(pt) federacao anarquista gaucha - OPINIÃO | 8 de março: Mulher é Resistência!

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Quarta-Feira, 14 de Março de 2018 - 08:47:02 CET


Opinião das mulheres anarquistas da FAG/CAB sobre o dia 8 de março, dia internacional da 
mulher trabalhadora. ---- Por uma 8 de março classista, com Rebeldia e Resistência 
feminista! ---- Sabemos que a situação social e política das mulheres no país é muito 
difícil, ainda mais para as mulheres pobres e negras das periferias de todo o Brasil. 
Vivemos momentos de ataques graves aos nossos direitos, como o desmonte da previdência, a 
reforma trabalhista e o aumento da repressão e das investidas do Estado Policial de 
Ajuste. Os ataques são também à dignidade das mulheres através de medidas de leis e 
questões culturais de um acenso conservador que reforçam a mentalidade machista de que a 
mulher é um sujeito social menos respeitável e que sua condição na sociedade ainda é a de 
ser responsável pelas tarefas domésticas, mão de obra mais barata e um corpo passível das 
mais cruéis agressões em nome da "honra" masculina.

O empobrecimento e a precariedade das condições de vida, nesse cenário de retirada de 
direitos, atingem diretamente as mulheres. São as chefes de família que precisam criar 
diversas alternativas de sobrevivência, em empregos informais e em mais de uma ocupação, e 
que acabam sobrecarregadas e exploradas de maneira cruel. Somado a isso, existe o trabalho 
invisível que é o trabalho doméstico e as atividades de cuidado dos dependentes - crianças 
e idosos - que faz ser mais um fardo a ser assumido pela mesma sujeita. São as mulheres 
que sentem na pele o sucateamento dos serviços públicos - o fechamento de escolas, as 
filas em postos de saúde, o término de projetos sociais. São também corpos femininos os 
expostos por violência no espaço urbano, no transporte público, inclusive no espaço 
doméstico, onde é comum se ouvir que é seguro, e sabemos que são os locais de maior 
exposição a violência doméstica, estupros e inclusive produtores dos feminicídios. Ser 
mulher é resistir a opressões diárias, enfrentar o machismo de diferentes atores e 
espaços, é gritar todos os dias sobre nossos direitos e existir como protagonistas de 
nossas escolhas e histórias. Mulher é resistência! É enfrentar o sistema capitalista que 
hierarquiza o trabalho de mulheres e homens por salário e condições de trabalho, consome a 
pauta feminista como produto e a vende como um "estilo", se entrelaça com o patriarcado 
para limitar nosso ser em submissão e silêncio.

A vida para as mulheres não é uma simples existência, é batalha diária. Os dados sobre 
violência evidenciam aquilo que o machismo busca invisibilizar: a desigualdade de gênero , 
a violência doméstica e o feminicídio. Somente em 2015 foi criada a Lei do Feminicídio, 
que é uma medida importante para a prevenção das mortes de mulheres. O Atlas da Violência 
de 2017 destaca que em 2015, cerca de 385 mulheres foram assassinadas por dia; a 
porcentagem de homicídio de mulheres cresceu 7,5% entre 2005 e 2015, em todo o País; em 
2015, 4.621 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que corresponde a uma taxa de 4,5 
mortes para cada 100 mil mulheres; o Brasil ocupa a quinta posição em número de 
feminicídios num ranking de 83 países. Cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos no 
país. Em outra pesquisa, da Fundação Perseu Abramo de 2010, uma em cada cinco mulheres 
declaram  já ter sofrido alguma vez "algum tipo de violência de parte de algum homem, 
conhecido ou desconhecido", o parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% 
dos casos reportados. Ou seja, as mulheres vivem sob ameaça, medo e preocupação constantes 
sobre sua integridade física, sobre suas vidas. É uma realidade social extremamente 
agressiva e violenta às brasileiras onde se culpabiliza aquelas que sofrem com os abusos 
físicos e psicológicos, onde se romantiza relações abusivas, onde se transforma em "crime 
passional" o feminicídio, onde se diz que não se deve "meter a colher" na violência 
doméstica, onde se sexualiza corpos de meninas e se explora a objetificação dos corpos 
femininos, onde se menospreza a voz e a dor das mulheres.

