(pt) uniao anarquista [UNIPA]: O Lulismo e a Crise do Capitalismo Brasileiro: Somente a Ação Direta Pode Derrotar a Ofensiva Reacionária e as Ilusões do Reformismo

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Sábado, 31 de Março de 2018 - 08:44:41 CEST


Às trabalhadoras e aos trabalhadores do Brasil ---- À Juventude pobre da periferia ---- 
Aos povos indígenas e camponeses ---- Ao povo negro das favelas e periferias ---- Às 
mulheres combatentes e aos grupos LBGTT ---- Aos operários, desempregados, trabalhadores 
informais, estudantes e professores ---- Introdução ---- O Brasil aprofunda sua crise 
social, política e econômica. Um dos aspectos políticos dessa crise é a tentativa da 
burguesia de extinguir, pela repressão e criminalização, o "lulismo".[i]Por outro lado, o 
reformismo brasileiro, degenerado, tenta se salvar ao ressuscitar o lulismo como projeto 
político. Nem o lulismo, nem o anti-lulismo, podem apresentar uma solução para os 
problemas estruturais do povo, da classe trabalhadora brasileira. Ao mesmo tempo, a 
ofensiva da burguesia, ávida por aprofundar seus lucros, tem criado as condições para que 
o lulismo se revitalize e, ante tal processo, ela responde com a ameaça de intensificação 
da repressão generalizada. Essa revitalização do lulismo, bem como da campanha repressiva, 
representa um atraso ideológico e organizativo para a classe trabalhadora brasileira.

Por isso é tarefa dos anarquistas revolucionários e de todos os combatentes sinceros do 
povo fazer a crítica ideológica, ou seja, prática e organizativa, do lulismo e do 
anti-lulismo, tanto quanto promover as lutas de resistência ao avanço do neoliberalismo 
reacionário (que o próprio lulismo ajudou a nutrir e fortalecer nos seus quase 16 anos de 
Governo). A crítica ideológica, então, visa apontar os cenários possíveis para o ano de 
2018; a crítica prática visa criar saídas estrategicamente fundamentadas, que não caiam 
nem nas falácias da direita nem nas ilusões da esquerda lulista.

  A "condenação" de Lula: entre a crise da democracia liberal e a retomada da ilusão 
reformista-desenvolvimentista

No dia 24 de janeiro Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado em segunda instância pelo TRF 
da 4º Região por 3 votos a 0, no processo erguido pelo juiz Sérgio Moro contra o símbolo 
máximo do petismo e da socialdemocracia nas últimas décadas.

A condenação de Lula é mais uma etapa de evolução do Estado de Exceção, que foi 
estruturado e inaugurado pelos próprios governos do PT (2003-2016). Se antes o aparato de 
repressão e judicialização eram voltados somente para a fração marginalizada da classe 
trabalhadora, agora a burguesia as utiliza para retirar do cenário político aqueles 
antigos aliados que não interessam mais.

Toda narrativa petista tenta colocar Lula como vítima de um Estado autoritário e 
perseguidor que surgiu de forma alienígena, que tenta cortar a cabeça da esquerda e 
iniciar um período de repressão. Tenta, aliás, comparar Lula com Rafael Braga, mas se for 
feita mesmo uma análise superficial dos mecanismos criados pelo governo do PT para 
defender o pacto de classe, veremos que Lula e PT são vítimas de sua própria cria, como 
Laio foi vítima de Édipo, por terem aperfeiçoado o Estado Autoritário e seu arcabouço 
legislativo reacionário. Só no campo jurídico, os governos petistas foram responsáveis 
pela elaboração da Lei de Drogas, que aumentou a população carcerária, a criação da Força 
Nacional, para atacar populações indígenas e camponesas e garantir ao agronegócio, a 
instituição da Lei de Organizações Criminosas e da Lei Antiterrorismo, que enquadra 
qualquer atividade coletiva de piquete, greve como terrorismo organizado.

Ou seja, o que acontece agora é a utilização de todo esse aparato repressivo, criado e 
alimentado pelo petismo, contra o petismo, fato progressivamente expresso a partir do 
impeachment de Dilma. Para mais detalhes sobre como o lulismo alimentou o Estado de 
Exceção, basta analisar o dossiê "Uma década de ilusões" e outros documentos.

