(pt) anarkismo.net: Nota das mulheres da FAG: gênero e conjunturaby Mulheres da FAG - Federação Anarquista Gaúcha

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Sábado, 3 de Novembro de 2018 - 08:19:26 CET


"Todos os nacionalismos tem gênero, todos são inventados e todos são perigosos[...]no 
sentido de que representam relações com o poder político e com as tecnologias da 
violência." ---- - Anne McClintock ---- Uma crise política decorrente de múltiplos fatores 
como os interesses vorazes do capitalismo financeiro, a corrupção na máquina estatal, o 
sentimento da falácia do poder político com autorização popular por meio do voto, 
contribuíram para o cenário de profunda fratura social que vivenciamos nesse momento no 
Brasil. Parte dessa indignação que sente nosso povo acontece porque a ilusão de aumento de 
renda decorrente do crescimento do consumo - política dos anos de lulismo - não soluciona 
problemas da precariedade do povo e nem outras desigualdades estruturais cimentadas no 
machismo e no racismo. A insatisfação com um modelo político que não permite participação 
popular, com a corrupção sistêmica de uma classe política privilegiada, com os milhões 
roubados pelo capital, com a carestia de vida e a violência que vem da desigualdade, em 
choque com os chamados "temas morais" e com os setores que querem manter seus privilégios 
levaram à fratura da sociedade brasileira.

Nesse cenário, ganha vulto a candidatura de Jair Bolsonaro, que representa brutalidade, 
horror, desumanidade. Construída sob forte apelo nacionalista, escancara o avanço 
conservador da extrema direita e o pensamento fascista no país, onde a (o) cidadã(o) comum 
vê nessa figura a representação da solução de angústias e problemas imediatos, ainda que 
não reflita e consiga medir as consequências de sua escolha extremamente violenta e 
cerceadoras das liberdades individuais. O povo deseja uma mudança, mas não percebe que 
essa mudança não virá através de um projeto fascista de um falso salvador como o 
Bolsonaro, ele mesmo faz parte dessa estrutura podre. O sucesso da campanha virtual dele 
também tem a ver com a sensação de ausência de voz, espaço de expressão na vida pública, 
que encontra recipiente nas redes sociais. Esse projeto de poder anda de mãos dadas com um 
grupo que quer uma sociedade construída pela religião que não inclui, feitas por homens 
que decidem o que é pecado, feita pela lei do dinheiro e da exploração do povo garantidas 
na bala.

Porém, um dos fatores de adesão a essa figura são as questões comportamentais e as que 
envolvem gênero - os "temas morais". Ele é um líder que se posiciona contra toda uma 
construção dos movimentos sociais e populares, feministas e LGBTQI+ que defendem a 
igualdade e justiça social, refletindo em políticas de ações afirmativas, de combate à 
violência a grupos marginalizados, de fortalecimento da representatividade e empoderamento 
daquelas e daqueles que sentem a exclusão, a exploração e as humilhações diárias. Esses 
pequenos avanços conquistados pelos movimentos sociais realmente abalaram as estruturas de 
quem vive em privilégios e vê a "ordem" das suas estruturas sacudidas por grupos com quem 
antes podiam evitar convívio, ridicularizar, ignorar ou até eliminar. Por isso, uma 
candidatura e um governo como os representados pelo capitão da reserva apelam para um 
imaginário onde os privilegiados estavam confortavelmente usufruindo de seu ambiente 
seguro: sem denúncias, sem precisar repensar atitudes, sem precisar desenvolver empatia, 
sem precisar conviver com "o outro", ou seja, vivendo do lado favorável das hierarquias 
sociais. Mesmo quando a(o) sujeita(o) circula por diferentes inserções sociais, podendo 
ora usufruir de privilégios, ora de opressão: um homem pobre, uma mulher branca, um 
LGBTQI+ católico, uma negra heterossexual...

