(pt) ORGANIZAÇÕES SINDICALISTAS REVOLUCIONÁRIAS DO BRASIL: A FOB -- [RECC-MS] Carta de Apresentação do CP-RECC/FOB de Dourados/MS

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Sábado, 26 de Maio de 2018 - 08:14:44 CEST


Através desta carta, apresentamos a construção do Comitê de Propaganda da Rede Estudantil 
Classista e Combativa (CP-RECC), e da construção da Federação das Organizações 
Sindicalistas Revolucionárias do Brasil (FOB) de Dourados, Mato Grosso do Sul (MS). Nosso 
intuito é fazer avançar o sindicalismo revolucionário, cerrando fileiras aos povos 
indígenas na luta pela terra, no contexto de nossa localidade fronteiriça: a faixa de gaza 
brasileira. Nosso propósito é atuar na defesa intransigente da revolução, da greve geral 
pela base, da solidariedade às autonomias territoriais indígenas insurgentes, através da 
combatividade, da autonomia e independência, da horizontalidade, do anti-governismo e da 
ação direta. Inauguramos o CP justamente no dia 1º de maio, onde realizamos nossa primeira 
ação junto à apoiadores em bairro periférico da região, dialogando com trabalhadores e 
trabalhadoras do comércio, da indústria, autônomos; trabalhadores e trabalhadoras 
desempregados; professores, estudantes e aposentados. Ressaltamos que neste primeiro de 
maio, os trabalhadores das usinas de cana-de-açúcar não pararam, em sua jornada extenuante 
de trabalho que tem entrada as 4h da manhã, já empunhando seus facões.

    Sobre o contexto em que vivemos, não poderíamos iniciar de outro modo senão pela 
saudação da resistência indígena. O povo Guarani e Kaiowá inicia o ano de 2018, no estado 
do Mato Grosso do Sul, anunciando grandes levantes em defesa das retomadas Jeroky Guasu e 
Guapo'y, na região de Caarapó, então ameaçadas de despejo. A mobilização resultou em 
importante vitória do movimento indígena, que barrou mais um ataque do latifúndio através 
de sua combatividade, erguendo resistência até a morte pelo território, em contexto de 
aprofundamento das políticas anti-indígenas comandadas pelo agronegócio e o Estado 
brasileiro. As frentes de colonização estatal no MS remontam ao amplo processo de expulsão 
dos Guarani e Kaiowá e subsequente confinamento em reservas, que se encontram hoje 
superlotadas, demarcadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), anterior à FUNAI, nas 
primeiras décadas do século 20. A Reserva Indígena de Dourados, por exemplo, totaliza 
apenas 3.500 hectares para mais de 10.000 pessoas. Os postos de trabalho mais precarizados 
no estado são ocupados por indígenas, a exemplo da coleta de lixo, das cooperativas de 
reciclagem, da construção civil, telemarketing, trabalho doméstico, prostituição, e o 
trabalho nas usinas, incluindo o corte de cana-de-açúcar, apesar da ampliação da mecanização.

    O esbulho territorial, o confinamento e a escravização de mão-de-obra indígena tem 
início nos ervais, no final do século XIX. A erva-mate, através da Companhia Matte 
Laranjeiras, sendo seguida pela formação da Colônia Agrícola de Dourados (CAND) e a 
expansão da pecuária através da ditadura Vargas, e finalmente, a consolidação das 
monoculturas de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto, até o tempo presente fazem 
sangrar as terras indígenas do pantanal ao cone sul do estado, aprofundando o genocídio e 
etnocídio das 9 etnias presentes no MS (Guarani, Kaiowá, Terena, Atikum, Ofayé-Xavante, 
Kinikinau, Kadiwéu, Guató e Kambá, não reconhecida oficialmente). É importante destacar 
que o estado abriga a 2ª maior população indígena do Brasil, superando 70.000 pessoas, 
ocupando apenas 0,6% das terras demarcadas no Brasil.

    A violência contra a mulher também é latente no estado. De acordo com o Mapa da 
Violência (2015), as taxas de atendimento às mulheres vítimas de violência são as mais 
altas, em níveis estaduais, em comparação ao resto do país. Para se ter uma noção da 
gravidade do problema, enquanto a média nacional de atendimentos por violência é de 14,2 
por 10 mil habitantes, MS tem a média de 37,4. Esse índice é bem maior que o segundo 
colocado nacional, Acre, com 26. Tal violência acomete principalmente as mulheres dos 
povos originários, dadas as variáveis que as atingem. Segundo o CIMI, os números de 
feminicídio aumentaram em 495% sobre essas mulheres.

