(pt) [Espanha] Sobre o anarquismo e as relações de poder. A feminista escondida. By A.N.A.

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Quinta-Feira, 15 de Março de 2018 - 09:36:48 CET


Não é necessário estar especialmente formada para ser anarquista, em minha opinião. O 
conceito de Justiça Social é um fio que costura cada pessoa com a realidade, até te fazer 
sentir realmente incomoda. Desfazer-se dos conceitos interiorizados e enfrentar a 
experiência desde a perspectiva da luta, essa tem sido minha aprendizagem. A vida 
orgânica, assembleias, a oportunidade de ter voz e corpo e ser agente de mudança força uma 
torção em ti, de uma maneira indescritível. E pouco a pouco o resto, a teoria, se vai 
aprendendo. ---- Escrever pode ser um exercício de aprendizagem pessoal, também. Escrever 
sobre o que significa ser mulher. Poderia encher páginas de letras e alusões, vidas entre 
aspas, referências na luta, mas ao fim e ao cabo não deixam de ser atos alheios. É absurdo 
negar a influência de outros pensamentos sobre a vida própria, mas talvez seja por meu 
momento pessoal, pela percepção cada vez mais próxima da passagem do tempo em mim mesma, 
mas por esta vez, prescindo de olhar ao redor para observar o que acontece em mim como 
pessoa, como mulher, como trabalhadora e como mãe enfadada com as imposições do que se 
supõe que devo ser.

Já não tenho nenhum pudor. Não mais do que me exigem. Sigo sem poder manter uma relação 
saudável, sem ter me depilado porque veto minha própria natureza. Enquanto marco uma 
consulta com a esteticista do momento, me dedico a compartilhar pelas redes sociais 
imagens iradas que representam minha luta contra as imposições estéticas do sistema. Me 
consola pensar que muitas como eu fazem o mesmo. Reclamar nosso espaço entre rugas e 
cabelos grisalhos enquanto lutamos contra cada sinal que nos faz sentir apagadas ante nós 
mesmas. Capitalismo e ilusão de eterna juventude. Não é fácil tocar em uma pele gretada 
pelos anos.

Entretanto, reclamo meu direito a meu eu sexual. Me nego a não sentir-me desejada, me nego 
a desejar-me. Não encaixo nas medidas dos manequins das lojas de roupa íntima, não encaixo 
em nenhuma parte. Ando no limbo das que ainda podem olhar-se no espelho fechando um olho. 
Mas desejo, e quero ser desejada. A mulher como exigência auto erótica, essa sou eu. Foder 
sem complicações e buscar a própria satisfação é também um dos exercícios de aprendizagem 
da vida. Não sentir-se submissa, saber impor um não, e assumir o peso de orgasmos fingidos 
que levamos em nossas costas, as mulheres que, como eu, aprendemos desde pequenas que a 
virtude era um dom submetido a vossa masculinidade.

O amor livre, a anarquia relacional, liberdade sexual, relações abertas... Metáforas de 
pessoas que buscam novos modelos encaixados em velhas roupas.

Já não existem os entornos seguros. Nem sequer dentro do anarcossindicalismo. Ao contrário 
do que se possa pensar, o respeito e a aprendizagem feminista não se adquire por ciência 
infusa quando te dão o carnê de filiada. E descobres que uma vez mais, tua voz e tua luta 
se dissipam em teus genitais. Companheira é só uma palavra, não é uma realidade. Sigo em 
meu empenho de não citar, mas se quero criar aqui um espaço de reflexão para todas aquelas 
pessoas que tenham reivindicado alguma vez a luta feminista como inerente dentro da 
anarquista e não como um processo a parte. Tua luta pelas melhoras das condições laborais 
não te converte em feminista. Ler ou compartilhar em redes um manuseado resumo de Durruti 
falando de suas responsabilidades no lar não te converte em feminista. Planejar um lanche 
fraternal no local do sindicato e contribuir com uma lancheira com o que quer que tenha 
preparado tua parceira em casa, isso diz o que és. Participar nas assembleias enquanto tua 
parceira exerce o trabalho de cuidados em casa sozinha, isso diz o que és.