Essa realidade pode ser ainda mais dura e ofensiva contra mulheres pobres, mulheres 
negras, mulheres indígenas e mulheres lésbicas, bissexuais e trans. Por exemplo, segundo a 
OEA "mulheres lésbicas ou identificadas desta forma foram vítimas de ‘estupro corretivo', 
ou estupro para puni-las, com a intenção de ‘mudar' sua orientação sexual; de 
espancamentos coletivos por causa de manifestação pública de afeto; de ataques com ácidos; 
e de entrega forçada a centros que se oferecem para ‘converter' sua orientação sexual.", 
ou seja, a exposição ao risco e a violência tendem a aumentar por conta da LGBTTfobia 
presente em nossa sociedade. Por sua vez, o recorte racial que evidencia nossa herança 
escravocrata, patriarcal e elitista como constituinte da formação da estrutura social 
brasileira. Caso contrário não nos depararíamos com um panorama expresso em outro índice 
do Mapa da Violência de 2017 que é o fato de a mortalidade de não-negras (brancas, 
amarelas e indígenas) cair 7,4% entre 2005 e 2015 e subir 22% entre as mulheres negras, 
chegando à taxa de 5,2 mortes para cada 100 mil mulheres negras; ou ainda 65,3% das 
mulheres assassinadas no Brasil no último ano eram negras. As mulheres indígenas por sua 
vez estão mais expostas a violência no campo e a ação criminosa de grandes latifundiários 
nas aldeias - a CPT constata que 2016 tornou-se o ano mais violento no campo desde 2003, 
com 54 assassinatos em conflitos rurais. Dois diagnósticos que demonstram que a a 
combinação entre desigualdade de gênero e racismo é extremamente perversa, coloca em maior 
vulnerabilidade social esses grupos, tornando a violência ainda mais letal. São as 
mulheres negras que possuem a menor escolaridade e salários, menos postos em cargos de 
chefia, maior presença em serviços como o trabalho doméstico.

A violência marca a vida dos diferentes grupos sociais femininos. E a Violência de Estado 
reforça todas as demais violências anteriores. Vemos diferentes medidas tramitarem para 
reduzir nossos direitos, evidenciar as vulnerabilidades que o recorte de gênero produz na 
realidade social, e em muitos casos, colocar nós mulheres em risco. Políticas pensadas por 
homens, discutidas por homens e decididas por homens. O aborto no Brasil é tratado como um 
grande tabu e ainda é hegemônica a opinião de que isso é um "crime contra a natureza", 
mesmo sabendo que milhares de brasileiras fazem abortos todos os dias. O aborto é, em 
muitos casos, a última alternativa para muitas mulheres evitarem uma gravidez indesejada, 
muitas dessas fruto de violência e abuso, inclusive dentro dos casamentos. O aborto deve 
ser direito reprodutivo, sem  ser criminalizado e motivo de encarceramento feminino, ou 
ainda fator de morte as mulheres. Porém, a PEC 181, aprovada na camara de deputados, vem 
pra criminalizar ainda mais o aborto, quer transformar em ilegais os abortos hoje 
previstos na lei, para vitimas de estupro ou quando há risco para a vida das mulheres. 
Sabemos que as mulheres que mais morrem vitimas de abortos clandestinos são as mulheres 
pobres.

Além dessa mobilização conservadora que tira a vida de muitas mulheres, como expressa a 
PEC 181 e outros projetos em tramitação, o desmonte da CLT e da previdência arrancam ainda 
mais nossos direitos e precarizam nossas jornadas de trabalho. Com a Reforma Trabalhista, 
nossos direitos vem sendo arrancados a rodo e a precarização do trabalho é a nova regra. 
Para as mulheres gestantes e lactantes que trabalham em locais insalubres, com a MP 808, 
elas seguem sendo retiradas dos locais insalubres, desobrigou aos empregadores a pagar o 
adicional de insalubridade. O desmonte da previdência, desconsidera o trabalho doméstico e 
as jornadas triplas das mulheres trabalhadoras e propõe a elevação da idade mínima, 
igualando a dos homens,  e do tempo mínimo de contribuição.

É contra a violência de Estado que também afirmamos, enquanto mulheres anarquistas, que o 
Estado é nosso inimigo tanto quanto o Patriarcado e o Capitalismo. Para nós, essas são 
lutas inseparáveis que não se hierarquizam em etapas onde possamos optar por qual iniciar 
nosso combate. Nosso enfrentamento é contra o sistema de dominação capitalista que 
articula as dimensões econômico-político, jurídico-militar e cultural. O combate ao 
machismo faz parte da engenharia de poder que domina e explora as oprimidas, e não haverá 
socialismo com liberdade enquanto qualquer sujeito sofrer opressões do Estado e do 
Capital, e sem mulheres livres, não existirá qualquer sociedade justa e igualitária.