Quando ele diz que vai acabar com todos os ativismos, que vai acabar com os "coitadismos" 
dos negros, mulheres e LGBTQI's, está dizendo que nós podemos existir desde que não 
reivindiquemos nossos direitos. Está incorporando o poder da soberania de estado que julga 
poder decidir quem pode viver e quem deve morrer. Esse é o recado do projeto de poder que 
está posto. A defesa do fim dos ativismos é a defesa pública do ódio às mulheres, negros, 
lgbtqis, imigrantes, de todos que se colocam em luta por direitos.

A aderência do discurso moralizante consegue penetrar inclusive nas(os) de baixo, pois em 
algum âmbito pode estar dialogando com os preconceitos construídos ao longo de uma vida e 
inseguranças sobre suas vivências enquanto indivíduo. Apesar do potencial sofrimento de 
alguns sujeitos que não cabem na universalidade, alguns oprimidos podem defender discursos 
do opressor, porque viveram toda uma vida submetidos aos elementos da opressão. Daí 
decorre muitas vezes uma dificuldade de construir identidades positivas e autônomas, de se 
ver de outra forma, e explica o apoio, ainda que muito pequeno, de mulheres, negros e gays 
ao Bolsonaro, por exemplo.

Assim, o aumento do debate sobre as diferentes formas de preconceito impusionado pelos 
movimentos sociais e um maior posicionamento de parcela das(os) brasileiros sobre 
determinados assuntos, transformando algumas situações antes toleradas e naturalizadas 
como inaceitáveis, produz um ambiente desconfortável a todas(os) que de repente se veem 
agindo "errado", que são interpelados, quando sempre considerou que era "certo". Vemos com 
isso que o racismo e o machismo universalistas dificultam mudar os lugares de poder. Tem 
gente que realmente acha que somos todos iguais, tem dificuldade de compreender que é 
preciso momentos de diferenciar para igualar. E isso precisa ser trabalhado, para 
transformar o desconforto em desconstrução de privilégios.

Aqueles que lutam contra o racismo, o machismo, a homofobia, a intolerância religiosa, 
etc, tornam-se um problema num contexto como esse, são esses grupos que parecem estar 
produzindo "inversão de valores" considerados os certos. Mas quais valores? Os valores do 
silenciamento, da violência, da negação de escolhas e possibilidades de ser, da repressão, 
da manutenção das estruturas de poder e do status quo. Quando se expressa um "resgate nos 
valores" é a manifestação da vontade de resgate da estrutura escravocrata de sociedade, 
patriarcal, heteronormativa e negadora de diversidade cultural. Esse resgate é a busca por 
grupos privilegiados em não perderem o sentido de seu mundo que está sob questionamento. É 
uma forma de preservar o passado e atualizar o racismo colonial Por isso tanta indignação 
com conquistas mínimas que nosso povo arrancou.

O nacionalismo que impulsiona a candidatura do Bolsonaro se materializa nas cores da 
bandeira, na ideia de pátria, numa ideia mentirosa de unidade. Vem de uma ideia de nação 
unificada mestiça e indiferenciada. Mas não podemos esquecer que a arquitetura estatal é 
racista, patriarcal e genocida que usa o medo como tecnologia de controle. O Estado tem o 
monopólio da violência legitimado pelas instituições. As classes dominantes têm a polícia 
e as forças armadas para proteger seus privilégios, reprimir manifestações e exterminar a 
população negra e pobre.

O nacionalismo do Bolsonaro é mentiroso, se estrutura na transmissão do poder e da 
propriedade masculinos. As nações se organizam na diferença de raça e gênero, e nenhuma 
nação do mundo dá a nós mulheres os mesmo direitos. A nação que o Bolsonaro quer construir 
é uma nação só para os homens, brancos e ricos, autorizados a fazer o que quiserem com os 
outros mediante uso da força. A instituição mais essencial para isso é a família. Ele fala 
muito na família do cidadão de bem, mas a família que ele defende é uma imposição, pois 
desconsidera muitas outras formas de ser família. É uma família que torna a 
heterossexualidade norma e que torna natural a subordinação das mulheres aos homens e das 
crianças aos adultos. No âmbito coletivo, entendendo o estado como uma expressão ampla do 
poder patriarcal, essa ideia de família também legitima uma hierarquia nacional de homens, 
brancos e ricos como superiores, e todos os demais subordinados em nome de uma unidade 
inventada de interesses comuns.