Os estatutos não são mais que palavras. Ser uma organização feminista por definição não é 
mais que isso. Se impõe urgentemente um debate para refletir sobre o que realmente implica 
para uma organização anarquista ou incluir a palavra feminista em sua descrição.

As feministas não somos mães. Lutamos entre teorias de educação, algumas com sabor a 
tempos mais rançosos de fixação da mulher ao bebê. Se desejamos incorporar-nos ao mundo 
laboral, nos criticam por sermos umas escravas do sistema e uma engrenagem a mais dentro 
do esquema de produção. Ficar em casa e exercer o papel de mãe absoluta, desenhando com 
tuas próprias mãos os brinquedos de Montessori e tecendo as mantinhas de estimulação 
precoce começa a ser uma opção para muitas mulheres. É certo, no entanto, que esta segunda 
alternativa necessita um sócio capitalista como mantenedor do lar. E que, a meu ver, anula 
muitas facetas da mulher - pessoa, convertendo-a em mulher-mãe. Mas quem sou eu? Uma mãe 
educada por um pediatra.

E logo estamos essa massa de mulheres que compatibilizamos nossa progressão pessoal e 
laboral com uma maternidade asfixiante pelo que demanda. E nós, precisamente, somos as que 
temos sido expulsas do éden confederal. Nós, as que lhe ensinamos a nossas crianças a 
igualdade, as que exercemos de juiz e parte, não temos lugar em assembleias tardias, em 
reuniões entre semana a horas de imperativo descanso infantil, as que carregamos com três 
mochilas para acudir a manifestações. Nós estamos sós.

Poucos são os sindicatos que escutam as demandas de um coletivo que realmente não queremos 
estar em nenhum outro lugar. Que as organizações sindicais sigam sendo espaços 
eminentemente masculinos não faz com que ninguém se sente e reflita sobre o que estamos 
fazendo mal para que nós, as que sabemos conciliar porque não temos mais remédio, ocupemos 
nosso espaço na luta. E se não lutamos nós, quem o faz por nós? Estamos sós. Apelar à 
sororidade nestes casos não é mais que evidenciar o isolamento de nossa existência.

É 8 de março. Se convoca uma greve feminista, uma greve laboral e de cuidados. Me pergunto 
se as organizações convocantes vão se encarregar de enviar alguém a minha casa para fazer 
todo esse trabalho invisível de cada dia ou se diretamente se pressupõe que vou alimentar 
a meu filho com uma sonda nasogástrica, ou a deixar-lhe o lanche em um comedouro para 
gatos com uma nota amarela nele: "Nos vemos amanhã. Tua mami que te ama". Me pergunto 
também se todos os correios que estão me chegando com informação sobre como aderir à greve 
os estão recebendo as pessoas que, ao menos por um dia, deveriam pôr meus sapatos de salto 
alto e deixar-me exercer meu direito a gritar pelas ruas que sigo sendo uma pessoa.

É 8 de março, de qualquer forma. E sou mulher. E esteja onde estiver, sou 
anarcossindicalista. Minhas incongruências entre o que sinto e como vivo me unem a outras 
mulheres que também falam a meia voz sobre a esperança do que nós gostaríamos de fazer 
quando formos maiores. As mulheres que lutam, companheiros, não temos idade. Não somos 
mães, não somos trabalhadoras, não somos ninguém. E temos um dia ao ano para reclamar 
dignidade, para recordar que, em qualquer entorno, mas especialmente no anarquista, somos 
vocês ao mesmo nível que vocês. Não somos Emma Goldman, não queremos sê-lo, nem Susan 
Brown, nem tantas outras. Não nos fazem falta modelos de referência porque estamos 
crescendo e nos damos conta do vazio ao nosso redor. Nós, companheiros, estamos aí. Nós, 
as feministas invisíveis.

Cristina Cobo Hervás

Fonte: http://nosotras.cnt.es/opinion/anarquismo-las-relaciones-poder-la-feminista-escondida/

Tradução > Sol de Abril


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