Mas essa mudança é fundamental: o Sistema capitalista brasileiro está oscilando da 
demagogia ao despotismo, implicando na reestruturação das relações de classe e de poder. A 
nova fase do Estado de Exceção visa permitir um aprofundamento da exploração, modificando 
as relações de classe; visa retomar o controle dos cargos e dos recursos do Estado pela 
grande burguesia e pela pequena-burguesia de mercado, expulsando assim a pequena-burguesia 
de esquerda, uma parte da tecnocracia e a aristocracia operária. Desse modo, a 
centralização do poder tem um conteúdo econômico e de classe. Ao atacar a aristocracia 
operária e setores da pequena-burguesia, a política ultraneoliberal do PMDB visa 
concentrar renda e riqueza, nivelando as condições de vida da classe trabalhadora por baixo.

Os cenários: do Estado de Exceção neodesenvolvimentista à repressão ultraneoliberal

A partir do momento que se deu a condenação de Lula, criou-se uma conjuntura em que é 
exigida, do ponto de vista da burguesia, um acirramento da repressão. Não basta condenar 
Lula; é preciso atacar as bases sociais do lulismo (os partidos, sindicatos e movimentos 
sociais reformistas) e impedir uma candidatura de esquerda alternativa, apoiada por Lula; 
ao lulismo, dentro da sua estratégia reformista e pactuadora, cabe forçar uma candidatura, 
de Lula ou de uma frente de esquerda encabeçada por outro nome, tentando centralizar todo 
o movimento de massas em torno da mesma nas eleições 2018.

Desse modo, hoje existem alguns cenários possíveis, que podem evoluir a partir dos 
acontecimentos do início do ano:

Cenário 1) Lula reverte a decisão e se candidata;

Cenário 2) Lula fora das eleições, mas o PT lançando candidato alternativo;

Cenário 3) Lula fora das eleições com o PT colocado na ilegalidade como uma organização 
criminosa;

Cenário 4) Lula fora das eleições, com todos os Partido de Esquerda com suas candidaturas 
inviabilizadas por uma estratégia de judicialização e criminalização.

O primeiro e segundo cenários tendem a fortalecer o lulismo. Atacar Lula, mas sem atacar 
as estruturas organizativas do lulismo, apenas criaria as condições para um desgaste do 
sistema representativo.  O terceiro e quarto cenários seriam a evolução lógica de uma 
tentativa de desarticular o lulismo e todas as formas de oposição dentro do sistema. Mas 
aprofundando o autoritarismo e bloqueando os canais de luta política legal, se tenderia a 
produzir uma "implosão" da esquerda hoje existente e uma reorganização geral do movimento 
de massas, podendo inclusive escapar ao controle do sistema (assim como a ditadura na 
Argentina produziu um peronismo de esquerda, mais radical que o peronismo que lhe 
antecedeu). Paradoxalmente, esses cenários, que seriam a consequência mais lógica da 
estratégia de destruir o lulismo, apresentam dificuldades, pois o sistema político 
brasileiro já sofre desgastes profundos e falta de legitimidade. Os cenários 3 e 4 
representariam um aprofundamento da repressão sistemática, o que exigiria, para se 
viabilizar, de uma arquitetura institucional e social complexa (e dependeria de alguma 
realização social, como um grande ciclo de crescimento econômico ou a resolução do 
problema da segurança pública).

Porém, no médio prazo, a destruição do lulismo representa a desarticulação de uma das 
principais forças de controle do desenvolvimento autônomo da classe trabalhadora. 
Centralizar o poder estatal ainda mais, tornando a democracia burguesa mais restrita e 
limitada, tende a produzir diversos efeitos, de desorganização e reorganização dos 
movimentos sociais. A solução seria aprofundar ainda mais a repressão. No curto prazo a 
destruição do lulismo favorece a burguesia, ao desarticular os principais movimentos 
sociais. No longo prazo, ela tende a criar as condições para a emergência de novas formas 
de consciência de classe. Mas essa destruição de cima não significará nada se o lulismo, 
forma de ideologia estatista, não for superado como ideologia da classe trabalhadora por 
ela mesma, e isso implica na destruição das ilusões personalistas, messiânicas e 
estatistas existente na classe trabalhadora.