É a organização de mulheres nossa ferramenta para enfrentar as violências enraizadas em 
nosso cotidiano e aquelas que vêm (e são reforçadas) por meio do estado capitalista. É por 
um feminismo que se pretende de base, classista e combativo que construímos nossa 
militância anarquista e feminista em nossos espaços de inserção social. Um feminismo que 
faça parte da vida cotidiana, nas micro-relações e da prática diária das mulheres do povo 
que possam enfrentar com protagonismo, democracia de base e ação direta tudo aquilo que 
nos diz respeito, sobre nossa condição enquanto mulher, enquanto parte do conjunto dos 
oprimidos que constroem uma nova sociedade. Um feminismo que seja ferramenta de 
empoderamento e liberdade para a mulher em todos os espaços que constroi sua existência e 
em todas as relações que constituiu, que começa a ser gestado em sua militância social, 
mas não se restringe nela.

Como já sinalizamos em nossa opinião em 2016 e 2017, respectivamente:

"O feminismo, do nosso ponto de vista, tem que abandonar os debates isolados dentro das 
universidades, dos divisionismos conceituais, que acabam por fazer discurso apenas no 
aspecto comportamental, sem colocar a questão de classe como um dos elementos que caminha 
junto na luta das mulheres. Nós também entendemos que a luta das mulheres tem que estar 
alinhada a uma estratégia classista, sem colaboração com os governos e ações de Estado. O 
Estado nunca foi, não é e nunca será aliado das mulheres oprimidas; o Estado-Patriarcal é 
nosso maior inimigo ideológico, por isso que a luta das mulheres tem que estar fortemente 
organizada fora das estruturas governamentais e submersa nas diferentes esferas da vida 
das pessoas, nas suas comunidades, locais de trabalho e estudo, buscando alternativas a 
curto e longo prazo para a auto-organização das mulheres. Isso implica também em pensarmos 
a nossa autodefesa, assim como de nossas comunidades que sofrem diariamente pela violência 
de Estado. Também é importante estarmos unidas para as lutas mais imediatas que são 
fundamentais para as mulheres do povo, como a questão das creches, acesso à saúde, 
trabalho, estudo. Isso tudo construído em uma marco estratégico maior, de construção de 
poder popular, de baixo para cima, que lute pelas mudanças do "hoje e do amanhã". 
Convocamos as mulheres oprimidas à sua auto organização, sem abandonar os movimentos 
mistos, lutando ombro a ombro, com os companheiros que são convictos de que a mudança 
desta sociedade precisa levar a liberdade da mulher a sério e dentro de um marco 
programático. Nosso feminismo será classista e de base ou não será!"

"Não militamos um feminismo acadêmico, fechado em uma zona de conforto que não dialoga com 
quem não tem acesso a certos espaços, a certas leituras e a certos bens culturais e 
tecnológicos. Também não defendemos o feminismo que atua através de determinados 
comportamentos, como se a forma de vestir, cortar o cabelo e comer definissem quem é ou 
não de luta, quem é ou não feminista. O comportamentalismo acaba por ser excludente, 
criando um grupo fechado em si mesmo, e que, via de regra, tem curta duração. Tampouco 
queremos fazer a defesa aqui de um feminismo genérico, que abarque - supostamente -  todas 
as mulheres da mesma forma. O feminismo é um conceito que nasce da esquerda, no calor das 
lutas sociais, e nele não cabem as mulheres opressoras, privilegiadas, pertencentes às 
elites, as grandes empresárias, as "socialytes", mesmo sabendo que elas também sofrem, em 
certo grau, os efeitos do machismo."

Ou seja, nosso feminismo busca estar enraizado em nosso trabalho social: nos locais de 
trabalho, de estudo, de moradia, de comunicação e cultura, na sociabilidade e no 
imaginário da formação de um novo ser humano. O feminismo funcionando também como motor no 
fortalecimento do poder popular e de espaços de autogestão do povo, é com a organização e 
protagonismo das mulheres que todos avançam.

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!!!
MULHER É RESISTÊNCIA! TE ORGANIZA E LUTA!

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