(pt) Qual sua opinião sobre a intervenção militar federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro? (en) By A.N.A.

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Segunda-Feira, 19 de Março de 2018 - 11:03:26 CET


Quatro anarquistas que residem no Rio de Janeiro responderam a pergunta. Confira abaixo. O 
decreto de intervenção militar na segurança pública no Estado foi assinado no dia 16 de 
fevereiro pelo presidente MichelTemer. ---- "Ela é antes uma ameaça a vida" ---- A 
intervenção militar no Rio de Janeiro é apenas a extensão da política que vem sendo, nos 
últimos dez anos, praticada mais objetivamente nas favelas da capital. O que era uma 
particularidade aplicável a aéreas periféricas, contra as "classes perigosas", agora se 
dissemina para toda a cidade e arredores. Quando das ocupações do Complexo do Alemão 
(2010) e da Maré (2014) o escândalo foi menor, pois os alvos preferenciais ou exclusivos 
eram negros e pobres. Ainda que a atual intervenção militar tenha razões conjunturais 
próprias, muito evidentes em um ano eleitoral, ela não é menos genocida e racista. Seus 
alvos prioritários denunciam a longevidade das suas verdadeiras razões. Quanto ao 
Exército, que após a Guerra do Paraguai (1865-1870) declinou da condição de capitão do 
mato, ao se recusar a perseguir mulheres e homens escravizados evadidos das fazendas, 
parece que agora retoma essa tarefa de onde parou. Desprezando esse lapso de tempo, 
reassume a ignominiosa função ao assediar e eliminar os descendentes dos quilombolas. Se 
por uma parte, a intervenção é também aspecto relevante do projeto que objetiva a 
retiradas de direitos, por outra, para os que sequer têm direitos, ela é antes uma ameaça 
a vida. Os que pensaram e executaram a intervenção são os continuadores de Domingos Jorge 
Velho. Alexandre Samis (Instituto de Estudos Libertários - IEL)

"Uma articulação entre interesses da indústria armamentistas, partidos políticos"

Há anos a zona metropolitana do Rio de Janeiro é utilizada por sucessivos governos como 
laboratório de técnicas de repressão por forças policiais e as demais forças armadas em 
momentos pontuais. O que temos atualmente é um governo totalmente desmoralizado 
politicamente, um Estado econômica e financeiramente em recessão e diversas organizações 
mafiosas agindo em diferentes esferas de poder, soma-se a isso a pobreza endêmica de 
certas zonas da cidade em contraste com a opulência dos bairros mais ricos, muitas vezes 
vizinhos de muro, favelas e condomínios de luxo convivem lado a lado com desconforto de 
ambas as partes. A mídia corporativa contribui sobremaneira para a disseminação dos 
discursos do medo, onde os atingidos pela pobreza são os vilões de sempre. A classe média 
digere esse discurso e responde em grande parte com apelos à mais repressão aos pobres. 
Trata-se, portanto, em poucas linhas de uma articulação entre interesses da indústria 
armamentistas, partidos políticos e uma parcela significativa da população que compra o 
discurso do medo dos grandes jornais corporativos. Esta articulação culmina no processo de 
militarização ampla que vemos hoje no Rio de Janeiro. Em resumo, trata-se do "Terror de 
Estado" onde o mesmo que gera o problema oferece uma "solução". A finalidade é a ordenação 
violenta e vertical da sociedade através do discurso da necessidade de repressão das 
"classes perigosas". Alberto Ferrer (Liga Anarquista no Rio de Janeiro - Liga-RJ)

"Uma estratégia de preservação política do MDB e aliados"

Resido desde 2011 no Rio de Janeiro, em um bairro (Santa Teresa) onde as trocas de tiros 
ao lado de casa foram e são constantes. Apesar de ser um "estrangeiro' na cidade, pelas 
conversas com a população foi-me possível traçar uma cartografia da violência urbana 
carioca. Por outro lado, as manifestações de 2013, prolongadas aqui no Rio desde o ataque 
à Assembleia até a ocupação e ataque à Câmara, trouxeram visibilidade pública à corrupção 
política e anteciparam o cerco jurídico a Sérgio Cabral e cia. Não vou opinar a partir da 
posição anarquista que a priori rechaça o Estado, a polícia, a política instituída, etc. 
etc. e etc. Vou opinar sobre a intervenção a partir da reflexão crítica de um indivíduo 
comum sobre a conjuntura política. Mais do que uma mudança de foco para desviar o fracasso 
governista na tentativa de reforma da previdência (como tem sido divulgado por parte da 
mídia e no que boa parte da população acredita), a intervenção militar deve ser vista como 
uma estratégia de preservação política do MDB e aliados no Rio de Janeiro. Anunciada com 
antecedência, assim como as antigas ocupações de UPPs[Unidade de Polícia Pacificadora], 
permite que os eventuais perseguidos de todos os tipos (políticos, tráfico, milícias, 
etc.) possam não somente evadir-se do Estado, mas também queimar arquivos - inclusive 
vivos -, documentos que poderiam comprometer a cúpula fluminense do MDB ainda ativa no 
governo federal (Moreira Franco, herdeiros do Cunha e do Picciani, à frente). Como sempre 
será o jovem, geralmente negro das áreas pobres, a sofrer as consequência, saciando a sede 
de sangue e "vingança" desse enorme segmento dos homens de bem, hoje bolsonarista, ou do 
"trabalhador", que vai do proletário pequeno proprietário às classes médias que aplaudem 
esse circo. Enquanto isso, a politicagem que gravita em torno do MDB ganharia um ano para 
enfrentar as denúncias do MP[Ministério Público]com o desdobramento dos testemunhos e os 
possíveis acordos de delação dos investigados já detidos. Essa me parece a encenação 
política mediada pelo Jungmann[ministro da Segurança Pública]com a cúpula militar, que se 
encontra, patética, ciente de sua manipulação. Carlo Romani

"É apenas um laboratório para algo que poderá se espalhar para outros estados"

Como integrante da FARJ responderei com base na avaliação da minha organização. Assistimos 
mais um capítulo deste governo de "choque", que com o avanço da barbárie neoliberal, 
recorre a contenção dos de baixo, substituindo a falida política das UPP's (iniciadas em 
governos petistas) pela intervenção do Exército e o Ministério da Segurança. Além de 
garantir a aplicação do Regime de Recuperação Fiscal neoliberal no Estado (vendendo 
estatais, retirando direitos etc), tenta dar uma sobrevida política ao PMDB nas urnas e 
garantir o cenário para a aprovação da reforma da previdência (destruição do direito de 
aposentadoria). A criminalização da pobreza e do protesto nesse sentido andam juntas com a 
continuidade da política de genocídio da população negra e a tese do inimigo "interno". 
Preparam-se para sufocar qualquer forma de resistência popular, vigiando, reprimindo e 
abafando movimentos populares e organizações políticas. O Rio de Janeiro é apenas um 
laboratório para algo que poderá se espalhar para outros estados sob o argumento de 
"guerra ao crime organizado" e a crescente participação reacionária das forças armadas e 
do judiciário na política nacional. Rafael Viana (Federação Anarquista do Rio de Janeiro - 
FARJ)

agência de notícias anarquistas-ana


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