Os ativistas anarquistas e autônomos irão ficar, em qualquer cenário, sob a pressão de 
duas forças, a da reação burguesa e repressão, e do lulismo. Caso não ocorram eventos 
(grandes mobilizações de massa, do tipo J13), os cenários serão cada vez mais difíceis 
para as alternativas revolucionárias e combativas no curtíssimo prazo.  Por isso será 
necessária uma luta de palmo a palmo, casa à casa, rua à rua, combatendo em duas frentes: 
a reação clerical-militar-burguesa e o lulismo-reformismo. Nessa tarefa os anarquistas 
revolucionários e a jovem classe trabalhadora em gestação estarão praticamente sozinhos.

A estratégia revolucionária: resistir localmente, pensando e construindo globalmente

Desse modo, é preciso uma estratégia prática para atuar frente e esses possíveis cenários 
que estão em gestação. A estratégia revolucionária hoje exige as seguintes táticas principais:

1ª a ação direta e resistência local, por meio da promoção de lutas e greves parciais 
reivindicativas, de resistência à intensificação da exploração e retirada de direitos, 
combinada com a criação de organizações sindicais e cooperativas de tipo sindicalista 
revolucionária. Não basta a mera denúncia do lulismo e da reação burguesa, esta precisa 
ser combatida por meio da criação de organizações autônomas;

2ª organizar uma grande campanha de boicote eleitoral (a campanha Não Vote! Lute), 
mostrando como o atual autoritarismo foi gestado pelo Estado de Exceção 
neodesenvolvimentista do PT.  O boicote eleitoral não deve ser a única ferramenta, mas com 
ela devem ser defendidas a ferramenta de luta da Greve Geral e a construção de organismos 
de contra-poder, as Assembleias Populares locais e o Congresso do Povo. As assembleias 
populares não são organismos de resistência, mas devem ser espaços de massa de 
contra-poder para praticar a ginástica revolucionária de substituir o Estado falido por 
espaços de autogoverno de massa. Chamar as eleições para assembleias populares de 
contra-poder é outra tática fundamental.

Falando em termos concretos, multiplicar lutas locais e parciais, coordenar essas lutas 
criando organizações de resistência; paralelamente, quando o lulismo e o anti-lulismo 
tentarem capturar as categorias e lutas para apoiar as candidaturas, devemos colocar como 
alternativa não o apoio a estas, mas a realização de eleições de assembleias populares, 
que devem se colocar como rivais do poder legislativo-executivo local-regional, tomando 
decisões que anulem as decisões governamentais e que reivindiquem perante a massa a 
condição de poder popular legítimo, em oposição ao poder do Estado burguês em processo de 
decomposição. Ao invés de participar das eleições corruptas e ilegítimas, iremos organizar 
as "contra-eleições" para as Assembleias Populares, órgãos de contra-poder.

A primeira tática é uma prática local e imediata, uma forma de atividade concreta; ela 
deve ser orientada pela segunda, uma tática de propaganda de formas alternativas de 
organização. A resistência e a ação local se combinam assim com formas globais, a da 
propaganda da construção de assembleias populares, que mesmo que não sejam imediatamente 
realizáveis, educam e forjam a consciência de massa para as lutas futuras. Essas táticas 
materializam a estratégia da ação direta em seu todo. A ação direta é o germe do 
autogoverno popular revolucionário.

Essas tarefas são verdadeiramente gigantescas. As duas táticas apontadas acima são formas 
necessárias de combate ideológico e organizativo ao lulismo e à reação burguesa. Fora 
dessas táticas o movimento de massas ficará preso à decomposição e crise do sistema 
capitalista e do lulismo, afundando com o barco da velha ordem e condenando o conjunto da 
classe trabalhadora a graves derrotas sociais, políticas e econômicas.

Por isso, conclamamos os combatentes do povo a organizar a resistência local, a campanha 
"Não Vote! Lute!" e a chamar a greve geral e as eleições para as assembleias populares!

[i]Lulismo: política de pactuação de classe a partir da figura do Lula construída com base 
em organismos partidários, sindicais e de movimentos sociais que beneficiou economicamente 
a aristocracia operária, uma parcela da tecnocracia e de uma pequena burguesia dependente 
do Estado. Expressão da política social-democrata dirigida pela CUT-PT, principalmente a 
partir do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista.

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2018/03/26/o-lulismo-e-a-crise-do-capitalismo-brasileiro-somente-a-acao-direta-pode-derrotar-a-ofensiva-reacionaria-e-as-ilusoes-do-reformismo/


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