A retórica da austeridade que os políticos usam só beneficia o capital. As violências 
econômicas do ajuste fiscal, que tende a se agudizar muito com a política econômica 
ultraliberal prometida por Bolsonaro, aumentam nossa vulnerabilidade diante da violência 
machista, que tem o ápice no feminicidio, mas que nos atinge diariamente de múltiplas 
formas. Esse projeto autoritário visa atacar as poucas políticas públicas que temos hoje, 
como atendimento de vítimas de violência doméstica, atendimento de saúde e acesso ao 
aborto nos casos permitidos, fim das políticas de educação para a igualdade de gênero, das 
políticas de assistência social, acesso a serviços públicos, etc...

Entendendo a quem serve esses mecanismos de poder, não esqueçamos que todos os governos, 
inclusive os de esquerda, também sempre leiloaram nossos corpos. Não são políticas de 
governos, mas políticas de estado e projetos de nação que sistematicamente nos excluíram. 
Com um governo Bolsonaro, teremos ainda mais ameaças às nossas liberdades, já que nossos 
corpos serão uma preciosa moeda de troca com os setores poderosos e as forças no congresso 
para manter as coisas em "ordem".

O aprofundamento neoliberal que nos vende tudo, até o necessário para inventar um corpo 
ideal (padrão) custe o que custar, manipulado para servir ao desejo dos homens e nunca aos 
nossos, também vende a ideia que o corpo das mulheres está à venda para fins sexuais. Por 
um lado, querem que sejamos a esposa que trabalha de graça, por outro, o corpo sexualmente 
explorado da prostituta. Esse é o verdadeiro modelo da família tradicional brasileira: o 
da servidão das mulheres ao desejo dos homens, submetidas ao seu poder.

É provável que haja um aumento de estupros de crianças e mulheres sem o necessário debate 
de gênero e sexualidade e com autorização que o Bolsonaro confere para seus seguidores 
imporem sobre nós suas vontades, inclusive por motivação política. Estupro é uma questão 
de poder, não de sexo. A violência contra as mulheres é sempre correcional. É para tentar 
nos corrigir quando não ficamos "no nosso lugar". A atualização da inquisição tem a 
roupagem moderna do combate à "ideologia de gênero". Ao inventar e espalhar mentiras e se 
comprometer em impedir qualquer agenda relacionada a gênero e sexualidade nós sofreremos 
ainda mais. Esse projeto tende a agravar problemas de exploração sexual de menores, 
prostituição, tráfico de mulheres, sexualização violenta e precoce das crianças por meio 
de uma pornografia cada vez maispesada, que da tela em algum momento da vida passa a 
realidade... Hoje o Brasil é o país que mais mata LGBTQI's no mundo. Com um projeto 
autoritário e licença social para a violência a tendência é um aumento ainda mais 
dramático de crimes de ódio contra a população LGBTQI+.

O refinamento da repressão vai ampliar ainda mais a violência de estado que executa 
sumariamente nossa gente nas favelas, que despeja abaixo de bomba de gás quem luta por 
moradia. E mais uma vez somos nós mulheres que seremos mais atingidas, com medo do fuzil 
da polícia (cada vez com mais licença pra matar) ou do tráfico apontado para os nossos. O 
desejo lunático do Bolsonaro de armar a população, a fixação dele e seus seguidores por 
armas deixaria para nós mulheres o drama de lidarmos com mais essas consequências da 
violência.

A educação é um filão preferencial de ataque de um governo Bolsonaro. Uma porque grande 
parte da educação brasileira em todos os níveis é pública, portanto um bom negócio para 
privatizar. Para termos uma ideia, cerca de 80% dos alunos do Ensino Médio está 
matriculado em escolas públicas. Daí também as propostas de EAD, que tira de cena a 
importância da figura do professor na formação e foca em produzir mão de obra ignorante, 
obediente e barata em larga escala. O sistema nos quer domesticadas (os). Carne humana 
para o trabalho explorado com o mínimo de direitos. E sobre EAD desde o ensino básico, 
como trabalharíamos? Como ficarão nossos filhos sem escola? E outra razão de estar na mira 
é porque educação é espaço de desenvolvimento de pensamento crítico. Não à toa em toda 
entrevista o candidato fala em manter a "inocência das crianças na escola", mostrando sua 
prioridade no Projeto "Escola Sem Partido".