    Compreendemos o aprofundamento das crises econômica e política no Brasil, gestadas 
pelos 13 anos de conciliação de classe do governo PT, responsável pelo fortalecimento do 
agronegócio por meio das políticas de crédito, através do BNDES, beneficiando grandes 
latifundiários e empresas multinacionais. Os megaprojetos, a partir do PAC, a 
militarização das favelas e do campo, e a subsequente consolidação de regressões coloniais 
para o estabelecimento de uma política econômica voltada para a exportação de commodities 
e manutenção da condição de dependência do país, demonstra com que mãos foram acordadas a 
nova fase de exploração rapinadora da terra de Abya Yala onde pisamos: os partidos, 
governos e patrões, juntos do imperialismo criminoso e multipolar, fizeram avançar os 
campos de morte, como se referem os Guarani e Kaiowá à monocultura - uma monocultura de 
plantações, tanto quanto uma monocultura do pensamento e da vida. Os recentes avanços da 
Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), ou bancada ruralista, junto ao governo atual, 
sinalizam o tempo de chacinas em que vivemos, à exemplo dos massacres de Caarapó, de Pau 
D'Arco, de Colniza, o massacre contra os Gamela e demais ataques contra nossa classe, 
dando continuidade ao processo anterior de forma agudizada. Estes fatos nos alertam para o 
ritmo avassalador do avanço do capital, em vias de estremecimento em sua crise estrutural, 
para arrancar do nosso povo o que lhe é mais fundamental: seu direito à existência. E 
assim se relaciona a concentração de terras às reformas trabalhista e da previdência, que 
andam juntas das consequências trazidas pelas diferentes cadeias produtivas no campo, 
vinculadas às empresas multinacionais que aqui atuam. O capital procura avançar, deste 
modo, contra as últimas fronteiras de sua expansão, territórios defendidos pelos povos 
indígenas e camponeses em luta.

    As retomadas Guarani e Kaiowá, neste contexto, insurgem como um processo de 
recuperação das terras historicamente usurpadas pelo Estado e suas frentes de colonização. 
É um processo também de defesa e recuperação da terra, de motivação profundamente 
ecológica e cosmológica. O Comitê de Propaganda da RECC/FOB de Dourados pretende alcançar 
a construção de um núcleo local, participando da construção das lutas indígenas, 
compreendendo e respeitando a autonomia e a radicalidade de suas lutas pelo tekoha, "lugar 
onde se é", segundo os Guarani e Kaiowá. É assim que se referem à suas terras 
tradicionais. Deste modo, buscamos aprender com os povos indígenas, especialmente os 
Guarani e Kaiowá, como lutar: não temer as grandes batalhas, mantendo firme a esperança na 
construção de um mundo onde caibam muitos mundos, ainda que tantos males rondem essas 
terras devastadas. Relembramos também a mobilização dos secundaristas de Dourados, que no 
ano passado, consolidaram a Juventude Autônoma e Combativa, bloqueando a empresa de ônibus 
da cidade durante a falsa Greve Geral, ocupando uma escola na sequência, a 1ª ocupada de 
Dourados, em oposição ao peleguismo e oportunismo dos partidos e burocracias sindicais que 
realizavam festa na avenida central. A mesma juventude realizou o único ato no dia do 
trabalhador do estado, como neste ano também, em que as burocracias sindicais e estudantis 
direcionaram suas bases para a defesa de Lula e da farsa eleitoral.

    Como os Guarani e Kaiowá, procuramos nos organizar horizontalmente, inspirados na 
estrutura de conselhos da Aty Guasu, grande assembleia Guarani e Kaiowá, hoje lado a lado 
das outras assembleias do mesmo povo: a Retomada Aty Jovem (RAJ), assembleia da juventude, 
e Kuñangue Aty Guasu, assembleia das mulheres. Nosso intuito é fortalecer os processos em 
ebulição nos nossos locais de estudo, moradia, trabalho e pesquisa, criando uma frente 
estudantil, com atuação na Universidade Federal da Grande Dourados, junto às mobilizações 
da FAIND, Faculdade Intercultural Indígena onde existe o curso de Licenciatura da Educação 
no Campo (LEDUC) e o Teko Arandu, curso de formação superior para os Guarani e Kaiowá. A 
FAIND é fruto de grandes lutas dos indígenas junto às reivindicações estudantis por 
educação, e a conquista deste espaço é elaborada em conjunto da LEDUC e da luta por 
permanência estudantil. Construiremos também uma frente comunitária, para atuação nos 
bairros periféricos de Dourados, margeando as rodovias com espaços de acampamento e 
retomadas indígenas e camponesas; e uma frente central de solidariedade aos povos 
indígenas, atuando junto às aldeias, retomadas e acampamentos Guarani e Kaiowá em defesa 
da terra.

Por um mundo onde caibam muitos mundos!
Avançar às retomadas, destruír o latifúndio!
Pelo fortalecimento do internacionalismo proletário e dos povos, avançar a luta estudantil 
classista e combativa!

https://lutafob.wordpress.com/2018/05/24/recc-ms-carta-de-apresentacao-do-cp-recc-fob-de-dourados-ms/


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