classe e partido. E assim segue, em cada micro-espaço, os métodos 
autoritários, o culto personalista, o sectarismo e o dogmatismo.

Assim, percebi que minha crise não era com os partidos ou com a esquerda, mas com um 
paradigma que nem sempre foi hegemônico (veio a ser algo assim após a "vitória" da 
revolução russa). Parece bobagem, mas não é fácil, em meios militantes, ter acesso a 
versões da história e da teoria que te informem ser possível ser socialista revolucionário 
sem ser marxista e muito menos leninista. Há na própria esquerda marxista uma ignorância 
constrangedora (há quem nem entenda como pode existir partido e federação anarquista ou 
que as conquistas de direitos trabalhistas no Brasil são frutos de muito suor e sangue 
anarquista nas primeiras décadas do século XX).

Esses processos de apagamento e, muitas vezes, de difamação (além de traições históricas), 
no entanto, não conseguiram destruir princípios e métodos como democracia direta, ação 
direta, independência de patrões, partidos e governos e articulação desde a base. Eles 
seguem aparecendo aqui e ali, difusos ou não, cheios de rebeldia e sonhos, construídos por 
quem percebe que os meios não podem justificar os fins, mas que os meios definem os fins.

Foi graças à defesa do socialismo e da liberdade de muitas gerações que deram suas vidas 
em vários cantos do mundo que esses métodos e princípios seguiram existindo. E graças a 
essa teimosia de não se deixar matar que a Federação Anarquista Gaúcha - FAG pôde existir 
e se tornar, junto às demais organizações da Coordenação Anarquista Brasileira - CAB, um 
lugar para mim e tantos outros militantes. Um lugar para quem não se curva às tentações 
eleitorais que sempre nos levam aos mesmos problemas da domesticação e burocratização da 
luta social. Um lugar que não cede às tentações da conciliação com patrões ou governos. Um 
lugar a partir do qual se luta com princípios que se deseja serem os princípios da sonhada 
nova sociedade.

Parabéns à FAG, que neste mês completa 23 anos de existência!
E obrigado por ser este lugar.

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2018/11/27/a-fag-e-o-socialismo-libertario/


Mais informações acerca da lista A-infos-pt