Somos nós que sofreremos ainda mais vendo nossa família adoecer e não ter atendimento de 
saúde. Nós, as que cuidamos dos filhos (muitas vezes sozinhas), dos pais, parentes, 
irmãos. Nós que ficaremos dia após dia na fila do postinho de saúde, do hospital, que 
veremos os nossos adoecer sem socorro, sem cuidado.

Nós mulheres, que já acumulamos mais de um trabalho além dos cuidados com nossa família, 
que sofreremos ainda mais com o aumento do custo de vida. Nós, que já perdemos noites de 
sono pensando como pagar todas as contas e botar comida na mesa, e que perderemos os 
serviços públicos, perderemos nossa aposentadoria.

A sociedade brasileira é forjada a partir do estupro colonial das mulheres indígenas e 
negras. Nosso continente e nosso país foi invadido por homens brancos que saquearam desde 
sempre nossos corpos e nossos territórios. Os mecanismos que justificaram essas violências 
são basicamente os mesmos acionados hoje para manutenção do poder. A herança dos barões do 
café, senhores de engenho, charqueadores, donos das construtoras, políticos, com suas 
relações de compadrio, quer nos explorar cada vez mais fundo na carne e nos manter 
servindo privilégios de alguns. Fuzis, canetaços, motosserras, paletós dão as regras do jogo.

Mas nós desejamos. Somos protagonistas. Sempre resistimos.

E por tudo isso, dizemos ELE NÃO! Dizemos NÃO e nos levantamos contra o fascismo! Ao invés 
de um projeto autoritário, queremos construir a mudança com participação popular, com 
formas horizontais e reais de participação e decisão. Com poder popular e feminismo. É 
preciso que derrubemos todas as estruturas de opressão e desigualdade, junto com o velho 
modelo de fazer política onde não participamos de nada e os políticos nos roubam e atacam. 
Para o sistema e a linguagem da policia, a ocupação da rua é desordem. Para nós, é método 
e arma de retomada de um projeto de autonomia. Autogestão e democracia direta como novas 
formas de tomar as ruas e fazer política. Temos que tomar em nossas mãos o protagonismo 
político na ação direta de ocupar as ruas com nossos corpos. Ocupar cada espaço, ficarmos 
juntas. A jornada é dura, mas estamos na rua pra lutar. Contra a violência, o ódio e a 
brutalidade, devolveremos mais feminismo.

A casa grande não vai ter paz. Nós não temos medo de general e de capitão. Mas temos 
indignação e raiva. E seguiremos assombrando os injustos.

Contra a arquitetura da destruição dos fascistas, lutaremos como for preciso.

Partilha, poesia, arte, educação, solidariedade, força. Assim é nossa arquitetura de um 
novo mundo. Um mundo com socialismo e liberdade. Não estamos todas.

Essa nota também é por todas as que faltam. Pelas vítimas de feminicídio, pelas 
arrebentadas por dentro pela violência sexual, pelas lésbicas e trans assassinadas por 
crime de ódio, pelas presas de delitos menores e presas políticas, pelas ativistas 
perseguidas ou assassinadas na defesa de suas liberdades, seus territórios e seus 
recursos, pelas presas ou mortas por aborto inseguro.

Fazemos do luto, luta. Da raiva, força. Dos nossos vínculos, tiramos consolo coletivo. 
Pelas que lutaram antes de nós, por todas as que não estão e por nenhuma a menos, 
RESISTIREMOS!

MULHER É RESISTÊNCIA!
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https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2018/10/28/nota-das-mulheres-da-fag-genero-e-conjuntura/

https://www.anarkismo.net/article/31187


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