(pt) [Curdistão] É tempo de boicotar a Turquia: uma entrevista com Dilar Dirik por Giuseppe Acconcia By A.N.A.

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Sábado, 12 de Maio de 2018 - 09:57:25 CEST


Os EUA, o Reino Unido e a França atacaram supostas instalações químicas na Síria em 14 de 
abril. Isso tornou mais clara a relevância de uma alternativa de esquerda aos regimes 
militares na região. Todos os projetos que não apoiam ao Bashar al-Assad e seus aliados, 
Irã e Rússia, nem apoiam os rebeldes sírios e seus aliados europeus e norte-americanos, 
parecem ser um perigo para os países vizinhos. No entanto, os curdos da Síria, mesmo tendo 
sido deixados em paz pelas forças pró-Assad e pela coalizão internacional anti-ISIS, 
continuaram lutando sua guerra existencial contra as autoridades turcas. O exército turco 
entrou no Cantão Afrin em 18 de março passado, como a conclusão da operação "Ramo de 
Oliva", que começou em 20 de janeiro. Parece que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, 
empenhado em fortalecer suas ligações com Teerã e Moscou, considera tanto internamente 
quanto externamente, um movimento comunalista e de libertação pró-trabalhadores, 
pró-ecologia, pró-mulheres é uma ameaça ainda maior do que o ISIS. Aqui, o The Region fala 
com Dilar Dirik, ativista do Movimento de Mulheres Curdas, para entender melhor qual será 
o futuro do projeto de Rojava neste contexto de guerra armada.

Como os rebeldes pró-turcos estão governando Afrin, podemos argumentar que o sonho de 
Rojava está terminando?

De maneira alguma, a resistência em Afrin é forte. Após 58 dias de resistência, os 
combatentes do YPJ / YPG decidiram transformar a natureza da guerra. A partir de agora, 
todas e todos estarão envolvidos em uma guerra de guerrilha. A resistência ainda não 
acabou. Esta foi apenas uma luta dentro da guerra. Para os militantes curdos, Rojava é uma 
ideia, um projeto político que influenciou centenas de milhares de pessoas. O tempo não 
passou em vão. O experimento de autonomia democrática continuará: isso é apenas uma 
retirada temporária. Os combatentes curdos poderão voltar a Afrin daqui há algum tempo, e 
talvez o projeto seja ainda mais radical. Quando os habitantes de Kobane foram forçados a 
deixar sua cidade porque os jihadistas do ISIS a ocuparam, depois que o YPG / YPJ derrotou 
o ISIS, eles voltaram pedindo por estruturas mais democráticas. O mesmo acontecerá em Afrin.

Por que a comunidade internacional abandonou os curdos novamente?

Esta não é a verdadeira comunidade internacional. Devemos fazer uma distinção entre a 
verdadeira comunidade internacional civil que se mobilizou em todos os lugares: no 
Afeganistão, Japão, África do Sul... Em outras palavras, houve uma mobilização por Afrin 
até mesmo em países onde não há uma comunidade curda. A comunidade internacional dos 
estados abandonou os curdos. No entanto, a palavra "abandono" pode ser enganosa.

Os curdos nunca contaram com apoio internacional, e sabíamos muito bem que o apoio dos EUA 
era apenas uma aliança tática e militar. Sabíamos que quando o ISIS fosse derrotado, os 
curdos teriam sido deixados em paz. Para as conferências internacionais sobre a Síria, os 
curdos não são convidados para evitar qualquer tipo de irritação turca. A Turquia é 
estratégica para eles e é um vizinho do Assad. Ninguém esperaria que uma revolução de 
esquerda com um papel central para as mulheres pudesse ter sucesso nesta região. Sabíamos 
que a nível político, eles nunca nos apoiariam. Além disso, os ataques turcos ocorreram 
com cumplicidade ocidental: a Itália, o Reino Unido e a Alemanha estão vendendo armas que 
visavam o ataque a Afrin. Eles precisam que a guerra continue para espalhar o caos no 
Oriente Médio. Seu objetivo é impedir que qualquer tipo de revolução de esquerda ou 
projeto político se materialize.

Os números são claros: os ataques turcos provocaram centenas de causalidades enquanto um 
cessar-fogo da ONU contra a Síria foi imposto. Por esta razão, podemos dizer que Erdogan é 
um criminoso de guerra?

Erdogan é um criminoso de guerra e não esconde isso. Ele apoiou grupos jihadistas no 
território. As forças pró-turcas cometeram e registraram seus crimes de guerra, 
assassinatos, torturas e saques, e depois publicaram a documentação de seus crimes nas 
redes sociais. Eles têm certeza sobre si mesmos. Isso fica claro nas próprias palavras de 
Erdogan: "Vamos limpar essa terra e devolvê-la aos legítimos proprietários". Ele definiu 
todos os curdos como terroristas e quer movê-los do norte da Síria para criar uma 
zona-tampão. Então isso é realmente uma limpeza étnica. Eles impuseram bandeiras turcas em 
toda parte em Afrin, eles demoliram a estátua de Kawa, um símbolo da resistência curda. 
Assim, eles deliberadamente atacaram a cultura curda. E eles querem erradicar o projeto 
democrático de Rojava. Eles argumentam que os árabes e turcos são contra os curdos, mas na 
verdade árabes, sírios e armênios lutam junto com os curdos.

Rojava não é uma ameaça para a Turquia, enquanto lutamos pela libertação das mulheres, 
etc. o Erdogan, assim como o partido Baath fez nos anos 60, quer deslocar os curdos do 
norte da Síria para que eles sempre sejam uma minoria. Com este pretexto, eles destruíram 
regiões inteiras no Curdistão turco e cometeram massacres de civis em Cizre e Nusaibin, 
por exemplo. Uma guerra suja é a política de Erdogan contra a autonomia curda e a ideia de 
democracia. Em suma, ele considera insuportável um sistema revolucionário perto das 
fronteiras turcas. É uma pena que a comunidade internacional não o defina como um 
criminoso de guerra!

O maior desastre é o alto número de refugiados e deslocados devido aos ataques turcos. 
Como é possível que a União Européia tenha confirmado a segunda parcela de 3 bilhões de 
euros de ajuda à Turquia neste contexto?

Há mais de 300 mil pessoas deslocadas após os ataques turcos. Erdogan está usando os 
refugiados para ameaçar a Europa. Ele prometeu às autoridades alemãs que a Turquia 
manteria os refugiados dentro de seu território. No entanto, ele está criando milhares de 
novos refugiados para continuar ameaçando a Europa com uma invasão de imigrantes. Além 
disso, ele está usando essa questão para dividir os refugiados e desencadear a luta entre 
sírios e curdos na Turquia. Ele tentou islamizar e doutrinar os refugiados. O PKK e o YPG 
/ YPJ receberam milhares de refugiados de Sinjar em Rojava. Era um lugar seguro para todos 
os refugiados. É por esta razão que a população de Afrin duplicou nos últimos anos.

O que vai acontecer em Afrin?

É uma longa guerra. Decisões vêm da Rússia e dos Estados Unidos. Eles permitem que a 
aviação turca use o espaço aéreo sírio. O movimento curdo nunca deixará Afrin para os 
turcos. Assim, pedimos para começar uma campanha de boicote à Turquia.

Fonte: 
http://theregion.org/article/13288-it-039-s-time-to-boycott-turkey-interview-with-dilar-dirik


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